RIO DOS SINOS – O 4° RIO MAIS POLUÍDO DO BRASIL

São Leopoldo

Em outubro de 2006, um gigantesco desastre ambiental, classificado como um dos maiores já ocorridos no Rio Grande do Sul, fez o rio dos Sinos ganhar projeção mundial – aproximadamente 90 toneladas de peixes mortos apareceram no trecho entre Portão e Sapucaia do Sul. A responsável por esta tragédia ambiental foi uma aparente combinação de baixos níveis de oxigênio dissolvido na água com uma verdadeira sopa de despejos químicos industriais. A tragédia “anunciada” se completou com a presença de um grande volume de peixes no rio devido à ocorrência de uma forte piracema, o conhecido processo de migração dos peixes rumo às nascentes dos rios com fins de reprodução – uma mistura que acabou sendo, simplesmente, fatal para os peixes: calcula-se que perto de 1 milhão de peixes morreram neste desastre ambiental.

O relatório divulgado na época pela FEPAM – Fundação Estadual de Proteção Ambiental, apontou como causas do desastre os despejos de efluentes químicos de seis empresas da região e a alta carga de esgotos domésticos lançados in natura nas águas do rio. Um outro fator que contribuiu para a tragédia ambiental foi o alto nível do Lago Guaíba (conhecido popularmente como rio Guaíba), o que provocou o “represamento” temporário das águas do rio dos Sinos e contribuiu para a elevação da concentração dos poluentes e das águas com baixos níveis de oxigênio. Estudos posteriores, realizados por equipes de monitoramento da UNISINOS – Universidade do Vale do Rio dos Sinos, encontrou mais de 2.100 tubulações de despejos domésticos ao longo das margens do rio e mais de 1.500 pontos onde a mata ciliar foi removida.

O rio dos Sinos nasce no município de Caraá, litoral Norte do Rio Grande do Sul e percorre aproximadamente 190 km até desaguar no delta do Jacuí no município de Canoas. Os rios Caí, Gravataí e Sinos são os principais formadores do Lago Guaíba, na Região Metropolitana de Porto Alegre. Coincidência ou não, estes são os três rios mais poluídos do Rio Grande do Sul e integram a lista dos 10 mais poluídos do Brasil. O nome do rio foi dado como uma referência a grande sinuosidade do seu curso. O rio atravessa uma região com importantes cidades onde vive uma população de mais de 1,3 milhão de habitantes, conhecida como Região do Vale do Rio dos Sinos, e com forte economia industrial formada por curtumes, indústrias químicas, metalúrgicas, produtoras de plásticos e de componentes para calçados – aliás, a região concentra o maior polo calçadista do Brasil e, na esteira, um grande número de curtumes e indústrias associadas. A cidade de Novo Hamburgo, uma das mais importantes da região, é sede da FIMEC- Feira Internacional de Couros, Produtos Químicos, Componentes, Máquinas e Equipamentos para Calçados e Curtumes, considerada a maior feira do setor na América Latina e a segunda maior do mundo. Desde a década de 1970, o evento atrai comerciantes, empresários, industriais e clientes de todo o Brasil e países vizinhos, que buscam os novos lançamentos e as tendências do setor coureiro-calçadista.

O couro foi um dos primeiros materiais utilizados como matéria prima pela humanidade. Era uma espécie de subproduto dos animais caçados para alimentação dos grupos humanos. O couro era removido, limpo e seco, para então ser utilizado na forma de tapetes, de mantas, roupas e utensílios para o uso diário. Por se tratar de matéria orgânica, esses “objetos” tinham uma vida útil bastante curta – conforme o couro apodrecia, era substituído por novas peças retiradas de animais recém caçados. Com o passar do tempo, foram sendo descobertas técnicas para o tratamento do couro, o chamado curtimento, o que resultou num aumento progressivo da vida útil do material. O curtimento é um processo que mumifica o couro, estabilizando o teor de umidade e garantindo a durabilidade. Calcula-se que aproximadamente 80% do couro usado no mundo seja empregado na fabricação de calçados, o que justifica a presença de tantos curtumes na Região do Vale do Rio dos Sinos. O percentual restante é destinado a outros setores, como o automotivo e indústria da moda. Os couros mais utilizados no Brasil são os retirados do gado bovino, seguido pelos couros de cabras, ovelhas, búfalos e avestruzes. Atualmente, novos tipos de couros vêm sendo produzidos em pequena escala no país, como os couros de jacarés com origem em criadouros autorizados pelo IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis, couros de algumas espécies de peixes comerciais (couro de tilápia, por exemplo), entre outros.

As peças de couro bruto passam por um processo de raspagem, onde restos de carne, gordura, pelos e outras impurezas indesejadas são retiradas. Numa etapa seguinte, o couro recebe um tratamento químico para eliminação de todas as bactérias. Nos curtumes modernos, o processo final de curtimento dos couros utiliza sais de cromo. De acordo com informações do CRQ – Conselho Regional de Química, aproximadamente 98% dos couros produzidos no Brasil são tratados com sais de cromo. Após o processo de curtimento, que vai garantir maciez e durabilidade ao produto, alguns tipos de couro ainda passam por etapas tingimento, onde serão aplicados diversos corantes e produtos químicos, cujos efluentes se somarão aos resíduos gerados no curtimento. Durante décadas, os efluentes e resíduos, contaminados com produtos químicos e cromo, gerados nos curtumes das cidades do Vale do Rio dos Sinos, eram despejados nos arroios e rios da região sem qualquer tipo de tratamento.

O cromo é um metal de transição com importantes aplicações na metalurgia, especialmente na produção do aço inoxidável. Os compostos de cromo (estado de oxidação +6) são muito oxidantes e podem ser altamente nocivos. Em altas concentrações, estes compostos podem causar diversos problemas à saúde humana, indo desde problemas respiratórios, infecções, infertilidade e deficiências congênitas. Algumas espécies de plantas e animais regulam suas funções metabólicas através de pequenas doses de cromo. Lançado junto com os efluentes nas águas dos rios, o cromo pode causar problemas nas guelras dos peixes e também provocar alguns tipos de câncer em animais que bebam ou mantenham contato com estas águas. Profissionais que trabalham nos curtumes, expostos diariamente a toda uma série de produtos químicos, podem apresentar problemas como rinite, problemas no estômago, lesões na pele e, em casos extremos, riscos de desenvolver câncer no pulmão.

Estudos publicados em 2012 indicavam que, de toda a carga bruta de cromo gerada no Estado do Rio Grande do Sul, cerca de 90% se encontrava na bacia hidrográfica do rio dos Sinos. Nos últimos anos, os órgãos ambientais do Estado do Rio Grande do Sul passaram a realizar um forte trabalho de controle das fontes geradoras de cromo e de outros efluentes industriais originados nas indústrias químicas e nos curtumes. Apesar dos lançamentos de efluentes industriais nas águas do rio dos Sinos estar sob controle, os lançamentos de esgotos domésticos continuam. Estudos indicam que apenas 5% destes esgotos gerados pelas cidades da região do rio dos Sinos recebem um tratamento adequado em ETEs – Estações de Tratamento de Esgotos. Ironicamente, o rio dos Sinos é um dos grandes mananciais de abastecimento das cidades da região, que captam e tratam suas águas poluídas para distribuir para a população, processo que consome inúmeros recursos e grandes quantidades de produtos químicos.

A “receita da destruição” do rio dos Sinos é a mesma encontrada em outras regiões brasileiras: forte crescimento populacional devido a migração do campo para as cidades, combinada com um crescimento econômico “a qualquer custo”. O resultado desta fórmula é o mesmo de sempre: rios altamente poluídos com despejos de esgotos domésticos e industriais, lançamento de resíduos sólidos e lixo nas margens e águas dos rios, contaminação das fontes de águas utilizadas no abastecimento de populações, destruição dos habitats de inúmeras espécies de animais e plantas, entre outras tragédias ambientais.

No mundo inteiro, estão começando a faltar rios limpos e disponíveis para o lançamento de mais esgotos e resíduos sólidos – ou nós reduzimos a poluição de uma vez por todas ou vamos ficar com estoques cada vez mais reduzidos de água potável.

4 Comments

  1. Creio que o amigo se focou só na questão da indústria coureiro calçadista, assim como para a maioria das pessoas é o descarte de resíduos sólidos.
    Na verdade, se você não englobar também o esgoto cloacal lançado diretamente bem como as inúmeras plantações às margens seja do rio dos Sinos ou de seus afluentes vai deixar passar em branco outros agentes tão danosos quanto o dos efluentes industriais.
    E por falar em efluentes industriais, lembrar que apesar de ser a maioria, nem só de indústrias de calçado vive a região.

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    1. Regina: Muito obrigado pela colaboração. Normalmente, 2/3 da poluição de um rio tem origem no lançamento de esgotos domésticos ou cloacais, como se diz aí no Rio Grande do Sul. O foco na poluição industrial no rio dos Sinos, particularmente nos efluentes das indústrias ligados ao processamento de couro, se deveu aos altos índices de cromo na água – um metal pesado e altamente tóxico, não encontrado em níveis similares ao do rio dos Sinos em nenhum outro grande rio poluído do Brasil. Aliás, este rio sozinho concentra 90% de todo o cromo lançado nas águas dos rios do RS. O cromo torna o “conjunto da obra” da poluição nas águas do rio dos Sinos dramática. Grato.

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