A PODEROSA INDÚSTRIA FARMACÊUTICA DA ÍNDIA E SEUS MUITOS PROBLEMAS AMBIENTAIS, OU OS CACHORROS AZUIS

Cachorro azul da Índia

Em meio aos inúmeros problemas causados pela pandemia do Corona vírus, surgiu uma luz no fim do túnel com os bons resultados do uso da hidroxicloroquina no combate à Covid-19. Apesar das intensas discussões entre especialistas pró e contra, o Ministério da Saúde acaba de liberar o uso dessa substância para o tratamento dos casos graves da doença. Em discurso transmitido em Rede Nacional, o Presidente da República anunciou que negociou junto ao Primeiro Ministro da Índia a compra de um grande lote de insumos químico-farmacêuticos para a produção local de novos lotes de hidroxicloroquina para atender ao aumento da demanda pelo remédio. 

A Índia, para os que não sabem, é uma das maiores produtoras mundiais de remédios e de químicos-farmacêuticos do mundo. Há várias décadas, empresas químicas e farmacêuticas multinacionais começaram a se instalar no país em busca de baixos custos de produção, especialmente no item mão de obra. O país é um centro de excelência na formação de profissionais de alto nível e de pesquisa básica, com um custo em salários equivalente a 30% dos seus congêneres americanos e europeus. Muitos laboratórios indianos também foram beneficiados com esse boom e cresceram muito. 

Um outro importante atrativo que levou à instalação de grandes empresas químicas e farmacêuticas em países em desenvolvimento como a Índia, o Brasil e a Malásia, foram as leis trabalhistas e ambientais muito mais brandas que nos seus países de origem. Nos velhos tempos do “desenvolvimento a qualquer custo” em décadas atrás, valia tudo. Muitos dos processos envolvidos na produção de produtos químicos e farmacêuticos são muito perigosos e potencialmente danosos ao meio ambiente. 

Eu passei a maior parte da minha adolescência morando ao lado de uma grande indústria farmacêutica e num raio de 3 km da minha casa existiam, pelo menos, outras três grandes empresas desse ramo. A poluição do ar liberada por essas empresas tornava a chuva que caia no bairro uma das mais ácidas da cidade de São Paulo.  

Notícias sobre incêndios e explosões nesses laboratórios eram frequentes e corriam a “boca pequena” nas vizinhanças (nos tempos do Regime Militar, essas notícias eram controladas ou censuradas). Lembro também que, de vez em quando, cobaias usadas nos testes fugiam de suas gaiolas nos laboratórios e apareciam nos quintais de muitas casas – certo dia, um porquinho-da-Índia (conhecido em muitas regiões como preá) apareceu no quintal da minha casa e acabou sendo devolvido ao laboratório. 

Graças às particularidades sociais e econômicas da Índia, essas indústrias prosperaram muito mais por lá e, por outro lado, já causaram e ainda causam problemas ambientais muito mais graves do que por aqui. Um dos casos mais dramáticos da história da humanidade aconteceu em 1984 na cidade de Bhopal, na região central da Índia, onde um vazamento de gases tóxicos de uma fábrica da empresa norte-americana Union Carbide matou, pelo menos, 3 mil pessoas (dados extra oficias falam de até 10 mil mortos)

Um erro de operação no sistema de dutos levou ao vazamento de 40 toneladas de gases tóxicos. A nuvem de gases que se formou nas áreas de entorno da fábrica contaminou cerca de 500 mil pessoas – a maioria dos mortos eram moradores de rua das castas mais baixas da sociedade indiana, pessoas que não possuíam documentos e que, por razões políticas, foram facilmente escondidas das estatísticas da tragédia. Muita coisa mudou na Índia depois desse “acidente”, mas os problemas ainda são muitos. 

Em agosto de 2017 publiquei uma curiosa postagem, onde mostrei que os cachorros vira latas de algumas cidades da Índia estavam ficando azuis por causa da forte poluição de resíduos de indústrias químicas lançados em rios do país. Os cachorros costumam mergulhar nos rios em busca de alimento e ficavam com o pelo coberto por resíduos químicos. Esse era o caso de Nova Mumbai, cidade que abriga um importante pólo industrial, que naquela época contava com cerca de 997 fábricas dos segmentos da química, farmacêutica, engenharia e processamento de alimentos. As autoridades locais abriram uma investigação que parece ter acabado em nada.

Mas os problemas vão muito além da tradicional poluição das águas. Estudos sobre o aumento da resistência das bactérias aos antibióticos indicaram que a poluição gerada pelas fábricas desse tipo de medicamento na Índia e na China está afetando as populações vizinhas a essas fábricas e estão provocando um aumento da resistência dos microorganismos.  

Os efluentes líquidos liberados por essas fábricas carregam grandes quantidades de resíduos dos antibióticos e esses são absorvidos pelas pessoas que consomem água contaminada. Com a presença contínua dos antibióticos em seus organismos, as bactérias presentes no corpo dessas pessoas desenvolvem resistência a esses medicamentos e se transformaram no que os cientistas e médicos chamam de superbactérias

Caso qualquer uma dessas pessoas adquira uma doença grave, onde venha a ser necessário o uso de antibióticos, eles não farão efeito por causa da resistência adquirida pelas superbactérias. Assim, uma doença que poderia ser controlada com o uso dessa medicação não fará efeito e o paciente correrá um sério risco de morte. 

Os estudos feitos na Índia utilizaram dados coletados nas vizinhanças das principais indústrias farmacêuticas do país, onde foram identificados 16 focos de resistência a antibióticos. Um exemplo: em rios e corpos d’água dos arredores da cidade de Hyderabad foram encontradas quantidades de resíduos até mil vezes maiores do que aquelas que são encontradas em rios dos chamados países desenvolvidos. Isso nos dá uma ideia da situação nessas comunidades. 

Além de estimular a proliferação de superbactérias entre as populações dessas comunidades, esses resíduos causam outros tipos de drama – cerca de 60 mil recém nascidos morrem por ano na Índia por causa de doenças associadas a bactérias super-resistentes. Um exemplo é a bactéria Klebsiella pneumoniae, associada a pneumonia e meningite, além de infecções no sangue e no trato urinário – essa bactéria aumentou sua resistência de 29% em 2008 para 57% em 2014

A origem dessa emissão descontrolada de resíduos de medicamentos está diretamente ligada a regras muito frouxas na segurança da produção e no uso de maquinários antigos, na falta de sistemas de filtragem adequados, treinamento precário de funcionários e, principalmente, na ganância de empresas que querem ganhar muito e gastar o mínimo possível, sem se preocupar com a saúde dos seus funcionários e comunidades vizinhas de suas fábricas. 

Autoridades de saúde alertam que as superbactérias “made in” Índia podem se espalhar facilmente pelo mundo e criar uma série de transtornos para a saúde de populações de outros países, inclusive naqueles onde ficam as matrizes das multinacionais farmacêuticas causadoras desse problema. 

Encerrando – uma das tristes memórias que eu guardo dos noticiários sobre a tragédia de Bhopal foi a justificativa que um dos advogados da Union Carbide apresentou em um tribunal americano, justificando os baixíssimos valores de indenização oferecidos às famílias das vítimas indianas da tragédia: “Não se pode comparar o valor da vida de um cidadão norte-americano com a de um indiano”.  Passados mais de 35 anos, o processo jurídico de Bhopal ainda não foi concluído.

Parece que a antiga mentalidade dos empresários estrangeiros não mudou muita coisa mesmo tendo se passado tantos anos desde aquela trágica noite em Bhopal

2 Comments

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s