AS USINAS DO COMPLEXO HIDRELÉTRICO URUBUPUNGÁ NO RIO PARANÁ

Usina Hidrelétrica Jupiá

Na última postagem falamos rapidamente do importante rio Paraná, o segundo maior rio da América do Sul e dono de um dos maiores potenciais de geração hidrelétrica do mundo. A partir da década de 1960, esse potencial hidrelétrico começou a ser explorado e quatro grandes usinas foram construídas ao longo da sua calha: Jupiá, Ilha Solteira, Porto Primavera e Itaipu, que durante várias décadas foi considerada a maior usina hidrelétrica do mundo, só superada recentemente pela Usina Três Gargantas, da China. 

O Complexo Hidrelétrico Urubupungá é formado pelas Usinas de Ilha Solteira e Jupiá, no rio Paraná, e também pela Usina Hidrelétrica Três Irmãos, no rio Tietê. As Usinas de Ilha Solteira e Jupiá formam o maior pólo gerador de energia elétrica do Estado de São Paulo, com uma capacidade instalada total de 4.995 MW. A Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira é a terceira maior do Brasil, com uma potência instalada de 3.444 MW. Para a construção da usina, foi necessária a construção de uma barragem com 5,6 mil metros de extensão, formando um reservatório com quase 2 mil m², o que nos dá uma ideia dos impactos sócio ambientais provocados. A usina hidrelétrica foi concluída em 1978 e possui um total de 20 grupos geradores

A Usina Hidrelétrica de Jupiá (vide foto) foi construída a 66 km a jusante de Ilha Solteira e foi concebida para funcionar a “fio d’água”, ou seja, a usina se vale da força da correnteza do rio para gerar as turbinas, sem a necessidade de um grande reservatório. Sua barragem tem 5,5 mil metros de comprimento e forma um reservatório com uma área máxima de 330 km², ou seja, seis vezes menor do que o reservatório de Ilha Solteira e com um impacto ambiental bem menor. A usina conta com 14 grupos geradores, com uma potência instalada de 1.551 MW. As obras de construção da Usina de Jupiá foram concluídas em 1974

A construção de barragens de usinas hidrelétricas causa uma série de problemas ambientais e sociais, que vão do barramento das águas do rio e o comprometimento da migração de diversas espécies aquáticas até o alagamento de extensas áreas ribeirinhas, com a necessidade de realocação de milhares de pessoas que habitavam essas regiões. Normalmente, o anúncio da construção de uma obra com esse potencial de impactos gera uma forte onda de protestos – porém, nos idos tempos do Regime Militar, que governou o país entre 1964 e 1985, as coisas não eram tão simples assim. Preocupados com a implantação de uma infraestrutura que garantisse um “salto” no desenvolvimento do Brasil, os militares usavam de todos os recursos legais (e também ilegais) para coibir qualquer tipo de protesto ou insubordinação. 

Um ícone desse processo na construção da Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira atende pelo nome de Aparecido Galdino Jacintho, mais conhecido como o “profeta das águas”. “Aparecidão”, como era conhecido pela população local, tornou-se um líder religioso e uma espécie de profeta popular, com muitos características que lembram Antônio Conselheiro, o líder religioso do arraial de Canudos, no sertão da Bahia do final do século XIX. Dizem que os poderes messiânicos do profeta surgiram quando um dos seus filhos foi chifrado por um boi bravo e ele fez um apelo desesperado para Deus salvá-lo, sendo atendido. A partir daí, ele passou a fazer benzimentos e sua fama como religioso não parou mais de crescer. 

Com o aumento no seu número de seguidores, “Aparecidão” construiu uma capela em seu sítio, onde passou a se reunir com sua irmandade, que foi batizada com o nome de “Exército Divino”. Em sua concepção religiosa, “Aparecidão” imaginava “um exército de fiéis de farda com a missão de pregar a palavra sagrada, combater os infiéis e impedir a construção da barragem de Ilha Solteira”. 

O movimento dos fiéis do “Exército Divino” não demorou muito a chamar a atenção dos altos oficiais do Exército brasileiro, que ocupavam postos chaves no Governo Federal. Aparecido Galdino Jacintho foi acusado de curandeirismo e subversão pela Justiça Militar e acabou preso. Na falta de provas que permitissem uma condenação exemplar, o “profeta das águas” foi classificado como louco e assim pode ser internado em um manicômio judiciário. No total, “Aparecidão” ficou preso por nove anos, sendo dois anos em uma prisão comum e sete anos em manicômios judiciários. Sem a forte liderança de Aparecido Galdino Jacintho, as autoridades conseguiram controlar mais facilmente os camponeses, que acabaram removidos silenciosamente para outras regiões.  A história do “Profeta das Águas” foi transformada em um documentário, lançado em 2017,

É sempre oportuno lembrar que essas grandes obras foram feitas em uma época onde não eram exigidos estudos de impactos ao meio ambiente. Também precisamos recordar que durante o período dos Governos Militares, havia uma ideologia do “desenvolvimento a qualquer custo”. Os planejadores do Governo Federal imaginavam um país com uma moderna infraestrutura, com plenas condições de passar do estágio de subdesenvolvido, ou de “terceiro mundo” como se chamava à época, para a condição de país desenvolvido. Para que esse “salto” fosse possível, era necessário dotar o país de rodovias, ferrovias, portos, aeroportos, telecomunicações, energia elétrica e tudo o mais. 

Um dos impactos ambientais mais visíveis da formação de grandes barragens foi a alteração do ciclo de cheias do rio Paraná. Em condições naturais, o nível do rio oscila entre as grandes cheias do período das chuvas e o período de vazante no período da seca, quando o nível das águas baixa fortemente. Todo o meio ambiente, incluindo populações humanas, vida animal e vegetal, se adaptaram a esses ciclos de cheias e vazantes do rio. As barragens alteraram dramaticamente esses ciclos e os fluxos de águas nos rios passaram a ficar vinculados ao volume de produção de energia elétrica nas usinas. 

O lago formado pelo represamento do rio Paraná pela barragem da Usina de Ilha Solteira alagou uma área equivalente a duas vezes o tamanho do município de São Paulo, avançando sobre propriedades rurais e áreas de matas, que foram suprimidas antes do enchimento do lago. Entre as áreas de vegetação nativa que existiam na região, encontravam-se áreas alagáveis, importantes habitats da vida animal e vegetal, que tinham características de flora e fauna bastantes similares ao Pantanal Mato-grossense. Essas áreas desapareceram para sempre sem que maiores estudos científicos fossem realizados. Muito do que sabemos sobre esses ecossistemas vem de estudos que foram feitos posteriormente na região onde se formou o lago da Usina Hidrelétrica de Porto Primavera, construída entre os anos de 1980 e 2003. Essa região, que também acabou inundada, era conhecida como Mini Pantanal do rio Paraná. 

Entre as “heranças” deixadas pela construção destas grandes usinas hidrelétricas temos a cidade de Ilha Solteira, que surgiu em 1968 para servir como alojamento dos trabalhadores da obra. A cidade, que atualmente conta com 26 mil habitantes, foi totalmente planejada, contando com uma boa infraestrutura urbana como iluminação pública, redes de água e esgoto. Além de abrigar os trabalhadores e funcionários da obra, a cidade recebeu um grande número de deslocados das áreas alagadas pelo reservatório da usina. Grande parte da arrecadação fiscal do município, que se emancipou de Pereira Barreto em 1991, vem dos impostos pagos pela Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira. 

Um outro caso emblemático é a cidade de Rubineia, que foi totalmente inundada pelo reservatório de Ilha Solteira, e teve de ser reconstruída em outro local. A pequena cidade conta atualmente com menos de 3 mil habitantes – estima-se que cerca de 10 mil habitantes do município foram deslocados de suas terras por causa das obras da usina hidrelétrica. 

Outras tantas histórias de populações e pequenas comunidades ribeirinhas do rio Paraná, simplesmente acabaram perdidas e esquecidas naqueles “anos de chumbo” e de muita repressão política. 

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