OS NÚMEROS SUPERLATIVOS DA USINA HIDRELÉTRICA DE ITAIPU

Construção de Itaipu

Na última postagem apresentamos um histórico dos problemas de demarcação das fronteiras secas entre o Paraguai e o Brasil, problemas esses que vinham se “arrastando” há mais de 200 anos. Na década de 1960. Durante o chamado Período dos Regimes Militares, o Governo brasileiro costurou um acordo energético com a ditadura militar que governava o Paraguai. O resultado desse acordo foi a construção da Itaipu Binacional, uma gigantesca usina hidrelétrica na divisa entre os dois países, que teve como uma espécie de “efeito colateral” a resolução do conflito fronteiriço entre as duas nações – a maior parte das áreas em litígio foram encobertas pela formação do lago da hidrelétrica, resolvendo a antiga disputa territorial. 

Essa introdução mostra a complexidade e a grandiosidade do empreendimento, que ainda figura como uma das maiores obras já realizadas no Brasil. Quando se fala na Usina Hidrelétrica de Itaipu, todos os números são superlativos. Vejamos: 

Itaipu iniciou suas operações em maio de 1984 e, em quase 35 anos de operação, já gerou mais de 2,6 bilhões de MWh, energia que seria suficiente para iluminar todo o mundo por cerca de 40 dias. A produção anual média de Itaipu nos últimos anos está na casa de 98,5 milhões MWh – em 2016, a hidrelétrica atingiu a marca histórica de 103,1 MWh. A única outra usina hidrelétrica do mundo que consegue chegar próxima desses volumes de produção é a chinesa Três Gargantas, que ainda não está em plena operação. Quando estiver em pleno funcionamento, Três Gargantas terá uma produção de energia elétrica 60% maior que Itaipu. 

Uma das primeiras obras realizadas na construção de uma usina hidrelétrica é a construção de um canal para o desvio das águas do rio. Após a construção desse canal, o leito principal do rio fica “seco”, permitindo assim a realização das obras de construção da barragem. Em Itaipu, foi necessária a construção de um canal com 2 km de extensão, 150 metros de largura e 90 metros de profundidade. Foram removidos 55 milhões de metros cúbicos de terra e rochas durante a construção desse canal

Números superlativos também se observam nas estatísticas da mão de obra utilizada na construção da hidrelétrica. Durante o pico das obras, haviam cerca de 40 mil trabalhadores nos canteiros de obras, escritórios e canteiros de apoio. Entre os anos de 1978 e 1981, devido à rotatividade da mão de obra, eram contratados até 5 mil trabalhadores a cada mês. Ao longo de toda a construção de Itaipu, um dos consórcios construtores chegou a cadastrar cerca de 100 mil trabalhadores. 

Essa verdadeira massa humana que se deslocou até o Oeste do Paraná para trabalhar nessa grande obra, também criou impactos nas cidades da região. Um grande exemplo é a cidade de Foz do Iguaçu, que até meados da década de 1960 tinha apenas duas ruas asfaltadas e uma população total de 20 mil habitantes. Depois de 10 anos de obras, a população da cidade já superava a marca dos 100 mil habitantes. De acordo com dados do último Censo demográfico (2018) a população de Foz do Iguaçu era de 258 mil habitantes. 

Os volumes de concreto usados ao longo da obra também são impressionantes – foram gastos mais de 12,3 milhões de metros cúbicos ao longo de todas as obras. Esse volume seria suficiente para concretar quatro rodovias do tamanho da Rodovia Transamazônica ou construir 210 estádios do tamanho do Maracanã. No dia 14 de novembro de 1978, foram lançados 7.207 metros cúbicos de concreto, um recorde sul-americano. Esse volume de concreto seria suficiente para construir um prédio de 10 andares a cada hora ou um prédio de 240 andares ao final de 24 horas. Essa façanha só foi possível graças a utilização de um complexo sistema de cabos aéreos para o transporte do concreto. 

Uma obra tão grande e complexa exige um suprimento contínuo de todos os tipos de insumos e materiais. Em 1980, as obras da de Itaipu mobilizaram 20.113 caminhões e 6.648 vagões ferroviários. Um destaque foi o transporte das grandes peças inteiras formadoras dos grupos geradores. A roda da primeira turbina, uma peça com peso de 300 toneladas, foi o primeiro grande desafio logístico da obra. Uma gigantesca carreta sai da cidade de São Paulo no dia 4 de dezembro de 1981 e só chegou no canteiro da obra no dia 3 de março de 1982. A carreta foi obrigada a percorrer um caminho com 1.350 km, evitando passagem sob viadutos baixos, pontes que não suportavam o peso da carga e trechos de rodovias com piso inadequado. Com a experiência adquirida, o tempo desse transporte foi diminuindo, chegando ao recorde de “apenas” 26 dias. 

O primeiro grupo gerador da usina hidrelétrica, com uma potência nominal de 700 MW, entrou em operação no dia 5 de maio de 1984 e os dois últimos entraram em operação entre setembro de 2006 e março de 2007. Itaipu conta com um total de 20 grupos geradores, com uma capacidade total instalada de 14.000 MW. Porém, como a potência real dos grupos geradores é um pouco maior (cerca de 750 MW), a Usina Hidrelétrica de Itaipu pode, em caso de necessidade, se dar “luxo” operar com 18 grupos geradores em potência máxima e manter 2 grupos geradores em manutenção. 

Com a conclusão das obras da barragem de Itaipu e com o início da formação do lago, teve início a operação de salvamento dos animais que ficaram ilhados ou preso nas árvores que restaram. Essa operação foi batizada de Mymba Kuera, que em tupi-guarani significa “pegar os bichos”. De acordo com os dados disponíveis, foram 36.450 animais, indo de aranhas-caranguejeiras a onças-pintadas. Como o fechamento das comportas ocorreu em um período de fortes chuvas e de enchentes excepcionais, foram necessários apenas 14 dias para o enchimento do lago, formando assim um espelho d’água com mais de 1.350 km² ou uma área quase igual à do município de São Paulo ou quase 4 vezes o tamanho da Baía da Guanabara. 

Os impactos ambientais e sociais criados pela construção de Itaipu também podem figurar numa lista dos maiores já vistos em nossas terras. A opção pela construção de uma hidrelétrica de grande porte resultou no alagamento de uma superfície total de 1.350 km² e a formação de um lago com comprimento de mais de 170 km. Entre outros impactos, a formação do lago de Itaipu provocou o desaparecimento do Salto das Sete Quedas, que eram consideradas as cachoeiras com o maior volume de água do mundo, com uma vazão de 13.330 m³ por segundo. Não custa lembrar que, naqueles tempos, não existiam estudos de impactos ambientais ou a necessidade de licenciamento prévio para a realização de obras. 

No dia 5 de novembro de 1982, os Generais João Batista Figueiredo, presidente do Brasil, e Alfredo Stroessner, presidente do Paraguai, acionaram juntos o mecanismo de controle de abertura das 14 comportas da barragem, inaugurando “oficialmente” a Usina Hidrelétrica de Itaipu. No total, foram necessárias mais de 50 mil horas de trabalho para a conclusão de todas as obras e sistemas da usina hidrelétrica e de um investimento, a valores da época, de cerca de US$ 16 bilhões. O Brasil assumiu sozinho uma série de empréstimos internacionais para realizar a obra, compromissos que deverão estar totalmente quitados em 2023.

Aqui, precisamos citar um dos únicos números, que nem de longe é superlativo – do custo total da obra, o Paraguai, que é sócio em 50% do empreendimento, entrou com apenas US$ 50 milhões, dinheiro esse emprestado pelo Banco do Brasil. 

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