O RISCO DE “DESAPARECIMENTO” DO RIO ARAGUAIA

Rio Araguaia

Conforme estamos comentando em nossas postagens, o bioma Cerrado vem sofrendo uma intensa devastação nas últimas décadas. Um dos principais responsáveis por toda essa devastação ambiental foi o avanço da fronteira agrícola no bioma. Entre as culturas agrícolas que mais prosperaram na região, uma tem nome e sobrenome: a soja Doko. E uma das vítimas mais evidentes desse intenso processo de devastação ambiental são os rios da região – o rio Araguaia, o mais importante curso d’água do Brasil Central, é uma prova viva das consequências desastrosas desse grande problema. 

O rio Araguaia nasce no Estado de Goiás, onde faz a divisa com o Estado de Mato Grosso. Depois, o rio segue rumo ao Norte, fazendo primeiro a divisa entre o Tocantins e Mato Grosso, e depois a divisa dos Estados do Maranhão e do Pará, até desaguar no rio Tocantins, num curso de aproximadamente 2,1 mil quilômetros. Um estudo publicado em 2014 pela DEMA – Delegacia Estadual de Repressão a Crimes contra o Meio Ambiente, do Estado de Goiás, concluiu que, a se manter o atual grau de degradação que se observa em suas margens, o Araguaia deixará de existir em até 40 anos. Na opinião da maioria dos especialistas, a causa principal da redução cada vez maior dos caudais do rio Araguaia está no desmatamento de extensas áreas do Cerrado, o que vem ocorrendo desde a década de 1950, mas que aumentou substancialmente nos últimos anos devido ao avanço das fronteiras agrícolas.  

Os solos do Cerrado sempre foram considerados muito pobres e extremamente ácidos para o cultivo em larga escala. O primeiro passo para a solução desses problemas foi o desenvolvimento de técnicas agrícolas como a calagem, onde é feita a correção do solo a partir da aplicação de calcário, a adubação fosfatada e a adubação potássica, entre outras. O grande salto da agricultura na região se deu mesmo em 1980, quando foi lançada a soja Doko. Resultado de mais de 10 anos de trabalhos de pesquisa e cruzamento de milhares de variedades de soja, a Doko se adaptou perfeitamente ao solo e ao clima do Cerrado. Em poucas décadas, surgiram imensos campos de cultivo da variedade em áreas do Cerrado nos Estados de Goiás, Tocantins, Minas Gerais, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul; em anos mais recentes, a cultura se expandiu para a região Oeste da Bahia e em partes do Piauí e do Maranhão. A estimativa de produção da safra 2018 da soja é de mais de 118 milhões de toneladas, com uma área plantada de aproximadamente 34 milhões de hectares, o que mantém o Brasil como o segundo maior produtor mundial da oleaginosa, muito próximo de alcançar o primeiro colocado, os Estados Unidos

Todo esse sucesso, que faz a alegria dos grandes produtores e proporciona enormes saldos comerciais na balança de exportações do país, teve um alto custo ambiental, que pouco a pouco começa a enviar a “fatura” para todos nós: calcula-se que metade da vegetação nativa do Cerrado sucumbiu ao avanço da agroindústria – a forte redução dos caudais que passamos a observar nos rios da região no período da seca, inclusive com alguns rios secando completamente, é uma das consequências mais visíveis de todo este desmatamento. As árvores e arbustos raquíticos do Cerrado, conforme comentamos em postagem anterior, não nos impressionam à primeira vista, especialmente quando comparados à vegetação de grande porte da Amazônia e da Mata Atlântica; é inclusive corriqueiro se confundir a vegetação do Cerrado com a Caatinga. Essa vegetação nativa, porém, é fundamental para a recarga dos aquíferos da região. 

As árvores e arbustos do Cerrado possuem enormes e profundos sistemas de raízes, adaptadas para captar a água em grandes profundidades no subsolo – é esse sistema radicular o responsável pela infiltração de grandes volumes de água no solo no período das chuvas, contribuindo assim para a recarga dos depósitos subterrâneos. Quando a temporada das chuvas se encerra, serão estes lençóis e aquíferos que fornecerão a água para as nascentes dos riachos e rios que brotam por todos os cantos do Cerrado, acertadamente chamado de Berço das Águas do Brasil

Com o corte sistemático da vegetação do Cerrado e o plantio da soja, do milho ou da grama usada na formação das pastagens para os rebanhos, grande parte desse mecanismo de recarga dos aquíferos foi interrompido – essas plantas possuem raízes muito curtas e não permitem a infiltração de grandes volumes de água no solo. O resultado é um aumento na velocidade superficial da água das chuvas sobre o solo, carreando grandes volumes de sedimentos e areia, que acabam lançados nas calhas dos rios, e uma redução contínua do volume de águas armazenados no subsolo. No período das chuvas, os rios ficam sujeitos a fortes enchentes; na época da seca, pela grande redução dos volumes de água armazenada no subsolo, os rios definham – alguns rios do Norte do Estado de Goiás, inclusive, passaram a se comportar como rios intermitentes como aqueles do Semiárido nordestino. 

Com nascentes na Serra do Caiapó, o Araguaia já foi considerado um dos rios mais piscosos do mundo, atraindo praticantes da pesca esportiva de todos os cantos do Brasil e do exterior (vide foto). Com a inauguração da Usina Hidrelétrica de Tucuruí no sul do Estado do Pará em 1984, que não foi projetada de forma a permitir a migração dos peixes de piracema nos períodos de desova, teve início um processo de declínio da ictiofauna no rio Tocantins e, consequentemente, no rio Araguaia, seu maior tributário. De rio sem peixe a rio sem água, foi um “pulo”. A redução sistemática dos caudais do rio, que na época da seca mais parece um córrego do que um rio em muitas regiões, tem afetado a economia e a vida de inúmeras comunidades ribeirinhas, que retiravam seu sustento das águas durante o ano todo com a pesca, com o transporte fluvial de mercadorias e com o turismo. Agora, com o rio apresentando bons volumes de água apenas nos períodos das chuvas, vivem numa espécie de “trabalho em meio período”, o que não é bom para ninguém. 

Preocupações com a devastação ambiental no Araguaia existem desde o final da década de 1970, quando o rio tinha o apelido de “lixão” devido ao despejo de grandes quantidades de resíduos sólidos, tanto pelas cidades quanto pelos turistas, que corriam para a região em busca dos peixes e deixavam todo o seu lixo nos locais dos acampamentos. Uma das primeiras iniciativas com fins de preservação do rio Araguaia foi a criação do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Répteis e Anfíbios (hoje ligado ao ICMBIO – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), que mantém, entre outros, o Projeto Quelônios do Araguaia. Também surgiu Projeto Araguaia Sustentável, realizado há mais de 27 anos pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Répteis e Anfíbios, além de inúmeras iniciativas de organizações não governamentais em toda a bacia hidrográfica.  

Todas essas maravilhosas iniciativas, infelizmente, correm o risco de se tornar inócuas caso o rio Araguaia continue em sua marcha rumo ao desaparecimento. 

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