O INCOMPARÁVEL RIO NEGRO

Boto-cor-de-rosa

O rio Negro é um dos principais afluentes do rio Amazonas – com uma vazão média de 28 mil m³ por segundo, ele responde sozinho por 15% do volume de águas que o rio Amazonas despeja no Oceano Atlântico. Algumas projeções afirmam que o volume de águas do rio Negro equivale à soma das águas de todos os rios da Europa. Outro dado relevante – a bacia hidrográfica do rio Negro drena uma área equivalente a 10% da bacia Amazônica. É um rio de respeito. 

As nascentes do rio Negro ficam na região pré-Andina da Colômbia, na localidade de Guainia, nome que é dado ao trecho inicial do rio. Um pouco mais a frente, a partir da região de Morichal Nuevo, o rio passa a ser chamado de Negro. O rio segue na direção Leste, onde demarca a fronteira entre a Colômbia e a Venezuela até entrar em território brasileiro através da localidade de Cucuí, um distrito do município de São Gabriel da Cachoeira, Estado do Amazonas. Dentro do Brasil, o rio segue na direção Sudeste até sua foz no rio Amazonas, numa extensão total de 1.700 km. O rio Negro é navegável por um trecho de 720 km a partir de sua foz.

O rio Negro tem uma personalidade própria que o diferencia dos demais rios da bacia Amazônica. Suas águas são escuras, lembrando a cor de um chá mate, com praias de areias muito brancas, algumas com até 20 km de extensão. Calcula-se que existam mais de mil ilhas ao longo de suas águas, grande parte localizada nos arquipélagos de Anavilhanas e de Mariuá, considerados os maiores arquipélagos fluviais do mundo. Algumas dessas ilhas têm mais de 30 km de extensão. A beleza ímpar das praias e ilhas do rio Negro, ao lado da flora e da fauna, garantem um enorme potencial para o crescimento econômico baseado em atividades ligadas ao ecoturismo, tendo como base a cidade de Manaus, localizada nas proximidades da foz do rio Negro. O ecoturismo tem como premissa básica a preservação ambiental, o que é fundamental para a Floresta Amazônica. Um dos passeios mais inusitados no rio Negro é o que possibilita se nadar junto com os botos-cor-de-rosa (vide foto) – essa atividade tira o sono das autoridades ambientais, que temem pela segurança e integridade dos animais, mas é o sonho de muita gente, inclusive estrangeiros. 

Um dos pontos turísticos mais famosos da Floresta Amazônica é o “Encontro da Águas”, onde as águas escuras do rio Negro e as águas barrentas do rio Solimões seguem por um trecho de 6 km sem se misturar, no ponto exato onde o grande rio passa a ser chamado de Amazonas. O fenômeno é o resultado da diferença na temperatura das águas dos dois rios e em particularidades químicas nas suas composições. A cor escura das águas do rio Negro gerou muitas especulações e debates ao longo de mais de 200 anos. Só bem recentemente, na década de 1980, estudos comprovaram que as chamadas águas negras são o resultado do escoamento lateral de águas desde os solos arenosos do médio e alto rio Negro, solos que contém uma grande quantidade de ácidos orgânicos resultantes da decomposição vegetal. Estudos posteriores confirmaram que a coloração escura está associada a substâncias húmicas ácidas e coloridas. 

A primeira referência ao rio Negro é encontrada no relato da expedição de Francisco de Orellana no ano de 1541. Conforme comentado em postagem anterior, os espanhóis organizaram uma expedição ao Amazonas em busca da lendária cidade de El Dorado. Depois de vários meses sem encontrar a cidade indígena, os sobreviventes da expedição resolveram descer o rio Amazonas rumo ao Oceano Atlântico. Durante muito tempo, travaram-se acaloradas discussões entre historiadores sobre o ponto exato da chegada ao Oceano – se foi na foz do rio Amazonas ou do rio Orinoco (ou Orenoco), na Venezuela. Existe um canal natural de ligação entre os rios Negro e Orinoco, conhecido como Canal de Cassiquiare. Com cerca de 320 km de extensão, este canal permite a navegação entre as bacias Amazônica e do Orinoco. Atualmente, há consenso que os espanhóis seguiram rumo a foz do rio Amazonas – homens famintos e desesperados não teriam condições de remar 700 km rio Negro acima, até atingir o Cassiquiare

Polêmicas à parte, a existência do Canal de Cassioquiare abre imensas possibilidades para a navegação fluvial na bacia Amazônica – um comboio de barcaças de cargas saindo da cidade de Manaus, por exemplo, poderia subir o rio Negro até atingir o Canal do Cassiquiare e, assim, atingir o rio Orinoco e o Mar do Caribe num percurso mais curto. Além desse acesso alternativo ao oceano, essa rota possibilitaria a integração entre áreas da Colômbia e da Venezuela com o Brasil, ampliando assim as trocas econômicas entre os países. Apesar de possuir pouca profundidade, o que tem reflexo no calado das barcaças de cargas, o Canal do Cassiquiare está pronto para o uso. 

A Bacia do Rio Negro tem o clima mais chuvoso da Bacia Amazônica, com valores anuais médios de chuva entre 2.000 e 2.200 mm, alcançando níveis maiores que 3.500 mm na região do alto Rio Negro. Essa forte precipitação pluviométrica na área da bacia do rio Negro, diferente do que normalmente acontece nos rios, não é a única responsável pelos ciclos de alta e baixa nas águas do rio – os ciclos de cheias e secas sofre enorme influência dos rios Solimões e Amazonas, que a depender da época do ano, causam um represamento das águas do rio Negro, que sofre um forte refluxo sentido a distâncias de até 300 km da foz, na altura da confluência do rio Branco. Ao contrário da maioria dos rios da bacia Amazônica, que entre os meses de novembro e fevereiro estão no período da seca, o baixo rio Negro apresenta um alto nível de suas águas devido a essa influência dos rios Solimões e Amazonas. 

A variação do nível das águas do rio Negro vem sendo monitorada sistematicamente há 90 anos e apresenta uma variação máxima entre 9 e 12 metros, com o pico das cheias ocorrendo entre os meses de junho e julho.  Uma característica própria do rio Negro é possuir uma calha reta com poucos meandros e curvas, o que tem reflexos na velocidade da corrente – aproximadamente 1 metro por segundo. Mesmo assim, o tempo que a água leva para percorrer a distância entre São Gabriel da Cachoeira, na divisa entre o Brasil, a Colômbia e a Venezuela, até a foz do rio nas proximidades de Manaus é de cerca de um mês. 

Diferentemente das águas de outros grandes rios da bacia Amazônica, que são ricas em materiais particulados e nutrientes, as águas do rio Negro são pobres, o que inviabiliza a agricultura em larga escala em suas várzeas. Essas águas escuras, porém, tem uma característica das mais interessantes: a sua acidez evita a procriação de insetos como os pernilongos. Já ouvi de alguns manauaras que foi, justamente por isso, que se escolheu a margem do rio Negro como sítio para a fundação da cidade de Manaus. 

Se essa história é verdadeira ou folclórica, difícil de se saber. Mas, ficar livre dos incômodos mosquitos com suas picadas doloridas, isso sim é uma benção… 

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