CAXEMIRA, A DISPUTADA REGIÃO DAS NASCENTES DO RIO INDUS

Caxemira

A Caxemira é uma região localizada ao Norte do subcontinente indiano, que vem sendo disputada pela Índia e Paquistão desde o fim da colonização britânica em 1947. Durante os 200 anos de duração da administração inglesa na região, os territórios hoje ocupados pela Índia, Paquistão e Bangladesh formavam, artificialmente, um único país, onde as respectivas populações se toleravam – a população da Índia era majoritariamente hindu; os territórios do atual Paquistão e de Bangladesh tinham uma maioria muçulmana. Sempre ocorreram conflitos religiosos entre as populações dessas diferentes religiões, porém, sob o domínio britânico, havia um claro esforço para se atingir uma convivência “pacífica”. 

Após a independência da Índia em 1947 e o acirramento entre os diferentes grupos religiosos, o território do subcontinente indiano acabou dividido e os muçulmanos assumiram o controle da região do atual Paquistão e de Bangladesh; os hindus se concentraram nas regiões Central e Sul. De acordo com um tratado assinado entre os dois grupos nessa época, a população da região da Caxemira deveria votar em um plebiscito, escolhendo a qual dos lados deveria se juntar neste processo. Com perto de 80% da sua população sendo muçulmana, era natural que o resultado da votação fosse favorável à anexação da Caxemira ao Paquistão – a Índia, porém, alegou razões históricas e acabou anexando a maior parte região da Caxemira ao seu território e não permitiu a realização do plebiscito. Diversas guerras já foram travadas entre os dois países pela posse da região e não há uma solução à vista. 

A Caxemira é conhecida pelas paradisíacas paisagens com montanhas nevadas e vales verdejantes (vide foto), onde vive uma espécie de cabra montanhesa, famosa pela lã sedosa que produz, matéria prima de um tipo de tecido famoso em todo mundo, que foi batizado com o nome da região: a caxemira. Outra grande riqueza da Caxemira, essa bem menos conhecida por todos, são as nascentes de águas que formam o maior e mais importante rio do Paquistão – o Indus (ou Indo). Com a maior parte do seu território formado por regiões montanhosas e áridas, o Paquistão depende das águas do rio Indus para o abastecimento e alimentação de grande parte da sua população de quase 200 milhões de habitantes. E um dos grandes medos dos paquistaneses é que a Índia realize obras hidráulicas e passe a desviar essas águas para o seu território. Esse receio tem forte fundamentação – há várias décadas, os chineses vêm fazendo isso e desviando rios com nascentes nas Montanhas Himalaias para o seu território. Mas as principais razões desse medo de um eventual desaparecimento do rio Indus têm suas raízes na mitologia local. 

De acordo com cânticos e poemas encontrados nos Vedas, conjunto de livros sagrados dos antigos hindus, existia um grande rio, cujo vale atravessava uma região desértica entre os territórios atuais da Índia e do Paquistão. As águas desse mítico rio alimentavam e nutriam as populações de centenas de cidades. Em determinado momento, a ira dos deuses fez esse rio secar, levando ao súbito desaparecimento de todas essas cidades e populações. Desde 1861, arqueólogos vêm trabalhando nesse vale e comprovando que nem tudo é lenda – entre os anos 2.600 e 1.900 a.C., floresceu nessa região a Civilização do Vale do Indus. Ruínas de mais de 1.050 cidades e vilas já foram encontradas e 96 sítios já foram escavados – a mais impressionante dessas cidades é conhecida pelo nome de Mohenjodaro (ou Mohenjo-Daro)

Ocupando uma área de 1 km², Mohenjodaro chegou a abrigar uma população de 40 mil habitantes. Suas impressionantes construções, feitas com tijolos de argila e pedras, revelam uma cidade com ruas altamente planejadas, dotadas de grandes edifícios públicos, templos e sofisticados recursos de saneamento básico: sistemas de redes de abastecimento de água, esgotos e manejo de águas pluviais. Todas as casas possuíam um banheiro privado com revestimento em azulejos e nas esquinas se encontravam poços para o descarte de lixo, que era arrastado para longe por canais subterrâneos com água corrente. Gigantescos tanques para o armazenamento da água das chuvas foram construídos por toda a cidade. Além de contar com uma eficiente produção agrícola baseada em sistemas de irrigação, que garantia a alimentação de toda a sua população, Mohenjodaro também abrigou um importante centro de produção de peças e materiais metálicos, jóias, cerâmicas, madeiras e tecidos, que eram exportados por toda a costa do Oceano Índico, chegando inclusive nos mercados das cidades da Mesopotâmia. Essa fabulosa civilização, de uma hora para outra, simplesmente desapareceu. 

Estudos arqueológicos, geológicos e meteorológicos recentes comprovaram que já existiu um grande rio na região, o Ghaggar-Hakra, que corria através de um vale “paralelo” ao do atual rio Indus, desde os terrenos altos do sopé das Montanhas Himalaias até um delta no Oceano Índico. Supõe-se que um grande terremoto, ocorrido a 4 mil anos atrás, alterou a inclinação dos terrenos e desviou a maior parte das suas águas na direção do rio Ganges. Mudanças climáticas regionais, desmatamentos e sobrepastoreio de campos também são consideradas entre as causas do desaparecimento do rio. É essa mistura de mitologia com fatos históricos comprovadamente reais que tira o sono de muitos paquistaneses. 

Em 1960, a Índia e o Paquistão assinaram um acordo, o Tratado das Águas do rio Indus, o que acalmou muitos ânimos. As desconfianças, porém, continuaram: recentemente, a Índia construiu a Usina Hidrelétrica de Baglihar na região, acendendo uma luz de alerta no Paquistão e acirrando o tom das provocações entre os dois países. É sempre bom lembrar que as duas nações possuem arsenais com armas nucleares e que essa disputa pelas águas do rio Indus poderá acabar muito mal para ambos os lados

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