CHADE: O DESAPARECIMENTO DE UM LAGO QUE JÁ ESTEVE ENTRE OS MAIORES DO MUNDO

Lago Chade

A tragédia ambiental que se abateu sobre o Mar de Aral, descrita na postagem anterior, não é um caso isolado – existem inúmeros outros exemplos, com diferentes proporções, em todo o mundo. Um caso, em particular, pode ser comparado, proporcionalmente, com o Mar de Aral: falamos do Lago Chade (ou Tchad), na África Subsaariana. 

O Lago Chade já foi um dos maiores do mundo – até o início da década de 1960 seu espelho d’água ocupava uma superfície de 25 mil km², o que corresponde a pouco menos da metade da superfície do já foi o Mar de Aral. Uma população de 30 milhões de pessoas vive ao redor de suas margens, distribuídas nos quatro países que o cercam: Chade, Camarões, Níger e Nigéria. Durante milênios, o lago Chade vem sendo o grande manancial de águas permanente numa região de transição entre as savanas e o grande deserto do Saara, condição que vem mudando dramaticamente nas últimas décadas. 

De acordo com estudos realizados pelo PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, o Lago Chade perdeu 95% do seu espelho d’água entre 1963 e 1998, com sérios riscos de desaparecer por completo dentro de uns poucos anos. A superfície atual do Lago apresenta um espelho d’água com pouco mais de 1.000 km², pouco mais que duas vezes a superfície da Baía da Guanabara

Até 10 mil anos atrás, o clima do Norte da África era muito diferente do que é hoje – era mais úmido e com temperaturas mais baixas que as atuais, contanto com diversos rios permanentes – o famoso Rio Nilo, que hoje atravessa o Egito de Sul a Norte e deságua no Mar Mediterrâneo, naqueles tempos atravessava todo o Norte da África e tinha a sua foz no Oceano Atlântico. Grande parte do território, que hoje se encontra soterrado por dezenas de metros de dunas de areia seca, foi coberto por densas florestas – o Lago Chade de então era um gigante. Mudanças climáticas naturais alteraram o clima da região que, paulatinamente, começou a ficar mais quente e seco. O Chade começou a ter seu tamanho reduzido – há 2 mil anos atrás, o Lago estava “reduzido” ao tamanho da Alemanha (cerca de 357 mil km²). Esse lento e gradual encolhimento, porém, passou a se acelerar, e muito, a partir da década de 1950. 

Em meados do século XX houve um aumento da retirada de água para uso em irrigação agrícola. A captação de água para os sistemas de irrigação se manteve estável até o final da década de 1980. Entre 1984 e 1994, com a implantação de grandes projetos de irrigação nas áreas de entorno, a retirada de água quadruplicou e o volume passou a equivaler a todo o volume despejado no Lago pelos rios Chari e Lagone, seus grandes tributários. Essa equação é bem conhecida: a retirada de grandes volumes de água, para uso em agricultura e em pastagens, somada as perdas por evaporação e sendo menores do que o volume de água que entra no sistema, é igual a um lago em encolhimento contínuo – exatamente o que está acontecendo no Lago Chade (vide foto). 

Alarmados com a situação caótica do corpo d’água, os Governos do Chade, de Camarões, do Níger e da Nigéria esboçaram vários planos para a construção de um canal para a transposição de águas da bacia hidrográfica do Rio Congo, a maior da África, em socorro ao Lago Chade. A falta de recursos financeiros próprios, de fontes internacionais de crédito e a total falta de capacidade de articulação política entre as nações impediram qualquer avanço. Como se não bastasse todos os problemas derivados desta situação caótica, as áreas de entorno do Lago Chade foram transformadas em território do grupo radical islâmico Boko Haram, que luta para impor, na base do terror, um califado religioso nos moldes de sua leitura radical dos ensinamentos do AlcorãoEntre a falta de água e a brutalidade da guerra religiosaas populações padecem

Com dificuldades cada vez maiores para a prática da agricultura, sem água e pastagens para a criação de animais e com recursos pesqueiros cada vez mais escassos, as perspectivas futuras das populações que vivem nas áreas de entorno do Lago Chade são incertas e a sobrevivência do corpo d’água cada vez mais improvável. 

Sem a água do Lago Chade, os projetos de agricultura irrigada, simplesmente, vão desaparecer. A razão é simples – mataram a “galinha dos ovos de ouro”… 

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