AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS NO OCEANO ÍNDICO E SEUS IMPACTOS NAS CHUVAS DA MONÇÃO

Na última postagem fizemos uma rápida incursão nos problemas de desertificação e/ou de perda de fertilidade que estão se multiplicando em terras por toda a Índia. Os números do problema, conforme a fonte consultada, falam de uma área total entre ¼ e 1/3 do território do país. Em qualquer lugar do mundo, esses números seriam altamente preocupantes – na Índia, país que tem mais de 1,3 bilhão de bocas para alimentar todos os dias, a situação é simplesmente desesperadora 

Uma das principais causas desse problema é a devastação de áreas florestais – dados oficiais do Governo indiano indicam que 1,5 milhão de hectares de florestas foram destruídas no país somente entre 1980 e 2019; pelo menos 1/3 dessas áreas passaram a abrigar atividades de mineração, outra grande vilã dos problemas de solos. Também falamos da redução da disponibilidade de águas, especialmente para uso na agricultura, e do uso inadequado de solos por essas atividades. 

Além desses problemas locais, a Índia vem sendo ameaçada por duas tragédias de escala global: os riscos de derretimento de geleiras nas Montanhas Himalaias, tema que trataremos na próxima postagem, e também com alterações nas correntes marítimas e em ventos no Oceano Índico criadas pelas mudanças climáticas. Essas mudanças tem provocado alterações nos padrões de chuva em extensas áreas do continente africano e também alterado as Chuvas da Monção que caem sobre o Subcontinente Indiano e Sudeste Asiático. 

Monção são ventos sazonais, geralmente associados a alternâncias entre as estações das chuvas e da seca, e ocorrem em regiões costeiras tropicais e subtropicais de todo o mundo. No Oceano Índico o fenômeno é bastante intenso e é muito comum se usar a expressão Chuvas da Monção para falar do período das chuvas intensas que marcam o ritmo da vida em diversos países.  

Até anos bem recentes, tanto o período quanto o volume dessas chuvas eram razoavelmente regulares e suas águas eram fundamentais para as práticas agrícolas. Essas chuvas estão cada vez mais imprevisíveis, com regiões recebendo volumes muito acima da média e outras sofrendo com a seca. Cerca de 2 bilhões de pessoas vivem em países da região como Índia, Paquistão, Myanmar, Malásia, Indonésia e Filipinas, entre outros, e estão sofrendo com a irregularidade dessas chuvas. 

De todos os grandes oceanos do planeta, o Índico é o que, proporcionalmente, mais sofre com as interferências das mudanças climáticas na Antártida. O derretimento de grandes massas de gelo no Polo Sul tem provocado alterações nas correntes marítimas do Oceano Índico que, combinadas com o aumento da tempertura das águas, tem reflexos diretos na formação e no deslocamento das massas de umidade que atingem a África e a Ásia. 

As medições sistemáticas da temperatura das águas do Oceano Índico começaram em 1880. Nos últimos anos, estas medições têm encontrado aumentos sucessivos nas temperaturas das águas: em 2010, foi observado um aumento de 0,70° C em relação à média histórica; em 2011, a temperatura média caiu um pouco e mostrou um aumento de 0,58° C; em 2012, o aumento foi de 0,62° C e em 2013, o aumento foi de 0,67° C. Nos anos seguintes, foram registrados recordes sucessivos de aumento da temperatura: 0,74° C em 2014, 0,90° C em 2015 e 0,94° C em 2016 (não encontrei os valores mais recentes).  

No Golfo de Bengala, que se estende entre o Leste da Índia, Sul de Bangladesh e Oeste de Myanmar, essas alterações nas correntes marítimas e nos ventos vem provocando um aumento gradativo no nível das águas do Oceano Índico. Em 2017, esse aumento do nível das águas do oceano levou ao desaparecimento de uma pequena ilha com 10 km² que era disputada entre a Índia e Bangladesh. Os indianos chamavam a ilha de New Moore e os bengaleses de Talpati. Foram mais de dez anos de erosão contínua até o completo desaparecimento da ilha. 

O aumento do nível das águas do Golfo de Bengala também vem sendo observado nas terras baixas do Delta do rio Ganges e do rio Meghna, que se forma a partir da junção das águas dos rios Brahmaputra, Surma e de parte do rio Ganges. A língua salina, nome que é dado a uma corrente de água salgada que entra na foz de um rio, tem avançado cada vez mais pelos canais de água doce e provocado a salinização de solos e de águas do lençol freático. A região do Delta do rio Ganges possui alguns dos solos mais férteis do mundo e concentra grande parte da produção de grãos da Índia e a maior parte da produção de Bangladesh

A temporada das Chuvas da Monção é fundamental para a recarga de aquíferos em todo o Subcontinente Indiano. Além dos famosos Ganges e Brahmaputra, rios que tem suas nascentes nas geleiras das Himalaias, a região abriga uma infinidade de grandes e importantes rios como Yamuna, Gandak, Mahi, Sone, Chambal, Tapi, Sutlej, Chenab, Jelum, Mahanadi, Ghaghara, Krishna, Kaveri, Kosi, Sarayu, entre muitos outros. A maioria esmagadora desses rios dependem exclusivamente das águas das Chuvas da Monção para a formação dos seus caudais. 

Com a irregularidade dessas chuvas, muitos desses rios vem alternando grandes temporadas com caudais bem abaixo da média com períodos de enchentes avassaladores, problemas que estão afetando a vida de centenas de milhões de pessoas. Um outro lado da irregularidade dos volumes de águas superficiais é um aumento da pressão sobre as águas subterrâneas. Uma quantidade cada vez maior de poços, muitos de grande profundidade, são abertos todos os anos para a captação de águas profundas, resultando num esgotamento acelerado desses recursos. 

Somando-se a toda uma lista de problemas ambientais, a redução da disponibilidade de água tem como resultado um aumento da aridez de várias regiões da Índia. Essa aridez, vale a pena ressaltar, não afeta apenas as áreas agrícolas, mas também os remanescentes florestais espalhados por todo o país, que também dependem das águas das chuvas para sobreviver. 

Todos nós brasileiros conhecemos o drama criado pela seca na Região do Semiárido Nordestino. Aqueles que nunca sentiram o problema na própria pele, conhecem pelo menos as histórias dramáticas vividas em vários períodos diferentes por essas populações. Multiplique esses dramas e essas histórias algumas dezenas de vezes para entender o que está acontecendo na Índia atualmente. 

O lado mais preocupante dessa situação é que os pesquisadores ainda não têm certeza do quanto esse problema ainda pode se agravar e de quais outras regiões da Ásia, da África e também da Oceania (a faixa Norte da Austrália recebe parte das Chuvas da Monção) poderão ser afetadas pelas mudanças climáticas no Oceano Índico. 

Infelizmente, os problemas na região não param por aqui – as mesmas mudanças climáticas que estão afetando o ciclo das Chuvas da Monção também estão ameaçando as geleiras das Montanhas Himalaias. Além dos rios Ganges e Bhamaputra, essas geleiras formam as nascentes de outros importantes rios da Ásia e do Sudeste Asiático – Indus, Mekong, Amu Daria e Syr DariaYang-tzé, entre outros, agravando ainda mais processos de desertificação de terras em muitas regiões. 

Falaremos disso na próxima postagem. 

9 Comments

  1. […] Conforme já tratamos em postagens anteriores, o clima do Subcontinente Indiano e de todo o Sudeste Asiático é regido pelas Monções, um sistema de fortes ventos que arrasta grandes massas de chuva do Oceano Índico na direção das áreas continentais. Esse é um período conhecido como Chuvas da Monção.   […]

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