AS MUITAS USINAS HIDRELÉTRICAS DO RIO PARANAPANEMA

Represa Jurumirim

A Serra do Mar é uma longa cadeia montanhosa que se estende por cerca de 1.500 km entre os Estados do Rio de Janeiro e Santa Catarina, acompanhando a faixa litorânea. Essa Serra é formada por uma sucessão contínua de morros e montanhas, onde se destacam grandes blocos rochosos de granitos e gnaisses, pertencendo ao chamado Complexo Cristalino Brasileiro. Rios importantes como o Tietê, Iguaçu e Paraíba do Sul têm suas nascentes nas escarpas elevadas da Serra do Mar. Apesar de nascerem bem próximos da Costa Atlântica, as grandes altitudes da Serra do Mar forçam esses rios a correr na direção do interior do continente, formando importantes bacias hidrográficas. 

A formação da Serra do Mar está diretamente associada à fragmentação do antigo Supercontinente de Gondwana. Essa gigantesca formação continental era constituída pela América do Sul, África, Antártica, Ilha de Madagáscar, Índia (o famoso Subcontinente Indiano), Austrália, Nova Zelândia, Nova Caledônia e algumas outras ilhas menores. Esse evento teve início a cerca de 165 milhões de anos, quando as diversas Placas Tectônicas (pesquise sobre isso) começaram a se separar. Os terrenos que formam a Serra do Mar sofreram forte soerguimento durante esse período, com algumas montanhas superando os 7 mil metros de altitude – processos erosivos que se estenderam por milhões de anos deixaram a Serra do Mar com o aspecto atual. 

Os mesmos processos geológicos que formaram os rios Tietê, Iguaçu e Paraíba do Sul também possibilitaram o surgimento do discreto rio Paranapanema. Apesar de aparecer muito pouco na mídia, o Paranapanema percorre aproximadamente 924 km desde suas nascentes no alto da Serra de Agudos Grandes, uma ramificação da Serra do Mar, e segue seu curso rumo ao Oeste, até sua foz no rio Paraná. Atravessando algumas das regiões menos habitadas do Estado de São Paulo, o Paranapanema é considerado o mais limpo de todos os grandes rios paulistas. 

Apesar de estar muito longe dos problemas criados pela poluição nas águas dos outros rios com nascentes na Serra do Mar, o Paranapanema sofre de um outro terrível mal – 11 barragens de usinas hidrelétricas foram construídas ao longo de sua calha, fragmentando os habitats aquáticos e criando uma série de problemas ambientais, uma história bastante parecida com a de muitos outros rios brasileiros. Outra semelhança negativa – a maioria desses projetos foram implantados sem que qualquer estudo de impacto ao meio ambiente fosse feito. Vamos entender mais essa saga de um rio: 

A primeira usina hidrelétrica construída no rio recebeu o nome de Paranapanema e foi implantada na cidade de Piraju. As obras da barragem foram iniciadas em 1926, onde foi prevista a instalação inicial de 3 grupos geradores, com potência prevista de 2,5 MW, o que era considerado na época como uma usina de grande porte. O projeto previa a implantação sucessiva de novos grupos geradores, o que foi concluído em 1998, quando a usina atingiu a capacidade total de 31 MW. 

Outro marco importante na história das hidrelétricas do rio Paranapanema foi a construção da Usina de Jurumirim, chamada oficialmente de Usina Hidrelétrica Armando Avellanal Laydner. Suas obras foram iniciadas em 1956, durante a presidência de Juscelino Kubitschek, e concluídas em 1962. Conforme comentamos em postagem anterior, esse foi um período de forte crescimento econômico no país, quando teve início um ciclo de construção de inúmeras usinas hidrelétricas, especialmente no período dos Governos Militares, entre 1964 e 1985, onde o lema era o “desenvolvimento a qualquer custo”. 

A represa de Jurumirim (vide foto), formada após a construção da barragem, se estende por cerca de 100 km, com uma largura que atinge até 3 km. O espelho d’água do reservatório cobre uma área com, aproximadamente, 450 km², equivalente a quase quatro vezes o tamanho da Baía da Guanabara – isso nos dá uma ideia do tamanho dos impactos ambientais, onde grandes extensões de matas tiveram de ser suprimidas, além da desapropriação de grandes áreas de produção agrícola. 

Apesar da aparente grandiosidade, que representa mais de 1/3 das águas represadas do rio Paranapanema, a Hidrelétrica de Jurumirim teve inúmeras falhas no seu projeto e nunca conseguiu atingir a sua potência instalada de 98 mil kW. Estudos feitos em 2014 indicam que os dois grupos geradores da Usina só conseguem atingir 40% da capacidade projetada. A represa acabou tendo sua função alterada, passando a atuar como uma reguladora dos caudais de águas do rio Paranapanema.

Erros de concepção e de projetos em usinas hidrelétricas, aliás, são bem mais frequentes do que parecem e um grande exemplo, que abordaremos em futura postagem, é a Usina Hidrelétrica de Balbina, no Estado do Amazonas, que alagou cerca de 2.300 km² e só consegue produzir 250 MW de energia. Para efeito de comparação, a Usina Hidrelétrica de Tucuruí, no Estado do Pará, provocou a formação de um lago com área similar, porém, com uma potência instalada da ordem de 8,4 mil MW.

A história das hidrelétricas do rio Paranapanema prosseguiu: 

  • Usina Hidrelétrica Salto Grande, construída entre 1951 e 1958, com potência instalada de 74 MW; 
  • Usina Hidrelétrica Chavantes, construída entre 1959 e 1971, com potência total de 414 MW; 
  • Usina Hidrelétrica Capivara, a maior usina do rio Paranapanema, inaugurada em 1978, com uma potência total de 619 MW; 
  • Usina Hidrelétrica Rosana, concluída em 1987, com potência instalada de 372 MW; 
  • Usina Hidrelétrica Taquaruçu, concluída em 1992, com potência total de 554 MW; 
  • Usinas Hidrelétricas Canoas I e Canoas II, concluídas em 1999, com potências instaladas de 81 MW e 72 MW, respectivamente; 
  • Usina Hidrelétrica Piraju, concluída em 2002, com 80 MW de potência e 
  • Usina Hidrelétrica Ourinhos, concluída em 2005, com uma potência instalada de 44 MW. 

Juntas, essas 11 usinas geram aproximadamente 2,4 mil MW, uma energia fundamental para atender as necessidades centenas de milhares de consumidores. Porém, como é possível notar pelas datas de conclusão das obras dessas usinas hidrelétricas, a grande maioria é anterior a 1986, ano em que entrou em vigor a Resolução CONAMA 001, onde a implantação dessas obras passou a ficar vinculada a estudos prévios de impactos ao meio ambiente. 

Apesar da aparente saturação da exploração hidrelétrica do rio Paranapanema e toda uma infinidade de problemas ambientais criados pela construção sucessiva de barragens e reservatórios, vários grupos empresariais lutam para conseguir autorização para a implantação de novas unidades geradoras no rio, acirrando a luta de cidades e populações que não querem mais saber de novas obras no Paranapanema. 

Como já afirmamos em postagens anteriores, as fontes hidráulicas são fundamentais para a geração renovável de energia elétrica. Entretanto, devem ser tomados todos os cuidados possíveis na avaliação dos impactos negativos dessas obras, buscando sempre as melhores alternativas para a minimização desses problemas. 

O rio Paranapanema é, ao mesmo tempo, um exemplo desse grande potencial hidrelétrico a ser explorado e também a mais completa tradução dos impactos ambientais que podem ser criados por essa exploração. Vale a pena refletir muito sobre isso.

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