A SAGA DO SISTEMA REPRESA BILLINGS / USINA HIDRELÉTRICA HENRY BORDEN, OU OS DESCAMINHOS DAS ÁGUAS E DA ENERGIA ELÉTRICA

Uma das obras de engenharia mais geniais que eu conheço é o sistema de geração elétrica Represa Billings / Usina Hidrelétrica Henry Borden. Construído a partir dos primeiros anos da década de 1920, esse sistema se valeu do enorme desnível da Serra do Mar entre o Planalto de Piratininga e a Baixada Santista – cerca de 720 metros, para gerar a energia elétrica que impulsionou a industrialização da Região Metropolitana de São Paulo. 

Infelizmente, graças ao nosso total desprezo pelas águas e falta de obras básicas para a coleta e o tratamento dos esgotos da população, além da falta de planejamento urbano, a quase centenária Represa Billings sofre atualmente com a intensa poluição de suas águas e ocupação desordenada de suas margens.  

Muito pior – a geração de energia na Usina Hidrelétrica Henry Borden está limitada a apenas 200 MW (ela tem uma capacidade instalada total de quase 900 MW), para evitar que as águas poluídas da Billings causem mais estragos nos rios da Baixada Santista. Em tempos em que os reservatórios de muitas usinas hidrelétricas brasileiras estão vazios, não poder usar essa capacidade instalada é um “crime”. Vamos entender a história. 

O primeiro grande sistema de geração de energia elétrica da Região Metropolitana de São Paulo foi a Usina de Parnahyba, projeto implantado pela Light and Power Company, a empresa canadense que se tornou concessionária de energia elétrica na cidade de São Paulo e Região em 1899. Na sua ianuguração em 1901, Parnahyba produzia 2 mW de energia elétrica. 

Cerca de 10 anos depois, essa potência já tinha sido aumentada para 12,8 MW, atendendo a uma demanda por energia elétrica cada vez maior da população e das indústrias paulistanas. Gradativamente, a Light passou a construir novas pequenas usinas hidrelétricas, aumentando gradativamente a sua capacidade de geração de energia. 

Na década de 1920, os engenheiros da Light desenvolveram o projeto de uma usina hidrelétrica grande e revolucionária para os padrões da época. Essa usina seria construída em Cubatão, município da Baixada Santista, e utilizaria o forte desnível da Serra do Mar para potencializar a força das águas lançadas a partir de uma represa construída no Planalto de Piratininga. 

Esse projeto foi apresentado para as autoridades do Governo Federal e em 1922, um decreto Presidencial autorizou o início das obras. O projeto incluía a construção da Represa do Alto da Serra – que depois passou a ser chamada de Billings, da Usina Hidrelétrica de Cubatão, do sistema de tubulações para a descida da água através da Serra do Mar (vide foto), além da implantação de um sistema para a transposição de águas da bacia hidrográfica do rio Tietê para a Represa Billings.  

As obras foram iniciadas em 1925 e é interessante ressaltar que, como era normal há época, todo esse complexo de obras não teve nenhum estudo de impacto ambiental, que aliás foram muitos. Um exemplo de impacto criado pelas obras foi a famosa garoa paulistana, uma chuva finíssima que caía todas as tardes na cidade – o fenômeno desapareceu no início da década de 1980. Segundo relatos de parentes e antigos moradores, esse fenômeno climático se tornou diário logo após a construção da Represa Guarapiranga e aumentou muito após a conclusão da Represa Billings.  

Um argumento interessante que foi usado para justificar a construção desse complexo energético foi o auxílio no controle das cheias anuais do rio Tietê, responsáveis por problemas catastróficos nas partes baixas de São Paulo. No projeto criado pela Light, essas águas excedentes do período das chuvas seriam bombeadas através do canal do rio Pinheiros na direção da Represa Billings, ajudando a reforçar os estoques de água.  

Para realizar esse bombeamento, duas estações elevatórias (também chamadas de usinas de traição) foram construídas no rio Pinheiros, sendo uma na região da Vila Olímpia e a outra no bairro da Pedreira. Para viabilizar essa parte do projeto, o sinuoso canal do rio Pinheiros foi completamente retificado, com trabalhadores escavando a terra com pás e picaretas e grandes volumes de terra sendo carregados por carroças puxadas por burros.  

Além de preparar o rio Pinheiros para a futura função de transposição das águas para a represa Billings, essas obras transformariam antigas várzeas alagáveis da região em “terras secas”. Um dos exemplos é uma região do bairro de Pinheiros, que anos depois foi loteada pela Companhia City, uma subsidiária da Light and Power Company. A região foi transformada no elegante e sofisticado bairro do Alto de Pinheiros, ainda hoje uma referência em alto padrão imobiliário na cidade de São Paulo.  

Além do planejamento impecável, com ruas elegantes, praças e todo equipamento urbano necessário, o bairro receberia as linhas de bondes elétricos operados pela empresa Light, um diferencial em tanto numa cidade que sempre teve, e continua tendo, problemas de transporte. Como dizia a minha mãe: “esses estrangeiros sabiam como ganhar muito dinheiro! ”  

A represa Billings foi formada a partir do represamento dos rios Grande (o principal formador do rio Pinheiros), Pequeno, Capivari, Pedra Branca, Taquacetuba, Alvarengas, Bororé e Cocaia, entre outros rios menores, perfazendo cerca de 560 km² de área de drenagem, com uma vazão somada total de 16,5 m³/s. O espelho d’água da Represa ocuparia uma área inundada de aproximadamente 172 km² e teria capacidade para armazenar 1,2 bilhões de metros cúbicos de água.  

Nos dias atuais, quando se segue pelas Rodovias Anchieta e Imigrantes ou pelo Trecho Sul do Rodoanel, a visão e a beleza do grande reservatório da Billings ainda são impressionantes. As obras da represa foram totalmente concluídas em 1937. O sistema de transposição das águas do rio Tietê para a represa Billings só passou a operar integralmente a partir de 1950.  

A Usina Hidrelétrica de Cubatão, que depois teve seu nome mudado para Usina Hidrelétrica Henry Borden, teve seu primeiro grupo gerador inaugurado em 1926. A capacidade geradora da Usina foi sendo ampliada até 1950, quando o 14° grupo gerador entrou em funcionamento, atingindo uma capacidade total instalada de 889 MW. Os grupos geradores da Usina Henry Borden são acionados por turbinas Pelton, que são movidas pelos fortíssimos fluxos de água que descem do alto da Serra do Mar.  

O fantástico complexo Represa Billings / Usina Henry Borden foi fundamental para o desenvolvimento da Região Metropolitana de São Paulo. A farta disponibilidade de energia elétrica na região foi um dos critérios usados para a escolha da Região do ABC Paulista (sigla para os municípios de Santo André, São Bernardo e São Caetano) como sede das primeiras indústrias automobilísticas do Brasil na década de 1950.  

Toda essa energia elétrica disponibilizada, desgraçadamente, acabou se transformando numa espécie de “maldição”, que se voltou depois contra o próprio Sistema. A energia elétrica estimulou o desenvolvimento de industrias, comércios e serviços, o que levou a um crescimento urbano desordenado das cidades da região. 

As densas matas que protegiam as margens da Represa Billings foram derrubadas para a criação de bairro populares. onde milhares de migrantes que chegavam ao ABC Paulista em busca de empregos e de uma vida melhor construiriam as suas moradias. Já as águas dos rios formadores da Represa, essas foram transformadas em canais para a eliminação dos esgotos gerados por toda essa gente. 

Na próxima postagem falaremos mais sobre a triste sina da Represa Billings e dos problemas que levaram a atual subutilização da Usina Hidrelétrica Henry Borden

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