A MORTE ANUNCIADA DO MAR DE ARAL

A morte do Mar de Aral 2

Quando se consulta qualquer antigo mapa da Ásia Central tem-se a nítida certeza que o Mar de Aral era uma ilha de vida cercada por grandes desertos por todos os lados. Vejamos: entre o Mar de Aral e o Mar Cáspio encontramos o deserto de Karakum, que em uzbeque significa “Deserto das Areias Negras”, com cerca de 350 mil km² (o Estado de São Paulo tem 248 mil km²); entre os rios Amu Daria e Syr Daria fica o Kyzyl Kum, “Deserto das Areias Vermelhas”, cobrindo uma área de 298 mil km²; além do rio Syr Daria fica o Betpak-Dala ou “Planalto da Fome” com área de 75 mil km², que segue até atingir o deserto das areias de Muyunkum, “Deserto Pescoço de Camelo” (em razão do formato), com uma área de 78 mil km².

No grande oásis do Mar de Aral se encontravam extensos deltas cobertos de frondosas florestas de juncos e canas, onde viviam grandes populações de saikas, uma espécie local de antílope, javalis selvagens, bois almiscarados, lobos, raposas, perus, gansos, patos e outros animais. Nas áreas alagadiças eram produzidas diversas culturas de víveres, que atendiam parte das necessidades dos povos locais. As águas do lago eram ricas em peixes, com destaque para o famoso esturjão de Aral (Acipenser nudiventris), que podia atingir até 70 kg. A bem-sucedida indústria pesqueira local chegou a produzir volumes de pescados superiores a 40 mil toneladas anuais em meados do século XX, respondendo por 1/6 do consumo das Repúblicas Soviéticas.

Com a expansão do Império Russo na Ásia Central a partir de meados do século XIX, surgiram as primeiras preocupações em fixar as populações nômades ao redor do Mar de Aral – a exploração do potencial pesqueiro do lago dependia da presença de mão de obra no local – à época, a rarefeita população da região se concentrava ao redor de algumas áreas nas margens dos corpos d’água, onde eram possíveis a agricultura e a criação de animais. No final do século XIX, o governo imperial russo iniciou a construção dos primeiros canais de irrigação, permitindo a chegada da cultura do algodão na região. Com a derrubada do regime czarista e a chegada dos “sovietes” (operários) ao poder em 1917, tanto a indústria da pesca no Mar de Aral quanto a produção agrícola através da intensa irrigação de terras nas Repúblicas da Ásia Central seriam estimuladas, até se atingir um ponto de colapso: não haveria água suficiente para manter simultaneamente os dois sistemas.

As estepes da Ásia Central são extremamente pobres em nutrientes e excessivamente arenosas. Sem húmus no solo, as culturas só poderiam se desenvolver usando-se os nutrientes carreados pela água retirada dos grandes rios. Assim, os grandes volumes de água usados para alagar e nutrir as plantações acabavam absorvidos pelo solo ou, simplesmente, evaporavam, e um volume cada vez menor de água chegava ao Mar de Aral. Especialistas calculam que os níveis de perdas de água nestes sistemas de irrigação superavam os 90%; as chuvas na região são irregulares e fracas, mal atingindo o índice de 200 mm ao ano, o que seria insuficiente para ajudar a compensar estas perdas.

O líder russo Nikita Khrushchev, assumidamente um entusiasta dos resultados econômicos obtidos com a irrigação das estepes em larga escala, em visita a região no final da década de 1950 para vistoriar as obras dos novos canais, disse: “- Não vamos perder tempo com discussões – usem quanta água for necessária! ”; os fiéis burocratas comunistas da região seguiram à risca suas ordens e se avançou furiosamente abrindo novos canais pelas estepes. Dez anos depois, o Mar de Aral deu sua primeira resposta: o nível das suas águas baixou 2 metros e a área do espelho d’água foi reduzida em 6.000 km²; cinco anos depois, o nível baixou mais 3 metros e o espelho d’água diminuiu outros 5.000 km²; passados dez anos, o nível das águas baixou mais 14 metros e o Mar de Aral ficou reduzido a um terço da sua área original, com um grande aumento da salinidade das suas águas e intensa mortandade de peixes. O porto de Aralsk, onde o lago tinha uma profundidade média de 13 metros, agora está distante 70 km da margem das águas remanescentes – o colapso do Mar de Aral estava consolidado e a vida de 50 milhões de pessoas teria um futuro incerto.

Um pequeno trecho do lago ao norte, batizado de Pequeno Aral, conseguiu manter parte de suas águas graças a uma pequena contribuição mantida pelo rio Syr Daria. Com financiamento do Banco Mundial, o Governo do Cazaquistão construiu uma barragem com extensão de 13 km, permitindo a estabilização da profundidade deste trecho remanescente do lago em 4 metros. Os moradores desta região têm observado uma gradual recolonização das águas com peixes, porém os volumes da pesca são irrelevantes se comparado ao histórico do antigo Mar de Aral. Uma faixa de água a oeste, chamada de Grande Aral, continua a secar ano após ano.

Consta que, na década de 1940, um alto funcionário do Ministério da Água, respondendo aos questionamentos de um grupo de cientistas preocupados com as consequências dos programas de irrigação na Ásia Central, respondeu:

“- O Mar de Aral precisa morrer como um soldado na Guerra! ”

Demorou, mas enfim a morte chegou…

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