A DESERTIFICAÇÃO AMEAÇA UM QUARTO DO TERRITÓRIO DA ÍNDIA

A Índia abriga a segunda maior população do mundo logo atrás da China. São 1,366 bilhões de habitantes vivendo em um território com pouco mais de 3,2 milhões de km², ou cerca de 37% do território do Brasil. Para deixar o quadro mais dramático – a Índia ocupa um território equivalente a 2% da superfície continental da Terra, mas abriga 17% da população mundial

Pessoas precisam de alimentos, água, roupas, moradias, trabalho e energia, entre outras necessidades básicas. E num país com uma população tão grande como a da Índia, conseguir atender a todas essas necessidades básicas é um desafio simplesmente hercúleo. De acordo com dados oficiais do Governo, somente para atender ao crescimento vegetativo da população, é necessária a criação de 1 milhão de novos empregos a cada mês

Vamos nos ater à especialidade do nosso blog: recursos hídricos. A escassez de água, que é um dos grandes desafios da humanidade nesses nossos tempos, na Índia é um drama diário vivido por grande parte da população. Em 1950, a disponibilidade de água por habitante no país era da ordem de 5.177 litros por ano. Em 2011, essa oferta caiu para 1.820 litros por ano – para o ano de 2050, essa disponibilidade deverá cair ainda mais, chegando ao valor de 1.140 litros por ano para cada habitante.  

Entre as principais razões para essa forte queda na disponibilidade de água estão o grande crescimento populacional, a poluição das fontes de água por esgotos domésticos e industriais, desmatamentos e mudanças climáticas. As famosas “Chuvas da Monção“, uma fortíssima temporada de precipitações que ocorrem em todo o sudeste asiático, está ficando cada vez mais irregular na Índia. 

A agropecuária é, em qualquer lugar do mundo, uma das maiores consumidoras de água entre todas as atividades humanas – em média, perto de 70% dos recursos hídricos disponíveis em uma região acabam sendo usados por atividades agrícolas e pecuárias. A Índia não foge a essa regra e grande parte da água disponível no país é usada para esses fins – o país tem mais de 1,3 bilhão de bocas para alimentar. 

Em uma entrevista em 2014, o então Ministro do Meio Ambiente da Índia, Prakash Javadekar, afirmou que “cerca de um quarto das terras da Índia estão se transformando em deserto e a degradação de áreas agrícolas é um problema grave”. O Ministro também alertou para os graves riscos para a segurança alimentar da população. 

Cerca de 70% da população indiana vive em áreas rurais, trabalhando em atividades ligadas à terra – especialmente agricultura e criação de animais. Essas atividades são as grandes geradoras de emprego e renda para a população. Calcula-se que 30% das áreas agrícolas do país, principalmente em áreas de clima árido e semiárido, sejam atendidas por sistemas de irrigação, que vão desde os tradicionais canais de inundação até os sistemas aspersores centrais com pivô.  

Conforme já apresentamos em postagens anteriores, irrigação e agricultura em regiões áridas e semiáridas podem ser a metade do caminho para processos de desertificação. E a Índia parece não fugir a essa regra. 

Além do uso intensivo e, muitas vezes, inadequado dos solos, a Índia também vem sofrendo muito com a devastação da cobertura vegetal. Antes da chegada dos “colonizadores” europeus, especialmente dos britânicos no século XVII, a maior parte do território da Índia era coberto por uma densa floresta tropical. Se você já assistiu ao filme ou já leu “O Livro da Selva”, de Rudyard Kipling, terá uma boa ideia do que estou falando. Um dos contos do livro fala de Mogli, um menino que foi criado pelos lobos e que vivia numa densa e luxuriante floresta, uma paisagem que cada vez mais faz parte de um passado distante da Índia. 

Com a necessidade de madeiras, minerais, alimentos e de outras matérias primas como algodão para as tecelagens da Inglaterra dos tempos da Revolução Industrial, as florestas indianas foram sendo gradativamente destruídas. Mesmo após a independência da Índia em 1947, essa devastação ambiental continuou. Nós brasileiros conhecemos muito bem o roteiro dessa história – aconteceu e acontece o mesmo aqui em nossas terras com a Mata Atlântica e outros sistemas florestais.  

De acordo com dados oficiais do Ministério do Meio Ambiente, Florestas e Mudanças Climáticas da Índia, cerca de 1,5 milhão de hectares de florestas foram destruídas no país entre 1980 e 2019. Cerca de 500 mil hectares sucumbiram em projetos de mineração; o restante foi destruído para implantação de obras de infraestrutura como hidrelétricas, rodovias e linhas de transmissão. Também são significativos os usos de madeira para geração de energia térmica – lenha para cozinhar e produção de carvão vegetal. 

Também precisamos incluir nessa conta a redução da disponibilidade de água em muitas regiões, o que vem se refletindo no aumento da aridez de extensas áreas. Além dos problemas já citados, existe um outro ainda mais preocupante: os desvios de águas que estão sendo feitos pela China. 

Muitos dos grandes rios do subcontinente indiano, como o rio Ganges e o Brahmaputra, nascem a partir das águas do derretimento das geleiras nas Himalaias. A China, país que enfrenta graves problemas de falta de água no Norte do seu território, vem construindo barragens no Tibete (território que foi ocupado pelos chineses na década de 1950 e transformado em território autônomo da China em 1965) e desviando grandes volumes dessas águas das geleiras para o seu próprio território, o que agrava ainda mais a situação da Índia. 

O somatório de uso inadequado dos solos, redução da disponibilidade de água, destruição de florestas e grandes projetos de mineração, entre outros problemas, tem se refletido num aumento descontrolado dos solos degradados e/ou em processo de desertificação. As estimativas mais recentes afirmam que mais de 100 milhões de hectares, ou perto de 32% das terras do país, apresentam queda de produtividade e/ou sinais graves de degradação

Um estudo feito pela Organização de Pesquisa Espacial da Índia em 2007, já alertava sobre os graves riscos de desertificação na Índia. Segundo esse estudo, 69% das terras do país estão mais secas e, portanto, mais vulneráveis à erosão hídrica e eólica, e também sob risco de salinização. Os Estados indianos mais vulneráveis são Rajasthan, Gujarat, Punjab, Haryana, Karnataka e Andra Pradesh, regiões de grande destaque na produção de grãos como o trigo e a colza, além de algodão. Ao longo dos últimos anos a situação se agravou ainda mais

Um exemplo da situação crítica nesses Estados: até cerca de 50 anos atrás, de acordo com reportagem recente do jornal local Economic Times, os agricultores da região de Gujurat, no Norte da Índia, alcançavam as reservas subterrâneas de água em poços com profundidades entre 10 e 12 metros. Atualmente, muitos dos poços precisam atingir uma profundidade de até 400 metros para que se encontre água em pequenas quantidades. Essa situação, de grave estresse hídrico, se repete em áreas rurais de todo o país e contribui cada vez mais para a degradação e desertificação dos solos. 

Continuaremos na próxima postagem. 

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