AS FONTES DE ÁGUA POTÁVEL NA FLORESTA AMAZÔNICA

Iguarapé

Nas duas postagens anteriores falamos dos problemas criados pelo vazamento de rejeitos de mineração de barragens da empresa Alumina do Norte do Brasil em Barcarena, no Nordeste do Estado do Pará. A empresa é considerada a maior produtora de alumina do mundo, com capacidade de produção anual de 6 milhões de toneladas, e está instalada em Barcarena desde 1995.  

A alumina é a principal matéria prima para a fabricação do alumínio, um metal extremamente leve e resistente, com larga aplicação no mundo moderno, usado na fabricação de uma enorme gama de produtos, que vai de smart phones e computadores até aviões e naves espaciais, passando por embalagens para alimentos, bicicletas, materiais ortopédicos, entre outros produtos. Para a produção de 1 tonelada métrica de alumínio são necessárias 2 toneladas métricas de alumina – para se obter esse volume de alumina são necessárias de 4 a 7 toneladas de bauxita, mineral que passa por todo um processamento industrial para a retirada das impurezas. São justamente estas impurezas que formam os chamados rejeitos de mineração que ficam acumulados nas barragens da mineradora

Grande parte da Floresta Amazônica tem assistido a chuvas acima da média neste verão. Foram estas chuvas que elevaram fortemente os níveis de água retidos nas barragens de rejeitos da empresa em Barcarena, o que acabou resultando no transbordo e liberação de grandes volumes de lama contaminada com altas concentrações de minerais pesados como chumbo, bauxita, fósforo, nitratos e sódio. A empresa nega qualquer tipo de vazamento, porém, relatórios oficiais já confirmaram a contaminação das águas da região de entorno e o Ministério do Meio Ambiente solicitou o cancelamento de todas as licenças ambientais que permitem a operação da empresa. A empresa agora terá de responder judicialmente pelos problemas causados ao meio ambiente e arcar com os custos da reparação dos danos ambientais. 

O vazamento destes rejeitos de mineração contaminou igarapés e lençóis freáticos da região e centenas de famílias estão sem acesso a água potável para o abastecimento de suas casas, lembrando que não há redes públicas de abastecimento na região. A reinvindicação mais imediata desta população é que a empresa passe a fornecer água potável através de caminhões pipa, até que se encontrem fontes alternativas – por exemplo, a escavação de poços artesianos (a água destes poços, armazenada a grandes profundidades, não foi contaminada pelo vazamento). Como a empresa não reconhece que foi ela quem criou o problema, vive-se um complicado impasse. 

Poderá até parecer estranho para vocês, aproveitando o gancho criado por este acidente, mas as populações da Amazônia, em áreas rurais e urbanas, sofrem sistematicamente com a falta de água potável numa região conhecida em todo o mundo como o “paraíso das águas”? Deixem-me explicar: 

A Amazônia é a maior floresta equatorial do mundo e cobre quase metade do território brasileiro. Seu principal rio, o Amazonas, drena mais da metade das águas da América do Sul. Entre seus 1.100 tributários, existem alguns rios com mais de 1.500 km de comprimento – o rio Madeira tem mais de 4.800 km. A quantidade, a extensão e o volume d’água de seus rios tornam pequenos os rios de outros continentes. O conjunto dos rios que formam a Bacia Amazônica apresentam dez vezes mais espécies de peixe que todos os rios europeus reunidos, além de acumular 20% de toda a água fluvial do mundo. Esta gigantesca rede hidrográfica concentra 70% das reservas superficiais de água doce do Brasil.  

Apesar destes números grandiosos e da aparente farta disponibilidade, a água usada diariamente pelas famílias ribeirinhas da Amazônia não vem dos grandes e famosos rios, que carreiam grandes quantidades de argila e precisam passar por tratamento antes do seu uso para o abastecimento – é a água limpa e clara dos igarapés (vide foto) que abastece essa população. Os igarapés são afloramentos das águas subterrâneas dos lençóis freáticos e aquíferos, e são contados aos milhares em toda a Amazônia. Quando a população pobre da Amazônia não dispõe de um igarapé nas proximidades de suas casas, é preciso cavar um poço para assim garantir o abastecimento de água. Poços, aliás, são muito frequentes nas áreas urbanas, onde as regiões periféricas não são atendidas por redes públicas de abastecimento – na cidade de Porto Velho, onde eu morei por quase dois anos, metade da cidade não é atendida por essas redes de abastecimento. Apesar da abundância de água na região, faltam investimentos em estações de tratamento e em redes de distribuição – redes coletores de esgoto praticamente não existem.

O clima amazônico é dividido em apenas duas estações: um período quente e chuvoso e outro mais quente ainda e seco. Na época das chuvas, o solo da Floresta Amazônica se comporta como uma gigantesca esponja, provavelmente a maior do mundo, absorvendo e acumulando imensos volumes de água. Essa será a água que, liberada gradativamente durante o período da seca, alimentará os igarapés e os rios da grande bacia hidrográfica da Amazônia. Existe um, porém, neste período: os rios transbordam e avançam contra as margens da floresta – os igarapés desaparecem sob a inundação. Quem mora nestas áreas sujeitas a inundações terá de pegar uma canoa e um batalhão de latas e potes, e ir até um terreno mais alto para encontrar uma boa fonte de água potável. 

Assim que a temporada das chuvas se encerra, o nível do lençol freático está bem próximo da superfície do solo – se você escavar 10 ou 20 cm, encontrará muita água. Conforme o período da seca vai evoluindo, o nível do lençol freático se reduz dramaticamente – em algumas regiões ele chega a rebaixar em até 50 metros. Neste período de forte baixa do lençol freático, a população que depende dos poços começa a sofrer com a falta de água – os poços, que normalmente tem uma profundidade de uns poucos metros, secam completamente. Muitos igarapés também desaparecem. Vive-se uma verdadeira “seca verde”, algo surreal se comparado às fortes secas que assolam o semiárido brasileiro. 

Ou seja: apesar de viverem na região brasileira (quiçá do mundo) com a maior disponibilidade de água doce, as populações das áreas urbanas, rurais e ribeirinhas da Amazônia sofrem sistematicamente com a falta de água potável. Este desastre ambiental vivido pela população que mora nas cercanias da fábrica da Alumina em Barcarena só faz escancarar o problema.

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