ÍNDIA SE RECUSA A DIMINUIR AINDA MAIS AS SUAS EMISSÕES DE GASES DE EFEITO ESTUFA

Pegando emprestada uma expressão muito usada por colegas jornalistas que cobrem o dia a dia e a vida das celebridades – olhem só que babado: a Índia, terceiro maior emissor de gases de efeito estufa do mundo, acaba de rejeitar os apelos de outros países para anunciar uma meta líquida de zero emissões de carbono na COP26. 

De acordo com os compromissos assumidos em 2015, quando mais de 195 países assinaram o Acordo de Paris, a Índia assumiu o compromisso de reduzir as suas emissões entre 33% e 35% até 2030, tomando-se como base os valores de 2005. Para muitos especialistas, o país teria condições de elevar essa redução para 40%. 

A Índia responde por 6,8% do total de emissões mundiais de gases de efeito estufa, ficando atrás da China, que emite 23,9%, e dos Estados Unidos, com 13,6% das emissões mundiais. Para efeito de comparação, as emissões do Brasil são da ordem de 2,9%, a menor entre todos os grandes países do mundo. 

Com a aproximação da COP26 – Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2021, marcada para acontecer entre os dias 1º e 12 de novembro, na cidade de Glasgow na Escócia, o Governo da Índia vinha sendo pressionado para anunciar planos para tornar o país neutro nas emissões de carbono até 2050. 

De acordo com declarações de autoridades do Governo indiano, se limitar a anunciar uma meta de zero emissões de carbono não vai diminuir a crise climática. Para os indianos o mais importante são os volumes de gases de efeito estufa que serão lançados na atmosfera pelos países até meados deste século. 

De acordo com cálculos feitos pelos indianos, a China irá emitir 450 Giga toneladas de carbono na atmosfera antes de atingir a neutralidade nas emissões em 2050. Nesse mesmo período de tempo, os Estados Unidos e a União Europeia vão liberar, respectivamente, 92 e 62 Giga toneladas de carbono até 2050. Do ponto de vista dos indianos, esses volumes mostram o real problema ambiental do planeta. 

De acordo com estudos da ONU – Organização das Nações Unidas, cerca de 1/3 da população mundial que se encontra em situação de pobreza extrema vive na Índia. São cerca de 400 milhões de pessoas que sobrevivem com menos de US$ 1.00 por dia. Esses números assustadores já foram bem maiores, mas a Índia vem conseguindo melhorar as condições de vida da sua população pouco a pouco. 

É justamente a manutenção desse crescimento econômico contínuo e da melhoria das condições sociais da população o que impede o Governo indiano de reduzir ainda mais as suas emissões de gases de efeito estufa. Um exemplo a ser citado é a queima de carvão para a geração de energia elétrica, uma das maiores fontes de emissões de gases do país e ao mesmo tempo a mola propulsora da economia da Índia. 

Mais de 60% da energia elétrica consumida na Índia vem de centrais termelétricas a carvão. O potencial de geração hidrelétrica é limitado e o país tem feito investimentos, dentro dos seus limites orçamentários, para ampliação da geração de energia elétrica em centrais nucleares (a Índia possui 21 unidades em operação e tem outras 6 em projeto ou construção), além da busca por fontes renováveis como a energia solar.   

O consumo per capita de energia elétrica das famílias indianas que têm acesso à rede elétrica e que tem condições de arcar com os custos dessa energia (20% dos indianos não tem acesso à energia elétrica) é muito baixo, equivalente a apenas 7% do que gasta uma família típica dos Estados Unidos. A precária rede elétrica do país sofre frequentemente com apagões e muitas empresas não conseguem trabalhar com a produção a plena carga devido às limitações no fornecimento de eletricidade.   

Além dos grandes volumes de carvão queimados a cada ano, o que corresponde a cerca de 40% da matriz energética do país, a Índia tem uma enorme dependência da queima de lenha e de resíduos. Cerca de 70% da população indiana depende destes combustíveis para cozinhar. Completando o caos, cerca de 16% da matriz energética depende dos derivados de petróleo, indo do querosene usado na iluminação das casas a gasolina, diesel e óleo combustível usado para mover uma imensa frota de veículos e centrais de geração termelétricas. 

As taxas de crescimento da Índia vêm se mantendo na casa dos 6% nos últimos anos, ficando atrás apenas da China. Com uma população gigantesca na casa dos 1,34 bilhão de habitantes, o país precisa gerar cerca de 1 milhão de empregos a cada mês somente para absorver a mão de obra dos jovens que estão entrando no mercado de trabalho.   

Para manter a sua gigantesca economia em funcionamento, a Índia precisa queimar mais de 600 milhões de toneladas de carvão por ano, o que coloca o país entre os maiores consumidores desse insumo do mundo e, de quebra, na posição de um dos maiores emissores de gases poluentes devido a queima do combustível. 

A mineração do carvão na Índia é extremamente problemática e altamente impactante ao meio ambiente. Cerca de 90% do carvão produzido no país vem de minas a céu aberto, que são as mais agressivas ao meio ambiente. A maior parte do carvão indiano tem baixo poder calorífico, o que o torna altamente poluente e emissor de grandes quantidades de cinzas, sendo considerado duas vezes mais poluente do que o carvão usado na Europa e nos Estados Unidos.  

Devido à alta densidade populacional na Índia, tanto as minas quanto as usinas termelétricas sempre ficam localizadas próximas a alguma cidade, onde as populações acabam sendo afetadas diretamente pelos poluentes gerados tanto pela extração quanto pela queima do carvão. A imagem que ilustra essa postagem mostra um dia de poluição extrema em Nova Déli, a capital do país. Um dos principais poluentes é o mercúrio, um metal pesado que causa inúmeros problemas à saúde humana.  

De acordo com estudos feitos em 2013, a poluição do ar gerada pela mineração e pela queima do carvão está associada a 20 milhões de novos casos de asma e de problemas cardíacos na Índia a cada ano. Também está associada a mais de 100 mil mortes prematuras de crianças (sendo que 10 mil dessas mortes são de crianças com menos de 5 anos de idade). Além de toda a tragédia humana, essas doenças geram um custo extra de US$ 4,6 bilhões ao sistema de saúde do país. 

Como diz um velho ditado, a Índia está entre a cruz e a espada. Os Governantes tem plena consciência dos males provocados pelas suas enormes emissões de gases de efeito estufa, que afetam tanto o país quanto o resto do mundo, ao mesmo tempo que dependem da energia gerada pela queima de combustíveis fósseis para garantir a melhoria das condições de vida de grande parte da sua população. 

E a Índia não está sozinha nessa situação – China, Indonésia e Paquistão, entre muitos outros países em desenvolvimento e que possuem grandes populações em situação de pobreza extrema, se valem dos mesmos argumentos para continuar emitindo grandes volumes de gases de efeito estufa e garantindo assim algum desenvolvimento econômico. 

Existe uma enorme lacuna econômica e social entre a França de Emmanuel Macron e a Suécia de Greta Thunberg em relação a países miseráveis como a Índia de Narendra Modi. Vamos acompanhar de perto a COP26 para conferir como vai ficar essa verdadeira queda de braços entre os países ricos, de um lado, e as nações pobres e em desenvolvimento do outro. 

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