A EXPANSÃO DOS CAFEZAIS E DAS FERROVIAS PELA PROVÍNCIA DE SÃO PAULO

A primeira ferrovia construída em terras paulistas foi São Paulo Railway, mais conhecida como Ferrovia Santos Jundiaí. As obras foram concluídas em 1867 e foram um verdadeiro marco para a produção cafeeira na Província de São Paulo. Apesar da distância entre as áreas produtoras de café e o Porto de Santos não ser tão grande – a região de Campinas, por exemplo, fica a menos de 200 km litoral, existia no meio do caminho um poderoso obstáculo natural – a Serra do Mar e seu fabuloso desnível de quase mil metros entre a Baixada Santista e o Planalto de Piratininga. 

Com a inauguração desse primeiro ramal ferroviário, as sacas de café passaram a ser transportadas no lombo de mulas das fazendas até o terminal de cargas na cidade de Jundiaí e, então, seguiam pelos trilhos até Santos. Essa ferrovia seria ampliada paulatinamente, atendendo cada vez mais cidades e permitindo um aumento crescente da produção cafeeira.

Até 1930, ano em que a cafeicultura entrou em profunda crise devido à quebra da Bolsa de Valores de Nova York em 1929, seriam concluídas 18 ferrovias em São Paulo, onde o principal objetivo era o transporte das cargas de café. Ironicamente, parte da madeira resultante da derrubada das matas para a abertura dos campos agrícolas de café era queimada nas locomotivas movidas a vapor.

Todos os esforços concentrados na construção de ferrovias rapidamente passaram a mostrar resultados na produção cafeeira de São Paulo: em 1870, a produção na Província representava 16% da produção nacional – nesse período, o grande centro de produção era o Vale do Paraíba. Em 1885, as terras paulistas já representavam 40% da produção nacional de café

Entre as décadas de 1870 e 1880, as principais regiões produtoras de café na Província de São Paulo eram o Vale do Paraíba, a Região Central e a Região Mogiana, onde se concentravam aproximadamente 80% da população paulista. Com a construção de novas ferrovias e de ramais ferroviários, tanto a produção cafeeira quanto a população se espalharam pela Província. 

Em 1872, foi concluída a ligação entre Jundiaí e Rio Claro pela Companhia Paulista de Estradas de Ferro – em 1875, essa ferrovia seria expandida até a cidade de Descalvado. Em 1873 foi a vez da Companhia Ytuana de Estradas de Ferro inaugurar uma ligação entre as cidades de Jundiaí e Itu. Essa ferrovia foi ampliada em 1877 até Piracicaba. Em 1875 seria concluída a Estrada de Ferro Sorocabana, ligando a cidade de Sorocaba a São Paulo. Em 1893, as Companhias Ytuana e a Sorocabana se fundiriam. 

Uma outra importante ferrovia que surgiu foi Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, que a partir de 1875 passou a interligar as cidades de Campinas e Mogi-Mirim, além da construção de um ramal até Amparo. Em 1886 foi concluído um ramal que atendia a cidade de Poços de Caldas, no Sul de Minas Gerais. Em 1888, os trilhos chegaram até o rio Grande, na divisa entre São Paulo e Minas Gerais, e em 1889 foi concluído o ramal de ligação com a cidade de Franca. 

A Estrada de Ferro Araraquara foi concluída em 1898 e passou a interligar Araraquara e Taquaritinga. Estrada de Ferro do Dourado, nessa mesma região, foi concluída em 1898. Em 1904 foi concluída a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. Na virada do século XX, a Província de São Paulo já acumulava 3.471 km de linhas férreas. Essas vias continuariam se expandido até a década de 1940, quando atingiriam a marca de 8.622 km. 

O traçado dessas ferrovias foi decidido originalmente por grandes grupos de investidores e de fazendeiros de café, que estavam preocupados em criar meios de transporte para a sua produção. Atendendo, e com muitos méritos, essa premissa inicial, as ferrovias também contribuiriam para a formação e consolidação de importantes cidades do interior de São Paulo, ajudando a desenhar a geografia humana de muitas regiões. 

De acordo com dados de 1905, cerca de 70% do volume das cargas transportadas pelas ferrovias paulistas era formado por sacas de café. Além do transporte de cargas, as ferrovias foram se transformando em um importante meio de transportes de pessoas, interligando cidades e regiões.

Uma outra consequência importante da chegada das ferrovias às terras paulistas foi o desenvolvimento e a consolidação da cidade de São Paulo. Até 1860, a cidade tinha uma população de menos de 30 mil habitantes, a maior parte concentrada em núcleos rurais. 

Com a chegada dos primeiros trilhos, a pequena cidade localizada no alto da Serra do Mar se transformou em um importante ponto de entroncamento de diversas linhas ferroviárias, passando a funcionar como um importante entreposto de mercadorias e de pessoas.

A facilidade de acesso dos passageiros entre as cidades do interior e a cidade de São Paulo, e a fácil logística para o transporte de cargas na direção do interior da Província, transformariam a cidade num importante centro de compras e de abastecimento. Esse foi o primeiro passo para a futura transformação da cidade de São Paulo num dos maiores centros industriais do país. 

Dentro da nossa área de interesse – o meio ambiente, a cafeicultura e a construção das ferrovias no território paulista andaram a “par e passo” com a destruição de áreas florestais de Mata Atlântica e de Cerrado. Matas eram derrubadas para a abertura dos campos de cultivo do café e as ferrovias e os ramais ferroviários chegavam na esteira, criando as condições para o escoamento da produção e estimulando o nascimento e crescimento das cidades. 

Um detalhe importante dessa parceria entre cafezais e ferrovias se deu no extremo Oeste da Província de São Paulo: as dificuldades de transporte e a falta de infraestrutura desestimulou a chegada dos cafezais e, consequentemente, das ferrovias. Até meados do século XX, essa região se manteria coberta por densas florestas e com uma população bastante escassa.

Esse grande “vazio populacional”, que também englobava o extremo Oeste do Paraná e o Mato Grosso, levaria o Governo Federal a criar programas para migração e colonização como a Marcha para o Oeste, um tema que trataremos em futura postagem. 

A expansão da cultura cafeeira continuaria sua marcha rumo ao Sul e entraria no Norte do Paraná, inaugurando um novo ciclo de produção e de destruição de matas. Desde meados do século XIX, imigrantes paulistas e mineiros já haviam se estabelecido na região, porém, foi a chegada dos trilhos da Estrada de Ferro Sorocabana ao Oeste de São Paulo (a Estação de Ourinhos foi concluída em 1908) e a criação das facilidades para o escoamento da produção que deram o impulso final para a cafeicultura na região, que superaria a produção paulista na década de 1920. 

Falaremos disso na nossa próxima postagem. 

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