O CAFÉ E A MATA ATLÂNTICA: UMA HISTÓRIA DE OPULÊNCIA E DE DESTRUIÇÃO

O século XVIII foi, talvez, um dos mais alucinantes da história do Brasil. 

Conforme comentamos em postagens anteriores, esse século começou sob a influência da “febre do ouro”. Tudo começou nos últimos anos do século anterior, quando bandeirantes paulistas encontraram o tão sonhado ouro numa localidade lendária conhecida pelos indígenas como Serra do Sabarabuçu, no coração das Geraes. Essa notícia correu rapidamente por todos os cantos da Colônia e centenas de milhares de pessoas largaram tudo o que tinham (e o que não tinham) nas regiões do litoral açucareiro e se embrenharam nos sertões para garimpar o “vil metal”. 

A população brasileira em meados do século XVIII era estimada em 500 mil habitantes – 2/3 desse contingente se dirigiu para as áreas de mineração, o que nos dá uma boa ideia da crise desencadeada na indústria do açúcar. Sem os braços e pernas dos trabalhadores, a produção despencou. A crise, que já era grande, ficou imensa devido à concorrência de outras nações e colônias.  

Engenhos e canaviais haviam ocupado a maior parte das ilhas do Mar do Caribe e terras vizinhas, desde a Geórgia, no Sul dos Estados Unidos, até a Guiana Francesa, na América do Sul. A cultura também havia se espalhado pelas costas da África, principalmente nas colônias portuguesas. Um produto antes raro e caro, o açúcar se tornara barato e popular. 

Produzir grandes volumes de açúcar era muito custoso – entre o plantio das mudas de cana de açúcar e a chegada do produto aos mercados consumidores na Europa havia um hiato de quase dois anos. Além disso, entre esses dois extremos haviam os riscos do transporte pelos mares, momento em que parte importante das cargas podia se perder. Enquanto as margens de lucro eram altamente compensadoras, não faltavam banqueiros e grandes comerciantes com grandes somas de dinheiro para financiar as operações com segurança. Com a brutal queda de preços que se seguiu, esse dinheiro desapareceu. 

A loucura “dourada” nas Geraes também não durou muito tempo – por volta de 1770, os principais veios auríferos já davam sinais claros de esgotamento. Sem a produção do açúcar que, ao longo de mais de dois séculos, foi o principal (quiçá único) pilar econômico local e agora, com o iminente fim da mineração do ouro, a Colônia parecia caminhar para uma espécie de limbo. 

Nas últimas duas décadas desse século houve um breve surto salvador – com o início da Revolução Industrial na Inglaterra e suas maravilhosas máquinas a vapor, houve uma verdadeira explosão no consumo de algodão pela indústria têxtil. O então distante Maranhão, com seu clima quente e seco, se mostrou ideal para a produção dessa fibra. Foi assim que, ao longo de pouco mais de vinte anos, o Maranhão se tornou um dos maiores produtores mundiais de algodão e, por pouco tempo, foi a província mais rica do Brasil.  

A aventura foi breve – regiões do Sul dos Estados Unidos rapidamente tomaram a dianteira nessa produção e, por suas ligações culturais e econômicas com a Inglaterra, se consolidaram com seu principal fornecedor da commodity. O Maranhão acabou caindo novamente no esquecimento. Foi então que, chegando discretamente às nossas terras, uma planta africana mudaria os rumos da nossa nação – o café. 

Segundo a tradição oral, o café é originário da região de Cafa, na Etiópia, país do Nordeste da África. Segundo as lendas dessa região, um jovem pastor de cabras observou que os seus animais ficavam muito ativos após comerem as folhas e as frutas vermelhas de alguns arbustos. Esse fato chamou a atenção dos moradores locais, que passaram a preparar chás a partir das folhas e frutos da planta – foi a partir desse uso que se desenvolveu o preparo do café que conhecemos hoje em dia.  

Consta que o café foi introduzido no Brasil por Francisco Palheta (ou Palhete) no Estado do Pará em 1727.  A planta foi sendo disseminada por todo o Brasil Colônia, onde era cultivada para uso exclusivamente doméstico nas fazendas e casas das vilas e cidades. Comercialmente, o valor do café era quase nulo. Foi somente no decorrer do século XVIII que o café adquiriu status nos mercados internacionais, passando a ser considerado um artigo de luxo nos grandes centros urbanos da Europa e dos Estados Unidos.  

As primeiras sementes de café chegaram ao Rio de Janeiro por volta de 1774, onde foram semeadas no Convento dos Frades Barbadianos. A partir do início do século XIX foram iniciadas as primeiras plantações comerciais de café em sítios e fazendas, especialmente na região Oeste do Estado do Rio de Janeiro, próximas ao rio Paraíba do Sul. Sem maiores possibilidades de expansão nessa região, a cultura cafeeira passou a se expandir na direção do Vale do Paraíba, já no Estado de São Paulo, por volta de 1850.  

Diferentemente de outros produtos agrícolas, o café é uma planta que apresenta uma série de restrições físicas para o seu cultivo, bastante diferente da cana de açúcar ou do algodão, produtos de grande destaque na época. Os limites de temperatura ideais para o cultivo da planta oscilam entre 5 e 33º C. É uma planta muito sensível tanto a geadas quanto ao excesso de calor e insolação. Requer ainda chuvas regulares e bem distribuídas e é muito exigente em relação à qualidade do solo.  

É uma planta de cultivo permanente, cujo início da produção exige um período entre 4 e 5 anos a partir do plantio das mudas. Os solos ao redor dos cafeeiros precisam ser limpos com frequência e a planta requer adubação constante para se garantir uma boa produção. Ou seja – tratava-se de uma cultura agrícola sofisticada e bastante difente da rústica cana de açúcar, que nada mais é do que um capim superdesenvolvido.

A maior parte do território brasileiro não se adequava à produção do café. Também existiam as dificuldades no cultivo e trato das plantas, problemas que se mostrariam fatais para o rápido esgotamento dos solos. Foi no Estado do Rio de Janeiro e, sobretudo, nas regiões serranas vizinhas dos Estados de São Paulo, Minas Gerais e Sul do Espírito Santo, que a cultura cafeeira, propriamente dita, foi iniciada no Brasil.  

Rapidamente, os grandes cafezais com suas folhas verdes monocromáticas passaram a ocupar grandes áreas antes polvilhadas com os mais diferentes tons de verde da Mata Atlântica. Pequenas vilas perdidas no meio do nada foram transformadas em cidades elegantes. Surgiram grandes fazendas com sedes imponentes, onde barões e baronesas passaram a residir. Depois dos gigantescos estragos que a indústria canavieira fez ao trecho nordestino do bioma, que foi praticamente dizimado, chegava agora a vez da destruição da Mata Atlântica na Região Sudeste. 

O Vale do Paraíba, a ligação natural entre São Paulo e Rio de Janeiro, foi a porta de entrada do café no Estado de São Paulo, transformando-se em poucos anos no primeiro grande cenário da cultura cafeeira no Brasil. As condições naturais da região eram esplendidas: altitudes entre 300 e 900 metros, com temperaturas dentro dos limites ideais para o café e ciclo de chuvas regulares.  

O relevo acidentado da região proporcionava encostas bem protegidas contra o vento, um fator importante para uma planta arbustiva como o café. O Vale do Paraíba, em meados do século XIX, tornou-se um grande centro condensador de população e riqueza do Brasil. A importância do café se mostrou tamanha que, já em 1822, um ramo de café foi incorporado no Brasão Imperial. 

Serão muitas histórias e estragos ambientais para se contar. 

6 Comments

  1. […] Rapidamente, os produtores perceberam que as encostas dos morros com suas matas eram os locais ideais para o plantio dos cafezais. A região da Tijuca, que ainda apresentava uma expressiva cobertura de floresta de Mata Atlântica há época, passou a ser desmatada e ocupada com imensos cafezais.  […]

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