PROJETOS DE REFLORESTAMENTO NA FLORESTA AMAZÔNICA: SIM, ELES EXISTEM! 

De acordo com o Relatório Anual 2020 da Aliança pela Restauração na Amazônia, uma iniciativa multi-institucional e multissetorial, existem 2.773 iniciativas de restauração florestal em andamento na Amazônia. O total de projetos soma 113,5 mil hectares

Esse tipo de notícia, que não costuma ocupar grandes espaços nos noticiários, é um alento em meio as constantes notícias de queimadas e devastação na maior floresta equatorial do mundo. A Floresta Amazônica, só para relembrar, tem cerca de 5,5 milhões de km² – de acordo com outros critérios, essa área é de 6,7 milhões de km², onde estão incluídas as vegetações de transição entre biomas. 

A Floresta Amazônica se espalha pelo Brasil, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa. De acordo com informações da Aliança pela Restauração na Amazônia, a Floresta já perdeu 20% de sua área no Brasil. Esse número não está muito distante dos números oficiais do Governo brasileiro, que dizem que a Floresta já perdeu 16% da sua cobertura original.  

Entre as décadas de 1960 e 1980, milhões de brasileiros de outras regiões do país foram estimulados a migrar para a Região Norte através de políticas oficiais do Governo Federal. Foram tempos de grandes desmatamentos na Floresta Amazônica. Há cerca de dois anos atrás preparamos uma longa série de postagens contando essa história. Clique neste link para consultar. 

Muitos desses desbravadores acabaram tendo seus sonhos frustrados – grande parte dos solos da Amazônia tem baixa fertilidade e, uma vez desmatados, produzem por apenas 2 ou 3 anos. Quem insistiu em continuar vivendo e trabalhando na região, convive com uma produtividade, tanto agrícola quanto pecuária, menor do que em outras regiões do Brasil. 

É dentro desse contexto que os projetos de reflorestamento vem ganhando espaço. Cerca de 60% das iniciativas de reflorestamento existentes se referem a projetos agroflorestais, onde espécies de árvores nativas da floresta são plantadas com espécies de grande valor comercial como a castanha, o açaí, o cupuaçu e o cacau. Essas culturas são muito mais rentáveis que a pecuária e a soja na região. 

Para quem não percebeu, todas as espécies citadas fazem parte da flora Amazônica, se adaptando perfeitamente ao clima e aos solos da região e, melhor ainda, precisam da proteção de árvores da floresta para crescer e produzir. Entre todos os benefícios ecológicos criados por essa recomposição florestal, precisamos destacar a proteção dos solos, que se expostos as fortes chuvas da região sofrem muito com processos erosivos. 

Um caso de sucesso que podemos citar como exemplo é o RECA – Reflorestamento Econômico Consorciado Adensado em Rondônia.  Esse sistema agroflorestal ocupa uma área de 2.500 hectares e beneficia cerca de 300 famílias na região da Ponta do Abunã. A produção abastece uma agroindústria cooperativa, onde são produzidas anualmente mais de 500 toneladas de polpa de cupuaçu e de açaí, 430 toneladas de castanhas e sementes, 72 toneladas de palmito, entre outros produtos. 

De acordo com dados da Aliança pela Restauração na Amazônia, esse e outros projetos contribuíram para um aumento de até 300% na renda das famílias. Essas iniciativas são desenvolvidas majoritariamente por organizações da sociedade civil (87,5%), empresas (5,6%), agricultores (3,8%), instituições de pesquisa (2,4%) e governos (0,7%). 

Um outro grande projeto de reflorestamento desconhecido do grande público é o do Corredor de Biodiversidade do Araguaia, que interconectará a Floresta Amazônica ao Cerrado. Esse projeto prevê o plantio de 1,7 bilhão de árvores ao longo do curso dos rios Tocantins e Araguaia. A iniciativa é da Black Jaguar Foundation, uma organização não governamental holandesa. 

Esse corredor vai se estender por 2.600 km, com uma largura de 40 km, ocupando uma área total de 10,4 milhões de hectares nos Estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Maranhão e Pará. Cerca de 80 mil árvores já foram plantadas no município de Santana do Araguaia no Pará. Quase metade da extensão do Corredor fica dentro do bioma Amazônia,10% fica dentro de áreas indígenas e 5% dentro de parques nacionais. 

A Black Jaguar Foundation tem buscado parcerias com os produtores rurais dos 112 municípios atravessados pelo corredor verde. Já foram identificados 23.997 imóveis rurais, sendo que 96% são propriedades privadas. Os produtores são estimulados a preservar e/ou reflorestar parte da área de sua propriedade, o que atende as normas da Reserva Legal prevista no Novo Código Florestal. Dentro do bioma Amazônia, a reserva legal de floresta é de 80%, na maior parte do Cerrado é 20% e em algumas áreas é de 35%. Desse total de propriedades, cerca de 13 mil não atendem a legislação. 

A zona destinada à implantação do Corredor de Biodiversidade prevê a ocupação de faixas de 20 km de cada lado dos rios. As reservas de vegetação criadas e/ou preservadas nas propriedades formam um grande mosaico com “peças” interligadas. Isso passa a permitir o fluxo natural de espécies animais, que por sua vez são dispersoras de semente e frutos, o que garante a sobrevivência de todas as espécies. 

Essa iniciativa, que é considerada como o maior projeto de reflorestamento da América do Sul, tem potencial para gerar US$ 21,1 bilhões em benefícios econômicos ao longo de 50 anos. Com a restauração da vegetação e a implantação de projetos agroflorestais, cerca de 527 milhões de toneladas de solos serão salvos dos processos erosivos e 262 milhões de toneladas de carbono serão capturadas pela vegetação em crescimento. Serão gerados cerca de 38 mil empregos. 

Diante de toda a devastação florestal que já se abateu sobre a Amazônia, e por extensão sobre o Cerrado, os números desses projetos de recuperação florestal podem parecer pequenos. Porém, há um aspecto que não pode ser ignorado – produtores rurais estão percebendo que a agricultura e a pecuária tradicionais não são um bom negócio na Amazônia e que a produção em sistemas agroflorestais com espécies locais dá muito mais dinheiro. 

Desde o surgimento da agricultura entre 12 e 10 mil anos atrás, a humanidade vem derrubando florestas para liberar os solos – culturas agrícolas precisam da luz do sol para crescer. Esse comportamento chegou aqui em terras brasileiras junto com os primeiros colonizadores, que passaram a derrubar e queimar as florestas para liberar espaço para culturas de cana-de-açúcar, café, algodão, fumo e cereais. De quebra, grandes extensões da Caatinga Nordestina foram queimadas e transformadas em campos para a criação de boiadas. 

Essa mesma filosofia de “trabalho” agrícola acabou sendo levada para a Amazônia e chegamos onde estamos. Conseguir mudar essa mentalidade e convencer esse pessoal que a floresta em pé dá muito mais dinheiro será uma grande façanha, onde o mundo inteiro sairá ganhando… 

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