CAPIBARIBE: O 7° RIO MAIS POLUÍDO BRASIL

Toritama - foto Eduardo Irineu

A Região Metropolitana do Recife é um dos maiores aglomerados populacionais do Brasil, com uma população de aproximadamente 4 milhões de habitantes. Devido ao crescimento sem qualquer planejamento e a gritante falta de investimentos públicos, sua infraestrutura de saneamento básico é uma das mais deficientes entre as grandes metrópoles brasileiras. Falando especificamente da coleta de esgotos, apenas 35% da cidade do Recife é coberta por redes coletoras; em Olinda esse número cai para 32% e em Jaboatão dos Guararapes, essa cobertura cai para meros 7% – como o Capibaribe é um dos grandes rios que atravessam a Região Metropolitana, ele se torna, naturalmente, o grande receptor dos efluentes domésticos, industriais e agrícolas de uma extensa área, além de depósito de lixo e de outros resíduos sólidos. Seria muito cômodo atribuir todos os problemas do rio Capibaribe apenas ao trecho em que corta o imenso conjunto de cidades do Grande Recife. Os problemas da poluição do rio começam muito longe, ainda nas terras do Agreste pernambucano, e só vão aumentando conforme corre na direção do litoral.

Nos primeiros 60 km do seu curso, o Capibaribe é um rio temporário, que apresenta águas superficiais em apenas três meses do ano, justamente no período das chuvas. Ao longo da maior parte do ano, o leito do rio não é nada mais do que um longo caminho de areia e pedras. Mas ao contrário do que possa parecer à primeira vista, ele não está completamente seco – um rio subterrâneo corre por baixo de uma não muito espessa camada de areia. Os agricultores da região escavam poços e conseguem captar água durante o ano inteiro, produzindo até três colheitas de legumes e verduras através de sistemas de irrigação. Em troca por este tão importante serviço ambiental, as plantações devolvem grandes volumes de resíduos de pesticidas e fertilizantes aplicados nas culturas, que infiltram no solo e contaminam as águas do lençol subterrâneo. Outro problema característico deste trecho é a retirada de areia para uso na construção civil – o leito esburacado acumula bolsões de água que se perdem por evaporação.

Um problema grave encontrado na região do Alto Capibaribe são os despejos de matadouros e curtumes, lavanderias e outras pequenas unidades industriais, encontrados em grande quantidade nas cidades médias e pequenas. Essas localidades costumam apresentar uma série de deficiências na coleta dos esgotos – a cobertura por redes coletoras públicas é muito pequena e as ETEs – Estações de Tratamento de Esgotos, são raridades. Logo, o lançamento dos efluentes destes estabelecimentos tem como destino final os corpos d’água locais, que acabarão desaguando no canal do rio Capibaribe.

Exemplo típico deste problema: no município de Santa Cruz do Capibaribe, a 194 km do Recife, havia um problema crítico de poluição nas águas do rio: a água repentinamente ficava com a cor vermelha – o responsável por esta contaminação era o matadouro municipal da cidade, instalado nas margens do rio, que despejava seus efluentes contaminados com o sangue dos animais abatidos, sem qualquer tipo de tratamento. Em 2010, uma série de reportagens em cadeia nacional levou a prefeitura local a tomar providencias e mudar o matadouro para uma outra instalação com “melhor” infraestrutura – as águas do Capibaribe deixaram de ficar vermelhas. Tempos atrás, após uma denúncia, repórteres flagraram crianças conduzindo carroças com tambores cheios de sangue de animais abatidos neste matadouro, que seriam despejados em uma cacimba no município vizinho – Brejo da Madre de Deus. Outro exemplo: na cidade de Toritama, alguns quilômetros a montante, as águas do rio Capibaribe apresentam um problema de poluição que também altera a cor das águas, que oscilam entre o azul e o vermelho. A cidade é um grande polo industrial – o segundo maior produtor de calças jeans do Brasil, e muitas das tinturarias da cidade despejam efluentes com os corantes industriais (vide foto) sem qualquer tipo de tratamento nas águas do Capibaribe.

A partir da cidade de Limoeiro, a cerca de 80 km da cidade do Recife, o rio Capibaribe entra numa região de transição entre o Agreste e a Zona da Mata, recebendo grandes contribuições de afluentes mais caudalosos e vai iniciar a travessia de áreas cobertas por extensos canaviais. Até o inicio da colonização brasileira no século XVI, essa região era coberta pela densa Mata Atlântica, floresta que alimentava o rio com suas águas e protegia as suas margens com uma vegetação luxuriante. Ao longo de milhares de anos, a Mata Atlântica produziu uma grossa camada de solo orgânico, o massapê, que devido às suas extraordinárias características químicas e fertilidade sem igual, passou a ser cobiçado pelos novos colonizadores, que passaram a destruir sistematicamente a floresta para abrir espaço para a produção do super valorizado açúcar, produto básico da produção e exportação colonial. Ao longo dos séculos seguintes, a Mata cedeu cada vez mais espaço para as plantações, além de volumes substanciais de lenha para a produção da energia das caldeiras das usinas (para produzir 1 kg de açúcar era necessária a queima de 20 kg de lenha). A calda das canas se transformava numa enorme variedade de produtos: o açúcar branco ou de purga, o cristal e o mascavo, além do melado de cana ou mel de engenho, diferentes tipos de rapadura e de aguardente, esta última uma importante moeda de troca nos tempos coloniais: os traficantes trocavam a aguardente e rolos de fumo, produzidos no Brasil, por escravos revendidos em inúmeros portos espalhados por toda a costa do continente africano. A cultura da cana-de-açúcar legou uma série de problemas para o rio Capibaribe:

– Sem a proteção da Mata Atlântica, os solos de massapê expostos às chuvas passaram a sofrer um forte processo de erosão, que carregou milhões de metros cúbicos de terra fértil para dentro da calha dos rios;

– O cultivo da cana exige o uso intensivo de fertilizantes e agrotóxicos – resíduos destes produtos acabam sendo arrastados pelas chuvas na direção dos rios, causando uma série de problemas para a flora e a fauna aquática;

– O processamento da cana para a produção do açúcar e do álcool liberam grandes volumes de resíduos – destaque para o vinhoto (cada litro de álcool produzido gera até 15 litros de vinhoto), que se despejado sem controle nas águas de um rio, pode provocar sérios problemas de poluição ambiental.

E o conjunto da obra de quase quinhentos anos de agressões ambientais, despejos de resíduos sólidos de todo o tipo, desmatamentos, assoreamentos e envenenamentos não poderia ser outro: um rio agonizante a pedir socorro.

Até o nosso próximo post.

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