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Posts de ferdinandodesousa

Escritor, jornalista, gestor e educador ambiental. Especialista em projetos de comunicação social e de educação ambiental.

A SAGA DO SISTEMA REPRESA BILLINGS / USINA HIDRELÉTRICA HENRY BORDEN, OU OS DESCAMINHOS DAS ÁGUAS E DA ENERGIA ELÉTRICA

Uma das obras de engenharia mais geniais que eu conheço é o sistema de geração elétrica Represa Billings / Usina Hidrelétrica Henry Borden. Construído a partir dos primeiros anos da década de 1920, esse sistema se valeu do enorme desnível da Serra do Mar entre o Planalto de Piratininga e a Baixada Santista – cerca de 720 metros, para gerar a energia elétrica que impulsionou a industrialização da Região Metropolitana de São Paulo. 

Infelizmente, graças ao nosso total desprezo pelas águas e falta de obras básicas para a coleta e o tratamento dos esgotos da população, além da falta de planejamento urbano, a quase centenária Represa Billings sofre atualmente com a intensa poluição de suas águas e ocupação desordenada de suas margens.  

Muito pior – a geração de energia na Usina Hidrelétrica Henry Borden está limitada a apenas 200 MW (ela tem uma capacidade instalada total de quase 900 MW), para evitar que as águas poluídas da Billings causem mais estragos nos rios da Baixada Santista. Em tempos em que os reservatórios de muitas usinas hidrelétricas brasileiras estão vazios, não poder usar essa capacidade instalada é um “crime”. Vamos entender a história. 

O primeiro grande sistema de geração de energia elétrica da Região Metropolitana de São Paulo foi a Usina de Parnahyba, projeto implantado pela Light and Power Company, a empresa canadense que se tornou concessionária de energia elétrica na cidade de São Paulo e Região em 1899. Na sua ianuguração em 1901, Parnahyba produzia 2 mW de energia elétrica. 

Cerca de 10 anos depois, essa potência já tinha sido aumentada para 12,8 MW, atendendo a uma demanda por energia elétrica cada vez maior da população e das indústrias paulistanas. Gradativamente, a Light passou a construir novas pequenas usinas hidrelétricas, aumentando gradativamente a sua capacidade de geração de energia. 

Na década de 1920, os engenheiros da Light desenvolveram o projeto de uma usina hidrelétrica grande e revolucionária para os padrões da época. Essa usina seria construída em Cubatão, município da Baixada Santista, e utilizaria o forte desnível da Serra do Mar para potencializar a força das águas lançadas a partir de uma represa construída no Planalto de Piratininga. 

Esse projeto foi apresentado para as autoridades do Governo Federal e em 1922, um decreto Presidencial autorizou o início das obras. O projeto incluía a construção da Represa do Alto da Serra – que depois passou a ser chamada de Billings, da Usina Hidrelétrica de Cubatão, do sistema de tubulações para a descida da água através da Serra do Mar (vide foto), além da implantação de um sistema para a transposição de águas da bacia hidrográfica do rio Tietê para a Represa Billings.  

As obras foram iniciadas em 1925 e é interessante ressaltar que, como era normal há época, todo esse complexo de obras não teve nenhum estudo de impacto ambiental, que aliás foram muitos. Um exemplo de impacto criado pelas obras foi a famosa garoa paulistana, uma chuva finíssima que caía todas as tardes na cidade – o fenômeno desapareceu no início da década de 1980. Segundo relatos de parentes e antigos moradores, esse fenômeno climático se tornou diário logo após a construção da Represa Guarapiranga e aumentou muito após a conclusão da Represa Billings.  

Um argumento interessante que foi usado para justificar a construção desse complexo energético foi o auxílio no controle das cheias anuais do rio Tietê, responsáveis por problemas catastróficos nas partes baixas de São Paulo. No projeto criado pela Light, essas águas excedentes do período das chuvas seriam bombeadas através do canal do rio Pinheiros na direção da Represa Billings, ajudando a reforçar os estoques de água.  

Para realizar esse bombeamento, duas estações elevatórias (também chamadas de usinas de traição) foram construídas no rio Pinheiros, sendo uma na região da Vila Olímpia e a outra no bairro da Pedreira. Para viabilizar essa parte do projeto, o sinuoso canal do rio Pinheiros foi completamente retificado, com trabalhadores escavando a terra com pás e picaretas e grandes volumes de terra sendo carregados por carroças puxadas por burros.  

Além de preparar o rio Pinheiros para a futura função de transposição das águas para a represa Billings, essas obras transformariam antigas várzeas alagáveis da região em “terras secas”. Um dos exemplos é uma região do bairro de Pinheiros, que anos depois foi loteada pela Companhia City, uma subsidiária da Light and Power Company. A região foi transformada no elegante e sofisticado bairro do Alto de Pinheiros, ainda hoje uma referência em alto padrão imobiliário na cidade de São Paulo.  

Além do planejamento impecável, com ruas elegantes, praças e todo equipamento urbano necessário, o bairro receberia as linhas de bondes elétricos operados pela empresa Light, um diferencial em tanto numa cidade que sempre teve, e continua tendo, problemas de transporte. Como dizia a minha mãe: “esses estrangeiros sabiam como ganhar muito dinheiro! ”  

A represa Billings foi formada a partir do represamento dos rios Grande (o principal formador do rio Pinheiros), Pequeno, Capivari, Pedra Branca, Taquacetuba, Alvarengas, Bororé e Cocaia, entre outros rios menores, perfazendo cerca de 560 km² de área de drenagem, com uma vazão somada total de 16,5 m³/s. O espelho d’água da Represa ocuparia uma área inundada de aproximadamente 172 km² e teria capacidade para armazenar 1,2 bilhões de metros cúbicos de água.  

Nos dias atuais, quando se segue pelas Rodovias Anchieta e Imigrantes ou pelo Trecho Sul do Rodoanel, a visão e a beleza do grande reservatório da Billings ainda são impressionantes. As obras da represa foram totalmente concluídas em 1937. O sistema de transposição das águas do rio Tietê para a represa Billings só passou a operar integralmente a partir de 1950.  

A Usina Hidrelétrica de Cubatão, que depois teve seu nome mudado para Usina Hidrelétrica Henry Borden, teve seu primeiro grupo gerador inaugurado em 1926. A capacidade geradora da Usina foi sendo ampliada até 1950, quando o 14° grupo gerador entrou em funcionamento, atingindo uma capacidade total instalada de 889 MW. Os grupos geradores da Usina Henry Borden são acionados por turbinas Pelton, que são movidas pelos fortíssimos fluxos de água que descem do alto da Serra do Mar.  

O fantástico complexo Represa Billings / Usina Henry Borden foi fundamental para o desenvolvimento da Região Metropolitana de São Paulo. A farta disponibilidade de energia elétrica na região foi um dos critérios usados para a escolha da Região do ABC Paulista (sigla para os municípios de Santo André, São Bernardo e São Caetano) como sede das primeiras indústrias automobilísticas do Brasil na década de 1950.  

Toda essa energia elétrica disponibilizada, desgraçadamente, acabou se transformando numa espécie de “maldição”, que se voltou depois contra o próprio Sistema. A energia elétrica estimulou o desenvolvimento de industrias, comércios e serviços, o que levou a um crescimento urbano desordenado das cidades da região. 

As densas matas que protegiam as margens da Represa Billings foram derrubadas para a criação de bairro populares. onde milhares de migrantes que chegavam ao ABC Paulista em busca de empregos e de uma vida melhor construiriam as suas moradias. Já as águas dos rios formadores da Represa, essas foram transformadas em canais para a eliminação dos esgotos gerados por toda essa gente. 

Na próxima postagem falaremos mais sobre a triste sina da Represa Billings e dos problemas que levaram a atual subutilização da Usina Hidrelétrica Henry Borden

ÍNDIOS NORTE-AMERICANOS MILIONÁRIOS X ÍNDIOS BRASILEIROS PAUPÉRRIMOS

Na última postagem falamos sobre os problemas, tanto técnicos quanto legais, que envolvem a construção de usinas hidrelétricas na região da Bacia Amazônica. Essa região, como todos devem saber, é o paraíso das águas – pesquisadores afirmam que 20% de toda a água doce superficial do mundo é encontrada na Bacia Amazônica. Aproveitar esse verdadeiro “mundo de águas” para gerar energia elétrica “limpa’”, infelizmente, não é tão simples como pode parecer. 

Hoje gostaria de falar um pouco mais sobre isso e tocar numa questão extremamente delicada – a questão das terras indígenas. Vou começar citando dois “causos verídicos verdadeiros” que acompanhei: 

Entre os anos de 2009 e 2010, fui enviado pela empresa em que trabalhava para atuar nas obras do sistema de esgotos sanitários da cidade de Porto Velho em Rondônia. Há mesma época, as obras das usinas hidrelétricas do rio Madeira – Santo Antônio e Jirau, seguiam a todo vapor e consegui acompanhar várias fases dos trabalhos. Uma ocorrência nas obras de Jirau me chamou muito a atenção. 

Enquanto se realizavam os trabalhos de desflorestamento da faixa de terras que seria inundada pelo lago da hidrelétrica (essa usina opera a “fio d’água”, mas, mesmo assim, o represamento provoca uma elevação do nível do rio), os trabalhadores encontraram uma grande rocha e, em cima desta, havia uma pedra lascada que tinha um formato semelhante ao de um machado pré-histórico.  

Imaginando se tratar de um artefato milenar deixado ali por antigas populações indígenas, o técnico em meio ambiente que acompanhava os trabalhos deu ordem para a paralização total das atividades. Um arqueólogo e um historiador da equipe que preparou o relatório de impacto ao meio ambiente foram imediatamente convocados para realizar uma perícia no “artefato”. Depois de quase três semanas de trabalhos parados, os especialistas emitiram um laudo informando se tratar de uma simples pedra, que provavelmente foi arrastada para o local por alguma antiga enchente do rio Madeira. 

Bem por acaso, o dono da empreiteira que prestava os serviços de remoção da vegetação ali naquele trecho era meu vizinho de apartamento e me relatou o tamanho do prejuízo daquele ocorrido. Apesar dos trabalhos terem ficado paralisados por semanas, ele teve de manter o pagamento dos funcionários em dia, além de bancar todos os demais custos do canteiro de obras. Soube depois que, ao longo de três anos de prestação de serviços naquela obra, a pequena empreiteira desse vizinho acumulou um prejuízo de mais de R$ 3 milhões por causa dessa e de outras paralisações dos trabalhos por problemas bem semelhantes. 

Um outro caso ligado à minha obra – a equipe que fez os estudos de impacto ambiental no terreno onde seria construída uma das estações de tratamento de esgotos do projeto de Porto Velho encontrou algumas “peças em cerâmica” no meio da mata de capoeira. Imediatamente imaginaram se tratar de cerâmica ancestral de antigas populações indígenas. Um arqueólogo foi chamado para avaliar o “achado” e, cerca de quinze dias depois, emitiu um laudo afirmando se tratar de cerâmicas modernas do tipo usado em rituais de religiões afro-brasileiras. Salvo engano da minha memória, o custo desse laudo foi de R$ 19 mil há época. 

Cerca de um ano depois, durante um happy hour com amigos num boteco da cidade, conheci uma pessoa que trabalhou na empresa que fez o licenciamento da obra. Entre um copo de cerveja e outro acabei ouvindo a verdadeira história: o arqueólogo era muito amigo de uma das pessoas da equipe e estava muito endividado naquele momento. A equipe sabia de antemão que as peças cerâmicas que foram encontradas eram na verdade parte de um “despacho”, mas, para ajudar o amigo, acabaram endossando a necessidade da “opinião de um especialista”. 

Antes de qualquer coisa, quero deixar claro que não tenho nada contra as populações indígenas e que acho fundamental que sua história, tradições, territórios e produção histórica/cultural sejam preservados. Minha crítica é contra a “indústria do licenciamento ambiental” que, entre outras coisas, usa questões ligadas aos indígenas e suas terras para “engordar” seus ganhos em projetos de licenciamento ambiental de obras

Dito isso, gostaria de mostrar um caso onde questões ligadas a grupos indígenas estão criando sérias dificuldades para a realização de uma obra importante – falo aqui do Linhão de Tucuruí, uma obra fundamental para o abastecimento de energia elétrica da população do Estado de Roraima, no extremo Norte do país.  

Roraima tem uma área de 223 mil km² e uma população com aproximadamente 500 mil habitantes. O Estado não está ligado ao SIN – Sistema interligado Nacional, e depende de geração de energia em centrais termelétricas movidas a óleo diesel. Existe uma linha de transmissão de energia que vem da Usina Hidrelétrica de Guri, no Sul da Venezuela, mas, devido aos problemas políticos e econômicos vividos pelo país vizinho, esse suprimento de energia deixou de ser confiável. 

Pois bem – há várias décadas, o Governo Federal vem tentando construir o chamado Linhão de Tucuruí, uma linha de transmissão de energia elétrica que vai permitir a transmissão da energia gerada na Usina Hidrelétrica de Tucuruí para Roraima. Essa energia já chega até a cidade de Manaus, capital do Estado vizinho do Amazonas. 

O empecilho para a realização da obra é a Terra Indígena dos Waimari Atroari, que fica no meio do caminho. O Linhão precisa passar por dentro do território indígena e não se consegue chegar a um acordo para a liberação do licenciamento ambiental. Essa terra indígena, inclusive, já é atravessada por uma rodovia federal e a linha de transmissão seria construída exatamente ao lado da estrada, com impactos ambientais mínimos. 

Para fazer um contraponto a essa grande dificuldade para licenciar essa obra tão simples, vou citar o caso de outro grupo indígena – os seminoles do Estado norte-americano da Flórida. Em 1987, esse grupo indígena conseguiu autorização da justiça dos Estados Unidos para explorar jogos de azar em suas terras. Os índios operam desde então dois cassinos em seu território na Florida e faturam centenas de milhões de dólares por ano, dinheiro que é dividido entre os 3,3 mil índios do grupo. A foto que ilustra a postagem é de um dos cassinos da tribo, uma franquia do famoso Hard Rock Café e que foi comprada em 2006 pela bagatela de US$ 95 milhões.

No total, existem atualmente mais de 350 cassinos de propriedade de grupos indígenas em 28 Estados norte-americanos. Esses estabelecimentos faturam juntos mais de US$ 20 bilhões por ano e garantem uma excepcional renda e um alto padrão de vida para as suas comunidades. Ou seja – ser um indígena nos Estados Unidos é um excelente negócio para qualquer um. Esses bons ganhos, é claro, não pagam o sofrimento e as mortes de milhões de indígenas ao longo do conturbado processo de colonização do país. 

Voltando ao caso dos índios Waimari Atroari aqui do Brasil – será que não seria possível criar um mecanismo legal que permitisse que esses índios recebessem royalties sobre o valor de comercialização da energia elétrica que circulasse através do Linhão que será construído em suas terras?  

Eu imagino que os volumes de dinheiro envolvidos nessa negociação ficariam muito aquém dos ganhos conseguidos pelos índios seminoles da Flórida com seus cassinos, mas, acredito que seria um valor muito bem-vindo e que poderia ser investido pelos índios com toda a autonomia no que eles bem entendessem – saúde, educação, habitações, lanchas, jet skis, ou qualquer outra coisa. 

E olhem que esse não é um caso isolado – existem dezenas de obras de infraestrutura em todo o Brasil que estão paradas por questões semelhantes. São rodovias, ferrovias, hidrelétricas, gasodutos e oleodutos, entre outras obras fundamentais para o desenvolvimento do país. 

Mas não – o que vemos é toda uma legislação que insiste proteger ao máximo os grupos indígenas brasileiros, colocando essas populações “dentro de uma redoma” e completamente isolados do mundo exterior. Será que alguém perguntou para esses indígenas se eles querem eletricidade, água quente no chuveiro, internet e telefonia celular? Será que esses pequenos confortos que a vida moderna proporciona a nós “brancos” (uso a palavra aqui no sentido cultural e não étnico) não agradariam também aos nossos irmãos indígenas? 

Moral dessa história: enquanto os índios norte-americanos ficam milionários, seus parentes brasileiros ainda estão presos ao passado, no pior sentido dessa expressão… 

SE HÁ TANTA ÁGUA NA AMAZÔNIA, POR QUE NÃO SE CONSTROEM MAIS USINAS HIDRELÉTRICAS POR LÁ?

O rio Amazonas tem quase 7 mil km de extensão desde suas nascentes mais distantes no alto da Cordilheira dos Andes até sua foz em delta no Arquipélago de Marajó. Ainda existem controvérsias sobre qual é o mais extenso rio do mundo, se é o Amazonas ou o Nilo. Quando se fala em volume de água, porém, o grande rio sul-americano é imbatível. 

Essa grandiosidade não se limita a um único rio – a bacia hidrográfica do rio Amazonas possui mais de 1.100 afluentes, muitos deles com mais de 1.500 km de extensão. Um desses afluentes, o rio Madeira, tem cerca de 4.800 km e entra na lista dos 10 maiores rios do mundo. 

De acordo com algumas estimativas, a bacia Amazônica concentra cerca de 20% de toda a água doce superficial do mundo. Em tempos de fortes chuvas e de enchentes na região, conforme apresentamos na última postagem, esse verdadeiro mundo de águas está com mais água do que nunca. 

Uma pergunta que ouço com bastante frequência e que, nesses tempos de falta de água em muitos reservatórios de usinas hidrelétricas das Regiões Centro-Oeste e Sudeste, deve incomodar muita gente: por que não existem mais usinas hidrelétricas na região da Amazônia? A resposta não é tão simples, mas vamos tentar responder. 

A primeira grande usina hidrelétrica construída na Amazônia foi Tucuruí, instalada no rio Tocantins no Pará e feita “na marra” nos tempos do Regime Militar. As obras começaram em 1976 e a Usina inaugurada com muita pompa e circunstância em 1984. Aqui precisamos destacar dois pontos – antes de 1986, ano em que foi publicada a Resolução CONAMA 001, não existia a necessidade da realização de estudos sobre os impactos ambientais de obras.  

Segundo ponto – há época, quando um General com o uniforme cheio de “estrelas” abria um mapa e dizia que queria que se construísse uma usina hidrelétrica em um determinado local, ninguém em sã consciência ousava contrariar essa ordem. Lembro aqui que, entre 1964 e 1985, o Brasil viveu sob um regime militar de exceção (muitos usarão a definição “ditadura militar”). 

Esse período foi marcado por jingles publicitários como “esse é um país que vai prá frente…” ou definições como “Brasil Grande” e “milagre econômico brasileiro“. São dessa mesma época obras como Itaipu, Usinas Nucleares de Angra dos Reis, ponte Rio Niterói, Rodovia Transamazônica, entre muitas outras. 

Citando apenas um dos grandes problemas ambientais de Tucuruí – o projeto inicial previa a remoção de 85% da vegetação da área onde seria formado o lago da hidrelétrica. Por causa de inúmeras “irregularidades operacionais” (para não usar a palavra corrupção) apenas 5% da vegetação foi suprimida antes do enchimento do lago. Para falar o mínimo, alagar áreas com vegetação resulta em uma série de problemas na qualidade da água, gera emissões de gases de efeito estufa e prejudica a vida aquática. 

A construção de Tucuruí também provocou uma série de impactos sociais – milhares de famílias ribeirinhas foram removidas a força de suas propriedades e reassentadas em outros locais. Grande parte dessas populações não possuía documentos que comprovassem a posse das terras e acabaram recebendo indenizações muito baixas – muita gente não recebeu nada. 

Nos dias atuais, quando temos uma rigorosa legislação ambiental e um mundo inteiro preocupado com a preservação da Floresta Amazônica, seria muito pouco provável que a construção de uma obra tão impactante para o meio ambiente fosse aprovada. 

Uma outra obra que pode ajudar a explicar as dificuldades da construção de uma usina hidrelétrica na Amazônia é Balbina, empreendimento que apresentamos em uma postagem anterior. Instalada no rio Uatumã, no município de Presidente Figueiredo no Amazonas, essa obra foi planejada ainda nos tempos do Regime Militar e concluída em 1989. 

Um dos grandes problemas da Usina Hidrelétrica de Balbina é a sua baixíssima produção de energia elétrica – são cerca de 112 MW na temporada das chuvas, caindo para cerca de 50 MW no período da seca. Com uma barragem com altura de 51 metros, Balbina formou um espelho d’água com uma área total de 2.360 km², quase duas vezes o tamanho do município do Rio de Janeiro

Pesquisadores da UFAM – Universidade Federal do Amazonas, e do INPA – Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, tiveram a ousadia de alertar as autoridades sobre os gravíssimos danos ambientais que a construção de Balbina desencadearia em uma extensa região da Amazônia – os Generais, é claro, não se sensibilizaram nenhum pouco e a obra prosseguiu. 

O exemplo de Balbina evidencia uma característica predominante na bacia Amazônica – a baixíssima declividade dos terrenos. Porto Velho, a capital do Estado de Rondônia, ilustra bem essa situação: a cidade fica a quase 2 mil km da praia mais próxima no Oceano Atlântico no Pará ou no Amapá, porém, tem uma altitude em relação ao nível do mar de apenas 84 metros. 

As Usinas Hidrelétricas de Santo Antônio e de Jirau, construídas no rio Madeira em Rondônia e inauguradas em 2012 e 2016, respectivamente, foram concebidas para operar a “fio d’água”, ou seja, usando apenas a força da correnteza do rio Madeira para movimentar as suas turbinas. Esse conceito de projeto reduz enormemente a necessidade de grandes reservatórios e, consequentemente, minimiza muito os impactos ambientais da obra. 

O detalhe aqui é o rio Madeira, um rio caudaloso e com uma correnteza poderosa – o rio, aliás, é considerado o segundo do mundo no quesito velocidade da correnteza. Desgraçadamente, o Madeira é uma exceção quando se fala em rios amazônicos – por causa da baixa declividade dos terrenos, a maioria dos rios da região têm correntezas muito lentas. 

Além desses problemas, que já mostram claramente as dificuldades para se construir novas usinas hidrelétricas de grande porte nos rios da Amazônia, existe um outro problema grave – a ação dos grupos de interesse. Falo aqui de grandes grupos construtores, políticos, funcionários públicos e outros “grupos organizados”, que num passado não tão distante se articularam para conseguir realizar grandes obras. Um exemplo dessa verdadeira praga foi a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu no Pará. 

Sem entrarmos em maiores detalhes – siga esse link para ler uma postagem anterior sobre essa obra, o empreendimento foi cercado de irregularidades – no projeto, no licenciamento ambiental, no leilão de concessão, entre muitas outras. Belo Monte foi inaugurada em 2011, a um custo estimado de R$ 30 bilhões. O custo inicial previsto no projeto era de apenas R$ 4 bilhões, o que nos dá uma “vaga” ideia do volume de “feitos e mal feitos” no empreendimento e da montanha de dinheiro público desviado

Agora, respondendo à pergunta do título da postagem: a Bacia Amazônica tem muita água sim, mas existem inúmeras dificuldades técnicas para a construção de grandes usinas hidrelétricas nos rios da região. Essas dificuldades incluem problemas geográficos, terras indígenas, populações ribeirinhas, legislação ambiental, impactos junto à comunidade internacional, entre outros. Além das dificuldades econômicas atuais, a corrupção sistêmica que marcou a realização de algumas desssas grandes obras deixou profundas cicatrizes na sociedade e será difícil retomar grandes projetos num curto prazo. 

Em resumo – é melhor rezar para chover bastante nas regiões onde existem os grandes reservatórios das usinas hidrelétricas do restante do Brasil. É bem mais fácil isso acontecer do que assitirmos obras de grandes hidrelétricas na Amazônia nos próximos anos…

OS DIFERENTES “CLIMAS” DO BRASIL, OU FALANDO DAS ENCHENTES NA AMAZÔNIA

O Brasil é um país de dimensões continentais! 

Imagino que todos os leitores brasileiros aqui do blog já devem ter ouvido inúmeras vezes esse clichê. Para os estrangeiros, essa é uma expressão que costumamos usar em referência ao tamanho do território brasileiro – são 8,5 milhões de km² ou mais de 80% do tamanho da Europa. 

Uma forma de percebemos claramente o que significa esse tamanho todo é nos atentarmos para os diferentes “climas” de cada uma das regiões do país. Nesse momento, parte das regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul estão entrando em uma temporada extremamente seca, onde os baixos níveis dos reservatórios de usinas hidrelétricas têm causado muitas preocupações para as autoridades do setor. 

Já no extremo Sul, principalmente nos Estados de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, o inverno já está mostrando a sua cara. Ao longo dos últimos dias muitas cidades já enfrentaram temperaturas negativas, com fortes geadas nos campos. Enquanto isso, o Ceará apresenta temperaturas bem acima dos 35° C, uma situação que não é muito diferente de outras capitais nordestinas. 

Em uma grande parte da Amazônia, as chuvas estão caindo sem dó – em Manaus, o rio Negro atingiu hoje a cota de 29,98 metros, o mais alto nível em mais de 110 anos de medições sistemáticas. Vamos falar um pouco sobre essa situação complicada na Região Norte do Brasil. 

No Amazonas, 58 dos 62 municípios do Estado estão enfrentando os problemas criados pelas fortes chuvas. De acordo com as autoridades locais, já são mais de 455 mil pessoas afetadas, algo que corresponde a 10% da população do Estado. São basicamente pessoas pobres que moram nas margens dos rios – os famosos ribeirinhos. Cheias nos rios da Amazônia são normais, porém, desde 2012 não chovia tanto na região e, segundo os dados históricos, essa é a segunda maior cheia na região desde 1902. 

Nas partes mais baixas de Manaus, locais onde funcionam as feiras e o comércio popular, já existe uma tradição de se construir “passarelas” com tábuas para permitir a circulação da “clientela” nos períodos de cheia do rio. Esse ano, mesmo com as passarelas, muita gente tem enfrentado água ao nível dos joelhos para conseguir circular. 

Os períodos das enchentes também são conhecidos nas cidades da Amazônia como a época em que o lixo e os resíduos jogados pelas populações em lagoas e igarapés “resolvem” sair para passear pelas ruas e avenidas. A Prefeitura de Manaus informa que já retirou mais de 600 toneladas desse lixo arrastado para o rio Negro. E quem conhece as péssimas condições sanitárias dos bairros pobres de Manaus sabe que muito mais lixo sairá dos terrenos baldios e canais das vilas. 

Além dos transtornos que as águas causam nas ruas e na vida das cidades, a época das cheias é um período de “vacas magras” para os ribeirinhos. Quando o nível dos rios sobe, as águas chegam a avançar dezenas de quilômetros mata a dentro. Os peixes se aproveitam dessas cheias e saem em busca de alimentos espalhados nos solos da mata agora encobertos pelas águas. Eles buscam sementes, frutos, insetos e outros “petiscos”. 

Essa migração dos peixes cria grandes dificuldades para os ribeirinhos, que só conseguem capturar uma fração dos animais que conseguem pescar nos períodos de seca. As águas também encobrem os roçados das famílias onde se planta mandioca, milho e outras culturas de subsistência. 

Por mais irônico que possa parecer, as famílias passam a encontrar dificuldades para ter acesso a água potável no período das cheias. Todos já ouviram histórias com números superlativos sobre os rios da Amazônia – maiores do mundo num quesito, campeões em volume de água em outros. A água desses rios, porém, não é usada para o consumo das famílias.  

A principal fonte de abastecimento dessas populações são os pequenos igarapés com águas cristalinas, que em épocas de seca estão por toda a parte. Na época das cheias, é preciso buscar água a grandes distâncias navegando em pequenas canoas. 

Os igarapés são afloramentos das águas subterrâneas dos lençóis freáticos e aquíferos, e são contados aos milhares em toda a Amazônia. Quando não dispõem de um igarapé nas proximidades de suas casas, as populações precisam cavar poços para garantir o seu abastecimento e aí ficam sujeitas as grandes oscilações do nível do lençol freático – logo após o período das chuvas, a água é encontrada a poucos centímetros de profundidade; conforme o período da seca avança, o nível dessas águas pode baixar dezenas de metros. 

As cheias dos rios também aumentam os riscos de contaminação com doenças como a malária e a febre amarela. Entre 2009 e 2010 eu trabalhei no Estado de Rondônia e um dos primeiros conselhos que recebi dos locais foi o de ficar longe da margem dos rios entre o pôr do sol e as oito horas da noite. Segundo me informaram, os mosquitos se concentram nas margens dos rios e esse é o período em que eles têm um nível de atividade mais intensa. O rio Negro é uma exceção a essa regra – suas águas escuras impedem a grande proliferação dos mosquitos. Com a cheia dos rios, as águas trazem os mosquitos para o quintal das casas, aumentando muito os riscos dessas doenças. 

O Amazonas, o maior e mais famoso rio da região, tem mais de 1.100 rios tributários, muitos deles com mais de 1.500 km de comprimento. Um exemplo é o rio Madeira, que tem mais de 4.800 km de extensão e que entra na lista dos maiores rios do mundo. Mais de 90% de toda a população da Amazônia, que só no Brasil conta com mais de 23 milhões de habitantes, mora na beira de um desses inúmeros rios

Pode-se afirmar, categoricamente, que a vida dessas pessoas pulsa em sincronia com as águas desses rios. Parte importante dos seus alimentos é retirado das águas dos rios, que também são as “estradas” por onde circulam pessoas e mercadorias, além de fonte de trabalho e renda para muita gente. Apesar de toda essa intimidade com as águas, cheias excessivas como a que vive a região hoje altera completamente o ritmo da vida. 

A circulação de mercadorias e alimentos é prejudicada. O acesso aos hospitais e aos serviços de saúde fica ainda mais difícil, ganhar o pão de cada dia fica praticamente inviável para muitos. A vida na “idílica” Floresta Amazônica não é exatamente o paraíso na terra que muitos ecologistas de carteirinha, especialmente estrangeiros, costumam pregar pelos quatro cantos do mundo. A vida por lá, para quem conhece, é cheia de altos e baixos.

Como eu sempre comento nas postagens aqui do blog, a preservação de toda a grande floresta equatorial é fundamental. Muito longe de ser o “pulmão do mundo” ou a campeã mundial da biodiversidade, a Floresta Amazônica é um dos maiores patrimônios de nós brasileiros. 

Entretanto, algo que eu também costumo citar com frequência, é que mais de 10% da população brasileira vive na Amazônia. Normalmente, toda essa gente costuma ser esquecida pelos grandes líderes, famosos e celebridades internacionais, preocupados com a “salvação da floresta”. E são justamente em momentos de tragédia como nessa grande cheia aqueles em que essas populações precisam ser mais lembradas e ajudadas. 

Preservar a Floresta Amazônica é importante. Entretanto, cuidar dos “amazônidas”, uma forma que eu acho muito simpática de se referir às populações locais, é fundamental! 

IRRIGAÇÃO EM TEMPOS DE EMERGÊNCIA HÍDRICA

Quando os primeiros exploradores europeus chegaram à costa brasileira no ocaso do século XV, encontraram uma densa cobertura florestal ao longo do litoral, com árvores chegando até a linha da areia das praias. Essa era a Mata Atlântica, uma floresta que há época se estendia do litoral do Rio Grande do Norte ao litoral Norte do Rio Grande do Sul.  

Com todos devem saber, perto de 90% dessa floresta foi destruída ao longo de nossa colonização. Em trechos do litoral Sul do Estado do Rio de Janeiro, de São Paulo e do Paraná, ainda existem fragmentos litorâneos da Mata Atlântica, o que nos dá uma boa ideia de como era essa floresta naqueles tempos. 

A primeira impressão que os exploradores tiveram era que toda a terra era coberta por densas florestas. Após o início da colonização efetiva do Brasil a partir da década de 1530, foram organizadas expedições para vasculhar mais ao interior do território. Na região Nordeste, esses exploradores perceberam rapidamente que a floresta tinha uma largura máxima de 80 km e que o interior nordestino tinha um clima semiárido. 

Com o passar do tempo, os Governantes da Colônia organizaram expedições melhor estruturadas para avançar mais a fundo território a dentro – essas expedições eram conhecidas como bandeiras e seus membros conhecidos como bandeirantes. Talvez você não saiba, mas, além das conhecidas bandeiras organizadas pelos paulistas, existiram várias bandeiras nordestinas. Essas bandeiras descobriram que, muito além do semiárido nordestino, existia um tipo de vegetação e um clima diferente, que parte do ano era chuvosa e na outra seca. Falamos aqui do Cerrado

Esse grande “desertão” interior do território brasileiro, que passou a ser chamado apenas de sertão, com terras ácidas e de pouca fertilidade, acabou ficando em um plano secundário até poucas décadas atrás. No começo da década de 1970, a EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, desenvolveu sementes de grãos adaptadas aos solos e ao clima do Cerrado, mudando completamente os destinos do bioma. Graças a essas sementes e aos grandes recursos hídricos da região, o Cerrado acabou transformado no novo celeiro do Brasil, quiçá do mundo

Além dos solos característicos, o Cerrado possui um clima muito peculiar – um período quente e chuvoso em cerca de metade do ano, seguido por um período quente e muito seco a seguir. Com um manejo adequado e com uso de irrigação, o bioma garante duas safras agrícolas por ano, uma vantagem altamente competitiva quando comparada a outros países de clima temperado, onde só é possível uma safra anual. 

O alerta de emergência hídrica, decretado pelo SNM – Sistema Nacional de Meteorologia, no último dia 27 de maio e sobre o qual falamos na última postagem, pode indicar que muitos produtores rurais terão problemas de falta de água para a irrigação de suas plantações. Esse alerta indica que as chuvas ficarão abaixo da média em grandes áreas dos Estados de Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais, São Paulo e Paraná, áreas essas que estão dentro da bacia hidrográfica do rio Paraná. 

Solos férteis, sol e água, além de gases atmosféricos como o gás carbônico, são os insumos fundamentais para a pratica da agricultura. E quando falamos em água, falamos em muita água. De acordo com dados da FAO – Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, 70% da água disponível no mundo é utilizada para irrigação de plantações. No Brasil, esse índice é ligeiramente maior – são 72%. 

Porém, isso não é tudo – a tendência é que haja um aumento de 50% no uso da água em sistemas de irrigação nos países mais desenvolvidos até o ano de 2025. Em países em desenvolvimento como o Brasil, projeta-se um aumento de até 18% no consumo no mesmo período.  

Para complicar ainda mais a situação, os chineses tem aumentado continuamente as suas importações de alimentos e vivemos uma forte pressão para o aumento da oferta de grãos. Ou seja, estamos gastando volumes cada vez maiores de água para irrigação de nossos campos, especialmente na região do Cerrado. Em tempos de poucas chuvas, isso representa um grande problema. 

De acordo com a EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, a irrigação é um método artificial de aplicação de água na agricultura, cujo principal objetivo é viabilizar os cultivos nos locais onde a escassez de água limita a atividade agrícola. A aplicação da água pode ser feita das seguintes formas: total, suplementar, com déficit hídrico e de salvação

Irrigação total é aquela onde toda a água necessária para atender a demanda hídrica das culturas é aplicada via irrigação. Irrigação suplementar ocorre quando é necessário compensar as perdas de água das chuvas que evaporaram com o calor. Irrigação com déficit ocorre quando se planeja atender somente uma fração da demanda hídrica da cultura e irrigação de salvação quando se planeja irrigar somente num período relativamente curto ou em um estágio do cultivo. Todas essas técnicas de irrigação são o resultado de milhares de anos de experiência da humanidade com o cultivo da terra em diferentes solos e climas. 

Foram desenvolvidas diferentes técnicas de irrigação ao longo das diferentes épocas. As mais usadas atualmente são: 

Irrigação de superfície: a água é aplicada de forma concentrada, em sulcos de irrigação abertos paralelamente às fileiras das plantas. É um método que apresenta baixa eficiência no uso da água. É recomendado apenas para situações específicas de solos de textura médio-argilosa e topografia plana. Essa é a técnica mais tradicional, que vem sendo usada desde a antiguidade, normalmente utilizada por pequenos produtores. A água corre pelos sulcos usando a força da gravidade ou usando sistemas elementares de bombeamento: manual, por tração animal ou por “moinhos” de vento; 

Irrigação por aspersão: a água é aplicada por emissores chamados de aspersores, que possuem bocais, por onde a água é aspergida sob pressão, em forma de uma chuva artificial (vide foto). Os aspersores são conectados por conjuntos de tubulações a uma bomba centrífuga, responsável pela pressurização do sistema. É um método que apresenta uma eficiência de aplicação de água em torno de 70% a 80%.  

Irrigação localizada: a água é aplicada de forma localizada, próxima às fileiras das plantas. O sistema de irrigação mais utilizado é o gotejamento subsuperficial, no qual as linhas gotejadoras são enterradas a uma profundidade de 25 centímetros, entre as fileiras duplas das plantas. Apresenta elevada eficiência de aplicação de água – 90% a 95%. Como desvantagem, apresenta elevado investimento inicial com a aquisição das linhas gotejadoras, tubulações, filtros e acessórios, sendo por isso ainda pouco utilizada. 

Aqui no Brasil, a irrigação por aspersão é a mais utilizada. Além das perdas de água por evaporação, esses sistemas costumar apresentar grandes desperdícios de água por problemas em mangueiras, bombas ou simplesmente pela operação inadequada – muitos produtores fazem a irrigação em horários de excessivo calor, o que resulta em perdas ainda maiores. 

Sistemas de irrigação localizada por micro gotejamento, que são os mais eficientes e são comuns em países com agricultura altamente desenvolvida como é o caso de Israel, são extremamente caros para a realidade de muitos dos nossos produtores rurais e farão muita falta nesse momento de rios com baixos níveis e chuvas raras em muitas regiões. 

Em tempos com mudanças climáticas em andamento e com variações visíveis nos padrões de chuva em muitas regiões de nosso país, será cada vez mais importante que se façam discussões sérias sobre os usos e as perdas de água na nossa agricultura. Isso é fundamental em um país que está se transformando numa das maiores potências agrícolas do mundo. 

ALERTA DE EMERGÊNCIA HÍDRICA DECRETADO EM CINCO ESTADOS

O SNM – Sistema Nacional de Meteorologia, emitiu no último dia 27, um alerta conjunto de emergência hídrica para a área da bacia hidrográfica do rio Paraná, na região que abrange os Estados de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná. O comunicado informa que a região terá chuvas abaixo da média entre os meses de junho e setembro de 2021

Criado oficialmente no dia 3 de maio de 2021, o SNM reúne serviços do INMET – Instituto Nacional de Meteorologia, INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e CENSIPAM – Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia, e tem como objetivo o fortalecimento das competências centrais de cada uma das instituições.  

Esses órgãos federais são vinculados MAPA – Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, MCTI – Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações e MD – Ministério da Defesa. Entre outros objetivos, o SNM tem a missão de eliminar a sobreposição de atividades e gerar uma cadeia de processos, produtos e dados interligados e complementares

Além das entidades citadas, o alerta do SNM também foi subscrito por todos os órgãos federais ligados à meteorologia, a ANA – Agência Nacional de Águas e o CEMADEN – Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais. 

O alerta do SNM informa que “a análise das chuvas entre outubro de 2019 a abril de 2021 para a bacia do rio Paraná indica que, com exceção de alguns meses quando as precipitações ficaram acima da média climatológica, durante a maior parte do período houve predomínio de déficit hídrico de precipitação, principalmente a partir de fevereiro de 2021.” 

Os dados indicam que o período entre os meses de junho, julho e agosto será caracterizado por um menor volume de chuvas na bacia hidrográfica do rio Paraná. O alerta também esclarece que os dados são consistentes com avaliações de outros centros internacionais de previsão climática. No mês de maio, citando um exemplo, os volumes acumulados de chuva foram de 27 mm na região da bacia do Alto rio Paraná – no mesmo período do ano passado, o volume acumulado havia sido de 98 mm

Conforme comentamos em postagens publicadas nas últimas semanas, os baixos níveis nos reservatórios de usinas hidrelétricas nas Regiões Sudeste e Centro-Oeste representam uma grande ameaça para a geração de energia elétrica no país. De acordo com dados do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico, as chuvas abaixo da média histórica resultaram nos piores volumes de água acumulada nos reservatórios no período de setembro de 2020 a maio de 2021 em uma série de 91 registros. 

O CMSE – Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico, inclusive, realizou uma reunião em caráter extraordinário no mesmo dia 27 de maio, para avaliar as condições de suprimento energético ao SIN – Sistema Interligado Nacional. Entre outras medidas, o CMSE “decidiu implementar flexibilizações das restrições hidráulicas relativas às usinas hidrelétricas Jupiá, Porto Primavera, Ilha Solteira, Três Irmãos, Xingó, Furnas e Mascarenhas de Moraes.”  

Além de garantir a geração de energia elétrica, insumo fundamental para o país, essas medidas têm como objetivo garantir o fluxo dos caudais e a preservação do uso da água ao longo do período seco de 2021. Falamos aqui do abastecimento de populações, irrigação de plantações, navegação hidroviária, entre outros usos. 

Um claro indicador da situação crítica no alto curso da bacia hidrográfica do rio Paraná é o rio Grande que, junto com o rio Paranaíba, forma o rio Paraná. O principal reservatório dessa sub-bacia hidrográfica é Furnas, mais conhecido como o “mar de Minas”. De acordo com dados do ONS do dia 27 de maio, Furnas está com 36,87% de sua capacidade. Os reservatórios das Usinas Hidrelétricas Água Vermelha e Marimbondo estão com níveis extremamente baixos – 8,70% e 6,59%, respectivamente. 

Na sub-bacia do rio Paranaíba, a situação também não é nada animadora – a exceção da Usina Hidrelétrica de Batalha, que tem seu reservatório com 51,65% da sua capacidade máxima, todos os demais reservatórios estão com capacidades entre 11 e 28%, valores muito baixos quando se considera que o período mais seco do ano ainda está para começar. 

Os baixos caudais nos rios Grande e Paranaíba são refletidos diretamente no reservatório da Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira, o primeiro grande aproveitamento das águas do rio Paraná. Os dados do ONS indicam que o nível do reservatório está em 47,03% da sua capacidade máxima. 

Os efeitos da seca também são visíveis no alto da bacia hidrográfica do rio Tocantins. O reservatório da Usina Hidrelétrica de Serra Mesa em Goiás está em 36,95% da sua capacidade máxima. Esse reservatório funciona como um regulador dos caudais do rio Tocantins e garante o funcionamento de várias usinas geradoras a jusante. 

Felizmente, o país ainda pode contar com o potencial de geração de grandes usinas hidrelétricas como Tucuruí, localizada no mesmo rio Tocantins, mas que está com seu reservatório praticamente cheio. Outro caso é o de Itaipu, localizada no médio curso do rio Paraná e cujo reservatório também está com um ótimo nível de armazenamento. Apesar dessas boas notícias, a situação requer muito cuidado. 

Um destaque importante que não pode ficar de fora desta breve análise é a forte produção agrícola desenvolvida na região da bacia hidrográfica do alto rio Paraná. Em qualquer lugar do mundo, a agricultura é a maior consumidora de água – em média, perto de 70% dos recursos hídricos de uma região são consumidos pelas atividades agrícolas. Os principais “gastadores de água” são os sistemas de irrigação das plantações. 

É comum encontrarmos nessas regiões fazendas que utilizam sistemas com tecnologias obsoletas, onde há um consumo exagerado de água e, portanto, um grande desperdício. São mangueiras vazando, pivôs desregulados e controle das operações feitos por funcionários mal treinados. Como resultado, há um consumo exagerado de água. De acordo com as estimativas, 2021 será um ano de safra recorde em várias culturas, o que num período de crise hídrica é um grande problema. 

Em um momento em que a pandemia da Covid-19 ainda não está totalmente controlada e em que a economia ainda sofre com restrições para a livre circulação de pessoas, a “salvação da lavoura” da economia do país está vindo, literalmente, da agropecuária. E como há muitos interesses em jogo, corre-se o risco de as autoridades fazerem vista grosso a alguns exageros dos produtores agrícolas no quesito consumo de água. 

Além de torcermos por boas chuvas no final do ano, precisamos cuidar do bom gerenciamento dos recursos hídricos nesses meses de seca, especialmente nos Estados citados no alerta do SNM. Como demostramos, a crise que estamos vivendo ameaça muito mais do que a geração de energia elétrica. 

USINA SOLAR FLUTUANTE DO LAGO DE SOBRADINHO – UMA BOA IDEIA?

Na postagem anterior fizemos um rápido diagnóstico da situação dos reservatórios das usinas hidrelétricas instaladas na calha do rio São Francisco. Segundo as informações do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico, o reservatório de Sobradinho está com 64,59%, Três Marias com 66,71% e Itaparica com 52,44%. Esses não são os níveis ideais para o começo do período da seca, mas, como eu citei na postagem: “qualquer nota acima de 5 já é suficiente para passar de ano”. 

A barragem da Usina Hidrelétrica de Sobradinho é um destaque a parte aqui no blog. O processo tumultuado e injusto na remoção das famílias que viviam nas áreas que seriam inundadas pelo lago foi altamente traumatizante e geraram inúmeras postagens aqui no blog. Os altos e baixos nos níveis do reservatório ao longo dos anos também chamam muito a nossa atenção. Sobradinho é sempre destaque aqui em Vida, Água e Companhia. 

Uma notícia relacionada a Sobradinho, que ganha maior relevância nesses tempos de reservatórios baixos e riscos de falta de energia elétrica no curto e médio prazo, é um projeto piloto que vem sendo implementado pelo Governo Federal através da CHESF – Companhia Hidrelétrica do São Francisco. Trata-se de uma usina solar fotovoltaica flutuante com uma potência de geração de 1 MW

Essa usina piloto é formada por 3.792 painéis fotovoltaicos montados sobre uma base flutuante e que cobrem uma área total sobre o espelho d’água de 11 mil metros quadrados. Essa estrutura é fixada ao fundo do lago através de um sistema de cabos e tem capacidade para suportar também o peso dos trabalhadores que precisam circular entre os painéis para fazer a manutenção. 

O “ovo de Colombo” desse projeto é o uso de uma “área” que já pertence a usina hidrelétrica – o Lago de Sobradinho, e toda a infraestrutura de redes de transmissão de energia da própria usina. Existem inúmeras usinas solares já em operação e/ou em instalação por toda a Região Nordeste – as áreas onde esses empreendimentos estão instalados foram compradas ou alugadas, o que gera um custo extra nos investimentos. Essas unidades também precisam ser dotadas de linhas de transmissão para transportar a energia elétrica gerada para os consumidores. Em Sobradinho nada disso é necessário. 

A usina flutuante de Sobradinho foi inaugurada no início de agosto de 2020 e seus resultados estão sendo observados com “lupa”. O Lago de Sobradinho ocupa mais de 4.200 km² quando está em seu nível máximo, tendo espaço de sobra para receber novos módulos flutuantes com painéis fotovoltaicos. Basicamente, o que estamos falando aqui é que existe um enorme potencial para ampliar a capacidade de geração de energia elétrica da Usina de Sobradinho sem a necessidade de alagar mais nenhum km². 

Essa “ideia”, sendo testada e comprovada a sua viabilidade técnica/financeira, poderá ser levada para outros reservatórios já existentes, o que aumentaria gradativamente o potencial de geração de energia elétrica do país e sem o ônus dos impactos ambientais. Vamos relembrar dois casos de usinas hidrelétricas altamente ineficientes que citamos nas últimas postagens: a Usina Hidrelétrica de Jurumirim , no rio Paranapanema no estado de São Paulo, e também a famigerada Usina Hidrelétrica de Balbina, no Estado do Amazonas. 

A Usina de Jurumirim foi inaugurada em 1962, e sua represa formou um lago que ocupou uma área total de 450 km² no rio Paranapanema. Essa área, para efeito de comparação, equivale a quatro vezes o tamanho da Baía da Guanabara. Apesar desse fabuloso “estrago” ambiental, a Hidrelétrica só consegue produzir 40 MW de energia. Em 2005, foi inaugurada a Usina Hidrelétrica de Ourinhos no mesmo rio Paranapanema. Com uma represa com área de apenas 4,5 km² – um centésimo de Jurumirim, essa hidrelétrica consegue produzir os mesmos 40 MW. 

O caso da Usina Hidrelétrica de Balbina é muito mais gritante. Esse polêmico empreendimento, que foi inaugurado em 1989, fica no rio Uatumã, um dos afluentes do rio Amazonas, a cerca de 200 km de Manaus. O lago que foi formado provocou o alagamento de 2.360 km², o equivalente a quase duas vezes o tamanho do município do Rio de Janeiro. A potência máxima da hidrelétrica é de apenas 112 MW, porém, na temporada da seca, a produção fica próxima dos 50 MW, pouco coisa a mais que a produção de Jurumirim. 

A possibilidade de usar o lago dessas usinas hidrelétricas para a instalação de usinas solares fotovoltaicas flutuantes resultaria num substancial aumento da geração de energia elétrica sem qualquer necessidade de mudar a infraestrutura já instalada – aliás, já existe um projeto nesse sentido em Balbina. Isso seria uma forma inteligente de compensar os gravíssimos prejuízos ambientais e impactos sociais/econômicos provocados tanto pela remoção de populações quanto pela perda de áreas produtivas. 

Já existem notícias que tratam da implantação de um outro projeto piloto de usina fotovoltaica flutuante no reservatório da Usina Hidrelétrica de Boa Esperança, no Estado do Piauí. A previsão é de se atingir uma potência instalada de 1,25 MW. Que seja muito bem-vinda. 

Um problema importante que afeta lagos e represas em regiões quentes são as perdas de água por evaporação. Esse problema fica ainda mais grave quando o espelho d’água não é muito profundo, o que facilita o aquecimento e a evaporação da água. Com a instalação de painéis fotovoltaicos flutuando sobre a lâmina d’água, em tese, está se criando uma área de sombra que pode amenizar as perdas de água por evaporação. A presença da água também ajuda a reduzir a temperatura dos painéis, aumentando a sua eficiência.

Por outro lado, essa mesma sombra também pode estimular o crescimento de plantas e de animais aquáticos prejudiciais ao ecossistema do lago. É por isso que o estudo completo de todos os impactos criados pela instalação desse projeto piloto – impactos econômicos da geração de energia elétrica e também na fauna e flora do lago, são tão importantes. A história da humanidade está cheia de exemplos de grandes ideias que se transformaram em fabulosos desastres. 

O desenvolvimento tecnológico nos últimos anos tem resultado na produção de placas fotovoltaicas cada vez mais eficientes e baratas. Esse tipo de geração elétrica vem crescendo rapidamente aqui no Brasil e o país contava com um total de 114 parques fotovoltaicos no final de 2020. Esse tipo de geração elétrica atingiu a importante marca de 7,5 GW em 2020, o que equivale à metade da capacidade instalada da Usina Hidrelétrica de Itaipu.  

De acordo com dados da ABSOLAR – Associação Brasileira de Energia Solar, o preço das placas solares e dos demais equipamentos caiu cerca de 90% nos últimos 10 anos, o que vem incentivando cada vez mais o crescimento do setor.  A maioria dos empreendimentos ficam localizados na Região Nordeste. 

Além dos reservatórios de usinas hidrelétricas, a ideia das usinas fotovoltaicas flutuantes também pode ser levada para reservatórios de abastecimentos de água, rios e canais de irrigação. Dois exemplos na minha vizinhança com grande potencial para receber essa iniciativa – a Represa Guarapiranga, que ocupa uma área com cerca de 23 km² na Zona Sul da Cidade de São Paulo, e o rio Pinheiros, que tem cerca de 25 km de extensão com uma largura média do canal de 100 metros. 

Em nossa sociedade moderna, é impossível imaginarmos a vida sem os confortos e comodidades criados pela energia elétrica. Logo, qualquer nova forma de produzir essa energia com baixos impactos ambientais será sempre muito bem-vinda! 

Que venham as usinas solares fotovoltaicas flutuantes… 

A SITUAÇÃO DOS RESERVATÓRIOS DO NOSSO BOM E VELHO RIO SÃO FRANCISCO

Postagens sobre o rio São Francisco, suas grandes hidrelétricas e seus gigantescos problemas ambientais são razoavelmente frequentes aqui no blog. O São Francisco está muito longe de ser um dos maiores rios brasileiros – rios das bacias hidrográficas do Amazonas, do Paraná e também do conjunto dos rios Tocantins/Araguaia superam com folga, em tamanho e volume de água, o nosso Velho Chico. Porém, quando se fala em importância social e de integração nacional, o rio São Francisco ganha de lavada. 

A relevância do rio São Francisco começou ainda nos primeiros tempos da colonização do país. As margens do rio passaram a sediar grandes fazendas de criação de gado. Essa atividade passou a ganhar uma enorme importância nessas regiões quando os conflitos entre os criadores de gado e os plantadores de cana-de-açúcar se intensificaram. Os animais invadiam as plantações e devoravam com prazer os brotos adocicados de cana.  

Uma decisão do Rei de Portugal a favor dos produtores de cana e açúcar determinou a expulsou de todas as boiadas do litoral nordestino. De acordo com a Carta Régia, os criadores precisavam manter seus animais a, no mínimo, 60 km das plantações. Muitos criadores de gado seguiram as margens do rio São Francisco, buscando pastagens para seus animais nos sertões da Caatinga

Outro momento quando o rio São Francisco mostrou toda a sua importância começou após as primeiras notícias da descoberta de jazidas de ouro na região das Geraes. Relembrando, bandeirantes paulistas descobriram grandes reservas auríferas na Serra do Sabarabuçu, no coração da região que passou a ser conhecida como Minas Geraes, em 1693. Essa notícia se espalhou rapidamente por todo o Brasil e o rio São Francisco se transformou na principal via de ligação entre o litoral e as áreas de mineração.  

Em menos de 50 anos, cerca de 2/3 de toda a população colonial brasileira se deslocou para a região das Minas Geraes, o que nos dá uma ideia do impacto da descoberta das minas de ouro e da importância do rio São Francisco para toda essa gente. Longos trechos navegáveis do rio eram usados para o transporte de pessoas e mercadorias. Onde a navegação não era possível, caminhos marginais ao longo da calha do rio eram as opções. 

Outro momento de grande destaque para o rio São Francisco começou no início do século XX, época em que teve início o aproveitamento energético das águas do rio. A primeira unidade geradora foi a Usina Hidrelétrica de Angiquinho em 1913. O empreendimento pioneiro contava com três turbinas – uma de 175 kVa, uma segunda de 450 kVa e a terceira com 625 kVa. A energia gerada na unidade era transportada por uma rede elétrica a uma distância de 24 km até as fábricas de Delmiro Gouveia na cidade de Pedras, no interior do Estado de Alagoas.  

Foi a partir da década de 1940 que o aproveitamento energético do rio São Francisco ganhou um fortíssimo impulso. Destaque para o complexo de Paulo Afonso, que teve a sua primeira usina hidrelétrica – Paulo Afonso I, inaugurada em 1954, e a última – Paulo Afonso IV, em 1979. Outros marcos no setor foram as Usinas Hidrelétricas de Três Marias, concluída em 1961, e Sobradinho, que entrou em operação em 1979, entre outros empreendimentos. 

A grande importância que o rio São Francisco ganhou no campo da geração de energia elétrica não foi seguida de maiores cuidados com a saúde e a qualidade ambiental de suas águas e margens. O rio sofreu ao longo de vários séculos com a intensa degradação provocada por atividades de mineração, agricultura e pecuária, siderurgia (com destaque para a derrubada de matas para a produção de carvão para queima nos altos fornos), entre outras. O resultado desse conjunto de agressões aparece na redução dos caudais do Velho Chico. 

Um verdadeiro “termômetro” da saúde do rio São Francisco é o Lago de Sobradinho – ao longo das últimas décadas, o espelho d’água vem apresentando enormes variações nos seus níveis, um problema que extrapola as atividades de geração de energia elétrica. As sucessivas reduções nos níveis de água afetam o abastecimento de populações, as indústrias e, principalmente, a produção agrícola – as margens do Lago de Sobradinho abrigam enormes plantações de frutas e outras culturas irrigadas. 

Em meados de novembro de 2017, citando um exemplo dos altos e baixos de Sobradinho, o nível do reservatório estava em 2,8%, o mais baixo desde a sua formação. Cerca de um mês depois, graças à chegada do período das chuvas, o nível do reservatório subiu um pouco e atingiu a marca de 4,16%. A postagem publicada há época afirmava que “Sobradinho ainda estava na UTI (Unidade de Terapia Intensiva), mas já respirava sem aparelhos”. 

Em outro momento, em dezembro de 2019, o nível do reservatório se encontrava com apenas 25% da sua capacidade. Pouco mais de seis meses depois, em julho de 2020, o Lago de Sobradinho já estava com 88,8% de sua capacidade, o maior volume de água registrado desde 2012. As outras duas grandes represas do rio São Francisco – Três Marias e Itaparica, também estavam esbanjando saúde há época com 88,66% e 84%, respectivamente. 

Hoje, de acordo com dados do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico, do dia 25 de maio, o reservatório de Sobradinho está com 64,59%, Três Marias com 66,71% e Itaparica com 52,44%. Os níveis atuais não são tão confortáveis como os do ano passado, mas, como se dizia nos meus tempos do ensino fundamental, “qualquer nota acima de 5 já é o suficiente para passar de ano”. 

A Usina Hidrelétrica de Sobradinho (vide foto) possui uma capacidade de geração de energia elétrica de 1 GW. Porém, a ideia inicial para a construção da sua grande barragem foi a de atuar como uma regularizadora dos caudais do Baixo rio São Francisco. A jusante de Sobradinho (correnteza abaixo) estão localizadas as Usinas Hidrelétricas Paulo Afonso I, II, III e IV, além de Moxotó, que geram uma potência total de 4,2 GW.  

Em 1988, foi inaugurada a Usina Hidrelétrica de Itaparica, que teve seu nome mudado para Luiz Gonzaga (1912-1989) – cantor, compositor e “Rei do Baião”. Em 1994, foi a vez da inauguração da última grande usina hidrelétrica do rio São Francisco – Xingó, com potência instalada de 3,16 GW. 

No trecho do Alto rio São Francisco encontramos a Usina Hidrelétrica de Três Marias, concluída em 1961 e com uma capacidade total de geração de 396 MW. A barragem dessa represa, que tem cerca de 2,7 km de extensão, foi durante muito tempo a maior barragem construída pelo sistema de aterro do mundo. O espelho d’água pode atingir uma área total de 1.100 km² e armazenar um volume de 21 bilhões de m³ de água. 

Essa rápida exposição mostra a posição de destaque que o rio São Francisco atingiu ao longo das últimas décadas na área de geração de energia elétrica. Os níveis de água armazenados atualmente em suas represas garantirão a operação contínua de todo seu conjunto de usinas hidrelétricas por muitos meses, ajudando a suprir parte importante das demandas energéticas nesses tempos em que outros reservatórios estão “quase” secos. 

A importância do rio São Francisco precisa ser estendida também para o lado social – dezenas de cidades dependem das suas águas para o abastecimento de suas populações. Muitos trabalhadores precisam dessas águas para pescar e navegar, enquanto muitos outros utilizam as águas para irrigar as suas plantações. Preservar o rio e todos os seus recursos – ambientais, sociais e econômicos, é essencial. 

Um dos ícones da situação crítica em que se encontra o São Francisco é o surubim, um peixe que já símbolo do rio. Antes abundante nas águas, o peixe é cada vez mais difícil de ser avistado ou capturado. Um peixe de rios da Amazônia, o cachara, que é muito parecido com o surubim, passou a ser “importado” e vendido como “surubim genérico” em mercados de vilas e cidades às margens do Velho Chico. 

Se isso não é um sinal da decadência do rio, eu não sei dizer o que seria… 

USINA HIDRELÉTRICA DE BALBINA: UM RÁPIDO ESTUDO DE CASO

Num momento em que o país está correndo o risco de enfrentar graves problemas na geração de energia elétrica por causa dos baixos níveis de muitos reservatórios, é importante um olhar crítico para avaliarmos nossos erros e acertos nessa área. Na última postagem falamos da Usina Hidrelétrica de Jurumirim, um péssimo exemplo de projeto. 

Jurumirim fica no rio Paranapanema no Estado de São Paulo e foi concluída no início da década de 1960. O empreendimento criou um reservatório com uma área total alagada de 450 km² com a promessa de gerar 98 MW – o máximo de energia que a hidrelétrica consegue gerar, entretanto, é 40% desse valor.  

Em 2005, no mesmo rio Paranapanema, foi inaugurada uma outra unidade geradora, a Usina Hidrelétrica de Ourinhos. Alagando uma área com apenas um centésimo de Jurumirim (cerca de 4,5 km²), essa hidrelétrica consegue gerar a mesma quantidade de energia elétrica, dando um exemplo de eficiência e respeito ao meio ambiente.

Jurumirim está longe de ser a usina hidrelétrica menos eficiente do Brasil. A grande campeã nessa categoria é a Usina Hidrelétrica de Balbina, instalada no município de Presidente Figueiredo e distante cerca de 200 km da cidade de Manaus, capital do Estado do Amazonas. O empreendimento fica no rio Uatumã, um dos afluentes do rio Amazonas, e foi inaugurado em 1989. A barragem da Usina, com 51 metros de altura, provocou o alagamento de uma área total de 2.360 km², quase duas vezes o tamanho do município do Rio de Janeiro.  

Apesar toda essa área inundada, o volume de produção médio de energia elétrica no empreendimento se situa na casa dos 112 MW – em períodos de forte estiagem, a produção elétrica chega a cair para 50 MW, se aproximando muito da produção de Jurumirim. De acordo com especialistas do setor, que fizeram uma correlação entre área alagada e geração de energia elétrica, Balbina é a pior usina hidrelétrica do Brasil dentro de uma lista com 116 empreendimentos analisados.   

Ao contrário de extensas áreas das Regiões Centro-Oeste e Sudeste, que estão sofrendo com reservatórios de usinas hidrelétricas com baixos níveis devido às fracas chuvas do último verão, grande parte da região Norte do Brasil está enfrentando chuvas fortíssimas nesse momento. A cidade de Manaus, citando um exemplo, está enfrentando uma forte cheia do rio Negro, que está no nível de 29,89 metros (dado do dia 24 de maio), muito próximo do recorde histórico. 

Outro exemplo das boas chuvas que caem na região Norte é a Usina Hidrelétrica de Tucuruí, localizada no Estado do Pará. De acordo com dados do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico do dia 24 de maio, o nível do reservatório está com 99,31% de sua capacidade máxima. O reservatório de Balbina também vai muito bem e está com 84,34% de sua capacidade máxima. 

Do ponto de vista técnico, a construção da Usina Hidrelétrica de Tucuruí foi um grande sucesso. A hidrelétrica formou um lago com uma superfície total de 2.850 km², porém, o potencial de produção da usina é da ordem de 8,4 GW, o que coloca Tucuruí na seleta lista das mais importantes geradoras de energia elétrica do Brasil. Infelizmente, todo esse sucesso se deu com grandes impactos ambientais e, principalmente, sociais. Siga esse link para maiores detalhes. 

O polêmico e ineficiente empreendimento de Balbina foi concebido durante o período dos Governos Militares (1964-1985), uma época em que não se tinha quase nenhum espaço para contestar decisões governamentais das autoridades “estreladas” (entenda-se como Generais) e não havia ainda a previsão legal de estudos sobre os impactos ao meio ambiente, que só surgiu em 1986 com a publicação da Resolução CONAMA 001. A Hidrelétrica de Balbina tinha como principal objetivo fornecer metade da energia elétrica consumida na cidade de Manaus, onde se localizam os importantes Polo Industrial e a Zona Franca, algo que não foi alcançado.  

Pesquisadores da UFAM – Universidade Federal do Amazonas, e do INPA – Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, chegaram a alertar as autoridades do setor elétrico há época, dentro do limite do possível, sobre o erro que seria a construção de Balbina. Isso aconteceu no momento em que a Hidrelétrica ainda estava na fase de projeto e os estudos poderiam ter sido paralisados. As “otoridades” preferiram não dar ouvidos aos especialistas da Região Amazônica e o desastre social e ambiental acabou consumado, criando o que muitos consideram “um dos maiores crimes ambientais que a engenharia já cometeu neste país”.  

Apesar de gerar uma quantidade “irrisória” de energia elétrica, o gigantesco lago de Balbina é um campeão mundial quando se trata da produção e emissão de gases de efeito estufa como o metano (CH4) e dióxido de carbono (CO2). Como aconteceu em outros empreendimentos hidrelétricos brasileiros, grande parte da floresta que existia nas áreas que foram alagadas pelo reservatório não foram suprimidas antes do fechamento das comportas da represa (vide foto).  

Quando foi encoberta pelas águas, essa vegetação começou a apodrecer e a emitir os gases. Nos momentos de seca, quando as águas baixam, essas emissões são ainda maiores. Para cada MW de energia elétrica produzida na Usina Hidrelétrica de Balbina, há uma emissão de 3 toneladas de gases de efeito estufa – numa usina termelétrica convencional essas emissões são 10 vezes menores e se situam na casa de 0,3 tonelada para cada MW produzido. Falando com muita ironia: do ponto de vista ambiental, é mais interessante demolir essa usina hidrelétrica e construir no seu lugar uma termelétrica alimentada a carvão mineral

Outro aspecto altamente negativo criado pela construção de Balbina foi a remoção, muitas vezes a força, dos moradores ribeirinhos. Muito pior – sem conseguir apresentar documentos de posse das terras, a maioria dos desalojados não recebeu qualquer indenização. A abertura de muitos trabalhos braçais durante a fase de obras de Balbina acabou empregando muitos desses desalojados, amenizando momentaneamente a situação. Porém, conforme o grau de complexidade dos trabalhos foi crescendo, as oportunidades de trabalho para essas pessoas foi diminuindo.  

Depois da conclusão do empreendimento, um grande número de famílias desalojadas ocupou uma vila de casas construídas originalmente para receber os trabalhadores das obras. A construtora responsável conseguiu, com aval da Justiça, expulsar uma grande parte dos invasores, alegando que precisava desmontar as casas, que seriam enviadas para um novo canteiro de obras no Estado do Pará.  

Cerca de 250 famílias conseguiram continuar vivendo nessa vila, que alguns anos mais tarde passou a receber a energia elétrica gerada em Balbina. Aqui há uma grande ironia da história – a tarifa cobrada por essa energia elétrica era, simplesmente, a maior tarifa praticada por uma empresa de distribuição de energia no Brasil.  

Os impactos ao meio ambiente também foram fortíssimos, o que foi comprovado através de um recente estudo sobre a biodiversidade existente nas 37 ilhas formadas no lago da Hidrelétrica, que foi comparada com 3 áreas florestais próximas. Foi constatado que a maioria das populações de grandes mamíferos, aves e tartarugas desapareceu das terras dessas ilhas – apenas 0,7% do território das ilhas ainda conservava uma comunidade diversificada de espécies.  

O isolamento de espécies animais em ilhas, conforme os ensinamentos da Biologia da Conservação, é um caminho praticamente sem volta para a extinção de espécies. Estoques limitados de alimentos, falta de diversidade genética e baixos índices de natalidade, estão entre os principais problemas. Os territórios dessas ilhas também ficaram susceptíveis a vendavais, tempestades e incêndios. 

Em resumo – a construção da Usina Hidrelétrica de Balbina foi um dos grandes erros do nosso país na área da geração da energia elétrica, criando imensos impactos ambientais e sociais sobre uma extensa região da Floresta Amazônica, com pouquíssimos benefícios em troca. Não é à toa que muitos especialistas pregam a desativação da Usina e demolição completa da sua barragem.  

Apesar de parecer absurda num primeiro momento, essa ideia traria excelentes benefícios ambientais para toda a extensa região hoje encoberta pelo lago da Hidrelétrica, área que em poucos anos voltaria ser ocupada pela Floresta Amazônica. Um bonus extra: esse “esvaziamento” da represa também liberaria terras dos índios da etnia Waimiri Atroari, que se autodenominam Kinja, que foram alagadas com a construção de Balbina.

Ecologistas “de carteirinha” da Zona Sul do Rio de Janeiro e dos Jardins em São Paulo vibrariam com essa maravilhosa notícia. Ao mesmo tempo, o Governo brasileiro mostraria ao mundo que está realmente interessado na proteção da Floresta Amazônica e que está tomando medidas praticas nesse sentido. E o que perderíamos com isso? Meros 112 MW, um volume de energia que uma PCH – Pequena Central Hidrelétrica, bem projetada e bem resolvida ambientalmente compensaria.

Até arrisco dizer que muitos estrangeiros realmente interessados na preservação da Amazônia até pagariam os custos de desativação de Balbina e de construção dessa nova PCH.

OS BAIXOS NÍVEIS DOS RESERVATÓRIOS DO RIO PARANAPANEMA, OU REFLETINDO SOBRE A CONSTRUÇÃO DAS USINAS HIDRELÉTRICAS

O ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico, é “uma entidade de direito privado responsável pela coordenação e controle das operações de geração e transmissão de energia elétrica do SIN – Sistema Interligado Nacional“. Em diversas postagens anteriores usamos os dados do ONS com informações sobre o nível dos reservatórios brasileiros. Esses dados, analisados em conjunto com outras informações, possibilitam uma visão ampla de como andam as coisas no sistema de geração de energia elétrica em nosso país. 

Com chuvas abaixo da média em muitas regiões, especialmente em áreas das regiões Sudeste e Centro-Oeste onde encontramos importantes usinas hidrelétricas, os dados indicam que teremos problemas na produção de energia elétrica no curto e médio prazo. Apesar do cenário complicado, as autoridades do setor elétrico garantem que não viveremos um “apagão” como o de 2001. 

Num olhar mais atento no informativo do ONS sobre os reservatórios, chama a atenção o baixo nível dos reservatórios do Paranapanema, um importante rio que tem grande parte de sua calha demarcando a divisa entre os Estados de São Paulo e do Paraná. Com pouco mais de 900 km de extensão, o rio Paranapanema possui 11 usinas hidrelétricas que, juntas, geram 2,4 MW

De acordo com os dados do ONS do dia 23 de maio, o maior reservatório do rio Paranapanema, a Represa de Jurumirim, está com 32,89% da sua capacidade máxima (vide foto). A Represa de Xavantes está em 19,12% e a Represa Capivara, em uma situação bem melhor, está em 62,61% da sua capacidade máxima. Esses são os três principais reservatórios do rio. 

As nascentes do rio Paranapanema ficam na Serra dos Agudos, uma extensão da Serra do Mar, a cerca de 100 km do litoral Sul do Estado de São Paulo. Assim como acontece com o rio Tietê, o Paranapanema corre para o interior na direção do rio Paraná. Na língua dos indígenas da região, Paranapanema significa “rio azarado”, talvez numa alusão à grande dificuldade para a navegação em suas águas. O curso do rio é cheio de obstáculos naturais como rochas, canais estreitos, trechos com corrente muito rápida e/ou muito rasos, bancos de areia e trechos com forte declividade. 

De todos os grandes rios paulistas, o Paranapanema é o que tem a melhor qualidade das águas. Uma das razões para isso é a localização de suas cabeceiras em encostas de morros com excelente cobertura vegetal e o trecho inicial localizado na região com a menor densidade populacional do Estado de São Paulo, onde existem grandes extensões de terras com matas nativas parcial e/ou totalmente preservadas. 

A primeira usina hidrelétrica construída no rio recebeu o nome de Paranapanema e foi implantada na cidade de Piraju. As obras da barragem foram iniciadas em 1926, onde foi prevista a instalação inicial de 3 grupos geradores com potência estimada de 2,5 MW, o que era considerado há época como uma usina de grande porte. O projeto previa a implantação sucessiva de novos grupos geradores, o que foi concluído em 1998, quando a usina atingiu a capacidade total de 31 MW.  

Outro marco importante na história do rio Paranapanema foi a construção da Usina Hidrelétrica de Jurumirim. As obras foram iniciadas em 1956, durante a presidência de Juscelino Kubitschek, e concluídas em 1962. Esse foi um período de forte crescimento econômico no país, quando teve início um ciclo de construção de inúmeras usinas hidrelétricas, especialmente no período dos Governos Militares, entre 1964 e 1985, quando o lema era o “desenvolvimento a qualquer custo”.  

A represa de Jurumirim, formada após a construção da barragem, se estende por cerca de 100 km, com uma largura que atinge até 3 km. O espelho d’água do reservatório cobre uma área com, aproximadamente, 450 km², equivalente a quase quatro vezes o tamanho da Baía da Guanabara. Isso nos dá uma ideia do tamanho dos impactos ambientais criados, onde grandes extensões de matas tiveram de ser suprimidas, além da desapropriação de grandes áreas de produção agrícola.  

Apesar do tamanho impressionante do seu lago, a geração de energia elétrica na Usina Hidrelétrica de Jurumirim é muito baixa – o projeto previa a geração de 98 MW, porém nunca se chegou a esse nível de produção. Estudos feitos em 2014 indicam que os dois grupos geradores da Usina só conseguem atingir 40% da capacidade projetada. A represa acabou tendo sua função alterada, passando a atuar como uma reguladora dos caudais de águas do rio Paranapanema. 

Em tempos, felizmente, já distantes, quando não havia a previsão legal de estudos para averiguação dos impactos ambientais que seriam desencadeados pelas obras, não existiam maiores obstáculos para a realização desses empreendimentos e seguiu-se a construção de usinas hidrelétricas “em série” ao longo da calha do rio Paranapanema: 

  • Usina Hidrelétrica Salto Grande, construída entre 1951 e 1958, com potência instalada de 74 MW;  
  • Usina Hidrelétrica Chavantes, construída entre 1959 e 1971, com potência total de 414 MW;  
  • Usina Hidrelétrica Capivara, a maior usina do rio Paranapanema, inaugurada em 1978, com uma potência total de 619 MW;  
  • Usina Hidrelétrica Rosana, concluída em 1987, com potência instalada de 372 MW. 

A partir de 1986, quando foi publicada a Resolução CONAMA 001, do Conselho Nacional do Meio Ambiente, a realização de obras de grande impacto ambiental passou a ficar dependente da elaboração de um profundo estudo dos impactos ambientais decorrentes. Em grandes projetos de usinas hidrelétricas esses estudos costumam levar mais de 5 anos. Nessa nova fase foram construídos os seguintes empreendimentos: 

  • Usina Hidrelétrica Taquaruçu, concluída em 1992, com potência total de 554 MW;  
  • Usinas Hidrelétricas Canoas I e Canoas II, concluídas em 1999, com potências instaladas de 81 MW e 72 MW, respectivamente;  
  • Usina Hidrelétrica Piraju, concluída em 2002, com 80 MW de potência e  
  • Usina Hidrelétrica Ourinhos, concluída em 2005, com uma potência instalada de 44 MW. 

Um caso que chama a atenção nessa lista é a Usina Hidrelétrica de Ourinhoscom um lago com área de 4,5 km², ou seja, com apenas 1/100 da área ocupada pela represa da Usina Hidrelétrica de Jurumirim, a capacidade geradora das duas usinas é a mesma. Isso demonstra que não são apenas a falta de chuvas e os baixos níveis dos reservatórios os grandes responsáveis pelos problemas na área de geração de energia elétrica no país – muitos erros foram cometidos nos projetos e nas construções desses empreendimentos num passado não tão distante. 

A bacia hidrográfica do rio Paranapanema concentra importantes áreas de produção agrícola dos Estados de São Paulo e do Paraná. Essa região era coberta originalmente pela Mata Atlântica e, desde o final do século XIX, começou a ser ocupada por imensos cafezais. Em décadas mais recentes, a região passou a concentrar grandes plantações de cana-de-açúcar e de grãos. Destruição de matas nativas e avanço de frentes agrícolas sempre impactam nas nascentes dos rios, que têm seus caudais diminuidos ao longo do tempo. 

Um exemplo dos impactos ambientais criados pela construção de sucessivas represas no rio Paranapanema é o desaparecimento do surubim-do-Paranapanema, também conhecido como surubim-pirajuense. Essa espécie endêmica de peixe, que é cada vez mais difícil de ser encontrada nas águas do rio, só foi catalogada em 2002 e, muito provavelmente, surgiu há cerca de 15 milhões de anos.  

Em resumo: as águas do rio Paranapanema não estão nem para peixe nem para geração de eletricidade. Precisamos todos refletir muito sobre tudo isso.