Avatar de Desconhecido

Posts de ferdinandodesousa

Escritor, jornalista, gestor e educador ambiental. Especialista em projetos de comunicação social e de educação ambiental.

PROJETOS DE REFLORESTAMENTO NA FLORESTA AMAZÔNICA: SIM, ELES EXISTEM! 

De acordo com o Relatório Anual 2020 da Aliança pela Restauração na Amazônia, uma iniciativa multi-institucional e multissetorial, existem 2.773 iniciativas de restauração florestal em andamento na Amazônia. O total de projetos soma 113,5 mil hectares

Esse tipo de notícia, que não costuma ocupar grandes espaços nos noticiários, é um alento em meio as constantes notícias de queimadas e devastação na maior floresta equatorial do mundo. A Floresta Amazônica, só para relembrar, tem cerca de 5,5 milhões de km² – de acordo com outros critérios, essa área é de 6,7 milhões de km², onde estão incluídas as vegetações de transição entre biomas. 

A Floresta Amazônica se espalha pelo Brasil, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa. De acordo com informações da Aliança pela Restauração na Amazônia, a Floresta já perdeu 20% de sua área no Brasil. Esse número não está muito distante dos números oficiais do Governo brasileiro, que dizem que a Floresta já perdeu 16% da sua cobertura original.  

Entre as décadas de 1960 e 1980, milhões de brasileiros de outras regiões do país foram estimulados a migrar para a Região Norte através de políticas oficiais do Governo Federal. Foram tempos de grandes desmatamentos na Floresta Amazônica. Há cerca de dois anos atrás preparamos uma longa série de postagens contando essa história. Clique neste link para consultar. 

Muitos desses desbravadores acabaram tendo seus sonhos frustrados – grande parte dos solos da Amazônia tem baixa fertilidade e, uma vez desmatados, produzem por apenas 2 ou 3 anos. Quem insistiu em continuar vivendo e trabalhando na região, convive com uma produtividade, tanto agrícola quanto pecuária, menor do que em outras regiões do Brasil. 

É dentro desse contexto que os projetos de reflorestamento vem ganhando espaço. Cerca de 60% das iniciativas de reflorestamento existentes se referem a projetos agroflorestais, onde espécies de árvores nativas da floresta são plantadas com espécies de grande valor comercial como a castanha, o açaí, o cupuaçu e o cacau. Essas culturas são muito mais rentáveis que a pecuária e a soja na região. 

Para quem não percebeu, todas as espécies citadas fazem parte da flora Amazônica, se adaptando perfeitamente ao clima e aos solos da região e, melhor ainda, precisam da proteção de árvores da floresta para crescer e produzir. Entre todos os benefícios ecológicos criados por essa recomposição florestal, precisamos destacar a proteção dos solos, que se expostos as fortes chuvas da região sofrem muito com processos erosivos. 

Um caso de sucesso que podemos citar como exemplo é o RECA – Reflorestamento Econômico Consorciado Adensado em Rondônia.  Esse sistema agroflorestal ocupa uma área de 2.500 hectares e beneficia cerca de 300 famílias na região da Ponta do Abunã. A produção abastece uma agroindústria cooperativa, onde são produzidas anualmente mais de 500 toneladas de polpa de cupuaçu e de açaí, 430 toneladas de castanhas e sementes, 72 toneladas de palmito, entre outros produtos. 

De acordo com dados da Aliança pela Restauração na Amazônia, esse e outros projetos contribuíram para um aumento de até 300% na renda das famílias. Essas iniciativas são desenvolvidas majoritariamente por organizações da sociedade civil (87,5%), empresas (5,6%), agricultores (3,8%), instituições de pesquisa (2,4%) e governos (0,7%). 

Um outro grande projeto de reflorestamento desconhecido do grande público é o do Corredor de Biodiversidade do Araguaia, que interconectará a Floresta Amazônica ao Cerrado. Esse projeto prevê o plantio de 1,7 bilhão de árvores ao longo do curso dos rios Tocantins e Araguaia. A iniciativa é da Black Jaguar Foundation, uma organização não governamental holandesa. 

Esse corredor vai se estender por 2.600 km, com uma largura de 40 km, ocupando uma área total de 10,4 milhões de hectares nos Estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Maranhão e Pará. Cerca de 80 mil árvores já foram plantadas no município de Santana do Araguaia no Pará. Quase metade da extensão do Corredor fica dentro do bioma Amazônia,10% fica dentro de áreas indígenas e 5% dentro de parques nacionais. 

A Black Jaguar Foundation tem buscado parcerias com os produtores rurais dos 112 municípios atravessados pelo corredor verde. Já foram identificados 23.997 imóveis rurais, sendo que 96% são propriedades privadas. Os produtores são estimulados a preservar e/ou reflorestar parte da área de sua propriedade, o que atende as normas da Reserva Legal prevista no Novo Código Florestal. Dentro do bioma Amazônia, a reserva legal de floresta é de 80%, na maior parte do Cerrado é 20% e em algumas áreas é de 35%. Desse total de propriedades, cerca de 13 mil não atendem a legislação. 

A zona destinada à implantação do Corredor de Biodiversidade prevê a ocupação de faixas de 20 km de cada lado dos rios. As reservas de vegetação criadas e/ou preservadas nas propriedades formam um grande mosaico com “peças” interligadas. Isso passa a permitir o fluxo natural de espécies animais, que por sua vez são dispersoras de semente e frutos, o que garante a sobrevivência de todas as espécies. 

Essa iniciativa, que é considerada como o maior projeto de reflorestamento da América do Sul, tem potencial para gerar US$ 21,1 bilhões em benefícios econômicos ao longo de 50 anos. Com a restauração da vegetação e a implantação de projetos agroflorestais, cerca de 527 milhões de toneladas de solos serão salvos dos processos erosivos e 262 milhões de toneladas de carbono serão capturadas pela vegetação em crescimento. Serão gerados cerca de 38 mil empregos. 

Diante de toda a devastação florestal que já se abateu sobre a Amazônia, e por extensão sobre o Cerrado, os números desses projetos de recuperação florestal podem parecer pequenos. Porém, há um aspecto que não pode ser ignorado – produtores rurais estão percebendo que a agricultura e a pecuária tradicionais não são um bom negócio na Amazônia e que a produção em sistemas agroflorestais com espécies locais dá muito mais dinheiro. 

Desde o surgimento da agricultura entre 12 e 10 mil anos atrás, a humanidade vem derrubando florestas para liberar os solos – culturas agrícolas precisam da luz do sol para crescer. Esse comportamento chegou aqui em terras brasileiras junto com os primeiros colonizadores, que passaram a derrubar e queimar as florestas para liberar espaço para culturas de cana-de-açúcar, café, algodão, fumo e cereais. De quebra, grandes extensões da Caatinga Nordestina foram queimadas e transformadas em campos para a criação de boiadas. 

Essa mesma filosofia de “trabalho” agrícola acabou sendo levada para a Amazônia e chegamos onde estamos. Conseguir mudar essa mentalidade e convencer esse pessoal que a floresta em pé dá muito mais dinheiro será uma grande façanha, onde o mundo inteiro sairá ganhando… 

LAHORE É DECLARADA A CIDADE MAIS POLUÍDA DO MUNDO 

Um dos maiores problemas ambientais de nossos tempos é o aquecimento global, uma tragédia construída pela humanidade ao longo de vários séculos. Entre as principais causas dessa tragédia destacamos a emissão dos gases de Efeito Estufa. Só para relembrar, uma das principais pautas da recente COP26 foi justamente o de reforçar o compromisso dos países no controle de suas emissões desses gases. 

A queima de combustíveis fósseis como os derivados de petróleo e o carvão respondem pelos maiores volumes das emissões desses gases. Países como a China, os Estados Unidos e a Índia encabeçam a lista dos maiores poluidores da atmosfera e, como não poderia ser diferente, possuem algumas das cidades com o ar mais poluído do mundo. 

Surpreendentemente, a cidade de Lahore, no Paquistão, correu por fora “nessa trágica competição, e acaba de ser declarada a cidade mais poluída do mundo segundo a iniciativa Monitor da Qualidade do Ar. Grandes cidades da China e da Índia ocupam posições de destaque nessa lista. 

Apesar de ser pouco conhecida aqui no Brasil, Lahore é uma das cidades mais populosas do mundo – são mais de 11 milhões de habitantes (dados de 2017), praticamente a mesma população de São Paulo, a maior cidade do Brasil. Lahore é um importante centro industrial, comercial e cultural, respondendo por 13% do PIB – Produto Interno Bruto, do Paquistão. 

Até 1947, o Paquistão fazia parte do Vice Reino da Índia, uma das colônias do Império Britânico. Após a assinatura da Declaração da Independência, as tensões entre as populações hindus e muçulmanas do país explodiram por todo o território. Uma tênue paz foi negociada entre as diferentes lideranças políticas, sendo estabelecido que o país seria dividido – os muçulmanos ficariam com os atuais territórios do Paquistão e de Bangladesh (que se tornou independente em 1971), e a maioria hindu ficaria com o atual território da Índia. 

Lahore é a capital do Estado do Punjabi Paquistanês, o mais populoso e mais desenvolvido do país. A Índia também possui o seu próprio Punjabi, que no passado formava um território único com seu homônimo paquistanês. A língua punjabi é a mais falada nos dois territórios, o que não deixa de ser um alento em meio ao clima tenso e belicoso que existe entre a Índia e o Paquistão. 

O Paquistão inaugurou recentemente sua sexta usina nuclear e vem investindo pesado em fontes renováveis de geração de energia elétrica como a fotovoltaica e a queima de biomassa. Parte da energia elétrica que abastece as grandes cidades do país, entretanto, ainda depende da queima do carvão em antigas centrais termelétricas. Some-se a isso uma gigantesca frota de veículos antigos com motores de combustão interna e indústrias de todos os tipos – esse é o quadro do envenenamento da atmosfera de Lahore. 

Assim como ocorre em outras grandes metrópoles do mundo, a poluição faz parte das paisagens de Lahore durante todos os dias do ano. Nos meses mais frios do ano, como está sendo esse final de outono no Paquistão, a situação fica dramática. Os ventos perdem sua força e não conseguem dispersar adequadamente a grande massa de poluentes que cobre a cidade. 

Localizada a pouco mais de 15 km da fronteira com a Índia, Lahore acaba “empurrando” grandes nuvens de poluição para a região Norte do país vizinho. Essa nuvem de poluição se junta aos grandes volumes gerados na Índia, transformando toda essa extensa região numa das áreas com um dos piores ares do mundo. 

O mapeamento das cidades mais poluídas do mundo é uma iniciativa do PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, e da ONU-Habitat – Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos, em parceria com a IQAir, uma empresa suíça especializada em tecnologia da qualidade do ar e que atua desde 1963. Essa empresa é a responsável pelas medições dos níveis de poluição em cidades de todo o mundo.  

O PNUMA foi criado em 1972, logo após a Primeira Conferência Internacional do Meio Ambiente, evento que a ONU organizou na cidade de Estocolmo – Suécia. Essa reunião resultou na Declaração da ONU sobre o Meio Ambiente Humano, mais conhecida como a Declaração de Estocolmo, documento que passou a orientar as ações da Organização na defesa do meio ambiente natural e humano. 

A ONU-Habitat é uma agência dedicada à promoção da melhoria da vida nas cidades, buscando ambientes mais sociais e ambientalmente sustentáveis. A meta é que todos os residentes dessas cidades disponham de abrigos dignos e adequados. Fundada em 1978, a ONU-Habitat atua em 90 países, trabalhando com Governos e parceiros locais. 

IQAir mantém uma página na internet onde apresenta o mapa com as cidades mais poluídas do mundo. Se você consultar esse mapa agora (clique no link indicado), vai perceber que uma grande nuvem de poluição está cobrindo praticamente todo o Paquistão e grande parte da Índia. A parte mais nociva dessa poluição são as partículas finas em suspensão, conhecidas com PM2.5 e PM10. 

Hoje, dia 18 de novembro, Lahore está aparecendo na primeira posição desse mapa, com uma concentração de 311 micro gramas de partículas PM2.5 para cada metro cúbico de ar – Nova Déli, a capital da Índia, vem colada na segunda posição com um índice de 284 micro gramas de partículas PM2.5 e 371 micro gramas de partículas PM10 para cada metro cúbico de ar. 

Para efeito de comparação, a cidade de São Paulo aparece na 55ª posição no mapa, um índice considerado como moderado. No caso paulistano, o ponto crítico da qualidade do ar é a concentração de partículas PM2.5, com um índice de 17 microgramas para cada metro cúbico de ar. As concentrações de outros poluentes como PM10, ozônio, óxido nitroso, dióxido de carbono, entre outros gases tóxicos, surpreendentemente, estão dentro de valores seguros. 

A OMS – Organização Mundial da Saúde, em decisão recente, reviu suas recomendações para os níveis máximos de concentração dessas partículas – os novos limites são 5 micro gramas e 15 micro gramas por metro cúbico de ar, respectivamente, para a PM2,5 e PM10. Uma rápida olhada na concentração dessas partículas no ar das cidades citadas (inclusive São Paulo) dá uma ideia dos riscos para a saúde de seus moradores. 

Segundo a OMS, cerca de 7 milhões de pessoas morrem precocemente a cada ano por causa de problemas e doenças decorrentes da poluição atmosférica. Preocupações com as florestas tropicais, poluição dos mares e riscos à biodiversidade são importantes, mas o ar que respiramos todos os dias e do qual precisamos para sobreviver é mais importante ainda. 

Pense nisso e tente não respirar fundo! 

A GRADUAL REDUÇÃO DO NÍVEL DO MAR CÁSPIO 

A destruição do Mar de Aral na Ásia Central, que detalhamos na postagem anterior, é considerada uma das maiores tragédias ambientais do século XX. Ocupando uma área de mais de 65 mil km², o Mar de Aral era considerado o quarto maior lago do mundo. Após décadas de uso abusivo das águas dos seus rios formadores por projetos de agricultura irrigada, o grande lago acabou reduzido a 10% de sua área original. 

Localizado a cerca de 800 km do Mar de Aral, o Mar Cáspio parece estar seguindo por um caminho muito parecido. Ocupando uma área de mais de 370 mil km², um pouco maior que o território do Estado do Mato Grosso do Sul, o Mar Cáspio vem assistindo uma redução gradual do seu nível desde a década de 1970. Naqueles tempos, o lago vinha perdendo entre 1 e 2 cm a cada ano, um valor que era considerado razoável para o seu tamanho.  

Pesquisas recentes realizadas por cientistas holandeses e alemães constataram que esse nível de perda sofreu uma forte aceleração nas últimas décadas, atingindo um nível de dessecação da ordem de 6 ou 7 cm a cada ano. A má notícia é que esse ritmo de redução do nível do lago deverá se acelerar nas próximas décadas. De acordo com modelos matemáticos criados pelos pesquisadores, o Mar Cáspio poderá perder até 1/3 do seu tamanho até o final deste século

Localizado em uma grande depressão na Ásia Central, o Mar Cáspio é o trecho final de uma grande bacia hidrográfica endorreica, ou seja, cujas águas não seguem para o mar. Aliás, o nível médio do lago fica a cerca de 27 metros abaixo do nível do mar. Diversos rios da Ásia despejam suas águas no lago, repondo os grandes volumes perdidos para a evaporação. 

O Mar Cáspio se estende no sentido Norte-Sul, com aproximadamente 1.200 km de comprimento e cerca de 450 km de largura. Sua profundidade média é de 180 metros, atingindo 1.025 metros no ponto mais profundo. A linha de costa do lago tem quase 7 mil km, abrangendo trechos da Rússia, Azerbaijão, Turcomenistão, Cazaquistão e Irã. 

Cerca de 90% de todo o aporte de água que chega ao Mar Cáspio vem do rio Volga. Com quase 3.700 km de extensão, o Volga é o maior rio da Europa, o dono da maior bacia hidrográfica e também o curso com o maior volume de água do continente. Grande parte da população russa vive em áreas da bacia hidrográfica do rio Volga, que também concentra a maior parte da produção agropecuária e industrial do país. 

Desde os tempos da formação da URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, o rio Volga vem passando por obras de todos os tipos para seu aproveitamento como via de navegação e também como fornecedora de água para projetos industriais e de agricultura irrigada. Cerca de 3.200 km do rio são navegáveis e existem cerca de 900 portos nas suas margens.  

Em meados do século XX, o Governo Soviético construiu um canal de interligação entre os rios Volga e Don, possibilitando a integração hidroviária dos dois rios e também a navegação entre o Mar Cáspio e o Mar Negro. Os ganhos econômicos que foram obtidos a partir dessa super exploração do rio Volga se refletiram em gigantescos problemas ambientais no Mar Cáspio. 

Além da gravíssima poluição de suas águas por esgotos domésticos e industriais, o rio Volga também recebe grandes volumes de resíduos de agrotóxicos e de fertilizantes, poluição que é despejada diretamente no Mar Cáspio. A bacia hidrográfica do rio Volga concentra a maior parte da produção agrícola da atual Rússia. Essa grande exploração dos recursos hídricos também se reflete em uma grande redução dos caudais que chegam ao Mar Cáspio, o que explica em parte a gradual redução do nível do lago. 

Esse, entretanto, não é o maior problema ambiental do Mar Cáspio – de acordo com os estudos, as mudanças climáticas e o aumento das temperaturas do planeta são, de longe, os maiores riscos à sobrevivência desse grande lago. O aumento das temperaturas se reflete diretamente no aumento da evaporação e das perdas de água no Mar Cáspio. 

De acordo com os pesquisadores, essas mudanças climáticas poderão aumentar o volume de precipitações na bacia hidrográfica do rio Volga, o que, a princípio, resultará num aumento dos volumes de águas que chegam até o Mar Cáspio. O aumento da evaporação em consequência de temperaturas mais altas em toda a região onde se encontra o lago, entretanto, provocarão perdas por evaporação cada vez maiores no volume do corpo d`água. 

Os modelos matemáticos elaborados pelos pesquisadores estimam uma redução de 9 metros no nível do Mar Cáspio até o final deste século no caso das emissões de gases de Efeito Estufa se manterem estáveis. Num segundo cenário, onde se considerou um aumento das emissões, a redução do nível do Mar Cáspio poderá atingir a marca de 18 metros. No primeiro caso, a redução da superfície do lago seria de 23%, chegando a 34% no segundo cenário

Essas projeções mostram a importância do cumprimento das metas de redução das emissões dos gases de Efeito Estufa pactuadas no Acordo de Paris, em 2015, e que foram intensamente debatidas agora na COP26. O objetivo dessas medidas será o de limitar o aumento das temperaturas no planeta a, no máximo, 1,5° C até o final desse século. Observe pelo exemplo do Mar Cáspio que isso não vai resolver os nossos problemas climáticos, mas, como dizemos aqui em casa “é menos pior”. 

Países sem fachada oceânica como o Azerbaijão, Cazaquistão e Turcomenistão, tem maiores dificuldades para sua inserção no comércio internacional, o que se reflete em um desenvolvimento econômico mais lento. A ligação hidroviária que foi criada pelo canal de interligação entre os rios Volga e Don rompeu esse isolamento e passou a permitir o tráfego de embarcações entre o Mar Cáspio e o Mar Negro, e dali para todos os oceanos do mundo. A perda dessa ligação é apenas uma das ameaças para os países da região. 

As águas salgadas do Mar Cáspio (tem 1/3 da salinidade das águas dos oceanos) guardam uma outra riqueza fundamental para os países da região e que também poderia estar ameaçada – a pesca. Existem dezenas de espécies de peixes de alto valor comercial nas águas desse lago, porém, nenhuma consegue rivalizar com o esturjão, uma família com cerca de 25 espécies de animais, onde se incluem os chamados esturjões verdadeiros, além de várias espécies aparentadas. 

A ovas desses peixes, o caviar, é tão valiosa quanto o ouro. O caviar dourado iraniano, que é produzido pelo esturjão-beluga (Huso huso), é um dos mais valorizados do mundo e pode custar o fabuloso preço de US$ 25 mil por kg. Essa espécie de esturjão é considerada o maior peixe de água doce do mundo, com exemplares capturados apresentando um peso de 2 toneladas. A super exploração das espécies pela pesca e a poluição já estão ameaçando a sobrevivência desses animais, um problema que poderá ficar ainda mais crítico com a redução do tamanho do Mar Cáspio.  

Quem sabe, sob a ameaça de perder uma de suas iguarias preferidas, alguns dos poderosos líderes políticos, empresariais e industrias desse nosso mundo não se esforcem um pouco mais para ajudar na salvação do maravilhoso Mar Cáspio. 

PROBLEMAS AMBIENTAIS AMEAÇAM OS GRANDES LAGOS DO MUNDO 

O Mar de Aral, localizado numa grande depressão entre o Cazaquistão e o Uzbequistão, já foi o quarto maior lago do mundo. Até meados do século XX, o espelho d`água cobria uma área de 68 mil km², algo equivalente a três vezes e meia o Estado de Sergipe. A agricultura com irrigação intensiva nas Repúblicas da Ásia Central, onde o principal produto é o algodão, destruiu, literalmente o Mar de Aral, que atualmente está reduzido a 20% de sua área original. 

A Ásia Central é uma sucessão de estepes semiáridas e de desertos, que vem sendo habitada desde tempo imemoriais por povos nômades praticantes do pastoreio de animais. Essa vasta região é cortada por dois grandes rios – o Amu Daria e o Syr Daria. As nascentes desses rios se formam a partir do degelo de glaciares no alto das Montanhas Himalaias e em cordilheiras associadas como as Montanhas Pamir

Correndo no sentido Sudeste-Noroeste por mais de 2.300 km, esses rios desaguam numa grande bacia endorreica – o Mar de Aral, onde se formava um grande oásis no meio de planícies semiárida. Em bacias hidrográficas endorreicas, relembrando o conceito da geografia, a água se perde por ação da evaporação. Portanto, é essencial que o corpo d`água continue recebendo aportes regulares de água a fim de manter o seu nível estável. 

Conforme comentamos em uma postagem anterior, após a formação da URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, em 1917, o Governo Central em Moscou decidiu que as Repúblicas da Ásia Central – Cazaquistão, Uzbequistão, Tadjiquistão, Turcomenistão e Quirguízia, seriam transformadas nos celeiros agrícolas do bloco. Para levar isso a cabo, grandes obras para a construção de canais de transporte de água e de irrigação a partir dos rios Amu Daria e Syr Daria seriam construídas. 

Usando e esbanjando as preciosas águas desses importantes rios, os burocratas do Kremlin conseguiram atingir seus objetivos. Grandes tonelagens de grãos como trigo, milho e cevada, e depois fabulosos volumes de algodão, foram colhidas nessa extensa região. O custo ambiental, entretanto, foi altíssimo. A irrigação passou a consumir volumes equivalentes a 90% dos caudais dos rios Amu Daria e Syr Daria. A água que abundava nas plantações começou a escassear no Mar de Aral. 

Sem conseguir repor as perdas de água para a evaporação, o Mar de Aral começou a secar lentamente. Grandes áreas que antes formavam o fundo do lago agora nada mais são que uma sucessão de dunas de areais salgadas, que os locais passaram a chamar de Aralkum, palavra que nas línguas cazaque e uzbeque significa “deserto de Aral”. A foto que ilustra essa postagem resume bem esse drama.

O único trecho remanescente do lago é conhecido como Mar do Norte de Aral e corresponde a apenas 10% da área original. Esse pequeno corpo d’água sobreviveu graças aos esforços do Governo do Cazaquistão, que construiu uma barragem com cerca de 13 km nas proximidades do delta do rio Syr Daria, permitindo o acúmulo dos reduzidos caudais que chegam ao Mar de Aral. 

O desaparecimento de um lago desse tamanho em uma região semiárida teve, é claro, enormes consequências ambientais, sociais e econômicas. Dentro da estrutura de planejamento central da URSS, cabia ao Mar de Aral fornecer metade das necessidades de pescados para as populações de todos os países do bloco. Essa meta nunca foi alcançada, mas os pescadores e trabalhadores das fábricas de processamento de pescado da região conseguiam produzir 40 mil toneladas de pescado por ano, o que correspondia a 1/6 das necessidades dos soviéticos. 

As águas do Mar de Aral eram ricas em peixes, incluindo-se aqui o famoso esturjão do Aral (Acipenser nudiventris), peixe que podia atingir até 70 kg e produzia além da carne o valioso caviar. Essa e dezenas de outras espécies endêmicas tiveram suas populações dramaticamente reduzidas, quando não extintas, ficando restritas à região da foz do rio Amu Daria e ao Mar do Norte de Aral. Com o desaparecimento dos peixes, mais de 50 mil trabalhadores dessa indústria perderam os seus empregos. 

Os impactos não ficaram restritos ao corpo d`água. As margens e as regiões da foz dos grandes rios eram cobertas de frondosas florestas de juncos e canas, onde viviam grandes populações de saikas, uma espécie local de antílope, javalis selvagens, bois almiscarados, lobos, raposas, perus, gansos, patos e outros animais. Nas áreas alagadiças eram produzidas diversas culturas de víveres, que atendiam parte das necessidades dos povos locais. 

A catástrofe ambiental do Mar de Aral é complexa: aumento da salinidade das águas restantes; erosão do solo pelos ventos, destruição dos antigos locais de desova, com e extinção de várias espécies de peixes – muitas endêmicas do Aral. Os fortes ventos das estepes passaram a criar imensas tempestades de poeira salgada. Todas as atividades de navegação e do turismo colapsaram. Áreas de pastagem desapareceram e houve o comprometimento dos terrenos férteis. As fontes de água doce sofreram com a salinização, forçando a migração de imensos contingentes populacionais por falta de trabalho e condições mínimas de sobrevivência nas áreas impactadas, entre outros problemas.  

Estudos clínicos têm encontrado altíssimos níveis de anemia e um aumento exponencial das doenças respiratórias em moradores que permaneceram na região, forte incidência de alguns tipos de câncer, além de aumento na mortalidade infantil. A redução do espelho d’água também provocou uma alteração no clima regional, que agora apresenta verões cada vez mais secos e quentes (até 50° C) e invernos mais longos e frios (até -40° C). 

Infelizmente, o drama vivido pelo Mar de Aral está muito longe de ser um caso único e isolado. Existem inúmeros lagos em todo o mundo que estão passando por intensos e complicados problemas ambientais. O Mar Cáspio, o maior corpo d`água fechado e interior do planeta, localizado a cerca de 800 km do Mar de Aral, também está se reduzindo. De acordo com cálculos dos cientistas, o lago poderá perder até 1/3 de sua superfície até o ano de 2100. 

Outro caso dramático é o Lago Chade, localizado próximo do centro geográfico da África, corpo d`água que até o início da década de 1960 ocupava uma área de 25 mil km² e que está reduzida atualmente a 1 mil km². Cerca de 30 milhões de pessoas, distribuídas no Chade, Camarões, Níger e Nigéria, vivem ao redor de suas margens e dependem de suas águas para o abastecimento, pesca, dessedentação de animais e irrigação agrícola. Grandes projetos de agricultura irrigada, aliás, estão na raiz do gradual desaparecimento do Lago Chade. 

Bem perto de nós aqui na América do Sul, assistimos ao lento e gradual desaparecimento do Lago Titicaca, localizado entre o Peru e a Bolívia. Apesar dos Governos desses países negarem a existência de qualquer problema, o Titicaca vem perdendo aproximadamente 1 metro de profundidade a cada ano. O Lago é alimento por rios com nascentes em geleiras no alto da Cordilheira dos Andes. Conforme apresentamos em uma postagem anterior, o aquecimento global está reduzindo gradualmente essas geleiras e volumes de água cada vez menores estão chegando no Lago Titicaca. 

Em 2017, o Lago Poopó, um corpo de água menor que era alimentado por águas excedentes do Lago Titicaca, secou completamente. A causa dessa tragédia foram obras de desvio no rio Desaguadero para uso de suas águas em sistemas de irrigação agrícola. Sem repor as perdas de água para a forte evaporação, o lago, que chegava a ocupar uma área de 2.500 km², simplesmente desapareceu. 

Esses são os tempos complicados em que estamos vivendo. 

OS ESCRAVOS DOS CAMPOS DE ALGODÃO

Em tempos de COP26, quando parte das atenções globais está voltada para os gravíssimos problemas ambientais que assolam o planeta, muito se fala sobre a destruição de florestas tropicais (inclua-se aqui a Floresta Amazônica), da queima de combustíveis fósseis e das emissões de gases de Efeito Estufa, da poluição dos mares com dezenas de milhões de toneladas de lixo, entre outros terríveis problemas. 

Apesar da extrema gravidade de todos esses problemas, existem outros que estão bem mais próximos de nós, mas muita gente não se dá conta que esses problemas existem. A indústria têxtil é um desses casos – os problemas já começam nos campos onde se produzem fibras como o algodão, passam pelas indústrias de fiação e tecelagem, depois pela intensa exploração da mão de obra em países subdesenvolvidos, chegando enfim ao descarte cada vez maior de roupas usadas nos aterros

Na postagem anterior falamos da produção de algodão em larga escala em países da Ásia Central, o que teve como resultado a destruição do Mar de Aral, aquele que já foi o quarto maior lago do mundo. Vamos detalhar essa histórica trágica em uma outra postagem. 

A produção do algodão, desde a mais remota antiguidade, sempre foi um trabalho imposto aos trabalhadores mais humildes das sociedades, muitos desses trabalhando na condição de escravos. Tanto a fibra do algodão quanto os tecidos feitos com esse material sempre foram muito valorizados nos mercados do mundo antigo, um sucesso que sempre resultava em um número maior de trabalhadores e escravos trabalhando nas plantações. 

Para ilustrar essa realidade vamos citar dois casos históricos – a produção de algodão nas plantations do Sul dos Estados Unidos e na Índia durante a ocupação Britânica. No caso norte-americano, a mão de obra era formada por escravos africanos e só terminou após a Guerra de Secessão ou Guerra Civil Americana (1861-1865), quando a escravidão foi formalmente abolida em todo o país.  

Na Índia, a mão de obra era assalariada, mas as condições de trabalho estavam mais próximas da semiescravidão. A Índia conquistou sua independência da Inglaterra em 1947, porém, as condições de trabalho e de vida das populações ligadas ao plantio e processamento do algodão ainda levaria muitas décadas para melhorar. 

O algodão é a fibra natural mais consumida do mundo. De acordo com dados da ABRAPA – Associação Brasileira dos Produtores de Algodão, a fibra é produzida em cerca de 60 países do mundo, uma atividade que emprega cerca de 350 milhões de pessoas. Cada safra da cultura ocupa, em média, 35 milhões de hectares e produz perto de 25 milhões de toneladas a cada ano. 

O maior produtor mundial de algodão é a Índia, seguida bem de perto pela China e pelos Estados Unidos. O Brasil ocupa a posição de quinto maior produtor mundial. A lista dos maiores produtores mundiais também inclui o Paquistão, Uzbequistão, Turquia, Austrália e Turcomenistão. 

A produção do algodão em países da Ásia Central é uma das atividades econômicas mais importantes, só ficando atrás da mineração e da exploração do petróleo e do gás. No Uzbequistão, citando um exemplo, o algodão representa cerca de 14% das exportações do país. Na época da de colheita, alguns dos países da região chegam a utilizar a mão de obra de um terço da população, inclusive crianças, adolescentes e mão de obra escrava, o que gera grandes protestos na comunidade internacional

Um caso polemico dos dias atuais é a China, país que vem sendo acusado por entidades internacionais pelo uso intensivo de mão de obra escrava em campos de produção de algodão na região de Xinjiang, no Noroeste do país. Essa região é responsável por 85% da produção de algodão da China. Cerca de 1/5 da produção mundial de algodão vem de campos chineses.

De acordo com investigações feitas pela BBC – British Broadcast Corporation, a rede de televisão pública da Inglaterra, centenas de milhares de trabalhadores uigures e de outras minorias étnicas são obrigados a realizar trabalhos forçados em plantações de algodão nessa região do país. 

Os uigures são povos de origem turcomena que habitam vastas regiões da Ásia Central. Na China, os uigures estão concentrados na província de Xinjiang, onde tem uma população estimada em 8,6 milhões de pessoas. Os uigures se juntam a outras 55 minorias étnicas que vivem na China e que enfrentam inúmeros problemas políticos. 

Além de possuírem língua e costumes próprios, os uigures são majoritariamente praticantes do islamismo, uma religião que não é bem vista pelo Governo central em Pequim. Há relatos que afirmam que cerca de 1,5 milhão de uigures estão confinados em “campos de internação” do Governo, onde passam por um processo de reeducação. Há quem afirme que 500 mil desses “internados” estão sendo usados como mão de obra gratuita (para não chamar de escrava) nas plantações de algodão. 

De acordo com documentos obtidos pela BBC, as prefeituras das cidades de Aksu e de Hotan, na Província de Xinjiang, enviaram 210 mil trabalhadores por “transferência laboral“ em 2018, para trabalhos nas plantações de algodão. A coordenação dos trabalhos ficou por conta do Corpo de Construção e Produção de Xinjiang, uma organização paramilitar chinesa. 

Documentos também indicam que a cidade de Aksu requisitou 142,7 mil trabalhadores para seus próprios campos em 2020. Nos dois casos, os chamados trabalhadores nada mais eram que “internados” dos campos de reeducação, majoritariamente formado por uigures. 

Em um comunicado oficial em resposta às reportagens publicadas pela BBC, o Governo chinês negou todas as acusações e afirmou que os campos de internação são “escolas de formação profissional”. O comunicado também afirma que as unidades de produção fazem parte de um grande projeto de “alívio à pobreza”, além de informar que a participação dessas populações é voluntária

A produção de algodão nessa região se junta às condições deploráveis de trabalho nas tecelagens, tinturarias, oficinas de costura e demais empresas do ramo de confecção da China. Todos os anos, bilhões de peças de roupas são colocadas no mercado internacional a preços muito baixos 

Um sintoma desse mecanismo – há pouco tempo atrás li uma reportagem que falava sobre a mudança de hábitos de muitos consumidores dos Estados Unidos. Camisetas feitas na China são tão baratas que estão sendo tratadas como itens descartáveis – é mais barato comprar uma nova camiseta do que lavar essas peças em uma lavanderia automática. Ou seja – mais resíduos descartados no meio ambiente. 

Como fica bem fácil de entender, os grandes problemas ambientais de nosso planeta se restringem às queimadas na Floresta Amazônica… 

OS PROBLEMAS AMBIENTAIS CRIADOS PELO ALGODÃO, A FIBRA NATURAL MAIS UTILIZADA NO MUNDO

Na última postagem falamos sobre um gravíssimo problema ambiental de nossos dias – o consumo cada vez maior de produtoS fashion, especialmente roupas, e o aumento da produção de resíduos associados. Um exemplo mostrado foi o de uma grande área de descarte de roupas usadas no deserto do Atacama, no Norte do Chile. 

Os problemas ambientais criados pela indústria da moda começam no campo, onde muitas fibras naturais são produzidas. Um desses casos é o algodão, a fibra natural mais usada no mundo. As fibras do algodão são formadas quase que totalmente por celulose e crescem ao redor de uma semente. Apesar de existirem máquinas para a colheita do algodão, em grande parte do mundo a colheita é feita manualmente e em condições de trabalho das mais precárias (para não usar o termo trabalho semiescravo). 

O algodoeiro é um arbusto do gênero Gossypium e possui uma infinidade de espécies encontradas em regiões tropicais e subtropicais da Ásia, África e Américas. Existem quatro espécies de maior produtividade e que são cultivadas em grande escala ao redor do mundo. 

Evidencias arqueológicas indicam que o algodão vem sendo utilizado pela humanidade há mais de 4.500 anos, sendo que algumas fontes chegam a falar de mais de 6 mil anos. O algodoeiro foi domesticado inicialmente no Sul da Península Arábica e dali sua cultura foi disseminada por todo o Oriente Médio, Ásia Central e Norte da África. A história está repleta de referencias à planta e aos seus inúmeros usos.

O Brasil colonial viveu um ciclo efêmero de grande riqueza graças ao comércio do algodão nas últimas décadas do século XVIII. Naquele momento, a indústria têxtil da Inglaterra da Revolução Industria necessitava de grandes volumes da matéria prima. Dois dos maiores produtores da época enfrentavam problemas: Os Estados Unidos travavam a Guerra da Independência contra a Inglaterra e a França passava pela Revolução de 1789, mais conhecida como a Revolução Francesa. 

Passando por enormes dificuldades econômicas por causa do esgotamento das minas de ouro nas Geraes, Portugal viu uma grande oportunidade de produção para a sua grande colônia sul-americana. Grandes áreas do interior do Nordeste – especialmente no Maranhão, foram transformadas em plantações de algodão. Entre 1780 e 1800, a produção brasileira supriu grande parte da demanda da Inglaterra e, por esse breve período, o Maranhão foi a Província mais rica do Brasil. Com a regularização da situação politica nos Estados Unidos e na França, a antiga produção foi retomada e a cultura perdeu importância aqui no nosso país. 

Atualmente, os maiores produtores do mundo são Índia, China e Estados Unidos, com o Brasil ocupando a quinta colocação. Entre os maiores produtores mundiais destacam-se também o Uzbequistão e o Turcomenistão, países desérticos da Ásia Central onde a cultura do algodão se transformou na maior consumidora dos recursos hídricos disponíveis. 

O algodoeiro se adapta perfeitamente ao clima e aos solos de regiões desérticas e semidesérticas, porém, para a sua produção em larga escala se faz necessário o uso de muita água – alguns cálculos afirmam que são gastos cerca de 10 mil litros de água para se produzir 1 kg de algodão. Entretanto, estudos recentes do ICAC – International Cotton Advisory Committee, dos Estado Unidos, indicam que o consumo de água é de apenas 1.214 litros para cada kg de algodão. Entre 60% e 70% da produção mundial da fibra vem de áreas dotadas de sistemas de irrigação

Na Ásia Central, o algodão sempre foi uma mercadoria preciosa, sendo produzida em algumas regiões de clima adequado à cultura e distribuído por caravanas de mercadores desde tempos imemoriais. O produto era transportado por tropas de camelos por extensas e antigas rotas comerciais através de estepes, montanhas e desertos – a região do Mar de Aral era o centro de algumas dessas rotas ancestrais. 

Artesãos dos mais diferentes povos da região transformavam a fibra em fios usados na produção de tecidos e vestimentas, tapetes, utensílios domésticos e tendas. Um produto de sucesso da região era o Yaktakh, uma tradicional túnica de algodão leve com detalhes em seda e muito cobiçada em mercados de todo o mundo antigo. 

A história da Ásia Central passou por uma enorme reviravolta após a Revolução Bolchevique de 1917. Os países da região, que já viviam sob a influência da Rússia desde o século XIX, foram integrados a URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Com a implantação do sistema comunista e com o planejamento central da economia, as planícies da região passaram a ser vistas como potenciais produtoras de alimentos e de algodão para o bloco comunista. Essa produção utilizaria sistemas de agricultura irrigada e as fontes de água seriam os caudalosos rios Amu Daria e Syr Daria. 

A partir da década de 1920, Moscou decidiu iniciar a construção de inúmeros canais para o transporte de água e para irrigação de campos agrícolas em toda a região. A área de agricultura irrigada na República do Turquestão foi extensivamente ampliada a fim de atender a uma proclamação de Vladimir Lenin (1870-1924) solicitando o aumento da produção do algodão.  

Na década de 1930, já sob o comando de Joseph Stálin (1878-1953), o Ministério da Água iniciou a implantação de gigantescos projetos de construção de canais de irrigação no Uzbequistão, Cazaquistão e Turcomenistão, com o objetivo de transformar suas estepes nos celeiros da União Soviética, alcançando a autossuficiência na produção de trigo, cevada, arroz, milho e algodão. O primeiro grande canal de irrigação foi concluído em 1939 no Vale de Ferghana no Uzbequistão; no final da década de 1940 foram concluídos canais em Kizil-Orda no Cazaquistão e na região de Taskent no Uzbequistão. 

Após a morte de Stálin em 1953, os novos dirigentes da União Soviética – Nikita Khrushchev (1894-1971) e Leonid Brezhnev (1906-1982), mantiveram a política de produção agrícola nas Repúblicas da Ásia Central, expandindo ainda mais a construção dos grandes canais de irrigação e convertendo ainda mais áreas de estepes para a produção de algodão. Foram construídos o Qara-Qum, um canal com 800 km de extensão entre o rio Amu Daria e Ashkhadab, o sistema de irrigação de Mirzachol Sahra, o canal Chu no Quirguistão e o Reservatório de Bahr-i Tajik no Tadjiquistão.  

A partir do final da década de 1950, Moscou decidiu que toda a região irrigada da Ásia Central passaria a se ocupar exclusivamente com a monocultura do algodão. Essa frase se transformaria num mantra nos corredores do Kremlin: “quando o branco da neve cobre Moscou, o ouro branco do algodão cobre as Repúblicas Soviéticas da Ásia Central”. 

Os planos dos burocratas de Moscou lograram espantosos êxitos, com recordes de produção de algodão sendo quebrados sucessivamente ano após ano. Todo esse sucesso, porém, teve terríveis custos sociais e ambientais: a sangria de recursos hídricos dos rios Amu Daria e Syr Daria para uso em sistemas de irrigação fez cair em 90% o volume de água que chegava ao Mar de Aral, um grande lago encravado no meio do deserto e que tinha uma superfície com cerca de 68 mil km2. Atualmente, o Mar de Aral tem apenas 20% de sua área original

A produção de algodão, literalmente, destruiu o quarto maior lago do mundo! 

Falaremos mais sobre isso na próxima postagem. 

O CRESCIMENTO DO LIXO “FASHION” NO MUNDO

Um estudo feito pela ONU – Organização das Nações Unidas, em 2019, mostrou que a produção de roupas no mundo dobrou entre os anos de 2000 e 2014. Esse enorme aumento da produção não significa, necessariamente, que um número maior de pessoas está tendo acesso a roupas de melhor qualidade. O que se observa é um aumento do consumo de produtos ligados a moda pelas classes de maior poder aquisitivo nos países mais desenvolvidos, que é seguido por um aumento equivalente no descarte de peças consideradas fora de moda. 

Esse aumento no consumo gera diversos problemas ambientais, especialmente em países pobres e/ou em desenvolvimento que, por apresentar baixos custos de produção e de mão de obra, passaram a concentrar essas empresas nas últimas décadas. 

Nas duas postagens anteriores mostramos alguns desses problemas. No primeiro caso falamos das indústrias têxteis da região do rio Citarum, na Ilha de Java – indonésia. Citarum é considerado o rio mais poluído do mundo e tem como principais fontes de poluição os resíduos e efluentes gerados por indústrias de tecelagem e fiação. 

O outro caso foi o do rio Yamuna, um dos principais afluentes do Ganges, o maior, mais importante e mais sagrado rio da Índia. As margens do rio Yamuna concentra centenas de indústrias do ramo têxtil e também curtumes. Juntas, essas empresas despejam milhões de litros de efluentes com altos índices de contaminação por produtos químicos. Nos últimos dias, as águas do Yamuna foram tomadas por uma densa massa de espumas flutuantes, um sintoma da gravíssima contaminação das águas. 

Indústrias têxteis e curtumes são grandes consumidores de água. Estudos da ONU indicam que a produção de uma única calca jeans requer o uso de 7.500 litros de água. O tratamento de 1 tonelada de couro consome entre 20 e 80 m3 de água ao longo dos diversos processos. Além do alto consumo, esse grande volume de água retorna ao meio ambiente contaminado pelos produtos químicos usados nas cadeias de produção. 

Ainda segundo a ONU, a indústria têxtil é “responsável por 20% do total de desperdício de água globalmente”. Indústrias dos segmentos têxtil e de produção de calçados respondem por 8% das emissões mundiais de gases de Efeito Estufa. Outro dado dramático – essas indústrias geram um volume de resíduos equivalente a um caminhão de lixo a cada segundo. Esses resíduos vão para aterros (muitos deles clandestinos) ou são queimados. 

Exemplos dessas agressões ambientais existem por todos os cantos do mundo. O subcontinente indiano, especialmente a Índia e Bangladesh (o Paquistão se especializou em tecelagem), além da China, Malásia, Tailândia, Indonésia e Vietnã, entre outros, se mostraram altamente promissores, oferecendo farta mão de obra barata e leis trabalhistas altamente permissivas. Esses países foram transformados numa espécie de paraíso na terra para as confecções.   

Bangladesh é um caso extremo. O custo da mão de obra no país é menor do que na China, o que transformou Bangladesh em uma imensa rede de pequenas oficinas de corte e costura de roupas, de pequenas tecelagens e inúmeras tinturarias. O país é o segundo maior produtor mundial de têxteis do mundo – é comum encontrarmos roupas nas lojas das grifes mais sofisticadas do mundo com a inscrição “Made in Bangladesh”.   

Um grande exemplo brasileiro de descaso ambiental criado por essas indústrias é o rio Capibaribe, o maior do Estado de Pernambuco e que aparece em 7º lugar na lista dos rios mais poluídos do Brasil. Entre os municípios que mais contribuem para essa poluição está Toritama, cidade conhecida como a “capital nordestina do jeans”. São centenas de empresas têxteis que vão de pequenas oficinas de costura domésticas a grandes fábricas, além de dezenas de tinturarias. 

Outro exemplo é o rio dos Sinos, no Rio Grande do Sul, considerado o 4º rio mais poluído do Brasil. O Vale do Rio dos Sinos tem uma forte economia industrial formada por curtumes, indústrias químicas, metalúrgicas, produtoras de plásticos e de componentes para calçados – aliás, a região concentra o maior polo calçadista do Brasil e, na esteira, um grande número de curtumes e indústrias associadas. Grande parte dos efluentes dessas empresas é despejado no rio sem receber um tratamento adequado. 

Um vídeo chocante que está circulando pelas redes sociais e que ilustra o quanto a indústria da moda é danosa para o meio ambiente é a de imensas pilhas de roupas “velhas” amontoadas no Deserto do Atacama, no Norte do Chile. O país é o maior importador de roupas usadas da América Latina. As peças passam por um processo de seleção – as roupas em bom estado são colocadas para venda no mercado e as peças consideradas “ruins” são descartadas. 

De acordo com os cálculos do Governo local, o volume de roupas descartadas é da ordem de 59 mil toneladas a cada ano. Como os aterros sanitários da região só aceitam resíduos biodegradáveis as empresas descartam clandestinamente as peças inservíveis no árido Deserto do Atacama, localizado a cerca de 1800 km da Capital do país – Santiago. 

A porta de entrada dessas importações é o Porto de Iquique, onde funciona uma zona franca similar a que existe em Manaus. Os produtos vêm em grandes contêineres embarcados nos Estados Unidos, Canadá e países da Europa, onde existe uma verdadeira febre de consumo de produtos de moda. Muitas das grandes grifes internacionais chegam a lançar até 50 coleções por ano nesses países. 

Com esse ritmo de lançamentos, muitos dos consumidores usam as peças apenas uma ou duas vezes, descartando as roupas logo depois. Muitas empresas se especializaram na compra dessas peças usadas, que acabam sendo revendidas para outros países, onde roupas de marcas de grife famosas são muito valorizadas. 

As peças passam por um rigoroso processo de seleção, onde apenas as melhores serão separadas e encaminhadas para a venda nas lojas. Roupas manchadas, sujas ou com defeito são automaticamente encaminhadas para o descarte. De acordo com as regras da zona franca chilena, produtos importados com taxas reduzidas e subsídios não podem sair da região sem o pagamento de impostos. Logo, o caminho mais fácil para o descarte é o vizinho Deserto do Atacama. 

Como não seria diferente, esses depósitos clandestinos de roupas atraem muitos catadores, gente que garimpa roupas para usar ou mesmo para revender (vide imagem). Existem grandes rotas de contrabando desses produtos na direção de países como Bolívia, Peru e Paraguai.  

As peças inservíveis continuam abandonadas ao relento – o tempo médio para a decomposição de tecidos na natureza é de cerca de 200 anos. Como o Atacama é considerado o deserto mais árido do mundo, é provável que esse tempo venha a ser ainda maior. 

Em linguagem popular, trata-se de lixo do Primeiro Mundo que acabou arrumando um cantinho aqui no Terceiro Mundo. Triste sina essa nossa… 

AS ESPUMAS TÓXICAS DO RIO YAMUNA NA ÍNDIA 

Os “deuses” do meio ambiente da Índia têm andado bastante ocupados nesses últimos dias. Na semana passada, a população da Capital do país – Nova Déli, foi surpreendida com uma altíssima concentração de poluentes em sua atmosfera. Ontem, foi a vez de circularem notícias que dão conta da tomada da superfície do sagrado rio Yamuna com espumas tóxicas flutuantes. 

Relembrando, há poucos dias atrás o Governo da Índia se recusou a acelerar o ritmo de redução das suas emissões de gases de Efeito Estufa. O pedido havia sido feito pela cúpula dos países participantes da COP26. Esses países estavam pressionando a Índia a atingir a marca dos 40% de redução nas suas emissões até o ano de 2030. O Governo da Índia disse não e afirmou que vai manter todos os acordos fechados anteriormente. 

Coincidência ou não, graves problemas ambientais do país começaram a aparecer logo após esse posicionamento do Governo indiano. Vamos entender o caso do rio Yamuna

O rio Yamuna ou Jamuna nasce nas montanhas Himalaias no Norte da Índia e percorre cerca de 1370 km até desaguar no rio Ganges, do qual é um dos principais afluentes. Segundo a mitologia hindu, a deusa deste rio é irmã de Yama, o deus da morte. Segundo um dos livros sagrados da Índia, o Mahabharata, o deus Krishna passou a sua infância nas águas desse rio, que passou a ser considerado um dos rios mais sagrados da Índia. 

O vale do rio Yamuna corta alguns dos Estados mais populosos da Índia – Déli, Uttar Pradesh e Haryana. Ao longo do seu curso o rio corta cidades importantes como Nova Déli, Mathura, Vrindavan, Agra, Etawah e Kalpi. Cerca de 60 milhões de pessoas dependem diretamente das águas do rio Yamuna para seu abastecimento. As águas também são fundamentais para irrigação de campos agrícolas. 

Junto com outros importantes rios da Índia, de Bangladesh e do Paquistão, o Yamuna forma a Grande Planície Indo-gangética, uma extensa faixa de terras férteis que vem sendo habitada desde a mais remota antiguidade. Na época da Monção, uma temporada de fortes chuvas anuais que atingem o Subcontinente Indiano e Sudeste da Ásia, os rios da região transbordam e cobrem as planícies com sedimentos férteis. Assim que as águas baixam, essas terras começam a ser trabalhadas por milhões de agricultores. 

Desgraçadamente, essa verdadeira “dadiva” divina não recebeu a atenção necessária por parte dos homens. A poluição das águas nessa região, especialmente na Índia, transformou rios em verdadeiras valas de esgotos a céu aberto. O maior exemplo dessa degradação é o rio Ganges, o maior, mais importante e mais sagrado rio da Índia e de Bangladesh. 

Na bacia hidrográfica do rio Yamuna, as grandes fontes de poluição hídrica são os despejos de esgotos domésticos e industriais. Como acontece na maioria dos países em desenvolvimento, onde se inclui o Brasil, os governantes indianos priorizam a construção de redes de abastecimento de água, investindo quase nada em redes de coleta e em estações de tratamento de esgotos.  

Com uma população beirando os 1,4 bilhão de habitantes, a Índia precisa criar 1 milhão de empregos a cada mês somente para absorver os jovens que estão entrando no mercado de trabalho. Para dar uma “pequena” ajuda para os empresários, os Governos de todos os níveis acabam fazendo vista grossa para muitos problemas ambientais gerados nos processos industriais. 

A Índia tem uma forte tradição na produção de algodão, uma das fibras têxteis mais populares do mundo. A bacia hidrográfica do rio Yamuna concentra uma grande quantidade de empresas dos ramos de fiação e tecelagem, além de grandes empresas farmacêuticas. Os efluentes gerados nos processos industriais dessas empresas possuem altas concentrações de produtos químicos, principalmente corantes têxteis. Sem maiores restrições de controle ambiental, a maioria dessas empresas despeja esses efluentes sem qualquer tratamento nas águas dos rios. 

Outra gravíssima fonte de poluição são os despejos das indústrias que trabalham nos segmentos de tratamento e tingimento do couro. Apesar de parcela expressiva da população indiana ser adepta do hinduísmo e venerar bois e vacas como animais sagrados, o país é um dos maiores exportadores mundiais de carne (principalmente de búfalos) e um grande produtor de couro. Agra, uma das cidades atravessadas pelo rio Yamuna, é a capital indiana dos calçados, concentrando milhares de empresas – de oficinas familiares a grandes fábricas desses produtos. Essa produção gera uma enorme demando por couro.

O couro animal é um tecido vivo, que se não for tratado corretamente apodrece em um curto espaço de tempo. As peças que chegam dos frigoríficos passam inicialmente por um processo de limpeza, onde são removidos restos de carne, gordura e pelos – esses resíduos correspondem a 70% do peso do couro cru. Essa limpeza consome muita água e os resíduos orgânicos que gera são altamente poluentes.  

Numa segunda etapa, o couro passa por processos de mumificação, amaciamento e tingimento. As indústrias utilizam produtos químicos, tintas e solventes que contém substâncias altamente tóxicas como mercúrio, arsênico e, principalmente, sais de cromo. Os resíduos desses produtos são em grande parte misturados aos efluentes que são despejados sem qualquer tipo de tratamento na calha de córregos e rios. 

Para curtir 1 tonelada de couro são gastos entre 20 e 80 m³ de água, onde são adicionados cerca de 250 mg/l de sais de cromo e cerca de 50 mg/l de sulfeto, entre outros produtos químicos. Todo esse volume de efluentes é descartado nos rios após a conclusão do processo de tratamento do couro – são raras as empresas da Índia que tratam seus efluentes adequadamente (ou pelo menos em parte). 

Em altas concentrações, estes compostos podem causar diversos problemas à saúde humana, indo desde problemas respiratórios, infecções, infertilidade e deficiências congênitas. Lançado junto com os efluentes nas águas dos rios, o cromo pode causar problemas nas guelras dos peixes e também provocar alguns tipos de câncer em animais e populações humanas que bebam ou mantenham contato com estas águas.   

O somatório de todos esses produtos químicos e resíduos orgânicos gera, de tempos em tempos, verdadeiras nuvens de espuma tóxica flutuante sobre as águas do rio Yamuna, como essa que estamos assistindo agora. É essa água tóxica que é captada pelas empresas de saneamento básico da região para abastecimento das populações e que também são usadas na irrigação de plantações agrícolas, atividades que também contribuem para a poluição das águas com resíduos de fertilizantes e agrotóxicos. 

Nos últimos dias foi realizado nessa região da Índia o Chhath Puja, um festival religioso hindu em homenagem ao Deus Sol. Um dos pontos altos da festa é um banho que os religiosos tomam nas “’águas sagradas” do rio Yamuna. Muitos fieis fizeram questão de manter viva a tradição e mergulharam nas águas sujas e cobertas com espumas fétidas (vide imagem). 

É sempre importante lembrar que a raiz linguística de ecologia é oikos, uma palavra grega que significa casa ou lar. Fazer um “estrago” desse tamanho em nossa própria casa não vai acabar nada bem… 

E a “casa” dos indianos, como visto, está muito bagunçada. 

AS OBSCURAS RELAÇÕES ENTRE O RIO MAIS POLUÍDO DO MUNDO E ALGUMAS DAS MAIS SOFISTICADAS GRIFES INTERNACIONAIS

Na cidade de Estocolmo, capital da Suécia, a poucos quilômetros de distância da casa da ativista ambiental Greta Thunberg, fica a sede da multinacional do segmento da moda H&M, uma empresa varejista que possui mais de 170 mil funcionários e tem um faturamento anual superior aos US$ 25 bilhões.  

Fundada em 1947, a H&M atua hoje em 74 países e possui mais de 5 mil lojas. Além da marca H&M, a empresa também possui as marcas COS, Monki, Weekday, & Other Stories, Arket, Afound e Sellpy. O lema da empresa é “Moda e Qualidade ao Melhor Preço, de forma Sustentável”. 

Os produtos comercializados pelas lojas da H&M são roupas, cosméticos e artigos para as casas. Como é usual nas operações desses grandes grupos, a empresa não fabrica os produtos que vende. Centenas de fornecedores em todo o mundo entram na cadeia de produção fornecendo matérias primas, mão de obra e produtos prontos com a etiqueta das marcas. Esses fornecedores, é claro, precisam oferecer os preços mais baixos possíveis em seus produtos e serviços, praticas que também são adotadas por outras grandes grifes de moda internacionais. 

Eu já tive a oportunidade de visitar algumas dessas lojas de grife em países como Estados Unidos, Espanha, Itália e França. Olhando as etiquetas dos produtos lembro de ter encontrado nomes de países como Bangladesh, Vietnã, Índia, China, Tailândia, Indonésia, entre muitos outros. Em comum, todos esses países possuem grandes populações e oferecem baixíssimos custos de mão de obra. Empresas do setor de vestuário dos países desenvolvidos, já há muito tempo, fecharam as suas fábricas locais e transferiram suas operações para esses países do terceiro mundo.

Entre os grandes fornecedores de matéria prima para as cadeias de produção da H&M destacam-se empresas têxteis da Indonésia, muitas delas colocadas entre as maiores do mundo nos segmentos de tecelagem (produção de tecidos) e fiação (fabricação de linhas para costura). O maior polo têxtil da Indonésia fica localizado na Ilha de Java e se estende ao longo as margens do rio Citarum. A mancha urbana de Jakarta, a capital do país, fica a apenas 40 km da foz do rio Citarum.  

É provável que a grande maioria dos leitores nunca tenha ouvido falar desse rio. Aqui vai uma dica: as águas do Tietê, o rio mais poluído do Brasil, parecerão com as águas cristalinas de um regato nas montanhas caso comparadas com as águas do rio Citarum. Para muitos especialistas, o rio Citarum é o mais poluído do mundo

Eu não me recordo de ter visto imagens de Greta Thunberg munida de um cartaz na porta da sede da H&M em Estocolmo e protestando contra a destruição do rio Citarum por fornecedores de matérias primas da grande empresa sueca. Em outros países que sediam grandes marcas do segmento da moda como França, Alemanha e Espanha, nós até assistimos vez ou outra grupos protestando contra essas empresas. Porém, esses protestos são extremamente tímidos quando comparados àqueles feitos em defesa da preservação da Floresta Amazônica

O rio Citarum tem suas nascentes nas encostas do Monte Wayang, no centro da Ilha de Java, percorrendo cerca de 320 km até atingir sua foz no Mar de Java. Registros fósseis indicam a presença do Homo erectus ou Homem de Java, uma espécie de primo distante dos humanos modernos em suas margens em um período situado entre 500 mil e 2 milhões de anos atrás. Nossa espécie, o Homo sapiens, chegou na região há cerca de 45 mil anos. 

A moderna Indonésia é hoje uma República formada por 17.508 ilhas e 250 milhões de habitantes, sendo a Ilha de Java uma das maiores e mais importantes do arquipélago. A capital do país, Jacarta, fica nessa ilha e possui uma população de mais de 10 milhões de habitantes. A ilha de Java tem cerca de 128 mil km2 e tem uma população de 124 milhões de habitantes. Na bacia hidrográfica do rio Citarum vivem cerca de 30 milhões de pessoas. 

Esses números mostram o potencial humano e econômico de Java, explicando por que a ilha passou a receber grandes investimentos para a instalação de fábricas nas últimas décadas. A bacia hidrográfica do rio Citarum concentra mais de 500 indústrias, a imensa maioria do ramo têxtil. Esses empreendimentos buscaram a mão de obra abundante e barata da região, a grande disponibilidade de água, um insumo essencial para essas indústrias, além das facilidades de uma legislação ambiental bastante permissiva. 

Desde a antiguidade, as águas do rio Citarum vem sendo fundamentais para o abastecimento de populações e, principalmente, para uso na irrigação de culturas. Como é comum em todos os países do Sudeste e Leste da Ásia, o cultivo do arroz é fundamental para a alimentação humana. Essa planta requer grandes volumes de água para o seu cultivo. As planícies fluviais e os vales desses países e ilhas vem sendo cortados por uma rede de canais de irrigação para o cultivo de arroz desde tempos imemoriais. 

Desde a década de 1970, quando a Ilha de Java passou a assistir a instalação maciça de fábricas, a poluição das águas do rio Citarum começou a crescer vertiginosamente. Além da poluição com os despejos químicos das indústrias, as águas do rio passaram a receber volumes cada vez maiores de esgotos domésticos e de resíduos sólidos descartados pela população das vilas e cidades, que passaram a crescer aceleradamente. 

A imagem que ilustra esta postagem mostra uma cena típica de um trecho do rio, onde dezenas de milhares de garrafas e embalagens plásticas são arrastadas pela correnteza. Muitos moradores tiram o seu sustento das águas, de onde retiram garrafas e outras peças plásticas para venda em unidades de reciclagem. 

No ano de 2018, a Deutsche Welle,  empresa pública de comunicação da Alemanha, fez um interessante documentário mostrando toda a crise social e de saúde provocada pela gravíssima poluição do rio Citarum. Clique no link para assistir com dublagem em castelhano. 

Em um dos trechos mais impactantes do documentário, o repórter coleta amostras do cabelo de 45 crianças de uma vila localizada as margens do rio Citarum. Essas amostras foram enviadas para análise em um laboratório em Luxemburgo e o resultado dos testes não foi dos melhores: foram encontrados vestígios de mais de 52 produtos químicos como cromo, arsênico e chumbo nos fios de cabelo. 

Em outro trecho do documentário, são recolhidas amostras de arroz de um campo irrigado com águas do rio Citarum. Encaminhadas para análise no laboratório de uma universidade local, os laudos indicaram a presença de todo um coquetel de produtos químicos nocivos para a saúde humana. A concentração de chumbo nas amostras, citando um único exemplo, estava 116 vezes acima dos níveis máximos recomendados pelos órgãos de saúde

Outros elementos químicos encontrados em altíssimas concentrações nas águas do rio são os sulfatos. Esses elementos causam diarreias nas pessoas que consomem as águas contaminadas. atingindo especialmente as crianças. Números oficiais do Governo da Indonésia falam da morte de 147 mil crianças com menos de 5 anos a cada ano por causa da diarreia

A fonte de todos esses contaminantes são as tubulações de despejo de efluentes das indústrias têxteis. Amostras foram coletadas pela reportagem e encaminhadas para análises em laboratórios, onde se confirmou a poluição. A reportagem conseguiu visitar algumas dessas empresas, onde técnicos tentaram mostrar os processos de tratamento de efluentes em uso. Porém, as imagens de grandes tubulações despejando águas quentes e coloridas não deixam dúvidas sobre a responsabilidades dessas empresas na contaminação do rio. 

Diretores das empresas, autoridades do Governo e até mesmo uma diretora local da empresa sueca H&M, se mostraram surpresos aos ver imagens da poluição das águas do rio e também ao receber os laudos com os resultados das análises laboratoriais. Ninguém “sabia” que a situação do rio estava tão crítica. 

Grandes grifes internacionais como a Adidas, Hugo Boss e GAP, entre mais de duas centenas de marcas, utilizam tecidos e fios produzidos na Indonésia, sem demonstrar quase nenhuma culpa por sua cumplicidade nessa tragédia ambiental. A pressão da opinião pública já deve ter resultado em algumas mudanças nessas empresas, mas a busca por bons lucros sempre fala mais alto.

Greta Thunberg e algumas centenas de manifestantes estiveram em Glasgow, na Escócia, cidade que está sediando a COP26. Protestaram contra a emissão de gases de Efeito Estufa e a destruição das florestas tropicais, entre outros temas clichês. Muitos desses manifestantes usavam roupas de grifes dessas marcas, mas, quem se importa… 

Como costumamos falar aqui no meu bairro – “fala sério, meu!” 

O SEQUESTRO DE CARBONO PELA AGRICULTURA

As emissões de gases de Efeito Estufa estão no topo da lista dos vilões do clima mundial. Conforme comentamos em postagens anteriores, altas concentrações de alguns desses gases na atmosfera, principalmente o dióxido de carbono (CO2), o Metano (CH4), o Óxido Nitroso (N2O) e o Hexafluoreto de Enxofre (SF6), intensificam o Efeito Estufa, um fenômeno natural da atmosfera do planeta, e resultam num aumento das temperaturas na superfície da terra. 

A redução das emissões dos gases de Efeito Estufa pelos países vem sendo uma das principais frentes de luta de governantes, empresários e organizações de defesa do meio ambiente reunidos na COP26 – Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2021. Muitos Governos já assumiram o compromisso de reduzir suas emissões e, inclusive, já estabeleceram uma data limite para zerar as suas emissões. O Brasil está nessa lista de países. 

Infelizmente, são muitas as nações que se recusam a reduzir as suas emissões na velocidade exigida pela maior parte dos países. Nessa lista podemos incluir a China e a Índia, países que estão entre os maiores emissores de gases de Efeito Estufa do mundo. 

Uma outra frente de batalha é a luta pela preservação das áreas florestais. Árvores absorvem grandes volumes de carbono, especialmente durante a fase do crescimento. Fazendo uma analogia – o carbono pode ser comparado aos tijolos usados na construção de uma casa: quanto maior a construção, maior será o número de tijolos que serão necessários. 

É dentro desse contexto que a conservação da Floresta Amazônica é fundamental para o planeta. A Amazônia é uma das últimas grandes florestas do mundo que ainda permanece de pé e, para muita gente, ela é a pedra de salvação do planeta. Ninguém costuma falar de outras grandes florestas do mundo que já desapareceram e de outras tantas que caminham rapidamente para o desaparecimento. Cito de cabeça as florestas do Sul do México, de Madagascar e também da Indonésia e da Malásia.

Estudos recentes estão demonstrando que a agricultura, normalmente muito combatida por grupos ambientalistas, dá uma grande contribuição ao planeta sequestrando grandes quantidades de carbono. Um exemplo são as plantações de soja

Estudos indicam que a planta sequestra 3,66 kg de dióxido de carbono para produzir 1 kg de carbono usado na formação da planta e suas sementes. As moléculas de carbono, juntamente com a água e nutrientes retirados do solo, são usados para a formação da matéria da planta, ou seja, raízes, caule, folhas e sementes. O sol fornece a energia usada nesse processo de construção da planta, a famosa fotossíntese. 

Para cada 3 toneladas de grãos de soja colhidos, são geradas cerca de 2 toneladas de palha – metade desse volume total é formado por carbono sequestrado da atmosfera. A soja será transformado em ração para animais, entrará na composição de diversos alimentos, além de ser usada na produção de óleo. Ou seja – mais cedo ou mais tarde todo esse carbono armazenado acabará voltando para a atmosfera. 

Grande parte do carbono presente na palha, entretanto, acabará sendo absorvido pelo solo e será usado durante o crescimento da próxima safra de grãos. Essa dinâmica de sequestro e liberação de carbono pela agricultura acaba sendo muito maior do que a das florestas já consolidadas e com pouco crescimento das árvores. 

A EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, tem desenvolvido várias pesquisas para dimensionar os volumes de carbono sequestrados por plantações de grãos. Uma dessas pesquisas está avaliando o sequestro de carbono em plantações de soja, milho e algodão em solos arenosos do Estado da Bahia. 

Os plantios experimentais foram feitos em terras da Fundação Bahia, no município de Luís Eduardo Magalhães no extremo Oeste do Estado, entre os anos de 2012 e 2019. Foram semeadas áreas com soja, milho e algodão usando técnicas de plantio convencional e de plantio direto. 

No plantio convencional, os solos são limpos (toda a vegetação é removida), tendo a terra arada e semeada. Não é incomum a queima dos restos de vegetação como parte da preparação dos solos (a famosa coivara), uma prática que emite grandes volumes de gases de Efeito Estufa. No plantio direto, o solo é preparado durante a colheita, sendo recoberto por matéria orgânica – folhas, palhas, fibras e outros restos orgânicos da última cultura produzida. 

Nos experimentos de plantio direto, a EMBRAPA fez várias rotações de cultura: soja e milho seguidos por braquiária (um tipo de capim de grande porte); algodão e soja seguidos por crotalária (uma leguminosa de rápido crescimento); soja, sorgo na sucessão e algodão. 

Nas medições sistemáticas que foram realizadas numa camada de solo com até 40 cm de profundidade, o estoque de carbono encontrado nas áreas com cultivo direto foi 28% maior que nos solos com plantio convencional e cerca de 33% maior que nos solos cobertos com vegetação nativa do Cerrado. Ao longo dos sete anos da realização desse estudo, os pesquisadores observaram que o sequestro de carbono nos solos com plantio direto foi em média 31% maior que nos solos com plantio convencional

Esse estudo mostra que o sequestro de carbono pela agricultura com plantio direto é maior do que as emissões, contrariando a ideia generalizada que diz que a agricultura é uma grande emissora de gases de Efeito Estufa. Segundo alguns estudos já realizados, as emissões da agricultura entre os anos de 1990 e 2010 aumentaram 8%, representando emissões de 4,98 bilhões de toneladas em 2010, segundo dados da FAO – Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura. 

Com a população mundial se aproximando rapidamente dos 8 bilhões de habitantes, a agricultura está sendo cada vez mais pressionada a aumentar a sua produção de alimentos. Essa pressão tem provocado um avanço cada vez maior sobre remanescentes e áreas florestais. 

Em países pobres e em desenvolvimento, grande parte da produção de alimentos é feita com técnicas agrícolas mais primitivas e com pouca mecanização, onde é muito comum a queima de matéria orgânica – as cinzas de madeiras queimadas ajudam a melhorar a fertilidade dos solos. 

Esses estudos mostram que a modernização das práticas agrícolas, além de melhorar bastante a produtividade das culturas, pode contribuir para a redução da concentração de dióxido carbono na atmosfera, algo que terá reflexos diretos na melhoria das condições ambientais do planeta. 

É fundamental aprofundar ainda mais esses estudos e levar todos esses conhecimentos e práticas para o maior número possível de agricultores em todo o mundo.