OS DIFERENTES “CLIMAS” DO BRASIL, OU FALANDO DAS ENCHENTES NA AMAZÔNIA

O Brasil é um país de dimensões continentais! 

Imagino que todos os leitores brasileiros aqui do blog já devem ter ouvido inúmeras vezes esse clichê. Para os estrangeiros, essa é uma expressão que costumamos usar em referência ao tamanho do território brasileiro – são 8,5 milhões de km² ou mais de 80% do tamanho da Europa. 

Uma forma de percebemos claramente o que significa esse tamanho todo é nos atentarmos para os diferentes “climas” de cada uma das regiões do país. Nesse momento, parte das regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul estão entrando em uma temporada extremamente seca, onde os baixos níveis dos reservatórios de usinas hidrelétricas têm causado muitas preocupações para as autoridades do setor. 

Já no extremo Sul, principalmente nos Estados de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, o inverno já está mostrando a sua cara. Ao longo dos últimos dias muitas cidades já enfrentaram temperaturas negativas, com fortes geadas nos campos. Enquanto isso, o Ceará apresenta temperaturas bem acima dos 35° C, uma situação que não é muito diferente de outras capitais nordestinas. 

Em uma grande parte da Amazônia, as chuvas estão caindo sem dó – em Manaus, o rio Negro atingiu hoje a cota de 29,98 metros, o mais alto nível em mais de 110 anos de medições sistemáticas. Vamos falar um pouco sobre essa situação complicada na Região Norte do Brasil. 

No Amazonas, 58 dos 62 municípios do Estado estão enfrentando os problemas criados pelas fortes chuvas. De acordo com as autoridades locais, já são mais de 455 mil pessoas afetadas, algo que corresponde a 10% da população do Estado. São basicamente pessoas pobres que moram nas margens dos rios – os famosos ribeirinhos. Cheias nos rios da Amazônia são normais, porém, desde 2012 não chovia tanto na região e, segundo os dados históricos, essa é a segunda maior cheia na região desde 1902. 

Nas partes mais baixas de Manaus, locais onde funcionam as feiras e o comércio popular, já existe uma tradição de se construir “passarelas” com tábuas para permitir a circulação da “clientela” nos períodos de cheia do rio. Esse ano, mesmo com as passarelas, muita gente tem enfrentado água ao nível dos joelhos para conseguir circular. 

Os períodos das enchentes também são conhecidos nas cidades da Amazônia como a época em que o lixo e os resíduos jogados pelas populações em lagoas e igarapés “resolvem” sair para passear pelas ruas e avenidas. A Prefeitura de Manaus informa que já retirou mais de 600 toneladas desse lixo arrastado para o rio Negro. E quem conhece as péssimas condições sanitárias dos bairros pobres de Manaus sabe que muito mais lixo sairá dos terrenos baldios e canais das vilas. 

Além dos transtornos que as águas causam nas ruas e na vida das cidades, a época das cheias é um período de “vacas magras” para os ribeirinhos. Quando o nível dos rios sobe, as águas chegam a avançar dezenas de quilômetros mata a dentro. Os peixes se aproveitam dessas cheias e saem em busca de alimentos espalhados nos solos da mata agora encobertos pelas águas. Eles buscam sementes, frutos, insetos e outros “petiscos”. 

Essa migração dos peixes cria grandes dificuldades para os ribeirinhos, que só conseguem capturar uma fração dos animais que conseguem pescar nos períodos de seca. As águas também encobrem os roçados das famílias onde se planta mandioca, milho e outras culturas de subsistência. 

Por mais irônico que possa parecer, as famílias passam a encontrar dificuldades para ter acesso a água potável no período das cheias. Todos já ouviram histórias com números superlativos sobre os rios da Amazônia – maiores do mundo num quesito, campeões em volume de água em outros. A água desses rios, porém, não é usada para o consumo das famílias.  

A principal fonte de abastecimento dessas populações são os pequenos igarapés com águas cristalinas, que em épocas de seca estão por toda a parte. Na época das cheias, é preciso buscar água a grandes distâncias navegando em pequenas canoas. 

Os igarapés são afloramentos das águas subterrâneas dos lençóis freáticos e aquíferos, e são contados aos milhares em toda a Amazônia. Quando não dispõem de um igarapé nas proximidades de suas casas, as populações precisam cavar poços para garantir o seu abastecimento e aí ficam sujeitas as grandes oscilações do nível do lençol freático – logo após o período das chuvas, a água é encontrada a poucos centímetros de profundidade; conforme o período da seca avança, o nível dessas águas pode baixar dezenas de metros. 

As cheias dos rios também aumentam os riscos de contaminação com doenças como a malária e a febre amarela. Entre 2009 e 2010 eu trabalhei no Estado de Rondônia e um dos primeiros conselhos que recebi dos locais foi o de ficar longe da margem dos rios entre o pôr do sol e as oito horas da noite. Segundo me informaram, os mosquitos se concentram nas margens dos rios e esse é o período em que eles têm um nível de atividade mais intensa. O rio Negro é uma exceção a essa regra – suas águas escuras impedem a grande proliferação dos mosquitos. Com a cheia dos rios, as águas trazem os mosquitos para o quintal das casas, aumentando muito os riscos dessas doenças. 

O Amazonas, o maior e mais famoso rio da região, tem mais de 1.100 rios tributários, muitos deles com mais de 1.500 km de comprimento. Um exemplo é o rio Madeira, que tem mais de 4.800 km de extensão e que entra na lista dos maiores rios do mundo. Mais de 90% de toda a população da Amazônia, que só no Brasil conta com mais de 23 milhões de habitantes, mora na beira de um desses inúmeros rios

Pode-se afirmar, categoricamente, que a vida dessas pessoas pulsa em sincronia com as águas desses rios. Parte importante dos seus alimentos é retirado das águas dos rios, que também são as “estradas” por onde circulam pessoas e mercadorias, além de fonte de trabalho e renda para muita gente. Apesar de toda essa intimidade com as águas, cheias excessivas como a que vive a região hoje altera completamente o ritmo da vida. 

A circulação de mercadorias e alimentos é prejudicada. O acesso aos hospitais e aos serviços de saúde fica ainda mais difícil, ganhar o pão de cada dia fica praticamente inviável para muitos. A vida na “idílica” Floresta Amazônica não é exatamente o paraíso na terra que muitos ecologistas de carteirinha, especialmente estrangeiros, costumam pregar pelos quatro cantos do mundo. A vida por lá, para quem conhece, é cheia de altos e baixos.

Como eu sempre comento nas postagens aqui do blog, a preservação de toda a grande floresta equatorial é fundamental. Muito longe de ser o “pulmão do mundo” ou a campeã mundial da biodiversidade, a Floresta Amazônica é um dos maiores patrimônios de nós brasileiros. 

Entretanto, algo que eu também costumo citar com frequência, é que mais de 10% da população brasileira vive na Amazônia. Normalmente, toda essa gente costuma ser esquecida pelos grandes líderes, famosos e celebridades internacionais, preocupados com a “salvação da floresta”. E são justamente em momentos de tragédia como nessa grande cheia aqueles em que essas populações precisam ser mais lembradas e ajudadas. 

Preservar a Floresta Amazônica é importante. Entretanto, cuidar dos “amazônidas”, uma forma que eu acho muito simpática de se referir às populações locais, é fundamental! 

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