UM IMPORTANTE RIO CHAMADO INDO

A gestão dos resíduos sólidos urbanos é um dos maiores problemas ambientais de nosso país. Ao contrário do que muitos “ambientalistas de ar condicionado” costumam pregar, as queimadas e a “destruição” da Floresta Amazônica não são os nossos maiores problemas ambientais. Essa ingrata posição pertence às cidades brasileiras, onde vive nada menos do que 84% dos brasileiros, o que nos dá uma clara ideia da magnitude dos problemas. 

O “tsunami” de lixo que avançou sobre praias da Paraíba e do Rio Grande do Norte, que foi apresentado em nossa última postagem, nos dá uma ideia dos problemas associados à coleta, transporte e destinação final dos resíduos sólidos. Infelizmente, os problemas não param por aí e também envolvem moradia e ocupação de áreas de riscos, enchentes, abastecimento de água, coleta e tratamentos de esgotos, ente muitos outros problemas. 

Falando de esgotos sanitários, minha área de especialização, cerca de metade da população brasileira não tem acesso a esse serviço. Fossas negras ou o simples despejo dos efluentes em córregos e outros corpos d’água ocupam o topo das soluções encontradas pelas populações. No grupo que, supostamente, conta com o serviço, parte importante do esgoto transportado não recebe o tratamento adequado. Nosso país terá um imenso trabalho pela frente até que se equacione essa questão. 

Agora, deixem-me contar uma história curiosa: 

No vale do Indo, um dos mais importantes rios do Subcontinente Indiano e quem tem sua bacia hidrográfica dividida entre a Índia e o Paquistão, surgiu há mais de 5 mil anos uma das mais importantes civilizações da antiguidade. Uma das mais impressionantes cidades desse período foi Molenjodaro, fundada por volta do ano 2.700 a.C. (algumas fontes citam 3.200 a. C.).

Localizada há época as margens do rio Indo, Molenjodaro tinha uma grande população e era um importante centro de produção de alimentos, tecidos, metais e cerâmica, entre outros produtos. A cidade se destacava no comércio da região do Oceano Índico. 

Uma das características mais impressionantes da cidade era a sua complexa rede de abastecimento de água e de coleta de esgotos. Tubulações subterrâneas, feitas de argila cozida ao sol, conduziam a água desde as nascentes até tanques na cidade, onde os moradores a coletavam em jarros; o esgoto que saía das casas corria através de condutos de tijolos sob as ruas.  Em pleno século XXI, uma grande parte das cidades brasileiras ainda não conseguiu chegar a esse modelo de infraestrutura de saneamento básico.

E não é só isso – inscrições religiosas em sânscrito, a língua sagrada desses povos antigos (ancestrais, entre outros, dos atuais hindus), traziam recomendações para o armazenamento da água em jarros de cobre e ensinava ainda que esses jarros deveriam ser colocados no fogo ou ao sol para ferver a água, ou recomendava se colocar um ferro em brasas dentro da água para purificá-la. 

O rio Indo (ou Indus) tem suas nascentes na Cordilheira do Himalaia e percorre cerca de 3.180 km até atingir sua foz no Oceano Índico. O Indo é o maior e mais importante rio do Paquistão e suas águas respondem pela irrigação e nutrição de 90% das culturas agrícolas do país. Sem as águas do rio Indo, grande parte do Paquistão se transformaria em um deserto árido – o restante do país já é hoje uma sucessão de terrenos áridos e semiáridos. E foi justamente isso o que aconteceu com Molenjodaro

Devido a fenômenos naturais, o rio Indo mudou seu curso e toda a região de Molenjodaro acabou se tornando extremamente árida. A população foi obrigada a abandonar a cidade por volta do ano 1.700 a.C. As impressionantes ruínas da cidade só seriam redescobertas em 1922 pelo arqueólogo inglês Sir John Marshall, um dos maiores pesquisadores da Civilização do Vale do Indo

O Paquistão ocupa uma área total de 796 mil km², entre o Noroeste da Índia, o Afeganistão e a China. Apesar de ser um dos poucos membros do seleto grupo de nações que possuem armamentos nucleares, o Paquistão é um país de economia essencialmente agropecuária. O país tem uma área com 22 milhões de hectares de terras agrícolas (o que corresponde a 38% da área total do país) e 43% da população economicamente ativa trabalha em atividades rurais, em agricultura e pecuária.  

Do total de terras agricultáveis, 19 milhões de hectares utilizam sistemas de irrigação para produzir e 16 milhões de hectares dependem diretamente das águas do rio Indo – observem que é uma situação bastante semelhante à do Egito em relação às águas do rio Nilo. A agricultura gera 25% do PIB – Produto Interno Bruto, do Paquistão. Um dos produtos de destaque da agricultura é o algodão, onde o país ocupa a terceira posição logo atrás da Índia e da China

Para aqueles que não sabem, o Paquistão, a Índia e Bangladesh formaram, até 1947, a maior parte do território da Índia Britânica. Para a conclusão do processo de independência e em função dos inúmeros conflitos religiosos entre os grupos hindus e muçulmanos, o antigo território foi dividido entre os grupos – Paquistão e Bangladesh (que há época era chamado de Paquistão Oriental) com maioria muçulmana de um lado e Índia, com maioria hindu, de outro. 

No processo de partilha, a região montanhosa da Caxemira, no limite entre os territórios dos dois países, ficou com uma situação indefinida, com partes anexadas pelo Paquistão e partes pela Índia. Posteriormente, a China anexou uma área da região em 1962, acirrando ainda mais a disputa regional. As tensões entre as partes, em diversos momentos, acabaram em confronto armado 

Muito mais do que a posse do território, essa região da Cordilheira do Himalaia é disputada por causa das diversas geleiras da região e, consequentemente, pela sua importância como fonte de água em uma região onde esse recurso é escasso. Existe uma desconfiança mútua entre as partes – quem assumir o controle definitivo da região poderá desviar os recursos hídricos para seu próprio território. E existem perigosos precedentes.

A China, conforme já comentamos em outra postagem, tem realizado obras hídricas na sua porção da Cordilheiras do Himalaia, especialmente na região do Tibete (ocupada pelos chineses em 1950), e está desviando cursos de água dessa região na direção do seu território. O Norte da China é extremamente árido e o Governo central está construindo inúmeros canais para aumentar a oferta de água na região. Países vizinhos do Sudeste Asiático e a Índia, prejudicados com essas obras, protestam. 

Além da complexidade da situação criada por essa disputa territorial entre todas essas nações, o aquecimento global e as mudanças climáticas estão criando as suas próprias ameaças. De acordo com estimativas dos especialistas, 1/3 das geleiras das Himalaias poderão desaparecer nas próximas décadas devido ao aumento das temperaturas na região, uma perspectiva assustadora para centenas de milhões de pessoas que dependem das águas de rios com nascentes nessas montanhas. 

A complexidade da questão ambiental em nossos dias é, simplesmente, impressionante! 

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