AS FORTES SECAS, A DESERTIFICAÇÃO E OS RISCOS PARA AS FONTES DE ÁGUA NO CHILE

O Chile é um daqueles países do mundo que tem uma geografia das mais interessantes. O país se estende por cerca de 4.500 km no sentido Norte Sul, porém, apresenta uma largura média de apenas 175 km. Ao Norte se encontram as paisagens do Atacama, o deserto mais árido mundo. Ao Sul, reina a Patagônia Chilena, com grandes geleiras, fiordes e fabulosos lagos. Já na área Central do país, o clima é mediterrâneo e os vales verdejantes dominam os horizontes. 

Completando as características únicas do território do Chile, a majestosa Cordilheira dos Andes “cerca” toda a faixa Leste e as águas frias do Oceano Pacífico delimitam suas terras a Oeste. Eu tenho grandes amigos chilenos e todos são unânimes em afirmar que é muito difícil se perder no país – se você entrou numa rodovia errada, em muito pouco tempo chegará ou ao mar ou nas montanhas. 

Essa clara divisão do território chileno em zonas climáticas bem definidas foi fundamental no povoamento do país desde os tempos coloniais. A faixa Central com seu clima mediterrâneo permitiu a fundação de inúmeras cidades e o assentamento de um sem número de propriedades rurais, enquanto o resto do país manteve populações mais rarefeitas, se especializando em atividades como a mineração ao Norte e a produção de pescados ao Sul.

Na última década, entretanto, o clima vem apresentando uma instabilidade incomum e cerca de 2/3 do território do Chile vem sendo assolado por sucessivas secas, o que vem atingindo cerca de 90% da população do país. Secas não são fenômenos climáticos incomuns no Chile, porém, a frequência e a intensidade nesses últimos anos chamam a atenção. 

De acordo com informações do Escritório de Mudanças Climáticas do Chile, a média das chuvas no país entre 1961 e 2018 apresentou uma diminuição nas precipitações da ordem de 23 mm a cada década. Essa redução gradativa do volume de chuvas tem reflexos diretos nas atividades agrícolas, pecuárias e também no abastecimento das populações das cidades. 

Além das questões climáticas, o país também sofre com o uso inadequado dos solos pelas atividades agropecuárias e os números não são nada animadores: segundo informações da CONAF – Corporação Nacional Florestal, os riscos de degradação dos solos ameaçam 79,1% do território do país e, muito pior, a desertificação compromete 21,7% das terras do Chile.  São aproximadamente 16 milhões de hectares ameaçados pela desertificação, onde vivem cerca de 7 milhões de pessoas em 156 das 346 comunas do país

O relatório “Mudança climática e terra” do IPCC – Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, na sigla em inglês, afirma que “processos de erosão dos solos afetam 84% da região de Coquimbo, 57% do território de Valparaíso e 37% dos solos de O’Higgins“. De acordo com os pesquisadores, apenas 12% desses problemas podem ser lançados na “conta” das mudanças climáticas globais – a maior parte é resultado das ações humanas. Em muitos desses locais, a degradação dos solos já chegou ao estágio de desertificação.

Além dos processos de desertificação tradicionais ligados ao uso inadequado dos solos, que também ocorrem em muitos países vizinhos, o Chile também apresenta um caso muito particular – segundo estudos de muitos pesquisadores, o Deserto do Atacama está avançando lentamente em direção ao Sul

Informações do Atlas de Mudanças Climáticas da Zona Árida do Chile indicam que a zona central do país sempre teve um clima semiárido, porém, tem se observado um gradual aumento da aridez nessa região. Segundo os pesquisadores, isso não significa que as areias do Atacama estão avançando em direção ao Sul, mas sim que está aumentando a sua influência e tornando o clima dessa região mais árido. 

O Deserto do Atacama (vide foto) possui uma área total superior a 105 mil km² e ocupa toda uma faixa de 1 mil km do Norte do Chile até a fronteira com o Peru. Ele é considerado o deserto mais árido do mundo. As poucas chuvas que caem no Atacama estão associadas às águas frias da Corrente de Humbolt no Oceano Pacífico, por um lado, e também pela Cordilheira dos Andes, que bloqueia a chegada de massas de chuvas vindas da região da Floresta Amazônica. 

A aridez do Deserto do Atacama influencia o clima da faixa Central do Chile, assim como o de uma extensa faixa do Sul do Peru, do Sudoeste da Bolívia e do Noroeste da Argentina. As mudanças climáticas no Deserto do Atacama, muito provavelmente, estão associadas a todo um conjunto de mudanças climáticas já observadas em todo o mundo

Os problemas do Chile, infelizmente, não param por aí – essas mesmas mudanças climáticas estão ameaçando geleiras de montanhas, um problema que já está afetando glaciares em toda a Cordilheira dos Andes. Uma parte considerável da água dos rios e lagos do Chile provém do derretimento de geleiras ou glaciares no alto dos Andes. Ou seja – a redução dessas massas de gelo terá reflexos importantes no volume dos recursos hídricos do país. 

Em postagens anteriores já apresentamos a gravidade do problema: no Equador, as geleiras dos vulcões Antizana, Cotopaxi e Chimborazo já perderam entre 42 e 60% de suas massas. Na Venezuela, das 10 geleiras que existiam em 1952, só restam 5. Na Colômbia, 8 geleiras desapareceram restando apenas 6. Na Cordillera Blanca no Peru, a cadeia de montanhas em área tropical com a maior concentração de geleiras do mundo, os 722 glaciares existentes sofreram uma redução de 22,4% desde 1970. Na Bolívia, as geleiras de Charquini perderam entre 65 e 78% das suas áreas nas últimas décadas. 

Em Quito, no Equador, cidade hoje que é totalmente abastecida por rios com nascentes em geleiras nos Andes, estão sendo realizadas uma série de obras com financiamento do BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento, a fim de reduzir essa dependência. Os equatorianos pretendem usar os recursos hídricos disponíveis na região dos páramos andinos, um tipo de vegetação dos Andes Tropicais que se desenvolve entre os 3 mil metros de altitude e a faixa de formação de neve das montanhas. 

Os páramos formam uma espécie de “esponja natural”, onde se acumulam grandes quantidades da água originada a partir das chuvas e do derretimento das neves das montanhas. Existe uma certa similaridade entre os páramos e os banhados dos Pampas brasileiros. Na Colômbia, onde o problema também poderá comprometer o abastecimento de água em cidades como Bogotá, também existem projetos para o aproveitamento da água dos páramos. 

Para infelicidade dos chilenos, essa faixa de altitudes nos Andes meridionais é dominada pela puna, um bioma predominantemente seco ou, em alguns casos, levemente úmido. Essa característica da vegetação andina local limita, e muito, as opções futuras para o abastecimento de água dos chilenos. 

Além de seguir à risca a cartilha com as recomendações para o uso sustentável dos solos nas atividades agrícolas e pecuárias e também no combate à desertificação, o Chile precisa repensar os modelos de produção de algumas de suas principais culturas. Vou citar o exemplo da vinicultura – em alguns vinhedos há registros do consumo excessivo de água: até 10 mil litros para a produção de uma única garrafa de vinho, enquanto que a média mundial está próxima dos 870 litros. A diferença é muito grande. 

É preciso agir enquanto ainda há tempo… 

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