MAR DE ARAL: UM OÁSIS NO MEIO DO DESERTO DA ÁSIA CENTRAL

Mar de Aral

O Planeta dos Macacos foi um filme de ficção científica de enorme sucesso no final da década de 1960, gerando diversas sequências e adaptações. Na história, um grupo de astronautas pousa num planeta dominado por símios de diversas espécies – orangotangos, gorilas e chimpanzés, altamente desenvolvidos e belicosos; os seres humanos são escravizados pelos símios e considerados criaturas inferiores com um baixo nível de inteligência – inclusive não possuem linguagem. Depois de intensas lutas pela sobrevivência, um único astronauta remanescente descobre que sua astronave havia pousado no planeta Terra, mas num futuro distante – ele encontrou a Estátua da Liberdade, símbolo da Cidade de Nova York, quase que completamente enterrada na areia de uma praia. Uma guerra nuclear destruiu o planeta e a maior parte da humanidade – os macacos evoluíram e dominaram a Terra. A foto que ilustra esta postagem foi escolhida por lembrar esse filme de ficção científica – um grande navio encalhado nas areias de um deserto; infelizmente o que ela mostra é real: as dunas de areia são o antigo fundo do Mar de Aral na Ásia Central, um mar que, literalmente, evaporou…

Localizado entre o Cazaquistão e o Uzbequistão, o Mar de Aral era até o início do século XX o quarto maior lago do mundo, com uma área total de 68 mil km² – isto corresponde a soma de três vezes o tamanho do Estado de Sergipe com uma área equivalente a duas vezes o tamanho do Distrito Federal; também é equivalente a 165 vezes a área da Baía da Guanabara. Nada mal para um lago no meio de um grande deserto.

O Mar de Aral surgiu graças a existência uma grande depressão no terreno, onde se formou uma bacia hidrográfica endorreica, ou seja, uma bacia fechada, sem drenagem para outras bacias hidrográficas ou para o oceano, sendo alimentada pelas águas das chuvas, do degelo e, especialmente pela drenagem das águas dos rios Amu Daria e Syr Daria. Estes caudalosos rios nascem na Cordilheira do Himalaia, distante 2.000 quilômetros do lago. O grande volume de água despejado no lago compensava a evaporação de aproximadamente 10% ao ano, mantendo o nível do Aral estável por um longo período geológico e com uma profundidade máxima de 31 metros. Aral, nas línguas uzbeque e cazaque, significa “ilha” – haviam mais de 1.100 naquele mar.

A antiga Rota da Seda, uma das ligações comerciais mais importantes da história da humanidade, cruzava as praias e deltas do Mar de Aral, situado no meio do caminho entre a Europa e a China. As margens do Aral abrigavam diferentes grupos étnicos como tadjiques, uzbeques e cazaques, que sobreviviam como agricultores, pescadores, pastores, mercadores e artesãos numa região rica em água, plantas e vida animal.

Em meados do século XIX, a expansão militar do Império Russo levou à conquista da região do Mar de Aral. Navios militares e pesqueiros da Rússia foram transportados desmontados em caravanas de camelos e montados nas águas do Aral. Após a conquista, foi iniciada uma nova etapa da sua história – o Mar de Aral foi transformado numa fonte de pescados para toda a Rússia, chegando a fornecer, em meados do século XX, 1/6 do volume total dos peixes consumidos pelos soviéticos.

O ar puro, o clima quente e úmido e as paisagens pitorescas ao redor das praias de água salobra criaram um verdadeiro contraponto ao inóspito clima russo, transformando a região num dos maiores destinos turísticos de verão dos eslavos – o Mar de Aral virou uma espécie de “Copacabana” da Ásia Central, recebendo milhões de turistas de todas as Repúblicas Soviéticas. As estradas de ferro, construídas originalmente para escoar os pescados da região, passaram a transportar um número cada vez maior de pessoas, dinamizando ainda mais a economia regional. Hotéis, acampamentos de verão e colônias de férias, marinas, restaurantes e lojas surgiram ao lado dos grandes complexos industriais de processamento de pescados. A população cresceu acompanhando o progresso regional – passou de 8 para 50 milhões de habitantes entre os anos de 1900 e 1960.

Após a Revolução Bolchevique de 1917, o Governo Central da recém criada União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) iniciou um conjunto de grandes obras em todo o seu vasto território com vistas à criação, expansão e modernização da infraestrutura e ao fortalecimento nacional. Na Ásia Central foram construídas imensas redes de irrigação a partir de canais de drenagem derivados das bacias hidrográficas dos rios Amu Daria e Syr Daria. O desvio das águas destes rios para a irrigação serão o decreto de morte para o Mar de Aral.

Antigo oásis no meio do Deserto da Ásia Central, o Mar de Aral foi reduzido em poucas décadas a uma irreconhecível miragem desbotada.

Continuamos no próximo post.

4 Comments

  1. […] Um outro risco regional é o avanço de grupos internacionais, especialmente chineses, interessados na implantação de grandes projetos agroindustriais com irrigação nas planícies. O baixo preço da terra, a aparente grande oferta de água do Rio Okavango, mão de obra farta e a baixos custos (70% da população de Angola vive da agricultura), num país com governo ditatorial e com instituições fracas, são convites para um desastre nos moldes da Ásia Central. […]

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  2. […] Os danos ambientais que os sistemas de irrigação em grandes áreas agrícolas podem provocar em uma determinada região não são meras hipóteses teóricas – existem inúmeros casos fartamente documentados, onde a retirada excessiva de grandes volumes de água de rios e lagos acabou em verdadeiros desastres ambientais regionais. Vamos relembrar o caso do Mar de Aral:  […]

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