AS ÁGUAS DE SOBRADINHO

Sobradinho Na foto: Barragem SobradinhoFoto: Roberto Viana em, 08/05/06.

Em meados de dezembro de 2017, em uma postagem aqui no blog, falávamos das fortes chuvas que estavam caindo em Minas Gerais, Goiás e região Oeste da Bahia que, pouco a pouco, estavam chegando na calha do rio São Francisco e iniciaram um lento processo de recuperação da barragem de Sobradinho. Em novembro daquele ano, quase um ano atrás, o nível do reservatório de Sobradinho estava com meros 2,8% de sua capacidade, o menor nível da sua história, num colapso que ameaçava o abastecimento de várias cidades, a irrigação de lavouras e também a manutenção das operações de várias usinas hidrelétricas no médio rio São Francisco

De acordo com dados do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico, o nível do reservatório de Sobradinho está hoje (29/10/2018) com 22,44% de sua capacidade. Comparado com a situação crítica do mesmo período no ano passado, Sobradinho e suas águas vão muito bem, obrigado. 

A barragem de Sobradinho foi planejada na década de 1940 e acabou sendo construída na década de 1970 como uma usina hidrelétrica. Sua principal função seria a regularização do nível das águas do rio São Francisco, mantendo um fluxo de águas constante para as diversas usinas hidrelétricas construídas a montante do rio. Em condições naturais, o leito de um rio apresenta fortes variações em seus caudais ao longo do ano: nos períodos de chuva, com a chegada de grandes volumes de águas pluviais, os rios enchem e, em muitos casos, chegam a transbordar; já na época da seca, o nível dos rios costumam baixar muito. 

Essas bruscas variações no volume de águas de um rio criam problemas para o funcionamento das turbinas das usinas hidrelétricas que, para terem um funcionamento normal, necessitam de um fluxo constante de água. É aqui que entram em cena as represas de regularização do fluxo das águas. Durante o período das chuvas, essas represas armazenam água – na época da seca, a represa passa a liberar água, mantendo assim os caudais do rio dentro dos limites operacionais das turbinas das usinas hidrelétricas. Um grande exemplo deste tipo de obra é a represa Guarapiranga, localizada na Zona Sul de São Paulo, que foi construída no início do século XX para funcionar como regularizadora das inconstantes águas do rio Tietê, que naqueles tempos acionavam as turbinas da usina hidrelétrica de Santana de Paranaíba. 

A situação de relativa comodidade da represa de Sobradinho contrasta com a situação atual das represas da calha do rio Grande, distribuídas entre o Sul do Estado de Minas Gerais e Norte de São Paulo, e também da represa de Serra Mesa, no Estado de Goiás. Esses reservatórios estão sofrendo em consequência da seca e dos baixos volumes de chuvas nas bacias hidrográficas dos seus rios formadores. Já na barragem de Sobradinho, os bons níveis de água armazenada se devem a uma boa temporada de chuvas entre o final de 2017 e início de 2018. Essas chuvas caíram com maior intensidade em áreas do Cerrado em Minas Gerais e em Goiás, em regiões que concentram os principais rios formadores do rio São Francisco. 

O importante rio São Francisco, que tem uma extensão total de 2.830 km, possui uma bacia hidrográfica que ocupa áreas de 521 municípios em 6 estados da Federação – Goiás, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe, Alagoas e também o Distrito Federal. Apesar de ocupar uma área total de quase 640 mil km², 75% dos caudais, ou volumes de água, da bacia hidrográfica do rio São Francisco vêm de áreas de Cerrado em Goiás e Minas Gerais, o que só reforça a importância desse bioma. Foram justamente as chuvas nessas regiões na última temporada as responsáveis pela atual situação da represa de Sobradinho. 

Parte importante das águas pluviais que caem sobre o território de uma bacia hidrográfica escorre diretamente pela superfície dos solos e chega às calhas dos rios. Outra parte dessas águas infiltra nos solos e reabastece os aquíferos e depósitos subterrâneos – serão essas águas as responsáveis pela alimentação das nascentes formadoras dos rios ao longo da maior parte do ano. Em áreas de Cerrado, o processo de infiltração da água nos solos depende da presença das longas raízes da vegetação nativa. Nas áreas onde o avanço da agricultura ocupou antigas áreas de vegetação de Cerrado, esse processo de infiltração de água nos solos é bastante prejudicado, o que tem como reflexo a redução da produção de água nas nascentes e a consequente redução dos caudais dos rios.  

A redução dos caudais é hoje um dos maiores problemas do rio São Francisco, que ano após ano vem apresentando menores volumes de água na sua calha e depende muito da chegada do período das chuvas para regularizar a sua vazão. São necessárias ações ambientais em diversas frentes, focadas na recuperação de áreas florestais nas regiões de recarga do aquíferos, nas nascentes e nas áreas das margens, onde as matas ciliares são fundamentais para conter o assoreamento da calha dos rios,  

Sem esses esforços, a bacia hidrográfica como um todo ficará sempre na dependência de uma boa temporada de chuvas, algo que não acontece com regularidade ao longo dos anos.  

 

 

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