O AUMENTO DAS TEMPERATURAS NO ÁRTICO, OU “SIBÉRIA 40 GRAUS”

Nestes últimos dias, uma grande parte dos Estados Unidos está enfrentando as piores nevascas dos últimos dez anos. Em Nova Jersey, o Estado mais fortemente atingido, a neve acumulada já forma uma camada com quase 1 metro. Segundo informações divulgadas ontem, dia 3, ao menos 7 pessoas já morreram. No Colorado, 3 esquiadores estão desaparecidos após uma avalanche. 

Essa forte onda de frio foi provocada pelo deslocamento do vórtice polar em duas direções – uma parte seguiu em direção às regiões Central e Nordeste dos Estados Unidos, e outra parte foi na direção de áreas meridionais da Europa, onde provocou, entre outros distúrbios, as fortes nevascas que assolaram a Espanha semanas atrás.

Conforme comentamos na postagem anterior, o vórtice polar é formado por duas massas de ar frio que circulam ao redor do Polo Norte. A primeira delas, que localizada na troposfera (a camada mais baixa da atmosfera), é chamada de vórtice circumpolar. Essa massa de ar frio chega a se estender do Norte do México até o Norte do Canadá. A segunda massa de ar frio, que é bem menor e é chamada de vórtice polar estratosférico, se localiza em altitudes entre 16 e 48 km e circula sobre o Polo Norte.  

Em condições climáticas normais, esses dois vórtices apresentam uma diferença de temperatura constante e permanecem estáveis em suas camadas da atmosfera. No início deste ano, porém, os meteorologistas observaram um aquecimento repentino da atmosfera nessas regiões, o que provavelmente foi a causa do deslocamento dos vórtices polares. Entre as possíveis causas desse aquecimento brusco da atmosfera, que não é considerado tão anormal, está o aumento constante das temperaturas no Ártico ao longo dos últimos anos

Um extenso estudo realizado por quinze pesquisadores internacionais concluiu que a temperatura do Ártico aumentou nos últimos dez anos o mesmo que toda a Terra nos últimos 140 anos. Desde o início da década de 1880, a temperatura do planeta aumentou cerca de 0,8° C – no Ártico, esse aumento foi de 0,75° C apenas nos últimos dez anos

De acordo com informações do PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, a temperatura do Ártico vai subir ente 3 e 5° C até 2050, e de 5 a 9° até 2080, irremediavelmente. De acordo com as estimativas, o volume de gelo no Ártico diminuiu cerca de 40% desde 1979. Caso as emissões de gases de efeito estufa continuem no ritmo atual, o Ártico terá verões sem gelo a partir de 2030. Os derretimentos de gelo na região contribuem com um terço do aumento do nível dos oceanos

Um sintoma claro do aumento progressivo das temperaturas no Ártico foi visto em junho de 2020 na cidade de Verkhoyansk, na Sibéria. Essa região da Rússia ganhou fama mundial pelo rigor do inverno e pelas temperaturas baixas mesmo nos meses de verão. Essa cidade, inclusive, fica dentro dos limites do Círculo Polar Ártico. O inverno siberiano registra temperaturas de até -45° C no inverno – em 1933, houve o registro de –67,7° C, até hoje a temperatura mais baixa já registrada no planeta. 

No dia 20 de junho, os termômetros da cidade registraram 38° C, um recorde absoluto de calor. Segundo informações do website meteorológico russo Pogoda i Kimat, a cidade vem registrando temperaturas entre 10 e 14° C acima da média nos verões dos últimos anos. Esse nível de temperatura está muito próximo dos 40° C do Rio de Janeiro dos versos e das músicas populares. 

Outra consequência visível do aumento das temperaturas no Ártico é o derretimento de grandes extensões do permafrost, abreviação de permanent frost ou solos congelados permanentemente. Em regiões de altas latitudes da Rússia, do Canadá, do Alasca (território dos Estados Unidos), entre outras, tem sido comum o desabamento de construções por causa da perda do permafrost. Sem a rigidez do gelo nos solos, que tem um comportamento similar ao das rochas, as fundações dessas construções simplesmente afundam, colocando abaixo casas e edifícios. 

O derretimento do permafrost também se reflete na queda de árvores da taiga. As raízes dessas árvores são relativamente pequenas e se adaptaram ao longo do seu processo evolutivo à dureza dos solos. Sem o gelo congelado, os solos não tem a resistência necessária para a estabilidade das árvores, que caem em grandes quantidades. As imensas massas de troncos mortos sobre os solos são o combustível dos grandes incêndios florestais que, cada vez com uma frequência maior, devastam grandes extensões da taiga. 

O aumento das temperaturas e a perda da massa de gelo no Ártico se reflete no aumento da temperatura das águas do mar na região. Essas mudanças nos padrões climáticos provocam um aumento das ondas de calor refletidas de volta para atmosfera, o que gera oscilações cada vez mais fortes e persistentes nas massas de ar frio que formam o vórtice polar. 

Cientistas e meteorologistas ainda têm dúvidas sobre os mecanismos de funcionamento do vórtice polar e ainda não tem dados suficientemente completos para afirmar que o aumento da temperatura do Ártico é mesmo a principal causa dos deslocamentos das massas de ar frio. Vale lembrar que o ano de 2020 foi um dos mais quentes já registrados em nossa história e foi marcado por um recorde na perda da massa de gelo no Ártico.  

O principal vilão do clima mundial na atualidade é o aumento da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera, onde o dióxido de carbono (CO2) é destaque. Esse gás é produzido naturalmente pela respiração de seres humanos e animais, pela decomposição de restos de plantas e de animais, por queimadas em florestas, pela digestão de alimentos nos intestinos de animais e seres humanos, entre outras fontes. Também é produzido por inúmeras atividades humanas como nas indústrias e nos transportes.  

De acordo com dados do IPCC – Painel Intergovernamental de Mudanças do Clima, na sigla em inglês, o dióxido de carbono está presente em 78% das emissões humanas e em 55% das emissões mundiais de gases de efeito estufa. Os maiores emissores mundiais de gases de efeito estufa em 2018 foram os Estados Unidos, a China e a Índia – o Brasil ficou na 14° posição

O efeito estufa é um processo físico natural do planeta Terra que ocorre quando determinados gases presentes na atmosfera absorvem parte da irradiação infravermelha do sol, irradiando e retendo esse calor na superfície do planeta. Esse mecanismo permitiu, ao longo dos vários ciclos da história geológica do planeta, a estabilização da temperatura dentro de uma faixa vital para a manutenção da vida e do clima. Essa estabilização permitiu o desenvolvimento dos sistemas florestais e dos oceanos, com o consequente equilíbrio dos gases formadores da atmosfera e a explosão da vida biológica na Terra. 

A partir de meados do século XVIII, quando teve início a chamada Revolução Industrial, passou a ocorrer um aumento contínuo da queima de combustíveis fósseis, especialmente carvão mineral e derivados de petróleo, aumentando de maneira contínua as emissões de gases de efeito estufa. A população humana também cresceu de forma vertiginosa – no início do século XIX éramos pouco mais de 1 bilhão de habitantes e, dentro de poucos anos, estaremos chegando na casa dos 8 bilhões de seres humanos

As necessidades de produção de alimentos, roupas, produtos e moradias para tanta gente tem levado a uma pressão cada vez maior sobre os recursos naturais, o que, ao fim ao cabo, resulta em emissões maiores de gases de efeito estufa. O antigo equilíbrio climático do planeta será, cada vez mais, uma lembrança de um passado distante.  

As únicas certezas que temos é que as mudanças no clima não vão parar de nos surpreender e que o nosso futuro será cada vez mais incerto. 

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