A GRANDE SECA NO “MAR DE MINAS GERAIS”

Segundo informações do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico, publicadas no dia 17 de maio, o Lago de Furnas, no rio Grande, apresentava um volume útil de 37,56%, um nível extremamente baixo para este momento de início da estação seca do ano. A Usina Hidrelétrica de Furnas faz parte do Subsistema Sudeste /Centro-Oeste, um dos mais importantes complexos geradores de energia elétrica do Brasil. 

A Usina Hidrelétrica de Furnas teve sua construção iniciada em 1958, tempos do Governo Juscelino Kubitschek, onde o lema era “50 anos em 5”. Há época, Furnas era a maior usina hidrelétrica em construção na América Latina e, quando teve suas turbinas acionadas mais do que dobrou a oferta de energia elétrica no Brasil. Furnas foi essencial para o desenvolvimento econômico dos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, além do Distrito Federal. 

O espelho d’água do Reservatório de Furnas cobre uma área máxima de 1.440 km², sendo o maior lago do Estado de Minas Gerais. Os mineiros, carinhosamente, costumam usar a expressão “mar de Minas” ao se referir ao Lago de Furnas. Um total de 34 municípios são banhados pelas águas do Lago, que tem uma capacidade de armazenamento máxima de 24 bilhões de m³ de água. 

O nome Furnas, segundo consta, vem de uma grande cachoeira que, no dizer dos locais, ficava “enfurnada” entre dois morros num trecho estreito do rio Grande. Esse local apresentava ótimas condições para a construção de uma grande barragem para o represamento do rio, o que acabou sendo feito. O paredão da barragem tem cerca de 500 metros de largura e 120 metros de altura. 

A hidrelétrica possui um conjunto com 8 unidades geradoras de energia elétrica. A primeira dessas unidades entrou em operação em 1963, porém, devido ao momento político delicado vivido no país naquele momento, a inauguração oficial da usina só aconteceria em maio de 1965 já no Governo Castelo Branco. O projeto inicial previa a instalação de 6 grupos geradores, o que foi finalizado em 1966. Uma alteração no projeto permitiu a incorporação de mais 2 grupos geradores, o que foi concluído em 1970. A potência total instalada na Usina Hidrelétrica de Furnas é de 1.216 MW. 

Além do grande impacto na economia do país, Furnas causou enormes mudanças sociais em toda a sua região de entorno. Como sempre acontece com a construção de grandes barragens e formação de grandes represas, a construção de Furnas forçou a desapropriação de mais de 8 mil casas e propriedades rurais, além do deslocamento forçado de cerca de 35 mil moradores. Muitos desses moradores resistiram ao máximo em abandonar suas casas – existem fotos que mostram pessoas presas nos telhados de suas casas cercados pelas águas da represa que subiam velozmente. 

Entre as localidades que foram encobertas pelas águas do lago são destaques a cidade de Guapé e a Vila de São José da Barra que foram reconstruídas em lugares mais altos. Um detalhe interessante da obra foi a necessidade de reverter o curso do rio Piumhi, na região de Capitólio. Esse rio originalmente desaguava no rio Grande, mas foi desviado na direção do rio São Francisco. Para evitar que a cidade de Capitólio fosse inundada pelas águas do lago de Furnas foi necessária a construção de um dique de contenção. 

Apesar dos inúmeros problemas criados inicialmente pela formação do Lago de Furnas, a obra acabou se integrando perfeitamente às paisagens da região e se transformou num dos grandes destinos turísticos do Estado. As águas tranquilas do lago eram ideais para o banho, prática de esportes, pesca e navegação. Como se tudo isso ainda fosse pouco, as margens do lago apresentam inúmeros canyons (cuja palavra equivalente em português é canhão), grutas e cachoeiras, formações que encantavam os turistas. Furnas é, na fala popular do povo mineiro, “tudo de bão“.   

Localizado a mais de 500 km da praia mais próxima no Oceano Atlântico, o “mar” de Minas Gerais começou a atrair verdadeiras multidões para as suas margens. Aos poucos foram surgindo pousadas, hotéis, restaurantes, marinas, pesqueiros e outras instalações voltadas ao atendimento dos turistas. Empresas de viagens e de turismo também descobriram o potencial do Lago de Furnas e passaram a criar pacotes de viagem completos. Bastaram poucos anos para que o turismo se transformasse em uma das atividades mais importantes para a economia dos municípios do entorno do Lago de Furnas. 

Uma outra atividade econômica que surgiu em função do Lago de Furnas foi a piscicultura, onde os peixes são criados em cercados flutuantes. A produção de peixes em cativeiro chegou a atingir a marca 1,6 mil toneladas. Também é preciso citar a grande valorização dos imóveis com vista para o ‘mar” – ter uma casa ou sítio de fim de semana nas margens de Furnas virou símbolo de status.

O Lago de Furnas atingiu tamanha importância regional que resultou na criação da ALAGO – Associação dos Municípios do Lago de Furnas, uma “iniciativa associativista direcionada para a sustentabilidade e a preservação ambiental” de toda a região banhada pelo lago, formada por 39 municípios da região de entorno. A entidade também se ocupa com o desenvolvimento regional e também com a coordenação de ações conjuntas.  

Apesar da extrema importância regional e da grande articulação entre as prefeituras do seu entorno, o Lago de Furnas vem sofrendo com sucessivos ciclos de graves secas nos últimos anos. A primeira dessas secas teve início em 1999 e se estendeu até 2001, ano que entrou para a história por causa do “apagão” do sistema elétrico brasileiro. Depois disso, foram cerca de 10 anos com uma boa acumulação de água em Furnas. 

A partir de 2012, o Lago entrou em um ciclo quase contínuo de fortes secas – em meados de julho daquele ano, o nível do Lago chegou a baixar 15 metros, causando prejuízos estimados em mais de R$ 100 milhões para as cidades do seu entorno. No ano de 2014, uma nova situação crítica em Furnas – registros da época mostram que o volume de chuvas na região foi de apenas 1/3 da média registrada nos 19 anos anteriores. 

Em fevereiro de 2015, a seca persistente levou o Lago de Furnas ao nível mais baixo desde 1999 – 10,62% de acordo com registros do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico. Ao longo dos anos seguintes, o nível do Lago apresentou uma sucessão de altos e baixos, com o nível máximo sempre ficando muito abaixo da capacidade máxima – aliás, o nível máximo do lago não é atingido há mais de 10 anos. O turismo, a agricultura e a piscultura são as atividades econômicas mais prejudicadas com os baixos níveis contínuos do Lago.

Além de uma sensível redução já observada nos volumes de chuvas em toda a região ao longo dos últimos anos, os persistentes baixos níveis no Lago de Furnas podem também ser resultado do avanço da agricultura sobre as áreas do Cerrado, bioma predominante na região.  

As longas raízes da vegetação nativa do Cerrado são fundamentais para a infiltração da água das chuvas no solo e recarga das fontes subterrâneas que alimentam as nascentes dos rios, rios esses que alimentam o grande reservatório. As respostas dependerão de estudos cada vez mais aprofundados sobre esse tema. 

Os baixos níveis no “mar” de Minas, além de comprometer a geração de energia na usina hidrelétrica, também causam prejuízos de toda a ordem para a população das cidades do entorno. A água tem mesmo múltiplos usos e sua falta pode criar inúmeros problemas. 

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