SE HÁ TANTA ÁGUA NA AMAZÔNIA, POR QUE NÃO SE CONSTROEM MAIS USINAS HIDRELÉTRICAS POR LÁ?

O rio Amazonas tem quase 7 mil km de extensão desde suas nascentes mais distantes no alto da Cordilheira dos Andes até sua foz em delta no Arquipélago de Marajó. Ainda existem controvérsias sobre qual é o mais extenso rio do mundo, se é o Amazonas ou o Nilo. Quando se fala em volume de água, porém, o grande rio sul-americano é imbatível. 

Essa grandiosidade não se limita a um único rio – a bacia hidrográfica do rio Amazonas possui mais de 1.100 afluentes, muitos deles com mais de 1.500 km de extensão. Um desses afluentes, o rio Madeira, tem cerca de 4.800 km e entra na lista dos 10 maiores rios do mundo. 

De acordo com algumas estimativas, a bacia Amazônica concentra cerca de 20% de toda a água doce superficial do mundo. Em tempos de fortes chuvas e de enchentes na região, conforme apresentamos na última postagem, esse verdadeiro mundo de águas está com mais água do que nunca. 

Uma pergunta que ouço com bastante frequência e que, nesses tempos de falta de água em muitos reservatórios de usinas hidrelétricas das Regiões Centro-Oeste e Sudeste, deve incomodar muita gente: por que não existem mais usinas hidrelétricas na região da Amazônia? A resposta não é tão simples, mas vamos tentar responder. 

A primeira grande usina hidrelétrica construída na Amazônia foi Tucuruí, instalada no rio Tocantins no Pará e feita “na marra” nos tempos do Regime Militar. As obras começaram em 1976 e a Usina inaugurada com muita pompa e circunstância em 1984. Aqui precisamos destacar dois pontos – antes de 1986, ano em que foi publicada a Resolução CONAMA 001, não existia a necessidade da realização de estudos sobre os impactos ambientais de obras.  

Segundo ponto – há época, quando um General com o uniforme cheio de “estrelas” abria um mapa e dizia que queria que se construísse uma usina hidrelétrica em um determinado local, ninguém em sã consciência ousava contrariar essa ordem. Lembro aqui que, entre 1964 e 1985, o Brasil viveu sob um regime militar de exceção (muitos usarão a definição “ditadura militar”). 

Esse período foi marcado por jingles publicitários como “esse é um país que vai prá frente…” ou definições como “Brasil Grande” e “milagre econômico brasileiro“. São dessa mesma época obras como Itaipu, Usinas Nucleares de Angra dos Reis, ponte Rio Niterói, Rodovia Transamazônica, entre muitas outras. 

Citando apenas um dos grandes problemas ambientais de Tucuruí – o projeto inicial previa a remoção de 85% da vegetação da área onde seria formado o lago da hidrelétrica. Por causa de inúmeras “irregularidades operacionais” (para não usar a palavra corrupção) apenas 5% da vegetação foi suprimida antes do enchimento do lago. Para falar o mínimo, alagar áreas com vegetação resulta em uma série de problemas na qualidade da água, gera emissões de gases de efeito estufa e prejudica a vida aquática. 

A construção de Tucuruí também provocou uma série de impactos sociais – milhares de famílias ribeirinhas foram removidas a força de suas propriedades e reassentadas em outros locais. Grande parte dessas populações não possuía documentos que comprovassem a posse das terras e acabaram recebendo indenizações muito baixas – muita gente não recebeu nada. 

Nos dias atuais, quando temos uma rigorosa legislação ambiental e um mundo inteiro preocupado com a preservação da Floresta Amazônica, seria muito pouco provável que a construção de uma obra tão impactante para o meio ambiente fosse aprovada. 

Uma outra obra que pode ajudar a explicar as dificuldades da construção de uma usina hidrelétrica na Amazônia é Balbina, empreendimento que apresentamos em uma postagem anterior. Instalada no rio Uatumã, no município de Presidente Figueiredo no Amazonas, essa obra foi planejada ainda nos tempos do Regime Militar e concluída em 1989. 

Um dos grandes problemas da Usina Hidrelétrica de Balbina é a sua baixíssima produção de energia elétrica – são cerca de 112 MW na temporada das chuvas, caindo para cerca de 50 MW no período da seca. Com uma barragem com altura de 51 metros, Balbina formou um espelho d’água com uma área total de 2.360 km², quase duas vezes o tamanho do município do Rio de Janeiro

Pesquisadores da UFAM – Universidade Federal do Amazonas, e do INPA – Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, tiveram a ousadia de alertar as autoridades sobre os gravíssimos danos ambientais que a construção de Balbina desencadearia em uma extensa região da Amazônia – os Generais, é claro, não se sensibilizaram nenhum pouco e a obra prosseguiu. 

O exemplo de Balbina evidencia uma característica predominante na bacia Amazônica – a baixíssima declividade dos terrenos. Porto Velho, a capital do Estado de Rondônia, ilustra bem essa situação: a cidade fica a quase 2 mil km da praia mais próxima no Oceano Atlântico no Pará ou no Amapá, porém, tem uma altitude em relação ao nível do mar de apenas 84 metros. 

As Usinas Hidrelétricas de Santo Antônio e de Jirau, construídas no rio Madeira em Rondônia e inauguradas em 2012 e 2016, respectivamente, foram concebidas para operar a “fio d’água”, ou seja, usando apenas a força da correnteza do rio Madeira para movimentar as suas turbinas. Esse conceito de projeto reduz enormemente a necessidade de grandes reservatórios e, consequentemente, minimiza muito os impactos ambientais da obra. 

O detalhe aqui é o rio Madeira, um rio caudaloso e com uma correnteza poderosa – o rio, aliás, é considerado o segundo do mundo no quesito velocidade da correnteza. Desgraçadamente, o Madeira é uma exceção quando se fala em rios amazônicos – por causa da baixa declividade dos terrenos, a maioria dos rios da região têm correntezas muito lentas. 

Além desses problemas, que já mostram claramente as dificuldades para se construir novas usinas hidrelétricas de grande porte nos rios da Amazônia, existe um outro problema grave – a ação dos grupos de interesse. Falo aqui de grandes grupos construtores, políticos, funcionários públicos e outros “grupos organizados”, que num passado não tão distante se articularam para conseguir realizar grandes obras. Um exemplo dessa verdadeira praga foi a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu no Pará. 

Sem entrarmos em maiores detalhes – siga esse link para ler uma postagem anterior sobre essa obra, o empreendimento foi cercado de irregularidades – no projeto, no licenciamento ambiental, no leilão de concessão, entre muitas outras. Belo Monte foi inaugurada em 2011, a um custo estimado de R$ 30 bilhões. O custo inicial previsto no projeto era de apenas R$ 4 bilhões, o que nos dá uma “vaga” ideia do volume de “feitos e mal feitos” no empreendimento e da montanha de dinheiro público desviado

Agora, respondendo à pergunta do título da postagem: a Bacia Amazônica tem muita água sim, mas existem inúmeras dificuldades técnicas para a construção de grandes usinas hidrelétricas nos rios da região. Essas dificuldades incluem problemas geográficos, terras indígenas, populações ribeirinhas, legislação ambiental, impactos junto à comunidade internacional, entre outros. Além das dificuldades econômicas atuais, a corrupção sistêmica que marcou a realização de algumas desssas grandes obras deixou profundas cicatrizes na sociedade e será difícil retomar grandes projetos num curto prazo. 

Em resumo – é melhor rezar para chover bastante nas regiões onde existem os grandes reservatórios das usinas hidrelétricas do restante do Brasil. É bem mais fácil isso acontecer do que assitirmos obras de grandes hidrelétricas na Amazônia nos próximos anos…

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