O RIO PARANAÍBA E SUAS USINAS HIDRELÉTRICAS

Ponte Alencastro Rio Paranaíba

A geração de energia elétrica através de fontes hidráulicas é fundamental para o Brasil. Dentro da matriz energética do país, as usinas hidrelétricas respondem por mais de 63% da energia gerada e a bacia hidrográfica do rio Paraná sozinha é responsável por aproximadamente 47% desse total. Graças à toda essa importância energética, muitos dos rios da bacia hidrográfica acabaram ganhando uma projeção nacional – rio Paraná, Tietê, Paranapanema e Iguaçu. Outros, como o importante rio Paranaíba, acabaram meio que “esquecidos” no cenário nacional. 

O rio Paranaíba é, junto com o rio grande, um dos formadores do rio Paraná. Ele nasce na Serra da Mata da Corda, no Estado de Minas Gerais, e percorre aproximadamente 1.170 km até o encontro com as águas do rio Grande. Sua bacia hidrográfica drena uma área com cerca de 220 mil km², abrangendo 196 municípios nos Estados de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso do Sul. Nessa região vive uma população na casa dos 8,5 milhões de habitantes, o que nos dá uma ideia da importância regional do rio Paranaíba

A palavra Paranaíba vem das línguas indígenas da região e significa algo como “rio ruim”, uma definição provavelmente ligada à grande dificuldade de navegação em suas águas agitadas. Essa “rebeldia” das águas resultou num grande aproveitamento para a geração de energia elétrica – foram construídas 4 usinas na calha do rio: São Simão, Cachoeira Dourada, Itumbiara e Emborcação. 

O primeiro aproveitamento hidráulico das águas do rio Paranaíba se deu em função da necessidade de gerar eletricidade para a construção de Brasília, a nova Capital Federal do país. Como já comentamos diversas vezes, as regiões interiores do Brasil apresentavam verdadeiros vazios habitacionais e diversas políticas governamentais foram criadas para povoar essas regiões – a transferência da Capital Federal do Rio de Janeiro para o Planalto Central era parte dessas políticas. A Usina Hidrelétrica de Cachoeira Dourada foi construída na década de 1950 e é considerada uma usina hidrelétrica a fio d’água. 

A construção de usina foi iniciada em 1956 e inaugurada em 1959, com uma potência instalada inicial de 32 MW. Entre 1965 e 1970, a usina entrou numa segunda etapa de obras, quando foram instalados novos grupos geradores e a potência total foi aumentada em 156 MW. Numa terceira etapa de obras na década de 1970, foram agregados novos grupos geradores de 255 MW, além de grupos de geradores menores entre 138 e 230 kW. Finalmente, já na década de 1990, a usina passou pela etapa final de obras e agregou mais 200 MW ao sistema, atingindo uma potência total de aproximadamente 650 MW. 

A partir do final da década de 1970, época das grandes obras de infraestrutura do período dos Governos Militares, foram iniciadas as obras de construção de três usinas hidrelétricas no rio Paranaíba. A primeira a ser inaugurada foi a Usina Hidrelétrica de São Simão, instalada entre os municípios de São Simão, em Goiás, e Santa Vitória, em Minas Gerais. 

Essa usina opera com 6 grupos geradores, que fornecem uma potência instalada de 1.719 MW. A barragem da usina atinge uma altura de 127 metros, formando um lago com uma área máxima de 720 km² e capacidade para armazenar 12,5 bilhões de m³ de água. A usina foi i augurada em 1978 e em 2017 foi privatizada. 

Em 1981, foi inaugurada a Usina Hidrelétrica de Itumbiara, o maior empreendimento do setor no rio Paranaíba, localizada entre os municípios de Itumbiara, em Goiás, e Araporã, em Minas Gerais. A usina possui 6 grupos geradores, que fornecem uma potência total de 2.082 MW. A barragem da usina tem uma altura máxima de 106 metros, com um lago com área máxima de 778 km² e um volume útil de mais de 12 bilhões de m³. 

Por fim, em 1983, foi inaugurada a Usina Hidrelétrica de Emborcação, construída entre os municípios de Araguari, em Minas Gerais, e Catalão, em Goiás. A usina possui 4 grupos geradores, que fornecem uma potência total de 1.192 MW. A altura máxima da barragem é 158 metros e o lago formado ocupa uma superfície de 473 km², com um armazenamento total de 13 bilhões de m³ de água. 

Além de sua importância como geradoras de energia elétrica, as usinas hidrelétricas instaladas no rio Paranaíba têm uma importância ímpar na regularização do volume de água no rio Paraná. Essa regularização é fundamental para a operação das usinas instaladas nesse rio, que juntas geram perto de 25 mil MW de energia elétrica. A regularização dos níveis de água no rio Paraná também é fundamental para a operação contínua da Hidrovia Tietê-Paraná, a mais importante do Brasil. Com uma extensão total de 2.400 km de águas navegáveis, esta hidrovia permite o transporte de grandes volumes de carga entre num trecho de 1.600 km ao longo do rio Paraná e de 800 km nos rios Tietê e Piracicaba. 

Com grande parte dos seus rios formadores e afluentes localizados em áreas do bioma Cerrado, o rio Paraná apresentava grandes variações nos seus níveis entre as épocas de seca e das chuvas. Uma das consequências dinâmica das águas era a existência de grandes planícies alagáveis, conhecidas popularmente como varjões, e sobre as quais falamos na última postagem. Em alguns trechos, as margens do rio Paraná chegavam a avançar por até 20 km, criando ecossistemas especiais, com flora e fauna bastante parecidas com as do Pantanal de Mato Grosso. A construção de sucessivas barragens de hidrelétricas em toda a bacia hidrográfica do alto rio Paraná reduziu drasticamente o tamanho dos varjões e, consequentemente, desses ecossistemas. 

O Cerrado é considerado como uma espécie de “caixa d’água”, onde estão localizadas as nascentes de rios que formam as mais importantes bacias hidrográficas do Brasil, além de abrigar dois importantes aquíferos – o Bambuí e o Urucuia, e parte do grandioso Aquífero Guarani, um dos maiores do mundo. Apesar de toda a sua importância, o Cerrado é um dos biomas brasileiros que mais sofrem com o avanço das frentes agrícolas. Para abertura de novos campos, a vegetação nativa do Cerrado é cortada, o que prejudica cada vez mais a recarga das reservas subterrâneas de água. A vegetação do bioma tem como uma das suas principais características a presença de raízes muito profundas, que ajudam a água a se infiltrar no subsolo. 

Um dos grandes riscos da destruição do Cerrado é a redução gradativa dos volumes de água em cursos d’água com nascentes no bioma como o rio Paranaíba. Esse processo já é bastante visível no rio São Francisco, que vem apresentando caudais cada vez menores a cada ano que passa. Esse é um risco ainda remoto, mas que também poderá atingir a bacia hidrográfica do rio Paraná. 

E sem a água, os rios poderão acabar transformados em simples rasgos que cortam o solo seco, algo que esperamos que nunca ocorra com o rio Paranaíba. 

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