A CAÓTICA INDÚSTRIA TÊXTIL DE BANGLADESH

Indústria textil em Bangladesh

Na última postagem, onde foi usado o irônico título de “AS ‘ABUNDANTES’ ÁGUAS DE BANGLADESH”, falamos dos graves problemas de poluição e de excesso de sedimentos nas águas que chegam desde a Índia. O Ganges, o mais importante e venerado rio do grande país vizinho, sofre com a intensa poluição por esgotos domésticos e industriais, lixo, resíduos de fertilizantes e defensivos agrícolas, entre outras “coisas”. Outro importante rio, o Brahmaputra, corta regiões em que as florestas foram praticamente dizimadas – os solos desnudos sofrem forte erosão na temporada das Chuvas da Monção e as águas pluviais carreiam milhões de toneladas de sedimentos, que irão encobrir as terras agrícolas das terras baixas de Bangladesh. 

A poluição das águas em Bangladesh, entretanto, não se deve apenas a ações humanas feitas fora de suas fronteiras. Os bangladeses (ou bengalis) também se “esforçam” muito para fazer a sua parte, poluindo fortemente a sua cota de águas. A principal fonte de poluição das águas no país é a indústria têxtil. Conforme já comentamos em postagem anterior, o custo da mão de obra em Bangladesh é menor do que na China, o que transformou o país em uma imensa rede de pequenas oficinas de corte e costura de roupas e de pequenas tecelagens. O país é o segundo maior produtor mundial de têxteis do mundo – é comum encontrarmos roupas nas lojas das grifes mais sofisticadas do mundo com a inscrição “Made in Bangladesh

A indústria têxtil é problemática em todo o mundo. Durante muitas décadas, as indústrias desse setor nos Estados Unidos e na Europa se valeram da mão de obra abundante e barata dos imigrantes (a grande maioria ilegais). Na cidade de São Paulo, hoje, existem milhares de pequenas oficinas de confecção de roupas que estão utilizando a mão de obra de imigrantes bolivianos. A regra básica seguida pelas empresas é pagar os salários mais miseráveis possíveis, garantindo assim uma alta margem de lucro para os fabricantes, com uma calça jeans sendo vendida em lojas de alto luxo por mais de R$ 500,00 e um vestido por mais de R$ 1 mil – é claro que algumas marcas mais famosas trabalham com preços maiores ainda. 

Com as sucessivas medidas de controle da imigração que os países ricos começaram a adotar, as indústrias têxteis passaram a buscar outras alternativas. O subcontinente indiano, especialmente a Índia e Bangladesh (o Paquistão se especializou em tecelagem), além da China, Malásia, Tailândia, Indonésia e Vietnã, entre outros, se mostraram altamente promissores, oferecendo farta mão de obra barata e leis trabalhistas altamente permissivas. Esses países foram transformados numa espécie de paraíso na terra para as confecções. 

Entre outros problemas, as oficinas de trabalho nesses países são das mais precárias. Normalmente, cômodos de casas grandes são adaptados para receber as mesas de corte de tecidos e as máquinas de costura. Contando com um pé direito baixo, no padrão residencial, esses locais tornam-se extremamente quentes e abafados quando se concentram muitos trabalhadores. Diga-se de passagem que as regiões tropicais e sub-tropicais onde ficam esses países já são naturalmente quentes.

Mesmo em locais supostamente construídos para abrigar adequadamente essas oficinas, as condições de trabalho são críticas. Em 2013, um prédio de oito andares em Dhaka que abrigava oficinas de corte e costura, o Rana Plaza, desabou matando cerca de 1.100 pessoas. Os laudos oficiais do Governo local afirmaram que as causas do desabamento foram erros na construção e na manutenção do edifício. Como aconteceu em muitos casos semelhantes aqui no Brasil, os responsáveis pela tragédia até hoje não foram punidos.

Além dos exaustivos trabalhos de corte, costura e acabamento de peças em galpões mal iluminados e sufocantes, a produção de peças de vestuário precisa passar por diversas etapas de tingimento e lavagem, onde são utilizadas grandes quantidades de produtos químicos, alguns altamente tóxicos. Esses processos geram grandes quantidades de efluentes contaminados por produtos químicos que, seguindo-se as regras básicas internacionais de gestão ambiental, precisariam passar por um rigoroso sistema de tratamento antes de serem devolvidos ao meio ambiente. Nem lá no subcontinente indiano e no Sudeste Asiático, nem cá, em muitas regiões do Brasil, esse tratamento é feito. 

Um exemplo brasileiro de péssima gestão ambiental é a cidade de Toritama, no Agreste pernambucano, que de alguns anos para cá ganhou o título de “Capital Nordestina” do jeans. A cidade abriga uma infinidade de oficinas de corte e costura, além de diversas tinturarias e lavanderias. Essas empresas despejam grandes quantidades de efluentes, com resíduos de corantes e sem nenhum tipo de tratamento, nas águas do rio Capibaribe, fazendo com que as águas tenham sua cor alternada entre o azul índigo e o vermelho. Longe de ser um caso isolado, em Bangladesh isso é regra. A foto que ilustra essa postagem mostra a saída de efluentes de uma das inúmeras tinturarias de Dhaka – um morador mostra a cor da água em detalhe. 

A composição dos corantes químicos utiliza metais pesados como cromo, cádmio, cobalto e mercúrio, entre muitos outros. Esses metais são altamente tóxicos para o meio ambiente. Ingeridos por seres humanos e animais, ou até mesmo numa contaminação pelo contato contínuo com a pele, esses metais pesados podem desencadear uma série de problemas de saúde no sistema respiratório, infecções, infertilidade e problemas congênitos em recém nascidos. Crustáceos e peixes expostos a esses metais também sofrem com inúmeros problemas, especialmente nas guelras, além de acumular esses metais pesados em suas carnes. Quando essas carnes são consumidas pelas populações, os metais pesados são transferidos para o corpo das pessoas, num processo de contaminação cumulativo. 

Um dos mais graves problemas sociais atuais de Bangladesh, se é que é possível hierarquizar a imensa quantidade de problemas do país, é a contaminação das fontes de água utilizadas pelas populações. A maior parte das vilas e cidades depende da água de poços, água essa que vem se tornando cada vez mais contaminada, especialmente por metais pesados “importados” da Índia. As indústrias de tingimento e lavanderia de Bangladesh dão a sua contribuição ao sistema, lançando quantidades crescentes desses poluentes nas águas. 

A fragilidade econômica de Bangladesh, onde se encontra a trágica combinação de um território pequeno com uma gigantesca população, obriga as autoridades a fazerem “vista grossa” a muitas irregularidades trabalhistas com o objetivo de garantir a geração de postos de trabalho, por mais precários que sejam. O salário mínimo atual de Bangladesh é de US$ 68.00 (alguns anos atrás era de apenas US$ 37.00). Segundo dados do Banco Asiático de Desenvolvimento, 30% dos bangladeses sobrevivem com apenas US$ 1.00 por dia, o que é considerado o limite extremo da pobreza

Além dos inúmeros problemas ambientais e sociais que a salvadora indústria têxtil local gera, existe um outro ainda mais delicado – de acordo com estudos de entidades ligadas aos direitos humanos e ao mercado de trabalho, cerca de 15% das crianças de Dakha, a capital do país, com idades entre 6 e 14 anos, deixam de ir para a escola para ajudar os pais com o trabalho nas confecções. É possível que nas cidades do interior do país, onde a “fiscalização” é bem menor, a situação seja ainda mais crítica. 

A definição mais usada para o Desenvolvimento Sustentável afirma que é necessário alcançar um ponto de equilíbrio entre os pilares Econômico, Social e Ambiental, de forma a garantir que as futuras gerações herdem um planeta melhor. Em Bangladesh, como fica bem fácil de perceber nesse texto resumido, todos os pilares estão comprometidos, o que sozinho já é o suficiente para comprometer de forma irreversível o futuro do país. Completando o quadro já caótico, o futuro das novas gerações está sendo destruído um pouco a cada dia de trabalho nas “infernais” oficinas das indústrias têxteis. 

Futuro. Que futuro?

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