AMAZÔNIA SUSTENTÁVEL: AS DELICIOSAS CASTANHAS-DO-PARÁ

Um produto amazônico dos mais conhecidos no Brasil e no mundo é a castanha-do-pará, que no exterior é designada simplesmente como Brazil nut ou castanha do Brasil. O país produz cerca de 40 mil toneladas de castanhas por ano, sendo que mais de 90% dessa produção é exportada com casca e desidratada, o que é conhecido como castanha dry. Os nossos principais mercados são Europa, Estados Unidos, México, Japão, Argentina e países árabes como Tunísia e Arábia Saudita. 

Ironicamente, o maior produtor e exportador mundial das “castanhas do Brasil” é a Bolívia, país vizinho que tem parte importante do seu território coberto pela Floresta Amazônica. Os bolivianos chamam as castanhas de almendras, nuez amazónica e nuez boliviana. O Estado do Amazonas é o maior produtor brasileiro de castanhas, respondendo por cerca de 37% da produção, sendo seguido pelo Acre e pelo Pará.

A castanheira (Bertholletia excelsa) é uma das maiores árvores da Floresta Amazônica, com uma altura média superior aos 30 metros e com diâmetro de tronco entre 1 e 2 metros. Há notícias de exemplares da árvore com mais de 50 metros de altura e com diâmetro de tronco de 5 metros. O fruto da castanheira é uma espécie de coco ou ouriço, com casca muito dura e onde se encontram de 8 a 24 sementes, que são as castanhas. A castanheira é uma das árvores mais longevas da Floresta Amazônica – pesquisadores já identificaram espécimes com idade de mais de 800 anos. 

A árvore é nativa da Floresta Amazônia, sendo encontrada em todos os países amazônicos: Brasil, Bolívia, Equador, Peru, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa. Atualmente, as maiores concentrações de castanheiras estão na Bolívia e no Suriname. No Brasil, os desmatamentos em grandes trechos da Floresta Amazônica provocaram o rareamento da espécie. 

Além da Bolívia, países como o Peru e o Equador também têm uma produção significativa de castanhas-do-pará. Na lista de países produtores também se incluem a Costa do Marfim, no Oeste da África, e a Indonésia, no Sudeste Asiático. Apesar da boa adaptação das castanheiras ao clima e solos desses países, a produção é bem menor devido à existência de poucas espéceis de insetos polinizadores adaptados às características peculiares da flor da castanheira.

Essas flores são amarelas e possuem uma espécie de capuz, que só um inseto suficientemente forte consegue levantar. O interior dessas flores também apresenta uma complexa estrutura em espiral, o que requer um inseto com uma língua comprida para fazer a polinização. Entre os insetos que aliam estas duas características estão as abelhas dos gêneros Bombus, Centris, Epichans, Eulaema e Xylocopa.  

Muitas espécies de abelhas, como é o caso das abelhas-das-orquídeas, são atraídas para as castanheiras pelo forte cheiro exalado por algumas espécies de orquídeas que vivem no seu caule – essas abelhas também acabam polinizando as flores das árvores. Todos esses insetos precisam de um ambiente florestal bem conservado para sobreviver e sem a sua polinização as castanheiras não produzem sementes. O extrativismo racional da castanha-do-pará, além de sua grande importância como atividade econômica para as populações tradicionais, é fundamental para a preservação da Floresta Amazônica e de todas essas espécies de insetos.

Após a polinização das suas flores, as castanheiras irão precisar entre 12 e 15 meses para desenvolver os ouriços e amadurecer as suas sementes. Quando os ouriços maduros caem no solo da floresta, entram em cena pequenos roedores como as cutias (existem diversas espécies) e esquilos como o caxinguelê (Sciurus aestuans). Esses animais roem a casca dos ouriços para se alimentar das castanhas, atuando assim como dispersores das sementes, que gerarão novas árvores. Quando matas são devastadas, as castanheiras sobreviventes perdem os seus “pequenos sócios” que fazem esse importante trabalho de renovação das árvores. 

A castanha-do-pará é um alimento rico em proteínas vegetais e gorduras, sendo considera por muitos como uma espécie de “carne vegetal”. Entre 12 e 17% de sua composição é formada por proteínas e outros 69% são gorduras, A semente também é rica em vitaminas e sais minerais como o selênio, um elemento associado à prevenção de doenças como o câncer.  

De acordo com estudos na área de tecnologia de alimentos da EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, do Acre, o selênio tem atuação nos chamados radicais livres, atuando na prevenção do envelhecimento precoce. Pesquisadores da USP – Universidade de São Paulo também trabalham com a castanha-do-pará, usando alguns elementos presentes nas sementes para o desenvolvimento de antibióticos. 

Além da produção das castanhas para consumo in natura, as sementes também podem ser processadas e transformadas em farinha, um ingrediente usado na produção de leite, sorvetes, doces e salgados. As castanhas também podem ser prensadas para a extração de um óleo de excelente qualidade e que é utilizado como matéria prima de produtos farmacêuticos e cosméticos como xampus e sabonetes. Esse óleo também tem aplicações na culinária amazônica substituindo o azeite de oliva

A EMBRAPA vem trabalhando em projetos para aumentar a produção e também para estimular o consumo interno da castanha-do-pará e dos seus derivados no mercado brasileiro. As castanhas ainda são consideradas produtos de luxo e caros, sendo consumidas apenas em ocasiões especiais como as festas de fim de ano. No caso do óleo de castanha, questão é mais complexa – o produto estraga rapidamente caso não seja guardado em uma embalagem opaca e bem vedada, um problema que ainda exigirá muitos estudos para ser solucionado. 

A colheita dos ouriços da castanha-do-pará é feita no período da seca, o chamado verão amazônico. Os ouriços maduros costumam cair das árvores nos meses de janeiro e fevereiro. Devido à casca dura dos ouriços, as sementes podem levar até 15 meses para começar a germinar. Os extrativistas entram nas matas carregando um grande cesto feito de fibras naturais preso às costas e usam um bastão com pontas múltiplas para “agarrar’ os ouriços (vide foto). 

Nas cooperativas, os ouriços são abertos a golpe de fação ou de machadinha. Conforme a demanda, as castanhas com casca serão embaladas e preparadas para a venda ou serão descascadas para a produção da farinha e do óleo. Os ganhos obtidos pelas cooperativas são divididos proporcionalmente entre os associados em função dos volumes individuais de produção. 

De acordo com informações de pesquisadores do Museu Paraense Emílio de Goeldi, as castanheiras amazônicas se adaptam facilmente a climas diferenciados, resistindo bem a períodos de frio, calor, seca e umidade. Um exemplo disso foi o início da produção de castanhas-do-pará no Estado de Minas Gerais em 2019, num experimento realizado pela Universidade de Lavras. O plantio das castanheiras no campo experimental da universidade começou em 1996. 

Ainda segundo as informações do Museu Paraense Emílio de Goeldi, as castanheiras têm um crescimento rápido e podem ser uma ótima alternativa para a recuperação de áreas degradadas pela mineração, pela agricultura e também pela pecuária. Atuando como espécie pioneira, as castanheiras fornecem uma sombra que permite o crescimento de outras espécies de árvores de desenvolvimento mais lento, criando assim condições para a recuperação de grandes áreas florestais. As árvores também geram grandes volumes de folhas mortas e galhos, que caindo sobre o solo gerarão nutrientes para outras plantas. 

Áreas desmatadas e degradadas não faltam na Amazônia – existem estimativas que falam de 20 milhões de hectares de terras nessa situação. Essa é mais uma ótima alternativa para uma produção cada vez mais sustentável na Amazônia

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