O OURO BRANCO DA ÁSIA CENTRAL

Vendedores de túnicas do Turquestão

O algodão é uma fibra sedosa que cresce em volta das sementes de algumas espécies de plantas do gênero Gossypium, família Malvaceae, encontradas em diversas áreas tropicais da África, da Ásia e das Américas. Estudos científicos demonstraram que a fibra natural é utilizada pela humanidade para os mais diversos fins desde o final da última era glacial há 12 mil anos atrás. O desenvolvimento das grandes civilizações levou ao contínuo aperfeiçoamento do uso das fibras de algodão para a produção de tecidos, tendas e tapetes – os antigos egípcios alçaram o ápice nas técnicas de tecelagem graças ao seu famoso algodão do delta do Rio Nilo.

Na Ásia Central, o algodão sempre foi uma mercadoria preciosa, sendo produzido em algumas regiões de clima adequado à cultura e distribuído por caravanas de mercadores desde tempos imemoriais. O produto era transportado por tropas de camelos por extensas e antigas rotas comerciais através de estepes, montanhas e desertos – a região do Mar de Aral era o centro de algumas dessas rotas ancestrais. Artesãos dos mais diferentes povos transformavam a fibra em fios usados na produção de tecidos e vestimentas, tapetes, utensílios domésticos e tendas – o Yaktakh, uma tradicional túnica de algodão leve com detalhes em seda, é um exemplo do gosto popular pela fibra na Ásia Central. A foto que ilustra esse post mostra comerciantes desta túnica no Turquestão na década de 1860.

Após a Revolução Bolchevique de 1917 e a criação da URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, os planejadores estatais começaram a dividir o seu extenso território em função das suas potencialidades econômicas. As planícies desérticas e semidesérticas das Repúblicas da Ásia Central passaram a ser vistas como potenciais produtoras de alimentos e de algodão via sistemas de agricultura irrigada – as fontes de água seriam os caudalosos rios Amu Daria e Syr Daria.

A partir da década de 1920, a área de agricultura irrigada na República do Turquestão foi extensivamente ampliada a fim de atender a uma proclamação de Vladimir Lenin (1870-1924) solicitando o aumento da produção do algodão. Na década de 1930, já sob o comando de Joseph Stálin (1878-1953), o Ministério da Água iniciou a implantação de gigantescos projetos de construção de canais de irrigação no Uzbequistão, Cazaquistão e Turcomenistão, com o objetivo de transformar suas estepes nos celeiros da União Soviética, alcançando a autossuficiência na produção de trigo, cevada, arroz, milho e algodão. O primeiro grande canal de irrigação foi concluído em 1939 no Vale de Ferghana no Uzbequistão; no final da década de 1940 foram concluídos canais em Kizil-Orda no Cazaquistão e na região de Taskent no Uzbequistão.

Após a morte de Stálin em 1953, os novos dirigentes da União Soviética – Nikita Khrushchev (1894-1971) e Leonid Brezhnev (1906-1982), mantiveram a política de produção agrícola nas Repúblicas da Ásia Central, expandindo ainda mais a construção dos grandes canais de irrigação e convertendo ainda mais áreas de estepes para a produção de algodão. Foram construídos o Qara-Qum, um canal com 800 km de extensão entre o rio Amu Daria e Ashkhadab, o sistema de irrigação de Mirzachol Sahra, o canal Chu no Quirguistão e o Reservatório de Bahr-i Tajik no Tadjiquistão. A partir do final da década de 1950, Moscou decidiu que toda a região irrigada da Ásia Central passaria a se ocupar exclusivamente com a monocultura do algodão – “quando o branco da neve cobre Moscou, o ouro branco do algodão cobre as Repúblicas Soviéticas da Ásia Central”: essa frase passou a ser uma espécie de mantra no Kremlin.

Os planos dos burocratas de Moscou lograram espantosos êxitos, com recordes de produção quebrados sucessivamente ano após ano, porém, com terríveis custos sociais e ambientais: a sangria de recursos hídricos dos rios Amu Daria e Syr Daria para uso em sistemas de irrigação fez cair em 90% o volume de água que chegava ao Mar de Aral; a monocultura do algodão destruiu as tradições culturais dos povos nômades da Ásia Central, sobretudo os cazaques, um povo sem qualquer tradição em agricultura e que não aceitou o programa de propriedade coletiva dos soviéticos – calcula-se que mais de um milhão de pessoas morreram ou abandonaram a região, migrando para outros países.

No próximo post vamos avaliar os impactos diretos da política de produção agrícola da Ásia Central no Mar de Aral.

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