OS GRANDES PECADOS AMBIENTAIS DA CARNE

Criação de gado na Índia

Uma das grandes reclamações da população brasileira nestes últimos tempos foi a forte alta no preço da carne bovina. De acordo com informações do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o preço da carne subiu, em média, 8,09% no mês de novembro. O aumento dos preços atingiu todos os cortes, indo do fígado, que teve um aumento médio de 3,03%, ao coxão mole, com aumentos médios de 12,49%

Como sempre ocorre nesses momentos, os consumidores passaram a buscar substitutos à carne bovina, forçando os preços da carne de porco e de frango, que aumentaram, respectivamente, 3,35% e 0,28% (o frango inteiro). Até os ovos acabaram tendo seus preços majorados em 0,53%. Entre os possíveis culpados para toda essa alta no preço da carne está a entressafra, a estiagem em algumas regiões produtoras e o aumento das exportações para a China. A coisa toda, porém, é bem mais complexa. 

Para desespero dos “ecologistas” de plantão das grandes organizações ambientalistas internacionais, pessoas pobres de diversos países em desenvolvimento estão conseguindo colocar, talvez pela primeira vez em suas vidas, a carne bovina em sua dieta com alguma regularidade. São centenas de milhões de pessoas que estão tendo o direito de comer adequadamente, um dos direitos mais fundamentais da pessoa humana. 

O grande problema dessa melhoria no padrão de vida dessas populações é que a criação de bois, como acontece com todas as atividades humanas, resulta no aumento das emissões de gases de efeito estufa, principalmente o dióxido de carbono. O acúmulo desses gases na atmosfera potencializa um fenômeno natural – o Efeito Estufa, resultando assim num aumento gradual da temperatura do planeta. Evitar o aumento da produção e do consumo de carne é uma das principais bandeiras de muitos grupos ambientalistas. 

Existem muitos movimentos e iniciativas internacionais que lutam contra o consumo da carne. Um deles é o “Segunda Sem Carne“, uma iniciativa existente em 35 países do mundo e apoiada por inúmeros líderes internacionais. Um dos grandes líderes do movimento é o ex-Beatle Paul Mccartney, que pede que os consumidores deixem de comer carne as segundas-feiras, reduzindo assim a demanda pelo alimento. Esse grupo alega que grande parte da produção de cereais do mundo como a soja e o milho é usada para a produção de carne para exportação.

Aqui no Brasil, as condições naturais do território e a nossa própria história favoreceram a criação de bois e o consumo de sua carne. Os primeiros animais chegaram ao país nos primeiros anos da colonização, nas mesmas embarcações que trouxeram as primeiras mudas de cana-de-açúcar. Inicialmente, os fortes bois tinham a função de arar a terra e puxar as carroças com canas e lenhas até as unidades de produção de açúcar dos engenhos. Somente depois, quando surgiram os conflitos entre os plantadores de cana e os criadores de gado (os animais invadiam as plantações e comiam os doces brotos de cana-de-açúcar), é que as boiadas foram expulsas do litoral açucareiro do Nordeste e ganharam os sertões do Brasil

Comer carne bovina é bastante tradicional no Brasil, onde o consumo per capita está na casa de 37 kg/ano por habitante. Nossos vizinhos da Argentina e do Uruguai, países onde as pastagens naturais da Pampa são excepcionais para a criação de gado, tem um consumo per capita normalmente bem maior, na casa de 70 kg/ano. A recente crise econômica que se abateu sobre a Argentina atingiu em cheio o bolso de los hermanos, que só estão conseguindo consumir pouco mais de 50 kg/ano de carne.  

O consumo de carne bovina está crescendo de forma surpreendente na Índia, um país que sempre esteve associado a uma alimentação vegetariana. Cerca de 80% da população do país, que conta atualmente com 1,17 bilhão de habitantes, segue o Hinduísmo, uma religião que combate o consumo da carne há vários séculos. Com o forte crescimento econômico que a Índia vem experimentando nos últimos anos e com a ascensão de uma forte classe média, comer carne vermelha deixou de ser um tabu e se transformou num símbolo de status social. 

De acordo com dados da FAO – Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, o consumo per capita de carne na Índia era baixíssimo até poucos anos atrás – cerca 5 kg/ano por habitante. Esse “súbito” aumento no consumo teve reflexos rápidos no campo – o país se tornou um dos maiores criadores e exportadores de carne bovina (principalmente de búfalos) do mundo. Os grandes agentes dessa mudança de comportamento são os jovens, que estão enfrentando uma forte pressão das gerações mais velhas e das lideranças religiosas do país. 

Outro povo que vem se rendendo cada vez mais aos prazeres da carne são os chineses. De acordo com dados do USDA – Departamento de Agricultura dos Estados Unidos na sigla em inglês, as importações de carne bovina pela China devem aumentar 39,7% em 2019 e 36,6% em 2020. Considerando-se que o país possui a maior população do mundo – 1,45 bilhão de habitantes, é a demanda do mercado chinês que está pressionando todo o mercado mundial, o que ajuda a explicar parte do aumento do preço da carne por aqui. 

O consumo per capita dos chineses ainda é muito baixo – são cerca de 6 kg/ano por habitante. Para efeito de comparação, em Hong Kong, uma das províncias autônomas da China, esse consumo é da ordem de 30,65 kg/ano por habitante, o que demonstra o potencial de crescimento do consumo na China continental e nos dá uma ideia dos impactos que serão criados na geração de gases de efeito estufa pela atividade nos próximos anos

Outro membro dos BRICS, grupo de países em desenvolvimento do qual o Brasil faz parte, que vem demonstrando um forte aumento no consumo de carne é a África do Sul. O consumo per capita de carne pelos sul-africanos está na casa dos 30 kg/ano por habitante, o que é um número surpreendente quando consideramos a forte seca vivida pelo país entre 2015 e 2016, o que comprometeu fortemente a produção. O consumo de carne de frango também está em forte expansão e se encontra atualmente nos 40 kg/ano por habitante – no ano 2000, esse consumo era da ordem de 22 kg/ano por habitante. 

Esses números mostram claramente que havia uma forte demanda reprimida por parte dos consumidores mais pobres desses países, que sem recursos para comprar alimentos de maior qualidade e em maior quantidade, ficavam submetidos a uma subalimentação. Com a melhoria das condições econômicas nesses países, a renda das famílias melhorou um pouco e já mostra reflexos diretos no consumo de alimentos. Felizmente, muito mais gente está conseguindo comer alimentos melhores e mais saudáveis. 

O outro lado dessa história é que esse aumento da produção e do consumo de carne vermelha pelas populações mais pobres do mundo está levando a um aumento das emissões de gases de efeito estufa. Na cabeça de muita gente do chamado Primeiro Mundo, é preciso reduzir o consumo de carne para evitar que a temperatura do planeta aumente ainda mais, o que vai se refletir diretamente nesses pobres e seus minguados bifes.

Em resumo – quem está “destruindo o futuro” de uma certa pirralha sueca são essas centenas de milhões de pobres que, de uma hora para outra, passaram a comer um pouco melhor, inclusive carne. 

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