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Posts de ferdinandodesousa

Escritor, jornalista, gestor e educador ambiental. Especialista em projetos de comunicação social e de educação ambiental.

O RIO TOCANTINS E SUAS USINAS HIDRELÉTRICAS

Na postagem anterior falamos dos contrastes do rio Paraná em diferentes trechos. Na região do alto da sua grande bacia hidrográfica, a segunda maior em tamanho na América do Sul, o rio vem apresentando caudais médios, um reflexo da grande seca que se abateu na região central do Brasil. Na região do Lago de Itaipu, onde chegaram bons aportes de água ao longo do último verão, o nível está excelente. Já no baixo trecho da bacia hidrográfica, dentro do território da Argentina, o rio sofre com a forte seca e com baixíssimos níveis. 

Um outro rio que vive uma situação similar é o Tocantins, um rio 100% brasileiro que nasce na região da Serra Dourada, no Estado de Goiás, e que tem sua foz na Baía do Marajó, bem próximo da cidade de Belém do Pará. Junto com o rio Araguaia, o Tocantins forma uma bacia hidrográfica que ocupa uma área total de 960 mil km², o correspondente a 11% do território brasileiro.  

A bacia hidrográfica Tocantins-Araguaia é considerada a segunda maior em produção de energia elétrica do Brasil. No rio Tocantins foram construídos vários complexos hidrelétricos, transformando o rio numa sucessão de represas. A primeira usina hidrelétrica do rio Tocantins foi Tucuruí, concluída em 1984 e causadora de inúmeros problemas ambientais e sociais apresentados em diversas postagens anteriores.  

O lago de Tucuruí vai muito bem, obrigado: de acordo com informações do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico, o volume acumulado era de 98,77% de sua capacidade máxima em 22 de maio. É importante destacar que a Usina Hidrelétrica de Tucuruí tem uma potência total instalada de 8,37 mil MW e é uma das mais importantes geradoras do Brasil. 

Na outra “ponta”, na região do alto rio Tocantins, encontramos a Usina Hidrelétrica de Serra Mesa (vide foto), onde as coisas estão bem mais complicadas. O lago da Usina, formado no final da década de 1990 e considerado um dos maiores espelhos d’água do Brasil, amarga um volume total de meros 36,84% de sua capacidade máxima, de acordo com dados de 22 de maio do mesmo ONS

À jusante da Usina de Serra Mesa foi construída uma sucessão de hidrelétricas ao longo dos anos, que dependem dos caudais liberados pela barragem. Em 2002 foram finalizadas as Usinas de Cana Brava e Luís Eduardo de Magalhães. Em 2006 foi a vez da Usina de Peixe Angical e em 2009 as Usinas de Estreito e São Salvador. O rio Araguaia não possui nenhuma usina hidrelétrica instalada. 

A diferença entre esses dois cenários é bem fácil de se explicar – apesar de ser considerado parte de uma bacia hidrográfica independente, o trecho baixo do rio Tocantins está inserido na Floresta Amazônica e goza das benesses da sua generosa temporada de chuvas. Os grandes volumes de água dessas chuvas chegam até o rio Tocantins através de uma série de afluentes e “vitaminam” os volumes armazenados no lago de Tucuruí. Também não são desprezíveis os volumes de água despejados pelo rio Araguaia, que deságua no rio Tocantins bem próximo da cidade de Marabá, no Estado do Pará. 

O alto rio Tocantins, ao contrário, tem suas nascentes e tributários inseridos dentro do bioma Cerrado no Brasil Central. Além de estar sofrendo com volumes de chuvas abaixo da média nos últimos anos, essa extensa região abriga há várias décadas as frentes de expansão da agricultura aqui no Brasil, notadamente a produção de grãos como a soja e o milho. A destruição de grandes trechos da vegetação nativa do Cerrado tem se revertido na redução dos caudais dos rios da região. 

O lago da Usina Hidrelétrica de Serra Mesa ocupa uma área total de 1.784 km², o que é maior que toda a área ocupada pelo município de São Paulo. Considerado o quinto maior lago artificial do Brasil, esse reservatório pode armazenar aproximadamente 54 bilhões de m³ de água. Quando esse Usina foi idealizada, os projetistas imaginaram que seu lago desempenharia um papel semelhante ao da Represa de Três Marias, no rio São Francisco, funcionando como um regulador dos caudais do rio Tocantins no período da seca. Infelizmente, o Lago de Serra Mesa vem enfrentando sucessivas secas desde 2012 e está cada vez mais distante dos objetivos iniciais de sua criação. 

No final de 2018, nós publicamos uma postagem aqui no blog falando da situação crítica de Serra Mesa, que naquela época chegou ao nível de 12,46% (28/10/2018). Naquele momento, toda a Região o Centro-Oeste do país estava passando por um período de forte seca e as populações da região esperavam ansiosamente pela chegada de chuvas em volumes maiores e com melhor distribuição geográfica. 

De acordo com estudos da SECIMA – Secretaria Estadual de Cidade, Meio Ambiente e Recursos Hídricos de Goiás, foi observada uma redução de 10% nos volumes de chuva no Estado desde 2008 – a partir de 2016, a redução foi ainda maior, chegando aos 25%. Neste período, o fenômeno El Niño  se fez presente em 4 anos, tendo provocado uma redução nas chuvas em pelo menos 3 anos. Desde o final do ano passado, a vilã climática no Centro-Oeste brasileiro é La Niña

A ANA – Agência Nacional de Águas, em diversos momentos precisou publicar Resoluções no sentido de reduzir a vazão da Usina Hidrelétrica de Serra Mesa a fim de permitir uma recuperação dos níveis do reservatório. Uma Resolução de 2018, citando um exemplo, determinou a redução da vazão da Hidrelétrica de 300 m³ por segundo para 200 m³ por segundo entre dezembro de 2018 e maio de 2019. Esse foi considerado há época o limite mínimo de água para garantir a operação das usinas hidrelétricas a jusante. 

Além de criar graves problemas para a geração de energia elétrica, os reduzidos caudais desse trecho do rio Tocantins criam inúmeros problemas para a navegação hidroviária. A calha do rio fica tomada por grandes bancos de areia, que se transformam em verdadeiras armadilhas para as embarcações. Além do transporte de grãos como o milho e a soja, a navegação no rio Tocantins é fundamental para o transporte das populações ribeirinhas e de turistas, especialmente pescadores, que buscam a região e seus famosos peixes como o tucunaré. 

Há época das cheias, é possível navegar até 2.000 km pelas águas do rio Tocantins, saindo da cidade de Belém do Pará e chegando a Lajeado, no Estado do Tocantins, o que demonstra todo o potencial dessa hidrovia para o escoamento de grãos produzidos na região Centro-Oeste. Um dos grandes obstáculos ainda existentes para a exploração plena dessa hidrovia é o Pedral do Lourenço, um trecho de 43 km do rio Tocantins repleto de afloramentos rochosos. Na época da seca, somente canoas com remadores habilidosos conseguem vencer esse trecho. 

O Governo Federal vem trabalhando há vários anos no sentido de viabilizar a construção de um canal de navegação através do Pedral do Lourenço – as últimas notícias divulgadas dão conta do bom andamento do processo de licenciamento ambiental. Outra boa notícia foi a reativação da eclusa da barragem da Usina Hidrelétrica de Tucuruí após uma ampla manutenção dos seus equipamentos. 

Todos esses planos, é claro, dependem da boa “saúde” do rio Tocantins, especialmente no trecho do seu alto curso. É fundamental que se façam estudos para determinar quais são exatamente os limites entre os fatores climáticos e os fatores antrópicos (criados pelo ser humano), de forma a se tomar medidas de proteção e de recuperação de remanescentes florestais com vistas à recuperação de nascentes e de afluentes da bacia hidrográfica. 

Jogar a culpa em El Niño, em La Niña e em outros problemas climáticos é simplificar demais a questão. 

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OS GRANDES CONTRASTES DO RIO PARANÁ: UM NÍVEL RAZOÁVEL AQUI NO BRASIL E UMA FORTÍSSIMA SECA NA ARGENTINA

Com aproximadamente 4.880 km de extensão, o rio Paraná é considerado o oitavo maior rio do Mundo e sua bacia hidrográfica, que por convenção recebe o nome do rio da Prata (o último rio da bacia), é a segunda maior da América do Sul, só ficando atrás da gigantesca bacia do rio Amazonas. Seus principais afluentes também são rios de porte considerável: Paranaíba, Grande, Tietê, Paranapanema, Iguaçu, Paraguai, Salado, Pilcomayo e Bernejo, entre outros..  

Os importantes rios Uruguai e Negro despejam suas águas diretamente na região do delta do rio Paraná. As águas de todos esses grandes rios e de uma infinidade de rios menores se juntam para formar o grandioso rio da Prata, um verdadeiro ““mar” de águas doces entre a Argentina e o Uruguai. A área total ocupada pela bacia hidrográfica do rio da Prata é de 2,5 milhões de km². 

Um sistema hidrográfico tão grande e tão complexo é, normalmente, cheio de contrastes – e é justamente isso que está acontecendo nesse momento em diferentes trechos do rio Paraná. Vamos entender o que está acontecendo: 

No alto rio Paraná, onde encontramos a Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira, as consequências da redução dos volumes das chuvas nas bacias hidrográficas dos rios Paranaíba e Grande são bem visíveis. Conforme já comentamos na postagem anterior, esses dois rios se juntam no ponto em que se encontram as divisas dos Estados de Minas Gerais, São Paulo e Mato Grosso do Sul, e formam o rio Paraná. 

As bacias hidrográficas do rio Grande e do Paranaíba tiveram uma temporada com chuvas abaixo da média, o que está se refletindo em baixos níveis nas calhas dos rios e, especialmente, nos inúmeros reservatórios de usinas hidrelétricas. Esses baixos estoques de água colocam em risco parte da geração de energia elétrica no país, um problema que colocou todas as autoridades do setor em alerta. 

O reservatório da Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira, que fica no rio Paraná a pouco mais de 80 km do ponto de confluência dos rios Grande e Paranaíba, é um exemplo de como andam os caudais na região. De acordo com informações do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico, do dia 19 de maio, o nível do reservatório está em 48,23% de sua capacidade máxima. No início do mês de janeiro, auge do período das chuvas, o nível era de apenas 50,45%, o que mostra a situação crítica dos caudais do rio. 

Cerca de 800 km a jusante (correnteza abaixo), o grande lago da Usina Hidrelétrica de Itaipu vive uma situação bastante diferente. Com a chegada do período chuvoso nas Regiões Sul e Sudeste, grandes volumes de água passaram a chegar ao reservatório e reverteram completamente a situação. O nível das águas, que em novembro de 2020 estava na cota de 216 metros, subiu vigorosamente e atingiu o nível de 220 metros, considerado o volume normal, no final de fevereiro. 

A Usina Hidrelétrica de Itaipu, ou simplesmente Itaipu Binacional, é a maior usina hidrelétrica do Brasil e uma das maiores geradoras de energia elétrica do mundo. O empreendimento é responsável pelo fornecimento de mais de 75% da energia elétrica consumida no Paraguai (algumas fontes falam de 90%) e de cerca de 17% do consumo no Brasil. Itaipu conta com um total de 20 grupos geradores, com uma capacidade total instalada de 14.000 MW. Foram gastas mais de 50 mil horas para realizar totalmente este mega empreendimento, com um custo, a valores há época, de US$ 16 bilhões

Já no baixo curso do rio Paraná, na Argentina, a situação de momento é simplesmente caótica. A forte seca que atingiu o Norte da Argentina, partes do Paraguai e da Bolívia, além da Região Centro-Oeste do Brasil, resultou numa fortíssima redução nos caudais que chegam nesse trecho do rio. O rio Paraguai, que é um dos maiores tributários do baixo curso do rio Paraná, está com níveis extremamente baixos. Na região de Cáceres, no Estado de Mato Grosso, o nível do rio Paraguai está na cota de 2 metros – em anos normais, o nível do rio estaria com cerca de 3,8 metros nessa época do ano. 

Na região de Rosário, um importante polo exportador de soja e sede de algumas das maiores fábricas de esmagamento de soja do mundo, o nível do rio Paraná nos últimos dias tem sido de apenas 90 centímetros, o que vem prejudicando, e muito, os embarques de cargas.  

O canal de navegação existente no rio, que é mantido através de serviços contínuos de dragagem, está com apenas 10 metros de profundidade – por razões de segurança para a navegação, o ideal seria uma profundidade próxima dos 15 metros. De acordo com as autoridades locais, esse é o mais baixo nível do rio Paraná na região de Rosário em 50 anos. O Governo da Argentina renovou emergencialmente o contrato com a empresa responsável pelos serviços de dragagem, uma multinacional de origem belga, o que provocou fortes críticas da oposição e da imprensa. 

A Argentina é o maior exportador mundial de farelo de soja e o terceiro maior exportador de milho, além de um grande exportador de soja (já chegou a ser o terceiro maior exportador, mas andou perdendo posições). A hidrovia do rio Paraná é o principal canal de escoamento dessa produção e os baixos níveis das águas nesse momento de início das exportações da safra é uma péssima notícia para um país que passa por uma fortíssima recessão econômica. 

De acordo com informações da Câmara de Atividades Portuárias e Marítimas, os navios estão sendo carregados com um volume menor de carga – entre 5,5 e 7 mil toneladas a menos, como medida preventiva para evitar que as embarcações encalhem. Em condições normais, a hidrovia do rio Paraná permite o tráfego de grandes cargueiros marítimos da classe Panamax (tamanho padrão para passagem pelo Canal do Panamá até pouco tempo atrás), o que permite o transporte dos grãos e do farelo diretamente para os países clientes da Argentina ao redor do mundo sem a necessidade de transbordo para navios maiores. 

A expectativa dos produtores argentinos é a colheita de uma safra de 45 milhões de toneladas de soja e de 50 milhões de toneladas de milho na atual safra. Até o início de maio, cerca de 35% da soja e 20% do milho já haviam sido colhidos. O setor agrícola é um dos principais motores da economia argentina e a principal fonte de receitas em moeda estrangeira do país. 

Sem poder contar plenamente com a navegação fluvial, os produtores correm o risco de ter de desembolsar valores entre US$ 250 e 300 milhões em fretes rodoviários para transportar a produção até portos mais ao Sul, onde as condições do rio estão melhores para a navegação.  

Com a chegada do inverno no Hemisfério Sul no próximo mês de junho, terá início o período mais seco do ano na Região Centro-Sul do Brasil e no país vizinho. A situação crítica em que se encontra o rio Paraná em seu baixo curso, infelizmente, tenderá a ficar ainda mais complicada nos próximos meses – as fortes chuvas só devem voltar no final deste ano. 

Além de enfrentar uma persistente recessão econômica há mais de três anos, a Argentina vem sendo fortemente atingida por medidas de restrição de circulação de seus cidadãos por causa da pandemia da Covid-19. Como se não bastassem todos esses problemas, medidas populistas do Governo estão criando ainda mais problemas para a economia do país. Os baixos níveis no rio Paraná e as dificuldades para as exportações de grãos e farelo de soja são apenas mais alguns pregos no “caixão” da já combalida economia do país… 

Um mesmo rio, porém, com cenários locais completamente diferentes.

OS BAIXOS NÍVEIS DO RIO PARANAÍBA

Segundo o relatório anual do IGAM – Instituto Mineiro de Gestão das Águas, as áreas de conflito hídrico no Estado de Minas Gerais aumentaram cerca de 14% nos últimos 5 anos. Essas áreas, onde o volume de água captada não é suficiente para atender as demandas de todos os usuários, totalizavam 57 em 2015 e subiram para 65 em 2020. 

De acordo com a avaliação apresentada no Relatório Gestão e Situação das Águas em Minas Gerais 2020, “os problemas de conflito pelo uso da água têm se agravado nos últimos anos, seja por seu uso mais intensivo ou por alterações no ciclo hidrológico”. As áreas que concentram a maioria dos conflitos são Triângulo Mineiro, a bacia hidrográfica do rio São Francisco no Noroeste do Estado e a bacia hidrográfica do rio Paranaíba, foco da postagem de hoje. 

Com cerca de 1.170 km de extensão, o “discreto” rio Paranaíba não fica muito longe em tamanho de rios famosos do Brasil como o Tietê e o Iguaçu. Ele tem suas nascentes na Serra da Mata da Corda, próximo da região do Triângulo Mineiro e trecho final no encontro com as águas do rio Grande, onde é formado o rio Paraná. 

O subsistema de geração elétrica do rio Paranaíba é parte integrante do Subsistema Sudeste / Centro-Oeste da ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico, onde responde por 38,42% da capacidade de armazenamento de energia da bacia/reservatório em relação ao subsistema considerando todos os reservatórios cheios

A palavra Paranaíba vem das línguas indígenas da região e significa algo como “rio ruim”, uma definição provavelmente ligada à grande dificuldade de navegação em suas águas agitadas. Essa “rebeldia” das águas resultou num grande aproveitamento para a geração de energia elétrica – foram construídas 4 usinas na calha do rio: São Simão, Cachoeira Dourada (geração a fio d’água sem reservatório), Itumbiara e Emborcação.   

Além dessas usinas hidrelétricas, o subsistema do rio Paranaíba também incluiu as Usinas Hidrelétricas Batalha e Serra no Facão, no rio São Marcos em Goiás, e a Usina Hidrelétrica de Nova Ponte, no rio Araguari em Minas Gerais. De todos os subsistemas que formam o Subsistema Sudeste / Centro-Oeste, o rio Paranaíba é o que apresenta o maior número de reservatórios com níveis de água muito baixos. 

O primeiro aproveitamento hidráulico das águas do rio Paranaíba se deu em função da necessidade de gerar eletricidade para a construção de Brasília, a nova Capital Federal do país. Há época, as regiões interiores do Brasil apresentavam verdadeiros vazios habitacionais e diversas políticas governamentais foram criadas para povoar essas regiões – a transferência da Capital Federal do Rio de Janeiro para o Planalto Central era parte dessas políticas. A Usina Hidrelétrica de Cachoeira Dourada foi construída na década de 1950 e é considerada uma usina hidrelétrica a fio d’água.  

A construção de usina foi iniciada em 1956 e inaugurada em 1959, com uma potência instalada inicial de 32 MW. Entre 1965 e 1970, a usina entrou numa segunda etapa de obras, quando foram instalados novos grupos geradores e a potência total foi aumentada em 156 MW. Numa terceira etapa de obras na década de 1970, foram agregados novos grupos geradores de 255 MW, além de grupos de geradores menores entre 138 e 230 kW. Finalmente, já na década de 1990, a usina passou pela etapa final de obras e agregou mais 200 MW ao sistema, atingindo uma potência total de aproximadamente 650 MW.  

A partir do final da década de 1970, época das grandes obras de infraestrutura do período dos Governos Militares, foram iniciadas as obras de construção de três usinas hidrelétricas no rio Paranaíba. A primeira a ser inaugurada foi a Usina Hidrelétrica de São Simão, instalada entre os municípios de São Simão, em Goiás, e Santa Vitória, em Minas Gerais.  

Essa usina opera com 6 grupos geradores, que fornecem uma potência total de 1.719 MW. A barragem da usina atinge uma altura de 127 metros, formando um lago com uma área máxima de 720 km² e capacidade para armazenar 12,5 bilhões de m³ de água. A usina foi i augurada em 1978 e em 2017 foi privatizada. De acordo com dados do ONS, o reservatório de São Simão apresentava 13,98% da sua capacidade em 18 de maio

Em 1981, foi inaugurada a Usina Hidrelétrica de Itumbiara, o maior empreendimento do setor no rio Paranaíba, localizada entre os municípios de Itumbiara, em Goiás, e Araporã, em Minas Gerais. A usina possui 6 grupos geradores, que fornecem uma potência total de 2.082 MW. A barragem da usina tem uma altura máxima de 106 metros, com um lago com área máxima de 778 km² e um volume útil de mais de 12 bilhões de m³. O nível do reservatório de Itumbiara está com 23,48% da sua capacidade

Por fim, em 1983, foi inaugurada a Usina Hidrelétrica de Emborcação, construída entre os municípios de Araguari, em Minas Gerais, e Catalão, em Goiás. A usina possui 4 grupos geradores, que fornecem uma potência total de 1.192 MW. A altura máxima da barragem é 158 metros e o lago formado ocupa uma superfície de 473 km², com um armazenamento total de 13 bilhões de m³ de água. O nível do reservatório da Usina está com 21,99% da sua capacidade

A Usina Hidrelétrica de Nova Ponte, no rio Araguari, foi inaugura em 1994 e tem uma potência total instalada de 510 MW. O reservatório dessa Usina ocupa uma área total de 449 km² e, segundo os dados do ONS, está com 16,45% da sua capacidade

A Usina Hidrelétrica Serra do Facão, no rio São Marcos, foi inaugurada em 2010 e possui uma capacidade total instalada de 212 MW. O reservatório da Usina, que ocupa uma área de 218 km², está com um nível de 28,28% de sua capacidade máxima. Já a Usina Hidrelétrica de Batalha, que fica no mesmo rio, está com seu reservatório com confortáveis 54,91% de sua capacidade máxima. Essa usina foi inaugurada em 2014 e conta com uma potência total de 54 MW

Além de sua importância como geradoras de energia elétrica, as usinas hidrelétricas instaladas na bacia hidrográfica do rio Paranaíba têm uma importância ímpar na regularização do volume de águas no rio Paraná. Essa regularização é fundamental para a operação das usinas instaladas nesse rio, que juntas geram perto de 25 mil MW de energia elétrica. As baixas vazões nas águas do rio Paranaíba e também no rio Grande, além de comprometer a geração de energia elétrica em seus respectivos subsistemas, também criam problemas para o subsistema a jusante. 

Um outro problema relevante – a regularização dos níveis de água no rio Paraná também é fundamental para a operação contínua da Hidrovia Tietê-Paraná, a mais importante do Brasil. Com uma extensão total de 2.400 km de águas navegáveis, esta hidrovia permite o transporte de grandes volumes de carga entre num trecho de 1.600 km ao longo do rio Paraná e de 800 km nos rios Tietê e Piracicaba.   

Repetindo o mesmo comentário feito na última postagem, praticamente toda a bacia hidrográfica do rio Paranaíba está inserida dentro do bioma Cerrado. O forte crescimento da agricultura nessa região nas últimas décadas, levou a uma expressiva redução das matas nativas desse bioma. A foto que ilustra esse postagem mostra um trecho do rio e o predomínio dos campos agrícolas na paisagem. A vegetação nativa do Cerrado tem como principal característica a presença de raízes muito grandes, raízes essas que são fundamentais para a infiltração da água das chuvas no subsolo e na recarga das reservas subterrâneas de água, origem das nascentes de muitos rios

Mudanças nos padrões das chuvas ao longo da bacia hidrográfica e aumento no consumo de água, especialmente pela agricultura, ajudam a explicar a baixa vazão do rio Paranaíba. A destruição das matas nativas, entretanto, não deve ser menosprezada e precisa ser levada em conta daqui para a frente. 

A devastação ambiental sempre cobra o seu preço – pode até demorar, mas um dia a conta chega. 

A GRANDE SECA NO “MAR DE MINAS GERAIS”

Segundo informações do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico, publicadas no dia 17 de maio, o Lago de Furnas, no rio Grande, apresentava um volume útil de 37,56%, um nível extremamente baixo para este momento de início da estação seca do ano. A Usina Hidrelétrica de Furnas faz parte do Subsistema Sudeste /Centro-Oeste, um dos mais importantes complexos geradores de energia elétrica do Brasil. 

A Usina Hidrelétrica de Furnas teve sua construção iniciada em 1958, tempos do Governo Juscelino Kubitschek, onde o lema era “50 anos em 5”. Há época, Furnas era a maior usina hidrelétrica em construção na América Latina e, quando teve suas turbinas acionadas mais do que dobrou a oferta de energia elétrica no Brasil. Furnas foi essencial para o desenvolvimento econômico dos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, além do Distrito Federal. 

O espelho d’água do Reservatório de Furnas cobre uma área máxima de 1.440 km², sendo o maior lago do Estado de Minas Gerais. Os mineiros, carinhosamente, costumam usar a expressão “mar de Minas” ao se referir ao Lago de Furnas. Um total de 34 municípios são banhados pelas águas do Lago, que tem uma capacidade de armazenamento máxima de 24 bilhões de m³ de água. 

O nome Furnas, segundo consta, vem de uma grande cachoeira que, no dizer dos locais, ficava “enfurnada” entre dois morros num trecho estreito do rio Grande. Esse local apresentava ótimas condições para a construção de uma grande barragem para o represamento do rio, o que acabou sendo feito. O paredão da barragem tem cerca de 500 metros de largura e 120 metros de altura. 

A hidrelétrica possui um conjunto com 8 unidades geradoras de energia elétrica. A primeira dessas unidades entrou em operação em 1963, porém, devido ao momento político delicado vivido no país naquele momento, a inauguração oficial da usina só aconteceria em maio de 1965 já no Governo Castelo Branco. O projeto inicial previa a instalação de 6 grupos geradores, o que foi finalizado em 1966. Uma alteração no projeto permitiu a incorporação de mais 2 grupos geradores, o que foi concluído em 1970. A potência total instalada na Usina Hidrelétrica de Furnas é de 1.216 MW. 

Além do grande impacto na economia do país, Furnas causou enormes mudanças sociais em toda a sua região de entorno. Como sempre acontece com a construção de grandes barragens e formação de grandes represas, a construção de Furnas forçou a desapropriação de mais de 8 mil casas e propriedades rurais, além do deslocamento forçado de cerca de 35 mil moradores. Muitos desses moradores resistiram ao máximo em abandonar suas casas – existem fotos que mostram pessoas presas nos telhados de suas casas cercados pelas águas da represa que subiam velozmente. 

Entre as localidades que foram encobertas pelas águas do lago são destaques a cidade de Guapé e a Vila de São José da Barra que foram reconstruídas em lugares mais altos. Um detalhe interessante da obra foi a necessidade de reverter o curso do rio Piumhi, na região de Capitólio. Esse rio originalmente desaguava no rio Grande, mas foi desviado na direção do rio São Francisco. Para evitar que a cidade de Capitólio fosse inundada pelas águas do lago de Furnas foi necessária a construção de um dique de contenção. 

Apesar dos inúmeros problemas criados inicialmente pela formação do Lago de Furnas, a obra acabou se integrando perfeitamente às paisagens da região e se transformou num dos grandes destinos turísticos do Estado. As águas tranquilas do lago eram ideais para o banho, prática de esportes, pesca e navegação. Como se tudo isso ainda fosse pouco, as margens do lago apresentam inúmeros canyons (cuja palavra equivalente em português é canhão), grutas e cachoeiras, formações que encantavam os turistas. Furnas é, na fala popular do povo mineiro, “tudo de bão“.   

Localizado a mais de 500 km da praia mais próxima no Oceano Atlântico, o “mar” de Minas Gerais começou a atrair verdadeiras multidões para as suas margens. Aos poucos foram surgindo pousadas, hotéis, restaurantes, marinas, pesqueiros e outras instalações voltadas ao atendimento dos turistas. Empresas de viagens e de turismo também descobriram o potencial do Lago de Furnas e passaram a criar pacotes de viagem completos. Bastaram poucos anos para que o turismo se transformasse em uma das atividades mais importantes para a economia dos municípios do entorno do Lago de Furnas. 

Uma outra atividade econômica que surgiu em função do Lago de Furnas foi a piscicultura, onde os peixes são criados em cercados flutuantes. A produção de peixes em cativeiro chegou a atingir a marca 1,6 mil toneladas. Também é preciso citar a grande valorização dos imóveis com vista para o ‘mar” – ter uma casa ou sítio de fim de semana nas margens de Furnas virou símbolo de status.

O Lago de Furnas atingiu tamanha importância regional que resultou na criação da ALAGO – Associação dos Municípios do Lago de Furnas, uma “iniciativa associativista direcionada para a sustentabilidade e a preservação ambiental” de toda a região banhada pelo lago, formada por 39 municípios da região de entorno. A entidade também se ocupa com o desenvolvimento regional e também com a coordenação de ações conjuntas.  

Apesar da extrema importância regional e da grande articulação entre as prefeituras do seu entorno, o Lago de Furnas vem sofrendo com sucessivos ciclos de graves secas nos últimos anos. A primeira dessas secas teve início em 1999 e se estendeu até 2001, ano que entrou para a história por causa do “apagão” do sistema elétrico brasileiro. Depois disso, foram cerca de 10 anos com uma boa acumulação de água em Furnas. 

A partir de 2012, o Lago entrou em um ciclo quase contínuo de fortes secas – em meados de julho daquele ano, o nível do Lago chegou a baixar 15 metros, causando prejuízos estimados em mais de R$ 100 milhões para as cidades do seu entorno. No ano de 2014, uma nova situação crítica em Furnas – registros da época mostram que o volume de chuvas na região foi de apenas 1/3 da média registrada nos 19 anos anteriores. 

Em fevereiro de 2015, a seca persistente levou o Lago de Furnas ao nível mais baixo desde 1999 – 10,62% de acordo com registros do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico. Ao longo dos anos seguintes, o nível do Lago apresentou uma sucessão de altos e baixos, com o nível máximo sempre ficando muito abaixo da capacidade máxima – aliás, o nível máximo do lago não é atingido há mais de 10 anos. O turismo, a agricultura e a piscultura são as atividades econômicas mais prejudicadas com os baixos níveis contínuos do Lago.

Além de uma sensível redução já observada nos volumes de chuvas em toda a região ao longo dos últimos anos, os persistentes baixos níveis no Lago de Furnas podem também ser resultado do avanço da agricultura sobre as áreas do Cerrado, bioma predominante na região.  

As longas raízes da vegetação nativa do Cerrado são fundamentais para a infiltração da água das chuvas no solo e recarga das fontes subterrâneas que alimentam as nascentes dos rios, rios esses que alimentam o grande reservatório. As respostas dependerão de estudos cada vez mais aprofundados sobre esse tema. 

Os baixos níveis no “mar” de Minas, além de comprometer a geração de energia na usina hidrelétrica, também causam prejuízos de toda a ordem para a população das cidades do entorno. A água tem mesmo múltiplos usos e sua falta pode criar inúmeros problemas. 

FALANDO UM POUCO DO SISTEMA DE GERAÇÃO ELÉTRICA DO BRASIL E DOS SEUS PROBLEMAS

O século XIX foi um dos mais empolgantes para o desenvolvimento das ciências. Antigos dogmas e afirmações religiosas que, durante muitos séculos, responderam a muitas questões científicas, pouco a pouco foram sendo deixados de lado e as ciências passaram a ser o caminho em busca das respostas à inúmeras perguntas que há muito estavam em aberto. 

Pessoalmente, eu vejo a publicação do livro “A origem das espécies”, por Charles Darwin em 1859, como o grande divisor de águas entre a ciência e a religião. Usando de forte base analítica acumulada através de muitos anos de observações, especialmente ao longo da lendária expedição ao redor do mundo no navio da Marinha Real Britânica HMS Beagle, Darwin propôs que as espécies evoluem ao longo do tempo e os indivíduos que melhor se adaptam ao meio ambiente sobrevivem e garantem a perpetuação das suas linhagens. Líderes religiosos abominaram essa ideia (muito abominam até hoje). 

Um dos ramos científicos que mais se desenvolveu há época foram os estudos para o uso da eletricidade. Os fenômenos elétricos eram conhecidos e estudados já há muito tempo, mas foi no século XIX que a eletricidade ganhou as suas primeiras aplicações práticas e começou a mudar o dia a dia das pessoas. Uma das mais empolgantes invenções nessa área foi a lâmpada elétrica, um feito que envolve inúmeros pesquisadores a partir da década de 1830 – a primeira lâmpada funcional e comercialmente viável foi apresentada por Thomas Edison em 1879

A história da eletricidade no Brasil tem fortes ligações com Thomas Edison e começou em 1876, ano em que o Imperador Dom Pedro II viajou para os Estados Unidos para participar das comemorações do primeiro centenário da independência do país.  

Durante a longa estadia em terras norte-americanas, Dom Pedro II, que era reconhecidamente um amante das artes e das ciências, conheceu grandes inventores e empreendedores, com destaque para Alexander Gram Bell, criador de um sistema funcional de telefonia (ainda existem questionamentos quanto ao inventor do aparelho) e Thomas Edison, que há época estava aperfeiçoando a sua lâmpada elétrica com filamento de carbono. 

De acordo com Renato Diniz, pesquisador da história da energia elétrica, foi graças a esse contato inicial entre Thomas Edison e Dom Pedro II que, em 1879, o Governo brasileiro assinou um contrato com a empresa Edison Eletric Light Co. para a concessão e operação de um sistema de iluminação elétrica em estações da Estrada de Ferro Dom Pedro II. 

Uma outra experiência pioneira do uso da eletricidade aqui no Brasil se deu em 1891, quando foi criada uma linha de bondes elétricos ligando o Largo do Machado ao bairro do Flamengo, uma iniciativa que não durou muito por falta de capitais. Em 1895, a empresa belga SAG – Société Anonyme du Gaz, obteve a primeira concessão para exploração da eletricidade na iluminação pública. Todas essas iniciativas acabaram fracassando devido a um problema comum: a geração de energia elétrica há época era realizada em usinas térmicas a carvão, um insumo que era importado e tinha altos custos aqui no Brasil. 

O território brasileiro é, conforme já tratamos em inúmeras postagens anteriores, extremamente pobre em reservas de carvão mineral. Uma das poucas exceções é uma faixa de terras no Sul do Estado de Santa Catarina onde se encontram reservas de carvão de baixa qualidade. Essa falta de carvão, inclusive, está na raiz de grandes desmatamentos em locais como Minas Gerais – as florestas foram sistematicamente derrubadas e transformadas em carvão vegetal para uso na siderurgia. 

A salvação energética do país veio, felizmente, a partir do aproveitamento dos nossos gigantescos recursos hídricos. A primeira unidade geradora de energia elétrica instalada no Brasil remonta ao ano de 1883, no Ribeirão do Inferno, em Diamantina – Minas Gerais. A eletricidade dessa unidade era gerada por um pequeno dínamo ligado a uma roda de água e era usada exclusivamente para acionar bombas de água em uma mina de diamantes. 

A Usina de Marmelos (vide foto), na Zona da Mata Mineira, é considerada a primeira usina hidrelétrica a entrar em operação comercial no Brasil e na América do Sul, mostrando a importância da iniciativa privada na história da eletrificação do país. Marmelos iniciou suas operações em 1889 com dois conjuntos geradores de 125 kW e, gradativamente, foi ampliando a sua potência instalada até atingir 4 MW. A antiga unidade geradora foi descontinuada em 1980 e transformada em um espaço cultural. Duas novas unidades geradoras, Marmelo I e II, foram construídas e continuam em operação. 

Essas experiências pioneiras marcaram o início da construção e operação de uma infinidade de centrais hidrelétricas por todo o Brasil, uma fonte que chegou a responder por cerca de 90% de toda a energia elétrica gerada em nosso país. Há cerca de dois anos atrás nós publicamos uma série de postagens falando bastante sobre a geração de energia elétrica a partir de fontes hidráulicas aqui no Brasil – Água e geração de energia. Siga o link para acessar as postagens. 

De acordo com dados da ANEEL – Agência Nacional de Energia Elétrica, o Brasil encerrou o ano de 2020 com uma capacidade instalada de 174.412,6 MW de potência fiscalizada – existem diversos novos empreendimentos em construção. Desse total em operação, 74,76% das usinas são impulsionadas por fontes consideradas sustentáveis, com baixa emissão de gases do efeito estufa – usinas hidrelétricas, eólicas e fotovoltaicas

Segundo informações da CCEE – Câmara de Comercialização de Energia Elétrica, a maior fonte de geração de energia elétrica no Brasil é a hidráulica, com 875 usinas Hidrelétricas, CGH – Centrais Geradoras Hidrelétricas e PCH – Pequenas Centrais Hidrelétricas. A segunda maior fonte geradora são as centrais eólicas com 615 parques disponíveis, sobretudo nas regiões Nordeste e Sul.  

O sistema de geração de energia elétrica brasileiro ainda conta com 114 parques solares fotovoltaicas e 401 usinas termelétricas. A maioria das usinas termelétricas, que somam 286 empreendimentos, opera a partir da queima da biomassa da cana-de-açúcar. O parque gerador conta ainda com 48 termelétricas a gás, 44 a óleo, 10 a base de carvão mineral, duas nucleares e outras 11 usinas mistas que podem ser utilizar bicombustíveis ou até mesmo reação exotérmica

As fontes hidráulicas respondem sozinhas por cerca de 62% da geração de energia elétrica no Brasil, algo que coloca nosso país em uma posição de destaque no cenário mundial. Infelizmente, existe um, porém nessa história – a geração contínua a partir das fontes hidráulicas depende da regularidade das chuvas, algo que nem sempre acontece da forma esperada.  

O ano de 2020 teve chuvas abaixo da média em regiões que concentram importantes reservatórios de usinas hidrelétricas. A partir do final de 2020, os efeitos do fenômeno climático La Niña começaram a criar mais problemas, reduzindo as chuvas no Sudeste e Centro-Oeste, regiões que concentram a maior parte das usinas hidrelétricas do Brasil. Ao longo de 2021, as chuvas devem continuar abaixo da média.

Segundo dados da ANA – Agência Nacional de Águas, do dia 16 de maio de 2021, o volume equivalente no SIN – Sistema Interligado Nacional, estava em 55,57%. Há exato um ano atrás esse volume estava em 66,75%. Como a maior parte do país entrou no período da seca, a tendência será a redução contínua desses volumes de água até a chegada do período das chuvas no final do ano. Segundo as autoridades do setor, não há riscos de falta de energia ou necessidade de racionamento de energia neste ano de 2021. 

Os riscos ficam para 2022, ano em que todos esperamos já ter superado a pandemia da Covid-19 e ansiamos por ver a nossa economia voltando a acelerar forte. Lembrando – quanto maior a atividade econômica, maior a demanda por energia. Se, eventualmente, tivermos chuvas abaixo da média a partir do final do ano e insuficientes para reabastecer os nossos reservatórios, aí sim teremos grandes problemas num futuro bem próximo. 

OS BAIXOS NÍVEIS DOS RESERVATÓRIOS BRASILEIROS E OS RISCOS PARA A GERAÇÃO DE ENERGIA ELÉTRICA

Neste último ano, todas as atenções do mundo têm se concentrado na pandemia da Covid-19. Conforme já comentamos em postagem anterior, desde as grandes “pestes” da Idade média e da grande epidemia da Febre Espanhola entre os anos de 1918 e 1919, a humanidade não enfrentava uma crise médica e sanitária de tamanha magnitude. 

Notícias sobre a pandemia vêm ocupando a maior parte dos espaços dos noticiários na internet e nos meios de comunicação mais tradicionais, deixando outras notícias importantes relegadas a planos bem secundários. Uma notícia bastante preocupante e que tem conseguido pouco destaque nas mídias são os baixos níveis de grandes reservatórios de usinas hidrelétricas, uma situação que cria riscos para o abastecimento de energia elétrica do país

Segundo dados da ANEEL – Agência Nacional de Energia Elétrica, a geração de energia elétrica a partir de fontes hidráulicas responde por cerca de 61% de toda a eletricidade consumida no país. Apesar de ser considerada uma das fontes de geração mais sustentáveis do ponto de vista ambiental (desconsiderando-se, é claro, os grandes impactos ambientais criados pela construção das barragens e com o represamento das águas), a geração hidrelétrica é altamente dependente das condições normais do clima e das chuvas regulares de todos os anos.

Desde o final de 2020, a NOAA – Administração Atmosférica e Oceânica dos Estados Unidos, na sigla em inglês, vem observando uma redução de 1,2° C na temperatura das águas superficiais de uma extensa faixa do Oceano Pacífico, um dos sinais mais evidentes da ocorrência do fenômeno climático La NiñaE, segundo as projeções da NOAA, será o terceiro La Niña mais intenso dos últimos 20 anos

La Niña provoca uma série de mudanças nos padrões climáticos de todo o mundo. Aqui no Brasil, a presença de La Niña causou fortes tempestades e chuvas acima da média em algumas regiões como no Pantanal Mato-Grossense no início deste ano. Em outras regiões, porém, aconteceu justamente o contrário – as chuvas ficaram abaixo da média. Para completar o quadro, o inverno de 2020 foi um dos mais secos dos últimos anos e o retorno das chuvas em muitos lugares atrasou em cerca de 15 dias. 

As regiões mais fortemente atingidas pela seca foram o Sudeste o Centro-Oeste do Brasil, justamente onde se encontram os maiores e mais importantes sistemas de geração hidrelétrica do país. Cerca de 70% da energia elétrica gerada no Brasil vem de usinas hidrelétricas que estão concentradas nessas regiões

Como consequência direta dessa seca, nosso país poderá enfrentar a maior crise energética dos últimos 91 anos. Nas palavras do Ministro das Minas e Energia, Bento Albuquerque, “Isso tem levado a adoção de medidas excepcionais a fim de garantir a segurança e continuidade do suprimento”

Entre as medidas já adotadas pelo Governo Federal está o acionamento das usinas termelétricas, a maior parte delas movidas a partir da queima do carvão mineral, uma geração que além de muito poluente é muito mais cara que a geração hidrelétrica. A maior parte dessas usinas termelétricas foram construídos no início da década de 2000, tempos do famigerado “apagão” do sistema elétrico brasileiro. 

Há época, o país enfrentou uma situação de seca semelhante a atual, o que comprometeu fortemente a geração de energia elétrica – sem contar com fontes alternativas para a geração de eletricidade, foi decretado um “draconiano” racionamento de energia elétrica no país, uma medida que causou enormes problemas econômicos e que resultou em mudanças políticas no país. 

Além da falta de chuvas, a geração de energia elétrica no Brasil amargava àquela altura mais de uma década de falta de investimentos em geração e distribuição de energia elétrica. Um plano de racionamento de energia elétrica precisou ser elaborado às pressas e impôs uma redução obrigatória de 20% no consumo de energia para quase todas as regiões brasileiras. A única exceção foi Região Sul, que contava com reservatórios cheios, porém, não existiam linhas de transmissão que permitissem a distribuição dos excedentes de energia gerados para o restante do país. 

Para conseguir apoio da população às medidas de racionamento, o Governo Federal estipulou uma série de benefícios para os consumidores que conseguissem cumprir a meta e também se especulou criar punições para quem não conseguisse, o que, felizmente, acabou não sendo implementado. No dia 7 de dezembro de 2001 choveu fortemente em grande parte do país, o que contribuiu para uma sensível alta no nível de vários reservatórios.  

Em 19 de fevereiro de 2002 o racionamento de energia elétrica foi suspenso, mas não os estragos políticos e econômicos. De acordo com uma auditoria realizada pelo TCU – Tribunal de Contas da União, em 2009, o “apagão” do Sistema Elétrico Brasileiro causou um prejuízo ao Tesouro de R$ 45,2 bilhões em valores há época. Alguns cálculos indicam que essas perdas foram de R$ 320,00 para cada brasileiro

Em comparação à situação de 20 anos atrás, a atual crise energética encontra um país melhor estruturado. Foram construídas três grandes usinas hidrelétricas na Bacia AmazônicaSanto Antônio e Jirau no rio Madeira em Rondônia, e Belo Monte no rio Xingu no Pará, regiões que têm uma temporada de chuvas independente do que ocorre no restante do país 

Também se destacam os grandes investimentos feitos em fontes alternativas de geração de energia elétrica – solar, eólica e queima de biomassa. De acordo com informações da ABEEÓLICA – Associação Brasileira de Energia Eólica, a capacidade instalada do setor em setembro de 2020, era de 16,68 GW, o que corresponde a cerca de 10% da geração elétrica do país. 

A geração de energia fotovoltaica ou solar também teve um crescimento expressivo nos últimos anos e já representa cerca de 5% da geração de energia elétrica do Brasil. De acordo com dados da ABSOLAR – Associação Brasileira de Energia Solar, a geração de energia elétrica a partir de painéis fotovoltaicos no Brasil atingiu a marca de 7,5 GW em 2020, o que equivale à metade da capacidade instalada da Usina Hidrelétrica de Itaipu

queima do bagaço da cana-de-açúcar, um subproduto da produção do açúcar e do álcool também ganhou importância. De acordo com informações do CTBE – Centro Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol, entidade ligada ao CNPEM – Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais, a geração elétrica a partir da queima do bagaço da cana contribui com cerca de 7% da matriz elétrica do Brasil.   

Graças ao forte crescimento dessas fontes renováveis de geração de energia elétrica, a participação das fontes hidrelétricas na matriz elétrica do país caiu de 90% no início da década de 2000 para pouco mais de 60% nos dias atuais. A crise energética atual, apesar de muito grave, é menos dramática que a de 2001. 

Nas próximas postagens vamos analisar as condições dos principais reservatórios das Regiões Sudeste e Centro-Oeste para entendermos melhor a situação que estamos vivendo. 

OS RUMOS DO SANEAMENTO BÁSICO NO BRASIL

Na última postagem falamos dos novos rumos que se abriram para a CEDAE – Companhia de Água e Esgoto do Estado do Rio de Janeiro. A empresa teve a maior parte dos seus serviços de distribuição de água tratada e de coleta e tratamento de esgotos concedidos à iniciativa privada em leilão público realizado no final de abril. A CEDAE foi a primeira grande empresa do setor de saneamento básico no Brasil a ser “privatizada” após a aprovação do Novo Marco Legal do Saneamento em 2020. 

Antes de prosseguir, um esclarecimento: saneamento básico pode ser definido como o conjunto de serviços que garante as condições de higiene e saúde da população ou série de medidas que tornam uma área sadia, limpa, habitável, oferecendo condições adequadas de vida para uma população ou para a agricultura. Esses serviços ou medidas são: abastecimento de água, sistemas de drenagem de águas pluviais (chuva), serviços de limpeza urbana e coleta/destinação de lixo e resíduos sólidos, além dos sistemas de coleta e de tratamento de esgotos. Como o foco aqui do blog são os recursos hídricos, vamos nos ater aos serviços de abastecimento de água e os esgotos.

O Novo Marco do Saneamento Básico do Brasil foi aprovado em julho de 2020 e tem como principal objetivo garantir que, até 2033, 99% da população tenha acesso à água potável e 90% à coleta e ao tratamento do esgoto. Para tornar isso uma realidade, essa nova legislação facilita a entrada de empresas privadas no setor, o que será feito através de concorrências públicas – quem oferecer o melhor preço e o melhor serviço ganha. 

Muitos políticos e dirigentes públicos rasgaram elogios ao Novo Marco do Saneamento Básico, colocando esse novo arcabouço jurídico como uma espécie de “tábua de salvação do saneamento”. Na verdade, as coisas não são tão simples assim. O próprio leilão de concessão dos serviços da CEDAE mostrou isso: apenas três dos quatro lotes colocados para a concessão dos serviços foram arrematados pela iniciativa privada.  

Destaco aqui que o Rio de Janeiro é o segundo Estado brasileiro mais rico. Está cheio de problemas no momento, mas, tem um enorme potencial de mercado e vai render ótimos lucros para os novos concessionários. Imaginem então qual seria o interesse privado por um lugar pequeno com um nome como “Jiripoca do Brejo Grande” (um lugar fictício, é claro), lá nos “cafundó do Judas” como dizemos no meu bairro – será que alguma empresa privada se interessaria por um lugar desses? 

Pesquisando sobre o assunto, encontrei um estudo bem interessante feito pelo Instituto Trata Brasil: CENÁRIO PARA INVESTIMENTOS EM SANEAMENTO NO BRASIL APÓS A APROVAÇÃO DO NOVO MARCO LEGAL, leitura que recomendo a todos. Vou destacar alguns pontos mais relevantes para mostrar o tamanho do desafio do saneamento básico aqui no Brasil: 

De acordo com dados de 2018, 83,6% dos domicílios do Brasil são atendidos com redes de abastecimento de água potável – 97,8% desses domicílios ficam em áreas urbanas. A coleta de esgotos, porém, só atinge 60,9% dos domicílios, sendo que apenas uma parte desses esgotos recebe o tratamento adequado. Esses números indicam que cerca de 34 milhões de brasileiros não tem acesso a água potável em suas casas e mais de 81 milhões não tem acesso a redes de esgotos

Para que se consiga universalizar esses serviços até o ano de 2033, serão necessários grandes aportes financeiros para a construção de uma enorme infraestrutura com sistemas de produção e redes de distribuição de água potável, além de construir redes de coleta e estações de tratamento de esgotos.  

Segundo um levantamento feito pela ABCON – Associação Brasileira das Concessionárias Privadas de Serviços Públicos de Água e Esgoto, em parceria com a empresa de consultoria KPMG, o montante de recursos necessários para tornar tudo isso uma realidade é da ordem de R$ 520 bilhões. Isso significa que os investimentos anuais ao longo dos próximos anos precisa ser da ordem de R$ 34,7 bilhões

De acordo com os dados disponíveis, as redes de abastecimento de água aqui do Brasil cresceram de forma constante entre 2008 e 2018, saltando de 470 mil km para 662 mil km de extensão. A população atendida por esse serviço, que era de 146 milhões de habitantes, saltou para um total de 174 milhões ou o equivalente a 84% da população brasileira. 

Apesar de, aparentemente, serem ótimos números, eles escondem uma triste realidade: 2014, que foi o ano em que mais se investiu em água e esgotos na história do Brasil, com investimentos da ordem de R$ 14,9 bilhões, valor que não chega nem a metade do volume de investimentos anuais necessários para se conseguir atingir a universalização desses serviços até o ano de 2033. 

Para piorar o cenário já desolador, entre os anos de 2014 e 2018, houve uma redução de 12,3% nos investimentos totais em água e esgoto no Brasil. Citando um exemplo – em 2018, o investimento em sistemas de abastecimento de água foi de apenas R$ 5,7 bilhões, uma redução de 7,1% em relação ao investido em 2014. Em sistemas de coleta e tratamento de esgotos a redução foi ainda maior – houve uma diminuição de 30,9%. 

Além de se encontrarem em níveis muito aquém das necessidades do país, os investimentos em sistemas de água e esgotos se deram de forma desigual entre as diferentes Regiões do Brasil. Na Região Sudeste, por exemplo, onde vive cerca de 42% da população do Brasil, os investimentos em sistemas de abastecimento de água entre 2014 e 2017 responderam por uma fatia de 54,35% do volume total de investimentos do país nessa área – em 2018 houve uma pequena redução e o investimento correspondeu a 49,7% do total. 

Quando se trata de investimentos em redes de coleta e sistemas de tratamento de esgotos, os volumes da Região Sudeste totalizaram 54,65% dos investimentos totais do país. Em 2018, também houve uma redução desses valores, caindo para cerca de 51% do volume total. 

Já na Região Norte, que concentra a menor população entre todas as Regiões brasileiras, os investimentos em água e esgotos não chegaram a atender, proporcionalmente, nem a metade da população. A região abriga 8,72% da população brasileira, mas recebeu apenas o equivalente a 3,77% dos investimentos totais do país em sistemas de abastecimento de água entre 2014 e 2017 – em 2018, essa participação aumentou um pouco, atingindo o percentual de 4,29%. Os investimentos em sistemas de coleta e tratamento de esgotos foram de 3,3%, caindo para 2,91% em 2018. 

Após vários anos de turbulência política, recessão econômica e, atualmente, vivendo uma grande crise social e econômica por causa da pandemia da Covid-19, é fácil perceber que nosso país não dispõe de recursos para fazer todos os investimentos necessários para que se atinja a tão sonhada universalização dos serviços de abastecimento de água e de coleta e tratamento dos esgotos. É justamente aqui que o Novo Marco do Saneamento entra, abrindo espaço para o investimento privado nesse tão importante setor. 

No caso da concessão de parte desses serviços nas regiões de atuação da CEDAE no Rio de Janeiro, os dois consórcios vencedores do leilão assumiram o compromisso de fazer investimentos da ordem de R$ 30 bilhões ao longo do período da concessão que é de 35 anos. Considerando-se o tamanho da população do Rio de Janeiro, podemos estimar que grande parte da questão da universalização já está bem encaminhada no Estado, apesar de ser atingida apenas por volta do ano 2056 (estou considerando nessa conta o período total da concessão dos serviços). 

Privatizar esses serviços em Estados grandes e ricos é fácil – resta saber se nos demais Estados da Federação haverá o mesmo apetite das empresas privadas pela concessão dos mesmos serviços, uma questão que fica ainda mais delicada nos Estados mais pobres e nas cidades menores e/ou nos pequenos povoados mais isolados dos sertões do país. 

Pessoalmente, eu tenho minhas dúvidas sobre os rumos do saneamento básico aqui no país, especialmente no que se refere a sistemas de esgotos. Eu trabalhei por quase 10 anos em obras desse tipo – são obras caras, de realização problemática e bem demoradas. Sem a garantia de um bom e rápido retorno financeiro, não sei quantas empresas privadas vão querer “encarar” esses serviços nas “quebradas” do Brasil. 

Como sempre, espero estar errado… 

PARTE DOS SERVIÇOS DA CEDAE FORAM CONCEDIDOS À INICIATIVA PRIVADA. E AGORA?

No último dia 30 de abril, em leilão realizado na Bolsa de Valores de São Paulo, foram concedidos à iniciativa privada 3 dos 4 lotes dos serviços de água e esgotos da CEDAE – Companhia Estadual de Água e Esgoto do Rio de Janeiro. A concessão rendeu aos cofres públicos um total de R$ 22,7 bilhões, um valor que ficou 133% acima do mínimo esperado. Os dois consórcios vencedores da disputa, AEGEA e Iguá, terão a concessão desses serviços por 35 anos e se comprometem a realizar investimentos de cerca de R$ 30 bilhões.

A CEDAE foi criada em 1975, numa época que foi caracterizada pela grande intervenção estatal e criação de grandes empresas públicas. A empresa foi formada a partir da unificação de diversas empresas municipais de águas e esgotos da Região Metropolitana e do interior fluminense, tendo como objetivo a universalização dos serviços de abastecimento de água e de coleta e tratamento de esgotos, o que nuca foi atingido. O uso político da empresa, a má gestão da sua infraestrutura e a pura incompetência de muitos dirigentes, levaram a uma lista enorme de problemas nos serviços. 

Um dos maiores e mais recentes problemas da CEDAE, que apresentamos em postagem anterior, foi o fornecimento de água com péssima qualidade a milhões de consumidores. A origem do problema foi a geosmina, um composto orgânico presente nas águas e que é produzido por cianobactérias (algas azuis) e bactérias como a Streptomyces e a Actinomicetos. As águas altamente poluídas por esgotos do rio Guandu, o principal manancial de abastecimento da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, possibilitaram a proliferação dessas algas e bactérias. Os processos de tratamento da água feitos pela CEDAE não conseguiram eliminar todos os resíduos desse contaminante. 

Outro problema recente e muito marcante foi a interrupção dos serviços de distribuição de água da empresa, o que afetou perto de 1 milhão de consumidores. O problema foi criado pela queima de um grande motor elétrico de uma estação de bombeamento. A empresa precisou de várias semanas até conseguir realizar o conserto do equipamento e o reestabelecer plenamente os serviços. 

Com a concessão dos serviços de distribuição de água e de coleta e tratamento de esgotos para empresas privadas, há uma expectativa de uma melhoria geral nas operações. A produção de água potável, ou seja, os serviços de captação de água bruta e o tratamento final, continuarão nas mãos da CEDAE. As empresas privadas vão comprar a água tratada e vão se responsabilizar pelo ‘transporte” dessa água através das redes de distribuição até as residências dos consumidores. 

Para cada litro de água potável que “entra” em uma residência, indústria ou comércio, é gerado cerca de um litro de esgoto, o nome que é dado para as chamadas águas servidas. Os serviços das novas concessionárias também vão incluir a coleta, o transporte e o tratamento final desses esgotos. As empresas concessionárias serão remuneradas, através do pagamento das contas pelos usuários, pelos serviços de água e esgotos.  

Dentro da lógica do mercado, a remuneração das empresas concessionárias aumentará à medida que forem ampliados e melhorados os serviços de fornecimento de água potável e de coleta e tratamento de esgotos. Como sempre existirão riscos desses serviços serem concentrados em regiões com melhores infraestruturas (bairros com melhor urbanização, por exemplo) e haja a tão esperada “universalização’ dos serviços, é fundamental que o poder público crie órgãos de fiscalização eficientes e bem estruturados.

A história do abastecimento de água na Região Metropolitana do Rio de Janeiro é cheia de problemas. A escolha da região para a criação de importantes assentamentos humanos está ligada diretamente à Baía da Guanabara. Essa belíssima e muito poluída baía possui excelentes características para a operação de embarcações marítimas – ela é fechada e muito bem abrigada das ondas e ventos do mar aberto, as águas são profundas e sua área é muito grande. Essas características saltaram aos olhos dos primeiros exploradores portugueses já nos primeiros anos após o descobrimento do Brasil, que encontraram ali um dos melhores atracadouros de toda a costa brasileira. 

Foram, porém, os invasores franceses os primeiros a se valer do grande potencial da baía da Guanabara. Em 1555, eles fundaram a França Antártica, cujo objetivo principal era o de permitir à França o controle da navegação e do comércio em todo o Atlântico Sul. A cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro só seria fundada por Estácio de Sá em 1565, e os franceses só seriam expulsos em definitivo em 1570. 

A excepcional geografia da Baía da Guanabara, entretanto, escondia muitos dos problemas das suas áreas lindeiras. O principal deles era a pouca disponibilidade de água potável. A região não possui grandes rios, mas sim uma infinidade de pequenos rios com nascentes nas encostas das serras. Em épocas de seca, os caudais desses rios sofrem uma forte redução e falta água para o abastecimento das populações. O Rio de Janeiro, a maior cidade da região, enfrentou inúmeras crises de abastecimento de água ao longo de sua história.  

Um dos marcos arquitetônicos mais conhecidos da cidade, os Arcos da Lapa, que também já foi chamado de Aqueduto da Carioca, está relacionado diretamente aos antigos problemas de abastecimento de água da população. Construído entre 1725 e 1744 por ordem do Governador Gomes Freire de Andrade, o aqueduto permitia o transporte de água desde a nascente do rio Carioca até fontes públicas no centro da cidade, regularizando assim o fornecimento. A fonte mais importante ficava no Largo da Carioca. Nos bairros mais distantes da área central da cidade, o problema persistia. 

Um fator que contribuiu muito para a redução gradativa dos volumes de água dos riachos e ribeirões que existiam na região foram os desmatamentos para a abertura de campos para o cultivo da cana de açúcar, principalmente na Baixada Fluminense, uma atividade que vinha crescendo desde meados do século XVII. Em 1763, com a transferência da capital da Colônia de Salvador para a cidade do Rio de Janeiro, a população da cidade passou a crescer mais rapidamente e os problemas no abastecimento de água só aumentaram.  

Um outro marco para o aumento dos problemas de abastecimento de água na região foi o início do plantio do café a partir das últimas décadas do século XVIII. Uma região que foi transformada em um enorme cafezal foram as encostas dos morros da Tijuca, as mesmas onde se encontravam as nascentes de muitos dos riachos formadores do rio da Carioca, até então o principal manancial de abastecimento da cidade. 

A crise no abastecimento de água se agravou muito a partir de 1808, ano em que toda a Família Real de Portugal e toda a Corte vieram para a cidade do Rio de Janeiro fugindo das tropas invasoras de Napoleão Bonaparte. Toda essa massa de novos moradores representou um aumento entre 15 e 20 mil novos habitantes para a cidade . O Rio de Janeiro, que já era há época a maior cidade brasileira com cerca de 30 mil habitantes, viu sua população praticamente duplicar em um curtíssimo espaço de tempo. 

Um dos capítulos mais interessantes da história da cidade na busca da recuperação dos seus mananciais de abastecimento de água foi plantio de dezenas de milhares de mudas de árvores que formariam a atual Floresta da Tijuca. Com o renascimento da floresta, as águas voltaram a brotar nas nascentes e o abastecimento de água para a população foi sendo recuperado. 

A solução definitiva para o abastecimento de água na cidade do Rio de Janeiro e de grande parte dos municípios da Região da Baixada Fluminense veio com a instalação das unidades de geração de energia elétrica da empresa Light ao longo de todo o século XX. Parte importante do sistema da Light foi feito com a utilização de águas transpostas a partir da bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul. Após o uso, essas águas eram despejadas na direção do rio Guandu e assim podiam ser aproveitadas no abastecimento das populações. 

Uma das boas expectativas criadas pela concessão dos serviços da CEDAE é a recuperação da qualidade ambiental da bacia hidrográfica do rio Guandu pelas empresas concessionárias. O crescimento das cidades da região, como é de praxe aqui no Brasil, não foi acompanhado da adequada infraestrutura de saneamento básico – especialmente dos serviços de coleta e tratamento de esgotos, o que se mostrou fatal para as águas do rio Guandu. Outra grande expectativa da população é a recuperação da Baía da Guanabara, cujas águas hoje estão tomadas por esgotos e resíduos. 

Os desafios são enormes, mas vamos torcer para que tudo dê certo. Fluminenses e cariocas merecem um futuro melhor! 

BOAS NOTÍCIAS AQUI DO MEU BAIRRO: A DESPOLUIÇÃO DO RIO PINHEIROS COMEÇA A MOSTRAR BONS RESULTADOS

Fazer publicações diárias falando sobre meio ambiente e recursos hídricos nos leva, infelizmente, a uma torrente quase que contínua de más notícias. Em tempos de pandemia da Covid-19 e da reincidência de antigos problemas como a Dengue em nossas cidades, o “caldeirão” fica ainda mais indigesto. 

Esquecendo por hora tudo isso, vamos falar de uma ótima notícia para a cidade de São Paulo e, muito melhor, para o meu bairro – Santo Amaro: depois de muitos anos de promessas não cumpridas e de alguns projetos “ninja” que não lograram bons resultados (destaco aqui um sistema de flotação que foi testado no rio), a famigerada poluição no rio Pinheiros finalmente começa a mostrar sinais que está sendo reduzida. 

Cerca de três semanas atrás, um grupo de cidadãos paulistanos que circulava com suas “bikes” pela extensa ciclovia que margeia o rio Pinheiros flagrou um cardume de peixes nadando em um trecho do rio com sinais de águas mais limpas. Um vídeo feito por esse grupo viralizou nas mídias sociais e, inclusive, acabou virando pauta de reportagens em muitos meios de comunicação. Em tempos de desalento e más notícias, esse acontecimento alegrou muita gente. 

O rio Pinheiros nasce a partir da junção das águas dos rios Grande e Guarapiranga em Santo Amaro, bairro da Zona Sul de São Paulo, e segue por cerca de 25 km até desaguar no rio Tietê na Zona Oeste da cidade. Antes da construção da Represa Billings na década de 1930, o que exigiu o represamento de diversos rios da região do Alto da Serra do Mar, as nascentes do rio Grande ou Jurubatuba eram encontradas em Paranapiacaba, um distrito do município de Santo André, a mais de 50 km de distância do trecho inicial do rio Pinheiros. 

A foto que ilustra esta postagem, que aliás é muito parecida com a vista que se tem do apartamento da minha irmã, mostra o exato ponto em que as águas dos rios Grande e Guarapiranga se encontram para formar o rio Pinheiros. Ao fundo, a Represa Guarapiranga, chamada carinhosamente por nós de “praia de Santo Amaro”. Se vocês prestarem atenção na imagem notarão uma diferença expressiva na cor das águas dos dois rios – as águas do rio Guarapiranga, que são razoavelmente limpas, contrastam com a cor escura das águas do poluído rio Grande. 

A história do bairro remonta aos tempos da fundação do colégio e da vila de São Paulo de Piratininga pelos padres Jesuítas em 1554. A congregação instalou uma missão de catequese ao lado do Jeribatiba, antigo nome indígena do rio Pinheiros. Os indígenas chamavam o lugar yvirá-puera, nome que na língua tupi-guarani significa “pau podre” e que depois seria o nome dado a um dos parques mais queridos da cidade – o Ibirapuera.  

Durante quase quatro séculos, Santo Amaro foi uma cidade independente. O rio Pinheiros era uma importante via navegável, que permitia a comunicação e os transportes com as demais vilas da região, principalmente São Paulo de Piratininga. Em 1932, após um grande reordenamento regional, Santo Amaro teve grande parte de seu território incorporado ao município de São Paulo e partes transformadas e/ou agregadas a outros municípios. 

O primeiro grande aproveitamento dos recursos hídricos da região se deu em 1908, quando foi construída a Represa de Santo Amaro, depois rebatizada como Represa Guarapiranga. O objetivo da obra era criar um grande reservatório que permitisse regularizar as vazões do rio Tietê nos períodos de seca e assim garantir a operação contínua das turbinas da Usina Hidrelétrica de Santana de Parnaíba, primeira geradora de eletricidade da região metropolitana de São Paulo e uma das principais impulsionadoras do processo de industrialização regional. 

Outra obra marcante na região foi a já citada construção da Represa Billings e do seu complexo de geração de energia elétrica na década de 1930. Além do aproveitamento das águas de diversos rios da região, o projeto previa a transposição de águas da bacia hidrográfica do rio Tietê na direção da represa. Foram construídas duas estações de bombeamento ou de traição – uma na região da Vila Olímpia e outra na Pedreira. O curso do rio Pinheiros, que era extremamente irregular e cheio de curvas, foi totalmente retificado e transformado em um canal reto. A foto abaixo nos dá uma ideia de como eram as margens do rio na década de 1930.

Os problemas de poluição nas águas do rio Pinheiros, dos quais as Represas Billings e Guarapiranga não escaparam, começaram no final de década de 1950, quando inúmeras indústrias, especialmente dos setores de auto-peças e químicas, começaram a se instalar na região de Santo Amaro. Lembro aqui que há essa época teve início a instalação das indústrias automobilísticas aqui no Brasil, principalmente na chamada Região do ABC, sigla que se refere aos municípios de Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano. 

Santo Amaro fica exatamente ao lado de São Bernardo do Campo – a proximidade geográfica e os baixos preços dos terrenos no bairro atraiu um grande número de indústrias fornecedoras do segmento automobilístico. Nessa época, chaminés e esgotos de indústrias eram “sinais de progresso”. Os grandes córregos e ribeirões da região passaram a receber grandes volumes de efluentes, que acabavam sendo despejados na calha do rio Pinheiros. 

O grande número de indústrias na região acabou atraindo grandes contingentes de migrantes vindos de todas as regiões brasileiras – destaque para o Nordeste, que buscavam empregos e uma vida melhor. Assim como já estava acontecendo na Região do ABC, começaram a surgir grandes loteamentos populares em toda a região de Santo Amaro. Aqui é preciso destacar que muitas dessas ocupações se deram nas áreas dos mananciais das represas da região

A Represa Guarapiranga, que desde a década de 1930 havia sido elevada à condição de manancial de abastecimento da cidade de São Paulo, foi a que mais sofreu a princípio com essas ocupações. Como é de praxe nas cidades brasileiras, a formação desses bairros não foi acompanhada da implantação de redes coletoras e de ETEs – Estações de Tratamento de Esgotos. Lançados de forma improvisada nos corpos d’água da região, esses efluentes passaram a poluir as águas das represas, águas essas que eram e ainda são usadas no abastecimento dessas populações.

No caso da Billings há um agravante – o sistema de transposição de águas em operação transferia grandes volumes de esgotos das águas já bastante poluídas do rio Tietê para a represa. Esse bombeamento foi proibido em 1992, ficando restrito apenas a situações de emergência como enchentes e falta de água para as indústrias da região da Baixada Santista (as águas da Represa Billings são conduzidas Serra do Mar abaixo por grandes tubulações para a Usina Hidrelétrica Henry Borden em Cubatão e depois são despejadas em rios da região). 

Eu conheci muitos moradores antigos do bairro que nadaram, pescaram, lavaram roupa e se abasteceram com as águas limpas do rio Pinheiros. Na minha infância, desgraçadamente, o rio já era uma grande vala de esgotos a céu aberto. Felizmente, pude aproveitar, e muito, das ‘praias” e das águas da represa Guarapiranga

A melhoria da qualidade das águas do rio Pinheiros, que se diga de passagem ainda está muito longe do mínimo aceitável, já é um sinal de alento e de alegria para todos nós. Diversas redes de esgotos estão sendo construídas e ampliadas na região já há muito tempo, iniciativas que estão por trás da melhoria da qualidade das águas do rio. Também existem trabalhos para a retirada de sedimentos e resíduos que foram acumulados no canal do rio ao longo de muitas décadas.

Não me imagino nadando nas águas do rio Pinheiros num futuro a médio e longo prazo, mas, fico empolgado com a simples esperança de algum dia poder sentar nas suas margens e conseguir contemplar a cidade sem me enojar com o atual mal cheiro das águas. Se isso realmente acontecer, já será uma grande conquista para todos nós paulistanos.

FALANDO UM POUCO DA DENGUE E DE OUTRAS ARBOVIROSES EM TEMPOS DE PANDEMIA DA COVID-19

O mosquito Aedes Aegypti é um importante vetor de transmissão de doenças virais, especialmente os chamados arbovírus, há mais de 100 anos aqui no Brasil. De origem africana, esse mosquito chegou às Américas de carona em embarcações mercantis, principalmente nos famigerados navios negreiros, e se disseminou em áreas de clima tropical e subtropical do Norte da Argentina até o Sul dos Estados Unidos. 

Em tempos de pandemia da Covid-19, enfermidade que já matou mais de 400 mil brasileiros em pouco mais de um ano, notícias sobre o Aedes Aegypti e das doenças a ele associadas acabaram por ficar em um plano muito secundário e restrito. Aproveitando as informações comentadas na última postagem, vamos falar um pouco mais sobre essas doenças. 

De acordo com dados do Boletim Epidemiológico da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, foram notificados 979.764 casos prováveis de Dengue no Brasil em 2020. Esse número expressa uma taxa de incidência de 466,2 casos para cada 100 mil habitantes. Foram notificadas 541 mortes, sendo que 447 foram confirmadas por testes em laboratório e 93 por exames clinicos-epidemiológicos.   

Desse total, 503 mortes ou 92,9% ocorreram entre os meses de janeiro e junho, os mais chuvosos do ano. Outro dado relevante é que, do total dos casos prováveis de Dengue notificados, 887.767 ou 90% dos casos ocorreram nos Estados do Paraná, Mato Grosso do Sul, Distrito Federal, Mato Grosso, Espírito Santo e Goiás

A região com a maior incidência de casos de Dengue em 2020 foi o Centro-Oeste com a incrível marca de 1.200 casos para cada 100 mil habitantes. Na sequência vem a Região Sul, com uma taxa de incidência de 934,1 casos para cada 100 mil habitantes, a Região Sudeste com uma taxa de 376,4 casos, o Nordeste com 261,5 casos e o Norte com 120,7 casos. 

Outra importante arbovirose transmitida pelo mosquito Aedes Aegypti é a febre Chikungunya, com 80.914 casos prováveis em 2020. A taxa de incidência média foi de 38,5 casos para cada 100 mil habitantes. As Regiões brasileiras com as maiores taxas de incidência foram o Nordeste e o Sudeste, com taxas de incidência, respectivamente, de 102,2 casos e 13,1 casos para cada 100 mil habitantes. 

O período entre os meses de janeiro e junho concentrou 78,8% dos casos prováveis da doença, repetindo que esses são os meses mais chuvosos do ano e é a época de maior proliferação dos mosquitos Aedes Aegypti. Os Estados com a maior incidência de casos foram Espírito Santo, Bahia e Rio Grande do Norte. 

As mortes confirmadas por exames laboratoriais associadas a Chikungunya foram 26 e existem outros 21 casos em investigação. Os Estados com os maiores números de mortos foram Bahia, Paraíba, Maranhão, Ceará, Rio Grande do Norte, Espírito Santo, Rio de Janeiro e Mato Grosso. 

Também é relevante o número de casos prováveis de Zika foram 7.119 casos em 2020, uma taxa de incidência de 3,4 casos para cada 100 mil habitantes. A Região Nordeste é líder em casos de Zika, com uma taxa de incidência de 9,1 casos para cada 100 mil habitantes. Quase metade dos casos prováveis da doença notificados ocorreram no Estado da Bahia. Não houve nenhum caso registrado de morte por Zika no Brasil em 2020. 

Diferente do Corona, um vírus que a ciência descobriu há bem pouco tempo e sobre o qual há mais dúvidas do que certezas, os arbovírus que provocam a Dengue, a Zika e a Chikungunya já são bem mais conhecidos pelos médicos e cientistas, o que facilita muito o diagnóstico e o tratamento dos pacientes. Outro ponto importante é que um dos principais vetores – o Aedes Aegypti, tem seu ciclo de vida e os hábitos de reprodução muito bem conhecidos.  

O que falta, e muito, é a conscientização das populações para a eliminação de criadouros, o que inclui cuidados com a limpeza dos quintais e a boa destinação dos resíduos sólidos. Evitando o nascimento de “novas gerações” de mosquitos, os riscos de transmissão dos vírus são muito reduzidos. 

Uma outra medida muito simples e barata, que vem complementar as medidas já citadas, é a adoção do uso de telas “mosquiteiras” em portas e janelas. Um exemplo da eficiência dessas telas são os Estados Unidos, um país que enfrentou inúmeras epidemias de malária ao longo de sua história. O agente transmissor da malária é o Plasmodium, um parasita unicelular protozoário, que infecta os eritrócitos, causando a malária. Um mosquito que pica uma pessoa com esse parasita é contaminado e pode transmitir a doença para outras pessoas. 

A malária chegou aos Estados Unidos junto com os primeiros colonos, muitos dos quais estavam infectados com os agentes Plasmodium vivax e Plasmodium malariae, comuns na Inglaterra. Posteriormente, com a importação dos primeiros escravos vindos do continente africano a partir de 1620, foi introduzido no país o agente Plasmodium falciparum. A doença acabou se tornando endêmica em parte dos Estados da Costa Leste, do Centro e do Sul do País. 

O controle e a reversão das epidemias de malária nos Estados Unidos só foram possíveis com a massificação da infraestrutura de saneamento básico a partir das últimas décadas do século XIX, da aplicação de inseticidas para o controle das populações de mosquitos, da drenagem de áreas pantanosas e, principalmente, da obrigatoriedade da instalação de telas nas janelas e portas das residências.  

O governo americano também investiu pesadamente em campanhas educativas, mostrando à população quais eram os hábitos e os horários de maior incidência dos ataques dos mosquitos. Por volta do ano de 1950, a malária foi considerada erradicada dos Estados Unidos, restrita a alguns poucos casos anuais em regiões isoladas e densamente florestadas. 

Mosquitos existem em nosso mundo há mais de 170 milhões de anos e, por maiores que sejam os nossos esforços em controlá-los, eles sempre continuarão fazendo parte das nossas “paisagens”. Além do “africano” Aedes Aegypti, existem diversos mosquitos silvestres tupiniquins que transmitem os arbovírus.  

Com o crescimento das cidades brasileiras e da urbanização cada vez maior da população a partir da segunda metade do século XX, criou-se uma perigosa aproximação entre pessoas e áreas de matas e de remanescentes florestais ao redor dessas cidades. E são justamente nessas matas onde esses mosquitos vivem – essa aproximação cada vez maior entre pessoas e mosquitos aumentou as possibilidades de transmissão dos arbovírus. 

O Ministério da Saúde suspeita que o número de casos prováveis dessas doenças em 2020 está subnotificado ou que existem atrasos nas notificações devido aos esforços no combate a pandemia da Covid-19. Apesar dos casos suspeitos de doenças associadas aos arbovírus estarem muito aquém dos mais de 15 milhões de casos de Covid-19, todos precisamos nos cuidar e evitar a alta incidência dessas doenças. 

Além dos riscos de morte, essas doenças podem deixar graves sequelas. Citando dois exemplos: a Zika, como muitos devem se lembrar, causou o nascimento de muitas crianças com microcefalia há alguns anos atrás, principalmente em Estados da Região Nordeste. Já a febre Chikungunya, conforme estudos recentes, pode causar o nascimento de crianças com deficiência visual. 

Se pudermos evitar mais esses riscos de saúde em nossas vidas, é melhor tomarmos cuidado redobrado com o Aedes Aegypti e com outros mosquitos silvestres.