A SUFOCANTE ATMOSFERA DAS GRANDES CIDADES DA ÍNDIA

Poluição em Nova Déli

Em novembro de 2019, a capital da Índia – Nova Déli, e cidades vizinhas da Região Metropolitana foram tomadas, mais uma vez, por uma forte e densa nuvem de poluição, muito parecida com um nevoeiro. Voos foram cancelados por falta de segurança devido à baixa visibilidade, problema que também causou diversos engavetamentos nas grandes avenidas das cidades. Moradores que andavam pelas ruas passaram mal, com dificuldades respiratórias e vômitos. O Governo decretou estado de emergência, pedindo que a população não saísse às ruas, numa espécie de quarentena. Escolas, indústrias e comércio em geral permaneceram fechados por vários dias. 

De acordo com medições e análises da qualidade do ar, a atmosfera da região apresentava naquele momento uma concentração de partículas em suspensão de 113 microgramas para cada metro cúbico de ar. De acordo com as recomendações da OMS – Organização Mundial de Saúde, a concentração máxima de partículas finas a que uma pessoa pode ser exposta não deve exceder a 10 microgramas por metro cúbico de ar. Isso que indica que os moradores de Nova Déli e região de entorno estavam convivendo com níveis de poluição mais de dez vezes acima do máximo aconselhado

De acordo com estudos realizados pela Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, a expectativa de vida de um indiano médio que vive dentro da atmosfera altamente poluída da capital da Índia é reduzida, em média, em 10,2 anos. Respirando um ar altamente poluído, esses indianos podem desenvolver inúmeras doenças, especialmente no trato respiratório como o câncer de pulmão e doenças cardiovasculares, e ficam sujeitos a uma morte prematura. Segundo os especialistas, respirar o ar da cidade têm riscos semelhantes ao de se fumar 50 cigarros por dia. 

De acordo com dados da Comissão Lancelot sobre Estudos sobre Poluição e Saúde, cerca de 25% das mortes que acontecem anualmente na Índia estão associadas aos efeitos nocivos da poluição do ar. Cerca de 92% das mortes provocadas pela poluição do ar acontecem em países de baixa e média renda como a Índia. Essa Comissão é uma iniciativa do jornal médico britânico Lancelot que tem como objetivo “aumentar a consciência global acerca da poluição química, superar a negligência com as doenças relacionadas à poluição e mobilizar os recursos e a vontade política necessários para enfrentar, efetivamente, os desafios existentes”. 

Um estudo feito pela OMS em 2014 feito em 1.600 cidades de 91 países, colocou Nova Déli na posição de cidade mais poluída do mundo. A capital indiana não está sozinha nessa situação – 14 das 15 cidades com o ar mais poluído do mundo estão na Índia. As principais fontes de poluição são os veículos, a queima de carvão em usinas termelétricas, indústrias antigas que não usam sistemas de filtros em suas chaminés e também a queima de palha de arroz e as queimadas dos canaviais feitas por agricultores. Em algumas épocas do ano, especialmente no inverno, as condições climáticas facilitam o acúmulo de poluentes. 

Conforme comentamos em postagens anteriores, a Índia é um dos países que mais crescem no mundo, tanto em termos econômicos quanto populacionais. O país tem cerca de 1,34 bilhão de habitantes, só perdendo para China. Projeções demográficas indicam que o país terá a maior população do mundo em 2035. Assim como acontece com a China, a mão de obra indiana é muito barata, o que torna o país atrativo para a produção de uma imensa gama de produtos de consumo, industriais e, especialmente, na área de tecnologia da informação, além da prestação de serviços. 

Esse contexto econômico e social transformou a Índia num dos maiores consumidores de energia elétrica do mundo e com um agravante – cerca de 2/3 de toda a energia elétrica consumida no país vem de centrais termoelétricas a carvão. Essa situação coloca o país entre os maiores emissores de dióxido de carbono do mundo e transforma a atmosfera das suas principais cidades em um inferno tóxico para seus moradores. A fortíssima poluição do ar se junta a poluição dos solos e das águas no país

As populações mais pobres das grandes cidades, como sempre, são as que mais sofrem com os altíssimos níveis de poluição do ar. Em Nova Déli, por exemplo, uma reportagem da AFP – Agência de Notícias France Press, apurou que o custo de uma máscara para se defender minimamente da poluição custa o equivalente ao ganho diário de um motorista de riquixá, os tradicionais triciclos motorizados usados no transporte de pessoas. Já um circulador de ar residencial com sistema de filtro custa o equivalente a um ano de salário desse motorista. 

O mesmo drama se estende aos operários da construção civil, ambulantes e vendedores de ruas, varredores de rua e coletores de lixo, lavadeiras e mais um sem número de atividades feitas ao ar livre. Também precisam ser incluídos nessa lista as imensas legiões de sem-teto que moram nas ruas e grotões das grandes cidades indianas, onde se incluem os dalits, membros das castas mais baixas da sociedade indiana, inválidos, idosos, órfãos e demais miseráveis do país. 

A cada nova crise ambiental, o Governo da Índia se apressa em apresentar novos programas para o controle das fontes de poluição. No orçamento de 2020, por exemplo, o Governo reservou US$ 45 milhões para o desenvolvimento de programas para o controle das principais fontes de poluição no país, um valor irrisório para as dimensões do problema. De acordo com especialistas locais, será necessária a criação de programas para o combate à poluição que sejam legalmente vinculantes, o que forçará as empresas e autoridades a se empenhar com vigor, sob o risco de severas penalidades para os infratores. 

Enquanto nada de efetivo é feito, os problemas ambientais não param de crescer. O forte crescimento populacional do país gera uma demanda mensal de 1 milhão de novos postos de trabalho, o mínimo necessário para absorver a população jovem que está entrando no mercado. Novas centrais de geração de energia elétrica estão em construção e existem planos para muitas mais. Empresas expandem suas linhas de produção sem maiores preocupações com os impactos ambientais. A crescente classe média indiana realiza seus sonhos de consumo comprando automóveis, que se juntarão a frota crescente de ônibus, caminhões, motocicletas e riquixás. 

A situação crítica da poluição do ar nas grandes cidades da Índia faz lembrar dos antigos problemas de Cubatão, município da Região da Baixada Santista em São Paulo, que na década de 1980 era conhecido como o Vale da Morte. A região abrigava um imenso complexo petroquímico e siderúrgico numa época em que valia tudo pelo desenvolvimento econômico. Depois de inúmeras tragédias, o Governo do Estado de São Paulo resolveu agir, sob forte pressão da opinião pública, e as coisas começaram a mudar – 95% das fontes de poluição foram controladas e a cidade é hoje um exemplo mundial de gestão ambiental

É bastante improvável que algo parecido aconteça na Índia num curto prazo, mas precisamos ser otimistas – tudo tem que ter limites. 

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