O CRESCIMENTO DO LIXO “FASHION” NO MUNDO

Um estudo feito pela ONU – Organização das Nações Unidas, em 2019, mostrou que a produção de roupas no mundo dobrou entre os anos de 2000 e 2014. Esse enorme aumento da produção não significa, necessariamente, que um número maior de pessoas está tendo acesso a roupas de melhor qualidade. O que se observa é um aumento do consumo de produtos ligados a moda pelas classes de maior poder aquisitivo nos países mais desenvolvidos, que é seguido por um aumento equivalente no descarte de peças consideradas fora de moda. 

Esse aumento no consumo gera diversos problemas ambientais, especialmente em países pobres e/ou em desenvolvimento que, por apresentar baixos custos de produção e de mão de obra, passaram a concentrar essas empresas nas últimas décadas. 

Nas duas postagens anteriores mostramos alguns desses problemas. No primeiro caso falamos das indústrias têxteis da região do rio Citarum, na Ilha de Java – indonésia. Citarum é considerado o rio mais poluído do mundo e tem como principais fontes de poluição os resíduos e efluentes gerados por indústrias de tecelagem e fiação. 

O outro caso foi o do rio Yamuna, um dos principais afluentes do Ganges, o maior, mais importante e mais sagrado rio da Índia. As margens do rio Yamuna concentra centenas de indústrias do ramo têxtil e também curtumes. Juntas, essas empresas despejam milhões de litros de efluentes com altos índices de contaminação por produtos químicos. Nos últimos dias, as águas do Yamuna foram tomadas por uma densa massa de espumas flutuantes, um sintoma da gravíssima contaminação das águas. 

Indústrias têxteis e curtumes são grandes consumidores de água. Estudos da ONU indicam que a produção de uma única calca jeans requer o uso de 7.500 litros de água. O tratamento de 1 tonelada de couro consome entre 20 e 80 m3 de água ao longo dos diversos processos. Além do alto consumo, esse grande volume de água retorna ao meio ambiente contaminado pelos produtos químicos usados nas cadeias de produção. 

Ainda segundo a ONU, a indústria têxtil é “responsável por 20% do total de desperdício de água globalmente”. Indústrias dos segmentos têxtil e de produção de calçados respondem por 8% das emissões mundiais de gases de Efeito Estufa. Outro dado dramático – essas indústrias geram um volume de resíduos equivalente a um caminhão de lixo a cada segundo. Esses resíduos vão para aterros (muitos deles clandestinos) ou são queimados. 

Exemplos dessas agressões ambientais existem por todos os cantos do mundo. O subcontinente indiano, especialmente a Índia e Bangladesh (o Paquistão se especializou em tecelagem), além da China, Malásia, Tailândia, Indonésia e Vietnã, entre outros, se mostraram altamente promissores, oferecendo farta mão de obra barata e leis trabalhistas altamente permissivas. Esses países foram transformados numa espécie de paraíso na terra para as confecções.   

Bangladesh é um caso extremo. O custo da mão de obra no país é menor do que na China, o que transformou Bangladesh em uma imensa rede de pequenas oficinas de corte e costura de roupas, de pequenas tecelagens e inúmeras tinturarias. O país é o segundo maior produtor mundial de têxteis do mundo – é comum encontrarmos roupas nas lojas das grifes mais sofisticadas do mundo com a inscrição “Made in Bangladesh”.   

Um grande exemplo brasileiro de descaso ambiental criado por essas indústrias é o rio Capibaribe, o maior do Estado de Pernambuco e que aparece em 7º lugar na lista dos rios mais poluídos do Brasil. Entre os municípios que mais contribuem para essa poluição está Toritama, cidade conhecida como a “capital nordestina do jeans”. São centenas de empresas têxteis que vão de pequenas oficinas de costura domésticas a grandes fábricas, além de dezenas de tinturarias. 

Outro exemplo é o rio dos Sinos, no Rio Grande do Sul, considerado o 4º rio mais poluído do Brasil. O Vale do Rio dos Sinos tem uma forte economia industrial formada por curtumes, indústrias químicas, metalúrgicas, produtoras de plásticos e de componentes para calçados – aliás, a região concentra o maior polo calçadista do Brasil e, na esteira, um grande número de curtumes e indústrias associadas. Grande parte dos efluentes dessas empresas é despejado no rio sem receber um tratamento adequado. 

Um vídeo chocante que está circulando pelas redes sociais e que ilustra o quanto a indústria da moda é danosa para o meio ambiente é a de imensas pilhas de roupas “velhas” amontoadas no Deserto do Atacama, no Norte do Chile. O país é o maior importador de roupas usadas da América Latina. As peças passam por um processo de seleção – as roupas em bom estado são colocadas para venda no mercado e as peças consideradas “ruins” são descartadas. 

De acordo com os cálculos do Governo local, o volume de roupas descartadas é da ordem de 59 mil toneladas a cada ano. Como os aterros sanitários da região só aceitam resíduos biodegradáveis as empresas descartam clandestinamente as peças inservíveis no árido Deserto do Atacama, localizado a cerca de 1800 km da Capital do país – Santiago. 

A porta de entrada dessas importações é o Porto de Iquique, onde funciona uma zona franca similar a que existe em Manaus. Os produtos vêm em grandes contêineres embarcados nos Estados Unidos, Canadá e países da Europa, onde existe uma verdadeira febre de consumo de produtos de moda. Muitas das grandes grifes internacionais chegam a lançar até 50 coleções por ano nesses países. 

Com esse ritmo de lançamentos, muitos dos consumidores usam as peças apenas uma ou duas vezes, descartando as roupas logo depois. Muitas empresas se especializaram na compra dessas peças usadas, que acabam sendo revendidas para outros países, onde roupas de marcas de grife famosas são muito valorizadas. 

As peças passam por um rigoroso processo de seleção, onde apenas as melhores serão separadas e encaminhadas para a venda nas lojas. Roupas manchadas, sujas ou com defeito são automaticamente encaminhadas para o descarte. De acordo com as regras da zona franca chilena, produtos importados com taxas reduzidas e subsídios não podem sair da região sem o pagamento de impostos. Logo, o caminho mais fácil para o descarte é o vizinho Deserto do Atacama. 

Como não seria diferente, esses depósitos clandestinos de roupas atraem muitos catadores, gente que garimpa roupas para usar ou mesmo para revender (vide imagem). Existem grandes rotas de contrabando desses produtos na direção de países como Bolívia, Peru e Paraguai.  

As peças inservíveis continuam abandonadas ao relento – o tempo médio para a decomposição de tecidos na natureza é de cerca de 200 anos. Como o Atacama é considerado o deserto mais árido do mundo, é provável que esse tempo venha a ser ainda maior. 

Em linguagem popular, trata-se de lixo do Primeiro Mundo que acabou arrumando um cantinho aqui no Terceiro Mundo. Triste sina essa nossa… 

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