AS ÁGUAS “PURAS” DO GANGES

Allahabad

A cidade de Gangotre é um importante centro de peregrinação do hinduísmo, localizada no alto da Cordilheira do Himalaia a pouco mais de 20 km da “nascente” do rio Ganges. Existem, pelo menos, 6 nascentes do rio na região, mas a caverna Gaumukh é a “nascente sagrada”. Dezenas de milhares de hindus realizam todos os anos uma perigosa jornada até Gangotre, enfrentando algumas das estradas mais perigosas do mundo, vias que, em muitos trechos, não passam de um simples recorte nas rochas, tendo os altos paredões das Himalaias de um lado e profundos abismos do outro. A indestrutível fé destes crentes é o combustível que os move rumo a uma altitude de mais de 3.000 metros na busca das puras águas do Ganges, que na fé hindu materializa a deusa Maa Ganga, a Mãe Ganga.

Estas águas, que de acordo com a fé hindu têm o poder de limpar os pecados do corpo com apenas uma gota, são cada vez mais uma figura de linguagem: os 4.000 anos do hinduísmo não resistiram aos últimos 50 anos de descaso e poluição criados pelo rápido desenvolvimento e industrialização da Índia. O rio Ganges, manancial de abastecimento e fonte da vida física e espiritual de mais de 400 milhões de pessoas, foi transformado num dos rios mais poluídos do mundo. Deixem-me retomar o assunto ainda falando dos problemas de poluição na cidade de Kanpur:

Conforme comentado na última postagem, Kanpur é um centro industrial no Norte da Índia que concentra empresas especializadas no tratamento e processamento de couros. Nestas atividades são utilizados diversos produtos químicos que contém diversos metais pesados, em especial os sais de cromo, o arsênico e o mercúrio. Descartados sem maiores cuidados, os efluentes das indústrias produzem grandes estragos no meio ambiente aquático e, indiretamente nas pessoas – já comentei sobre os impactos da poluição na pesca.

Os agricultores de Kanpur, simplesmente por falta de fontes de água alternativa, utilizam as águas do rio Ganges para irrigar suas culturas. Aqui é importante citar o problema da bioacumulação, onde seres vivos, plantas e animais, acumularão os poluentes dissolvidos na água em suas células. Uma fruta ou legume que tenha sido irrigado com estas águas contaminadas apresentará pequenos índices dos mesmo metais pesados em sua estrutura – um animal ou pessoa que consuma qualquer um destes alimentos, receberá essa carga de poluentes. Os metais pesados se acumulam no organismo, que não consegue metabolizar as substâncias – quanto maior e mais continuado for o consumo destes alimentos, maior será o acúmulo dos metais pesados no organismo dos consumidores. Os hospitais da cidade recebem, a cada dia, mais de 300 pacientes apresentando sinais de intoxicação cumulativa de metais pesados, diarreia, gastroenterites e febres virais.

Estudos clínicos realizados pelos hospitais encontraram um outro problema – metade das pessoas atendidas apresentam altos índices de anemia. A grande incidência da doença levou a mais estudos, onde se concluiu que a água contaminada do rio Ganges produz uma alteração no metabolismo das plantas – elas não conseguem absorver adequadamente os minerais do solo e não produzem as vitaminas e os açúcares nutritivos em quantidades adequadas: os habitantes consomem os alimentos mas não recebem os níveis de nutrientes e de calorias que se espera – daí aparecem os casos de anemia.

Além da poluição por esgotos industriais, esgotos domésticos e resíduos agrícolas de todos os tipos, o rio Ganges é o destino final de todos os tipos de detritos gerados pela grande população que se distribui ao longo de suas margens. Há uma classe especial de detritos sobre a qual precisamos tecer alguns comentários – as cinzas e as oferendas geradas nas cerimonias de cremação dos mortos, um ritual dos mais tradicionais do hinduísmo. A cidade de Varanasi é o mais importante “crematório” de toda a bacia hidrográfica do rio Ganges.

Varanasi é considerado um dos locais mais sagrados da fé hindu e o lar espiritual dos mais de 330 milhões de deuses e deusas do panteão hindu. Famílias de toda a Índia transportam seus falecidos entes queridos até Varanasi para que sejam cremados cerimoniosamente. A cidade também recebe milhares de pessoas idosas e doentes, que almejam passar seus últimos dias na terra às margens do rio Ganges. De acordo com dogmas do hinduísmo, quem morre nas margens do Ganges, em especial na cidade de Varanasi, pode conseguir a salvação final sem ter de enfrentar uma nova reencarnação. A indústria da cremação e da assistência aos idosos e doentes é extremamente próspera em Varanasi – pacotes básicos de cremação, com direito à madeira de sândalo, flores, incenso e supervisão de um sacerdote tem um custo a partir de U$ 20.00. Alguns pontos de cremação chegam a realizar cem cerimônias funerárias a cada dia. Quando o corpo do fiel é totalmente consumido pelas chamas, suas cinzas e todas as oferendas são lançadas nas águas do Ganges.

Os rituais funerários não param por aí – famílias muito pobres, população bastante significativa na Índia, dificilmente conseguem pagar por uma cerimônia de cremação – seus mortos são amarrados a pedras e acabam por ser lançados diretamente nas águas do rio. Os dogmas hindus também têm algumas restrições à cremação: corpos de mulheres grávidas, de bebes e de sadhus (homens santos) são considerados puros e não precisam ser cremados – também são jogados diretamente nas águas do Ganges. Some-se a esta “classe de resíduos” os corpos de animais sagrados como as vacas. Esses “resíduos” de corpos humanos e de animais se espalham por todo o leito do rio Ganges.

Um evento religioso que marcou uma mudança de paradigma em relação ao grau de deterioração das águas do rio Ganges foi o Festival de Allahabad de 2007 (vide foto). Esta cidade fica localizada a aproximadamente 150 km de Varanasi e todos os anos recebe uma multidão de peregrinos em uma festa religiosa que dura 45 dias. Este festival  recebe uma multidão que pode somar 70 milhões de fieis – é a maior concentração humana em um único local do mundo. Um dos pontos altos das celebrações é o chamado “banho real”, quando toda essa turba se dirige ao rio Ganges. Em 2007, porém, as coisas não correram segundo a tradição – os sadhus, uma casta de homens sagrados que tem 4 milhões de seguidores e que, normalmente, são os primeiros a entrar nas águas do Ganges para o banho cerimonial, simplesmente se recusou a entrar nas águas devido ao alto grau de poluição. Relatos falam de ilhas de resíduos flutuantes com muito lixo e corpos em decomposição, além de água muito suja e malcheirosa. O impasse foi tão sério que grupos de fieis ameaçaram praticar suicídio coletivo como forma de protesto. Após dois dias de impasse, as autoridades resolveram abrir as comportas de uma represa para forçar a renovação das águas – feito isso, os rituais puderam ser retomados.

O Festival de Allahabad de 2007 foi um marco para os destinos do rio Ganges – houve uma quebra de paradigma em relação à cultuada pureza das águas: autoridades e religiosos perceberam que a poluição das águas sobrepujou qualquer dogma de fé, atribuindo uma pureza celestial ao Ganges – o rio já estava praticamente morto e alguma coisa precisava ser feita com seu “corpo”. Vários projetos de saneamento ambiental e de controle mais efetivo da poluição passaram a ser discutidos com seriedade.

As altas taxas de crescimento demográfico transformarão a Índia no país mais populoso do mundo em 2030, quando será atingida a marca de 1,5 bilhão de habitantes, superando a população da China. Em 2035, conforme comentei na última postagem, a geleira de Gangotre, onde nasce o rio Ganges, poderá ter desaparecido. Mais alarmante ainda – em 2020, será superado o ponto de equilíbrio entre o tamanho da população e as reservas de água: passará a existir gente demais para água de menos. Alguma coisa precisará ser feita para garantir o suprimento de água no país, seja pelos homens, seja pelos deuses.

Enquanto isso, o rio Ganges continua recebendo a cada 1 segundo cerca de 1.000 litros de esgotos e muitas toneladas de resíduos.

7 Comments

  1. […] Por fim, e não menos grave, a grande região deltaica é o destino final de toda a poluição, do lixo e de todos os tipos de resíduos que são lançados nas águas de toda a bacia hidrográfica do rio Ganges, nos territórios da Índia e de Bangladesh. A situação, que é gravíssima, já foi tema de diversas postagens aqui no blog, que tratam desde cachorros azuis devido ao contato com poluentes e produtos químicos nos rios até o descarte de corpos humanos e de animais nas águas sagradas do Ganges.  […]

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