O CAVIAR “NOSSO” DE CADA DIA

Esturjão-beluga

Uma pergunta inicial: você sabia que, até meados do século XIX, existiam pinguins no Hemisfério Norte? 

Apesar de parecer uma pegadinha, isto é absolutamente verdadeiro. O Pinguinus impennis era o nome científico da espécie, que era conhecida popularmente como auk ou great auk, ou ainda como alca-gigante e arau-gigante, em línguas latinas. As alcas eram abundantes nas águas  do Atlântico Norte e ao redor do Círculo Polar Ártico, sendo caçadas aos milhares, tanto para alimentação quanto para servir como isca para a pesca do bacalhau e das lagostas.

Outros tantos espécimes foram mortos para a retirada de suas penas, usadas no enchimento de travesseiros. Uma das principais razões para o declínio da espécie, entretanto, foi a coleta dos seus ovos, que eram considerados uma verdadeira iguaria. O último casal de alcas foi abatido numa pequena ilha ao largo da Islândia, em 3 de junho de 1844. Os pinguins da Antártida receberam esse nome devido à suas semelhanças com as extintas alcas-gigantes. 

Comecei a postagem de hoje relembrando essa história que ouvi ainda na infância para falar de uma outra espécie que “caminha” a fortes passos para a extinção devido às suas cobiçadas e valiosas ovas – falo do esturjão, uma grande família de peixes de águas salgadas e doces, e do caviar, uma das iguarias mais caras do mundo. O caviar dourado iraniano, que é produzido pelo esturjão-beluga, é um dos mais valorizados do mundo e pode custar o fabuloso preço de US$ 25 mil por kg

O nome esturjão é usado para identificar cerca de 25 espécies de peixes, onde se incluem os chamados esturjões verdadeiros, além de várias espécies aparentadas. Os esturjões são uma das mais antigas espécies de peixes ósseos e são nativos de rios e lagos da Eurásia, uma extensa região que abrange parte do Leste da Europa e Centro da Ásia. Os esturjões possuem um corpo longo, sem escamas e têm um comprimento médio entre 2 e 3,5 metros. O esturjão-kaluga (Huso dauricus), encontrado no rio Amur, pode atingir um comprimento de 5,5 metros e o peso de 1.000 kg.  

Uma outra espécie, o famoso esturjão-beluga (Huso huso) do Mar Cáspio, o maior da família, pode atingir o mesmo comprimento e um peso superior a 2.000 kg. Essa espécie de esturjão é considerado o maior peixe de água doce do mundo.  A famosa foto que ilustra esta postagem mostra um esturjão-beluga, capturado por pescadores russos em 1921, que tinha quase 7 metros de comprimento.

Algumas espécies de esturjão chegam a viver mais de 100 anos e, um dado preocupante: só atingem a maturidade sexual após a idade de 20 anos. A maioria das espécies de esturjão vive nas águas de rios e nas regiões de deltas e estuários; algumas espécies vivem exclusivamente em rios. A maioria das espécies de água salgada vivem nas proximidades das áreas costeiras. 

A extração das ovas não-fertilizadas das fêmeas é um processo delicado, complexo e, na minha opinião, muito cruel com os animais. As ovas precisam ser extraídas com a fêmea ainda viva, o que é feito a partir de uma incisão “cirúrgica” no ventre. O saco de ovas é retirado e as ovas precisam ser peneiradas, lavadas, escorridas, selecionadas e salgadas dentro de um período máximo de 15 minutos, garantindo assim a qualidade e o frescor do caviar.

Só depois desse processo doloroso é que a fêmea do peixe é morta e encaminhada para o processamento de sua carne. É justamente esse processo de consumo das ovas e abate das fêmeas que tem provocado um declínio vigoroso das populações e, a exemplo do que aconteceu com as alcas-gigantes, está condenando as espécies à extinção. 

Além de todos esses problemas, que já são muitos, os esturjões ainda sofrem com a destruição dos seus habitats. Um dos casos mais dramáticos, tratado em diversas postagens aqui no blog, é o Mar de Aral, na Ásia Central. Localizado entre o Cazaquistão e o Uzbequistão, o Mar de Aral era, até o início do século XX, o quarto maior lago do mundo, com uma área total de 68 mil km² – isto corresponde a 1,5 vezes a área do Estado do Rio de Janeiro ou 165 vezes a área da Baía da Guanabara.

Sucessivos projetos de aproveitamento das águas dos rios Amu Daria e Syr Daria, seus principais formadores, ainda nos tempos da antiga URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, levaram o Mar de Aral ao colapso. A maior parte das antigas terras ocupadas pelo lago foram transformadas em um deserto de areias salgadas – o Aralkum, e só resta uma pequena área com água. O lago era rico em peixes, com destaque para o famoso esturjão de Aral (Acipenser nudiventris), que podia atingir até 70 kg. 

A poluição das águas por esgotos não tratados, resíduos de produtos químicos e de defensivos agrícolas, além de metais pesados, é outra fonte de problemas para a sobrevivência de várias espécies, em particular, aquelas que vivem e/ou se reproduzem nas águas de rios como o Volga. Com quase 3.700 km de extensão, o Volga é o maior rio da Europa, e também o dono da maior bacia hidrográfica e também o curso com o maior volume de água do continente.

Cerca de 3.200 km do rio são navegáveis e existem cerca de 900 portos nas suas margens. Em meados do século XX, o Governo Soviético construiu um canal de interligação entre os rios Volga e Don, possibilitando a integração hidroviária dos dois rios e também a navegação entre o Mar Cáspio e o Mar Negro.  

Grande parte da população russa vive em áreas da bacia hidrográfica do rio Volga, que também concentra a maior parte da produção agropecuária e industrial do país. Todo esse conjunto de populações e atividades econômicas transformaram o rio num grande esgoto a céu aberto. A bacia hidrográfica do rio Volga possui cerca de 70 espécies de peixes, sendo que 40 têm valor comercial, incluindo nessa lista o esturjão-beluga e o peixe-branco.

O esturjão-beluga passa a maior parte de sua vida no Mar Cáspio, lago interior que tem o rio Volga como um dos seus maiores tributários. A espécie precisa migrar para a região do curso superior do rio Volga para a sua reprodução, algo que está ficando cada vez mais  difícil.  

Estimativas recentes indicam que houve uma redução de 90% das populações do valorizado esturjão-beluga nos últimos 20 anos, o que foi provocado pela captura intensa para produção de caviar e consumo da carne, e, especialmente, por causa da intensa poluição das águas e construção de represas no rio Volga. Um outro fator nada desprezível no colapso das populações de esturjões foi o fim da antiga União Soviética. O Governo Central controlava com mão de ferro a produção do caviar, que era uma importante fonte de receitas externas para o bloco socialista, e estabelecia rigorosas cotas de pesca para cada uma das espécies.

Com o fim do Governo Central e o surgimento das repúblicas autônomas, todo esse sistema de controle foi abandonado e cada um dos países começou a defender o seu próprio lado. Das espécies de esturjão existentes, 6 estão criticamente ameaçadas de extinção, 6 são consideradas vulneráveis e as demais espécies são consideradas ameaçadas.

Com as fêmeas das diversas espécies de esturjão sendo mortas para a extração das ovas e com a destruição das áreas de reprodução por causa da construção de represas e poluição das águas dos rios, não há como garantir o futuro desses peixes. O que é óbvio para biólogos e ambientalistas, parece não incomodar quem só está preocupado com os  imensos lucros obtidos com a venda do caviar. Triste!

One Comment

  1. […] Grande parte da população russa vive em áreas da bacia hidrográfica do rio Volga, que também concentra a maior parte da produção agropecuária e industrial do país. Todo esse conjunto de populações e atividades econômicas transformaram o rio num grande esgoto a céu aberto. Além de comprometer o abastecimento de inúmeras cidades, toda essa poluição ameaça dezenas de espécies de peixes que vivem nas águas da bacia hidrográfica, em especial o esturjão, peixe responsável pela produção do valioso caviar russo.  […]

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