AMAZÔNIA SUSTENTÁVEL: OS CACAUEIROS DA FLORESTA AMAZÔNICA

Quando os exploradores espanhóis iniciaram sua saga de conquista da América Central nas primeiras décadas do século XVI, eles foram tomados de grande surpresa ao encontrar imponentes civilizações locais como os astecas, que em vários aspectos estavam em um patamar superior ao de seu reino ibérico. 

Eram grandes cidades com arquitetura sofisticada, ruas perfeitamente projetadas, grandes edifícios públicos, além de majestosas pirâmides e templos. Essas civilizações tinham uma escrita própria, profundos conhecimentos de matemática, astronomia e ciências naturais. Para choque dos fanáticos católicos espanhóis, esses povos praticavam uma religião profana, onde os sacrifícios humanos eram parte importante dos rituais, o que moralmente justificaria a guerra de conquista e o massacre de milhões de nativos num futuro próximo. 

Antes desse desfecho trágico, os conquistadores teriam tempo para conhecer uma bebida amarga e considerada sagrada pelas civilizações pré-colombianas, conhecida como chocola’j, chokola’j ou xocolātl. Essa bebida era obtida a partir da maceração das nozes de um fruto local, o kabkajatl, e era de consumo exclusivo da nobreza. Os espanhóis hispanizaram a palavra para cacauatl, e por fim acabou resumida a cacau. Levado inicialmente para a Espanha, o cacau passou a ser consumido como uma bebida quente com leite e açúcar. A partir daí ganhou novas formas de preparo e conquistou o mundo com o nome de chocolate. 

O cacau (Theobroma cacao) é uma planta nativa das regiões tropicais das Américas, encontrada desde a região da Floresta Amazônica até as florestas tropicais do Sul do México. O cacaueiro se desenvolve sob as copas sombreadas das florestas, onde a árvore pode chegar a uma altura de 20 metros. Em plantações comerciais, onde as árvores recebem podas periódicas, essa altura normalmente fica entre 3 e 5 metros, o que facilita muito a colheita dos frutos. 

Uma região brasileira onde a cultura do cacau se transformou em um grande sucesso foi o Sul do Estado da Bahia, onde as primeiras mudas de cacaueiro desembarcaram no início do século XVIII. Essa região foi durante muito tempo território dos ferozes índios botocudos, o que poupou uma extensa faixa da Mata Atlântica da destruição diante do avanço dos canaviais. Sob a sombra das grandes árvores nativas da região, os cacaueiros prosperaram muito. 

A fabulosa Floresta Amazônica, com seu clima quente, grande fartura de água e densa cobertura florestal, além de ser o bioma original da cultura, apresenta todas as condições para se transformar no maior centro de produção de cacau do mundo. Na região de Altamira, no Pará, essa produção cresce a olhas vistos em pequenas e médias propriedades. Conhecida como Rota do Cacau, a região engloba também os municípios de Medicilândia, Vitória do Xingu, Pacajá, Senador José Porfírio, Brasil Novo e Uruará. Juntos, esses municípios respondem por 90% da produção de cacau do Pará, o segundo maior produtor brasileiro. 

Ao contrário da primeira impressão que todos costumamos ter, os solos amazônicos são pobres e de baixa fertilidade. De acordo com informações da UFPA – Universidade Federal do Pará, 92% dos solos da região apresentam uma baixa fertilidade natural, enquanto que em apenas 8% são de elevada fertilidade. Essa porcentagem parece pequena, mas, dada a imensidão da Floresta Amazônica, isso corresponde a totalidade da área agrícola em uso no Brasil

Os solos da região da Rota do Cacau se enquadram dentro dessa pequena minoria de solos férteis e são formados por terras roxas. Essa região começou a ser ocupada a partir do final da década de 1970, época em que Rodovia Transamazônica rasgou a região e criou as melhores expectativas de uma vida melhor para milhares de agricultores sem-terra de todo o país. Muitos desses pequenos agricultores tiveram seu primeiro contato com os cacaueiros nessa época. 

De acordo com informações da CEPLAC – Comissão Executiva do Plano Lavoura Cacaueira do Ministério da Agricultura, essa região concentra cerca de 12 mil produtores, o que corresponde a mais da metade do total de produtores do Pará. As plantações se espalham por uma área com aproximadamente 175 mil hectares e com uma produção de 900 kg de fruto por hectare. No município de Medicilândia alguns produtores conseguem atingir a impressionante marca de 2,5 toneladas por hectare. Para efeito de comparação, o Sul da Bahia tem cerca de 480 mil hectares de área plantada, com uma produção média de 300 kg por hectare. 

Apesar do imenso potencial econômico da cultura e sua grande capacidade de contribuir para a preservação da Floresta Amazônica, os produtores da Rota do Cacau enfrentam enormes dificuldades no seu dia a dia. A logística para o transporte da produção é uma das principais. A promessa da construção de uma grande rodovia para a integração de toda a Amazônia ao restante do país ficou em grande parte dentro do campo das boas intenções. 

Grande parte da Rodovia Transamazônica não passa de um rasgo contínuo no meio da floresta, onde o piso de terra batida é ponteado por precárias pontes de madeira. Para se chegar na região cacaueira é necessário atravessar o rio Xingu através de balsa, um procedimento que pode levar até 3 horas devido à grande fila de carros, ônibus e caminhões que se acumulam nas duas margens. O serviço de travessias é suspenso a noite. 

Na temporada das intensas chuvas do inverno amazônico, grande parte da Rodovia fica intransitável, com sucessivos atoleiros e poças de água. Calcula-se que mais de 90% das populações que foram assentadas em lotes rurais e agrovilas logo após a inauguração da Transamazônica abandonaram suas terras e migraram para as médias e grandes cidades da região Norte. 

Os produtores também enfrentam uma série de entraves criados pela legislação ambiental ao tentar aumentar as suas áreas de produção. Apesar de depender da sombra das grandes árvores para se desenvolver, o plantio dos cacaueiros depende da remoção de árvores menores a fim de liberar espaço. No bioma Amazônia, os produtores podem desflorestar uma área de no máximo 20% das suas propriedades para a criação de terras agrícolas ou pastagens. Por se tratar de uma espécie amazônica e de baixíssimo impacto ambiental, o plantio do cacau deveria ter regras ambientais próprias e mais adequadas à cultura. 

Outra grande fonte de problemas para os produtores locais é de ordem trabalhista, especialmente na questão ligado aos contratos com os meeiros. Formado basicamente por núcleos de produção familiares, onde pais e filhos cuidam da produção, é muito comum na Região Norte a cessão de áreas de produção com meeiros, trabalhadores que recebem metade da produção obtida em uma determinada área. Esses contratos são normalmente verbais e baseados na confiança, uma prática que foge totalmente das práticas defendidas pelo Ministério do Trabalho. 

Também são importantes as questões fundiárias. Grande parte dos produtores está assentada na região há mais de 40 anos e ainda não possui a documentação de posse definitiva da terra. Sem esses títulos, não têm acesso a financiamentos e outros incentivos dados pelos bancos oficias, o que limita a modernização e o incremento da produção. 

Existem cerca de 20 milhões de hectares de terras abandonadas em toda a Amazônia, grande parte concentrada no Estado do Pará. Essas terras foram desmatadas e transformadas em pastagens para a criação de gado ainda nos primeiros tempos da colonização da região. Devido aos problemas de baixa fertilidade dos solos da Amazônia já citados, que dependem quase que exclusivamente do húmus criado pela própria floresta para se manter a sua fertilidade, essas pastagens se degradaram em poucos anos e foram abandonadas. 

Seria uma excelente alternativa ambiental o desenvolvimento de grandes projetos de reflorestamento dessas áreas e de implantação de polos sustentáveis de produção de cacau. Isso aliaria a produção sustentável e orgânica de cacau com a preservação da Floresta Amazônica – algo que soaria como música para os ouvidos de milhões de estrangeiros preocupados com a saúde do planeta Terra. 

Uma dica final: a maior região produtora de cacau do mundo fica no Oeste da África, na chamada Costa do Ouro, se espalhando por países como Gana, Costa do Marfim, Nigéria e Camarões. Entre outros inúmeros problemas, a produção local do cacau é famosa por utilizar largamente mão de obra infantil e escrava. Grandes empresas de alimentos internacionais sofrem grande pressão dos seus consumidores para não comprar cacau dessa região. Isso demonstra o potencial de produção de cacau sustentável na Amazônia! 

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