OS BAIXOS NÍVEIS DO RIO PARANAÍBA

Segundo o relatório anual do IGAM – Instituto Mineiro de Gestão das Águas, as áreas de conflito hídrico no Estado de Minas Gerais aumentaram cerca de 14% nos últimos 5 anos. Essas áreas, onde o volume de água captada não é suficiente para atender as demandas de todos os usuários, totalizavam 57 em 2015 e subiram para 65 em 2020. 

De acordo com a avaliação apresentada no Relatório Gestão e Situação das Águas em Minas Gerais 2020, “os problemas de conflito pelo uso da água têm se agravado nos últimos anos, seja por seu uso mais intensivo ou por alterações no ciclo hidrológico”. As áreas que concentram a maioria dos conflitos são Triângulo Mineiro, a bacia hidrográfica do rio São Francisco no Noroeste do Estado e a bacia hidrográfica do rio Paranaíba, foco da postagem de hoje. 

Com cerca de 1.170 km de extensão, o “discreto” rio Paranaíba não fica muito longe em tamanho de rios famosos do Brasil como o Tietê e o Iguaçu. Ele tem suas nascentes na Serra da Mata da Corda, próximo da região do Triângulo Mineiro e trecho final no encontro com as águas do rio Grande, onde é formado o rio Paraná. 

O subsistema de geração elétrica do rio Paranaíba é parte integrante do Subsistema Sudeste / Centro-Oeste da ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico, onde responde por 38,42% da capacidade de armazenamento de energia da bacia/reservatório em relação ao subsistema considerando todos os reservatórios cheios

A palavra Paranaíba vem das línguas indígenas da região e significa algo como “rio ruim”, uma definição provavelmente ligada à grande dificuldade de navegação em suas águas agitadas. Essa “rebeldia” das águas resultou num grande aproveitamento para a geração de energia elétrica – foram construídas 4 usinas na calha do rio: São Simão, Cachoeira Dourada (geração a fio d’água sem reservatório), Itumbiara e Emborcação.   

Além dessas usinas hidrelétricas, o subsistema do rio Paranaíba também incluiu as Usinas Hidrelétricas Batalha e Serra no Facão, no rio São Marcos em Goiás, e a Usina Hidrelétrica de Nova Ponte, no rio Araguari em Minas Gerais. De todos os subsistemas que formam o Subsistema Sudeste / Centro-Oeste, o rio Paranaíba é o que apresenta o maior número de reservatórios com níveis de água muito baixos. 

O primeiro aproveitamento hidráulico das águas do rio Paranaíba se deu em função da necessidade de gerar eletricidade para a construção de Brasília, a nova Capital Federal do país. Há época, as regiões interiores do Brasil apresentavam verdadeiros vazios habitacionais e diversas políticas governamentais foram criadas para povoar essas regiões – a transferência da Capital Federal do Rio de Janeiro para o Planalto Central era parte dessas políticas. A Usina Hidrelétrica de Cachoeira Dourada foi construída na década de 1950 e é considerada uma usina hidrelétrica a fio d’água.  

A construção de usina foi iniciada em 1956 e inaugurada em 1959, com uma potência instalada inicial de 32 MW. Entre 1965 e 1970, a usina entrou numa segunda etapa de obras, quando foram instalados novos grupos geradores e a potência total foi aumentada em 156 MW. Numa terceira etapa de obras na década de 1970, foram agregados novos grupos geradores de 255 MW, além de grupos de geradores menores entre 138 e 230 kW. Finalmente, já na década de 1990, a usina passou pela etapa final de obras e agregou mais 200 MW ao sistema, atingindo uma potência total de aproximadamente 650 MW.  

A partir do final da década de 1970, época das grandes obras de infraestrutura do período dos Governos Militares, foram iniciadas as obras de construção de três usinas hidrelétricas no rio Paranaíba. A primeira a ser inaugurada foi a Usina Hidrelétrica de São Simão, instalada entre os municípios de São Simão, em Goiás, e Santa Vitória, em Minas Gerais.  

Essa usina opera com 6 grupos geradores, que fornecem uma potência total de 1.719 MW. A barragem da usina atinge uma altura de 127 metros, formando um lago com uma área máxima de 720 km² e capacidade para armazenar 12,5 bilhões de m³ de água. A usina foi i augurada em 1978 e em 2017 foi privatizada. De acordo com dados do ONS, o reservatório de São Simão apresentava 13,98% da sua capacidade em 18 de maio

Em 1981, foi inaugurada a Usina Hidrelétrica de Itumbiara, o maior empreendimento do setor no rio Paranaíba, localizada entre os municípios de Itumbiara, em Goiás, e Araporã, em Minas Gerais. A usina possui 6 grupos geradores, que fornecem uma potência total de 2.082 MW. A barragem da usina tem uma altura máxima de 106 metros, com um lago com área máxima de 778 km² e um volume útil de mais de 12 bilhões de m³. O nível do reservatório de Itumbiara está com 23,48% da sua capacidade

Por fim, em 1983, foi inaugurada a Usina Hidrelétrica de Emborcação, construída entre os municípios de Araguari, em Minas Gerais, e Catalão, em Goiás. A usina possui 4 grupos geradores, que fornecem uma potência total de 1.192 MW. A altura máxima da barragem é 158 metros e o lago formado ocupa uma superfície de 473 km², com um armazenamento total de 13 bilhões de m³ de água. O nível do reservatório da Usina está com 21,99% da sua capacidade

A Usina Hidrelétrica de Nova Ponte, no rio Araguari, foi inaugura em 1994 e tem uma potência total instalada de 510 MW. O reservatório dessa Usina ocupa uma área total de 449 km² e, segundo os dados do ONS, está com 16,45% da sua capacidade

A Usina Hidrelétrica Serra do Facão, no rio São Marcos, foi inaugurada em 2010 e possui uma capacidade total instalada de 212 MW. O reservatório da Usina, que ocupa uma área de 218 km², está com um nível de 28,28% de sua capacidade máxima. Já a Usina Hidrelétrica de Batalha, que fica no mesmo rio, está com seu reservatório com confortáveis 54,91% de sua capacidade máxima. Essa usina foi inaugurada em 2014 e conta com uma potência total de 54 MW

Além de sua importância como geradoras de energia elétrica, as usinas hidrelétricas instaladas na bacia hidrográfica do rio Paranaíba têm uma importância ímpar na regularização do volume de águas no rio Paraná. Essa regularização é fundamental para a operação das usinas instaladas nesse rio, que juntas geram perto de 25 mil MW de energia elétrica. As baixas vazões nas águas do rio Paranaíba e também no rio Grande, além de comprometer a geração de energia elétrica em seus respectivos subsistemas, também criam problemas para o subsistema a jusante. 

Um outro problema relevante – a regularização dos níveis de água no rio Paraná também é fundamental para a operação contínua da Hidrovia Tietê-Paraná, a mais importante do Brasil. Com uma extensão total de 2.400 km de águas navegáveis, esta hidrovia permite o transporte de grandes volumes de carga entre num trecho de 1.600 km ao longo do rio Paraná e de 800 km nos rios Tietê e Piracicaba.   

Repetindo o mesmo comentário feito na última postagem, praticamente toda a bacia hidrográfica do rio Paranaíba está inserida dentro do bioma Cerrado. O forte crescimento da agricultura nessa região nas últimas décadas, levou a uma expressiva redução das matas nativas desse bioma. A foto que ilustra esse postagem mostra um trecho do rio e o predomínio dos campos agrícolas na paisagem. A vegetação nativa do Cerrado tem como principal característica a presença de raízes muito grandes, raízes essas que são fundamentais para a infiltração da água das chuvas no subsolo e na recarga das reservas subterrâneas de água, origem das nascentes de muitos rios

Mudanças nos padrões das chuvas ao longo da bacia hidrográfica e aumento no consumo de água, especialmente pela agricultura, ajudam a explicar a baixa vazão do rio Paranaíba. A destruição das matas nativas, entretanto, não deve ser menosprezada e precisa ser levada em conta daqui para a frente. 

A devastação ambiental sempre cobra o seu preço – pode até demorar, mas um dia a conta chega. 

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