O TSUNAMI DE GELO EM KHABAROVSK, NA RÚSSIA, ÀS VÉSPERAS DA CÚPULA DO CLIMA 2021

Entre os dias 22 e 23 de abril, cerca de quarenta líderes mundiais se reuniram em ambiente virtual para discutir alguns dos mais importantes e graves problemas ambientais de nossos dias. Falo aqui da Cúpula do Clima 2021, capitaneada pelo Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden

Havia uma preocupação grande em relação à situação do Brasil que, devido aos desmatamentos e queimadas na região da Floresta Amazônica, corria o risco de ser transformado no “grande vilão” da reunião. Felizmente, o bom senso reinou durante a conferência e as discussões foram bastante produtivas.  

Foram muitas as promessas de reduções das emissões de gases de efeito estufa, de aumento no uso de energias renováveis e na limpeza da matriz energética. Tiradas demagógicas contra o Brasil, felizmente, foram deixadas de lado nesse encontro e os líderes mundiais mostraram uma visão mais pragmática das questões envolvidas.

Um acontecimento interessante e que ocorreu bem às vésperas da Cúpula do Clima foi um grande “tsunami de gelo” que assustou os moradores da cidade de Khabarovsk, no Extremo Leste da Rússia. Grandes blocos de gelo que estavam descendo o rio Amur começaram a se acumular nas proximidades da cidade e, graças as forças da correnteza e dos ventos, começaram a avançar pelas margens, lembrando uma grande onda de um tsunami. 

A massa de gelo destruiu a grade de metal que isola uma passarela de pedestres e, por muito pouco, não atingiu alguns transeuntes que passavam no exato momento. O que chama a atenção é que esse tipo de ocorrência está se tornando cada vez mais frequente e incidentes muito parecido já ocorreram no Alasca, no Canadá e na Groenlândia, entre muitos outros lugares

O rio Amur se forma a partir da junção de vários rios com nascentes na região das Montanhas Altai, que ficam localizadas na fronteira entre a Rússia, a China e o Cazaquistão. O rio segue no sentido Leste por mais de 2.500 km até a sua foz no Mar de Okhotsk, no Estremo Leste da Rússia. Nesse período de início da primavera no Hemisfério Norte, o rio Amur recebe grandes quantidades de neve derretida e fragmentos de gelo. Nos últimos anos, porém, com o aumento gradual da temperatura na região, os volumes de gelo no rio têm aumentado bastante. 

No Alasca, Estado norte-americano que fica dentro do Círculo Polar Ártico, os tsunamis de gelo também estão se tornando perigosamente frequentes. Uma reportagem recente mostrou o caso da região de Barry Arm, um pequeno estreito localizado na Baía de Prince William Sound, no Golfo do Alasca. 

Com o aumento das temperaturas da região nos últimos anos, os moradores tem observado um grande aumento nas massas de gelo que descem dos terrenos mais altos durante o chamado degelo da primavera. Existe uma preocupação real com o deslizamento de milhões de toneladas de gelo e pedras, o que poderia gerar um grande tsunami de gelo e que seguiria na direção das casas de centenas de moradores do lugar. 

A preocupação da população tem um grande fundamento – o maior tsunami já registrado na história ocorreu no Alasca em 1958. Batizado de megatsunami da Baía Lituya, a catástrofe foi gerada por um terremoto de magnitude 7,8 graus na escala Richter. Os deslizamentos de terra movimentaram um volume aproximado de 30 milhões de metros cúbicos de rocha e gelo para a entrada estreita da baía.  

O tsunami gerado criou ondas de até 30 metros de altura (segundo o relato de testemunhas oculares) e causou destruição em locais com altitudes de até 520 metros acima do nível do mar. E como lembra um antigo ditado – “gato escaldado tem medo de água fria”, os moradores locais temem a repetição da tragédia a partir de um tsunami de gelo. 

Conforme mostramos em postagens recentes, geleiras localizadas no alto de grandes cadeias montanhosas como os Andes, na América do Sul, os Montes Ruwendozi, na África, e a Cordilheira do Himalaia, na Ásia, estão ameaçadas pelo aumento das temperaturas globais. Essas geleiras, que também são chamadas de glaciares, formam as nascentes de grandes e importantes rios, que abastecem centenas de milhões de pessoas.  

Além das geleiras das montanhas, o aquecimento global também está provocando o derretimento de imensas massas de gelo em regiões de altas latitudes – um exemplo é a Groenlândia, gigantesca ilha localizada ao largo da América do Norte. Pelo andar da carruagem, conforme eu especulei em uma postagem, o aumento das temperaturas do planeta e o derretimento da calota de gelo poderá transformar a Groenlândia em uma área agrícola dentro de poucas décadas. 

Sinais evidentes do aquecimento global também podem ser vistos na Sibéria, região da Rússia que sempre foi sinônimo de frio extremo. Em junho de 2020, época em que os termômetros da Sibéria costumavam atingir temperaturas máximas de verão ente 10 e 14° C, a cidade de Verkhoyansk registrou inacreditáveis 38° C, temperatura típica do verão do Rio de Janeiro. 

Com o aumento da frequência de ciclos de temperatura tão mais altos que a média em regiões frias, existe um risco real do aumento das ocorrências dos tsunamis de gelo, o que fatalmente poderá desencadear em grandes destruições em cidades localizadas às margens de grandes rios e, muito pior, tais eventos poderão resultar na morte de pessoas. 

Os gases de efeito estufa figuram no topo da lista dos principais responsáveis pelo aumento das temperaturas do planeta. Esses gases, onde destacamos o dióxido de carbono (CO2) e o metano (CH4), são liberados pela queima de combustíveis fósseis como os derivados de petróleo e o carvão mineral, assim como em outras atividades humanas como indústrias, transportes, agricultura e pecuáriao processo digestivo de uma vaca, por exemplo, pode gerar entre 70 e 120 kg de metano em um ano

Um discurso que vinha sendo alimentado há algum tempo e que felizmente parece ter sido deixado de lado dizia que as queimadas da Amazônia eram as grandes responsáveis pela emissão de gases de efeito estufa e, consequentemente, eram as principais responsáveis pelo aumento das temperaturas globais. Esse discurso não sobrevive a uma simples análise das emissões dos demais países do globo. 

O país que mais produz gases de efeito estufa é a China, sendo responsável por quase 1/3 das emissões globais. Na sequência vem os Estados Unidos, com 15% das emissões, a Índia com 7%, a União Europeia com 6% e o Brasil, já distante do topo, com 3%, sendo que cerca de 40% das emissões brasileiras tem sua origem na agropecuária. Como é bem fácil perceber, estamos muito longe de sermos os vilões do clima mundial, porém, não estamos isentos de dar a nossa contribuição para melhorar a situação.

Líderes das mais importantes economias do mundo assumiram diversos compromissos públicos no sentido da redução das suas emissões de gases de efeito estufa e do aumento da geração de energia a partir de fontes renováveis. A situação ambiental de nosso planeta é preocupante e vamos torcer para que essas promessas e compromissos assumidos na Cúpula do Clima sejam efetivamente colocados em prática. 

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