ALERTA DE EMERGÊNCIA HÍDRICA DECRETADO EM CINCO ESTADOS

O SNM – Sistema Nacional de Meteorologia, emitiu no último dia 27, um alerta conjunto de emergência hídrica para a área da bacia hidrográfica do rio Paraná, na região que abrange os Estados de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná. O comunicado informa que a região terá chuvas abaixo da média entre os meses de junho e setembro de 2021

Criado oficialmente no dia 3 de maio de 2021, o SNM reúne serviços do INMET – Instituto Nacional de Meteorologia, INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e CENSIPAM – Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia, e tem como objetivo o fortalecimento das competências centrais de cada uma das instituições.  

Esses órgãos federais são vinculados MAPA – Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, MCTI – Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações e MD – Ministério da Defesa. Entre outros objetivos, o SNM tem a missão de eliminar a sobreposição de atividades e gerar uma cadeia de processos, produtos e dados interligados e complementares

Além das entidades citadas, o alerta do SNM também foi subscrito por todos os órgãos federais ligados à meteorologia, a ANA – Agência Nacional de Águas e o CEMADEN – Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais. 

O alerta do SNM informa que “a análise das chuvas entre outubro de 2019 a abril de 2021 para a bacia do rio Paraná indica que, com exceção de alguns meses quando as precipitações ficaram acima da média climatológica, durante a maior parte do período houve predomínio de déficit hídrico de precipitação, principalmente a partir de fevereiro de 2021.” 

Os dados indicam que o período entre os meses de junho, julho e agosto será caracterizado por um menor volume de chuvas na bacia hidrográfica do rio Paraná. O alerta também esclarece que os dados são consistentes com avaliações de outros centros internacionais de previsão climática. No mês de maio, citando um exemplo, os volumes acumulados de chuva foram de 27 mm na região da bacia do Alto rio Paraná – no mesmo período do ano passado, o volume acumulado havia sido de 98 mm

Conforme comentamos em postagens publicadas nas últimas semanas, os baixos níveis nos reservatórios de usinas hidrelétricas nas Regiões Sudeste e Centro-Oeste representam uma grande ameaça para a geração de energia elétrica no país. De acordo com dados do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico, as chuvas abaixo da média histórica resultaram nos piores volumes de água acumulada nos reservatórios no período de setembro de 2020 a maio de 2021 em uma série de 91 registros. 

O CMSE – Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico, inclusive, realizou uma reunião em caráter extraordinário no mesmo dia 27 de maio, para avaliar as condições de suprimento energético ao SIN – Sistema Interligado Nacional. Entre outras medidas, o CMSE “decidiu implementar flexibilizações das restrições hidráulicas relativas às usinas hidrelétricas Jupiá, Porto Primavera, Ilha Solteira, Três Irmãos, Xingó, Furnas e Mascarenhas de Moraes.”  

Além de garantir a geração de energia elétrica, insumo fundamental para o país, essas medidas têm como objetivo garantir o fluxo dos caudais e a preservação do uso da água ao longo do período seco de 2021. Falamos aqui do abastecimento de populações, irrigação de plantações, navegação hidroviária, entre outros usos. 

Um claro indicador da situação crítica no alto curso da bacia hidrográfica do rio Paraná é o rio Grande que, junto com o rio Paranaíba, forma o rio Paraná. O principal reservatório dessa sub-bacia hidrográfica é Furnas, mais conhecido como o “mar de Minas”. De acordo com dados do ONS do dia 27 de maio, Furnas está com 36,87% de sua capacidade. Os reservatórios das Usinas Hidrelétricas Água Vermelha e Marimbondo estão com níveis extremamente baixos – 8,70% e 6,59%, respectivamente. 

Na sub-bacia do rio Paranaíba, a situação também não é nada animadora – a exceção da Usina Hidrelétrica de Batalha, que tem seu reservatório com 51,65% da sua capacidade máxima, todos os demais reservatórios estão com capacidades entre 11 e 28%, valores muito baixos quando se considera que o período mais seco do ano ainda está para começar. 

Os baixos caudais nos rios Grande e Paranaíba são refletidos diretamente no reservatório da Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira, o primeiro grande aproveitamento das águas do rio Paraná. Os dados do ONS indicam que o nível do reservatório está em 47,03% da sua capacidade máxima. 

Os efeitos da seca também são visíveis no alto da bacia hidrográfica do rio Tocantins. O reservatório da Usina Hidrelétrica de Serra Mesa em Goiás está em 36,95% da sua capacidade máxima. Esse reservatório funciona como um regulador dos caudais do rio Tocantins e garante o funcionamento de várias usinas geradoras a jusante. 

Felizmente, o país ainda pode contar com o potencial de geração de grandes usinas hidrelétricas como Tucuruí, localizada no mesmo rio Tocantins, mas que está com seu reservatório praticamente cheio. Outro caso é o de Itaipu, localizada no médio curso do rio Paraná e cujo reservatório também está com um ótimo nível de armazenamento. Apesar dessas boas notícias, a situação requer muito cuidado. 

Um destaque importante que não pode ficar de fora desta breve análise é a forte produção agrícola desenvolvida na região da bacia hidrográfica do alto rio Paraná. Em qualquer lugar do mundo, a agricultura é a maior consumidora de água – em média, perto de 70% dos recursos hídricos de uma região são consumidos pelas atividades agrícolas. Os principais “gastadores de água” são os sistemas de irrigação das plantações. 

É comum encontrarmos nessas regiões fazendas que utilizam sistemas com tecnologias obsoletas, onde há um consumo exagerado de água e, portanto, um grande desperdício. São mangueiras vazando, pivôs desregulados e controle das operações feitos por funcionários mal treinados. Como resultado, há um consumo exagerado de água. De acordo com as estimativas, 2021 será um ano de safra recorde em várias culturas, o que num período de crise hídrica é um grande problema. 

Em um momento em que a pandemia da Covid-19 ainda não está totalmente controlada e em que a economia ainda sofre com restrições para a livre circulação de pessoas, a “salvação da lavoura” da economia do país está vindo, literalmente, da agropecuária. E como há muitos interesses em jogo, corre-se o risco de as autoridades fazerem vista grosso a alguns exageros dos produtores agrícolas no quesito consumo de água. 

Além de torcermos por boas chuvas no final do ano, precisamos cuidar do bom gerenciamento dos recursos hídricos nesses meses de seca, especialmente nos Estados citados no alerta do SNM. Como demostramos, a crise que estamos vivendo ameaça muito mais do que a geração de energia elétrica. 

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