AS ÁGUAS DE BANGLADESH

Poluição das águas em Bangladesh

A República Popular do Bangladesh é um pequeno país encravado na região Nordeste da Índia. Formado após o traumático processo de independência da Índia em 1947, quando as populações muçulmanas e hindus entraram em violentos embates por causa das diferentes visões políticas para o futuro do país, além é claro dos seculares problemas de intolerância religiosa entre os grupos, Bangladesh rapidamente passou a ocupar a lista dos países com a maior densidade de habitantes por km² do mundo. Com uma área total pouco menor que o nosso Estado do Ceará, o país tem hoje uma população de quase 170 milhões de habitantes. Porém, ao contrário de nosso Estado Nordestino, que sofre sistematicamente com fortíssimos períodos de secas, Bangladesh tem água de sobra – o problema não está na quantidade, mas sim na qualidade dessas águas. 

O território de Bangladesh possui uma invejável rede hidrográfica, a começar pela região do delta do Ganges. O Ganges é o principal rio do subcontinente indiano, com mais de 2.550 km de extensão e com uma bacia hidrográfica que cobre uma área de 1 milhão de km². No seu trecho final, o rio Ganges se divide em inúmeros canais e forma uma das maiores regiões deltaicas do mundo, que só fica atrás dos deltas dos rios Amazonas e Congo em volume de água. As águas do canal principal do rio Ganges seguem pelo território de Bangladesh e se encontram com as águas do rio Jamuna, nome local dado ao rio Brahmaputra, um caudaloso rio com comprimento de 2.900 km e nascentes nas Montanhas Himalaias. A partir desse encontro das águas, o rio passa a ser chamado de Padma. Ao Sul da cidade de Dhaka, capital de Bangladesh, o rio Padma recebe as águas do caudaloso Meghna, um rio com um comprimento de apenas 264 km, formado a partir da junção das águas de inúmeros afluentes. O trecho final do rio manterá o nome de Meghna até o encontro com as águas da Baía de Bengala. 

Apesar de toda essa aparente fartura, a qualidade das águas de Bangladesh não está entre as melhores do mundo. Um dos problemas mais graves é a presença de altos níveis de arsênico na água servida à população. O arsênico é um elemento químico altamente tóxico, encontrado naturalmente em veios minerais por todo o mundo. Pequenas quantidades de arsênico são dissolvidas pelas chuvas e carregadas para o leito dos rios a cada ano, onde o mineral acaba misturado com os sedimentos do fundo, sem causar maiores problemas. No caso de Bangladesh, que forma uma grande planície inundável e que recebe anualmente grandes volumes de sedimentos, o acúmulo natural de arsênico nos solos ao longo das eras ficou muito acima da média mundial. 

Na década de 1970, com apoio do UNICEF – Fundo das Nações Unidas para a Infância, o Governo de Bangladesh iniciou um ambicioso projeto de construção de poços tubulares, com o objetivo de melhorar o abastecimento de água da população. A principal meta desse projeto era a redução das doenças de veiculação hídrica como a cólera e a diarreia, doenças que matavam milhares de crianças no país. O projeto resultou na construção de 10 milhões de poços por todo o território bengali, sem que houvesse uma análise adequada da qualidade da água produzida. Como resultado dessa desastrada “política”, estima-se que até 77 milhões de bengalis consumam diariamente água contaminada com altos níveis de arsênico, o que é considerado pela OMS – Organização Mundial de Saúde, como o “maior caso de envenenamento em massa da história”

Se a qualidade das águas subterrâneas de Bangladesh é problemática, as águas superficiais não muito melhores. O rio Ganges, que entra pelo Leste do país depois de atravessar todo o Norte da Índia, numa extensa faixa territorial onde vivem cerca de 500 milhões de pessoas, apresenta águas altamente poluídas. Além de grandes volumes de esgotos sanitários não tratados de toda essa população, as águas do rio Ganges apresentam altos níveis de contaminantes como cromo, mercúrio e outros metais pesados, resíduos de indústrias químicas, de pesticidas e fertilizantes, além de resíduos sólidos de todos os tipos. Testes feitos por pesquisadores indianos em amostras de água do rio Ganges encontraram níveis de arsênico e de cromo 64 e 120 vezes, respectivamente, acima dos limites máximos toleráveis, entre outros gravíssimos problemas

A situação da imensa rede hidrográfica de Bangladesh não é muito diferente. Cidades que cresceram rápida e desordenadamente, sem construir as mínimas infraestruturas de saneamento básico, despejam diariamente milhões de litros de esgotos in natura nos corpos d’água. Pequenas indústrias e oficinas também dão a sua contribuição e geram efluentes contaminados com todos os tipos de produtos químicos e resíduos. A coleta de resíduos sólidos, como mostrado na foto que ilustra essa postagem, também está muito longe do ideal. A capital do país, Dhaka, uma das maiores cidades do mundo com uma população de mais de 7 milhões de habitantes, cercada por uma região metropolitana com outros 5 milhões de habitantes, é um exemplo dessa falta de cuidado com o meio ambiente e com os cursos d’água. 

Outro problema complicado do país é o da indústria de desmonte naval – sem contar com nenhuma usina siderúrgica, Bangladesh depende dos metais retirados de sucatas de grandes navios cargueiros, que são trazidos para “reciclagem” no país. Sem o uso de técnicas adequadas ou mão de obra especializada, as peças metálicas são cortadas e desmontadas da melhor forma possível. Restos de combustíveis, de óleos lubrificantes e resíduos de produtos químicos escorrem descontroladamente para os canais e dos rios durante todo o processo, contaminando e poluindo águas e áreas naturais, especialmente os manguezais. 

O resultado de tudo isso são águas de qualidade ruim por todos os lados, usadas pela agricultura, pelas pequenas indústrias e para o abastecimento de vilas e cidades, causando, direta e indiretamente, todo tipo de problemas para as populações de Bangladesh. 

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