OS SOLOS E A DESERTIFICAÇÃO

A desertificação e a perda de solos aráveis são dois dos maiores problemas ambientais de nossos dias. De acordo com a ONU – Organização das Nações Unidas, cerca de 120 mil km² de solos são perdidos todos os anos por causa da desertificação. De acordo com as estimativas da ONU, isso representa um prejuízo de US$ 1,3 bilhão a cada dia em perdas na produção agrícola, na criação de animais por falta de pastagens, na indústria, no turismo, na habitação humana, entre outros.

Essa perda anual de terras é equivalente a três vezes a área total do Estado do Rio de Janeiro ou, para sermos mais drásticos, representará uma perda total equivalente ao território do Brasil em cerca de 70 anos. As terras usadas pela agropecuária no Brasil correspondem a menos de 10% do nosso território e, somente em produção de grãos, geram safras da ordem de 260 milhões de toneladas a cada ano – isso nos dá uma noção global dos custos da desertificação para a humanidade.

Mas, afinal de contas, o que são solos aráveis?

Cerca de 70% da superfície do Planeta Terra é, ironicamente, coberta pelas águas dos oceanos. As chamadas terras firmes ou secas são, em sua maior parte, cobertas por grandes desertos, formações rochosas e gelo, muito gelo. Cerca de 13,1% das terras continentais são formadas por solos aráveis, ou seja, adequados para a agricultura – porém, apenas 4,71% suportam culturas agrícolas permanentes. Essas terras alimentam cerca de 7,8 bilhões de pessoas em todo o mundo.

Solos aráveis ou agricultáveis são o resultado de um longo conjunto de processos físicos, químicos e biológicos. Podemos definir solo como uma camada fina sobre uma camada rochosa, sendo constituído por diversos tipos de minerais. Esses minerais se formaram a partir dos intemperismos, que são as alterações físicas e químicas a que as rochas foram expostas desde a sua origem na superfície da terra. Os principais compostos do solo são minerais como a areia e a argila, que garantem as características estruturais do solo, a matéria orgânica, responsável pela fertilidade, a água, elemento responsável pela dissolução dos nutrientes e o ar. 

Uma forma bastante didática para que todos vocês entendam o processo de formação de solos é imaginar um vulcão em erupção. Isso não é tão difícil assim: nesse exato momento, o vulcão Kilauea, nas ilhas norte-americanas do Hawai está ativo e expelindo grandes quantidades de lava diariamente. O vulcão Etna, no Sul da Itália, também está em atividade. A lava vulcânica nada mais é que rocha em estado líquido. A lava escorre por força da gravidade e vai se acumulando sobre os solos já existentes ou corre na direção do mar, formando “novos” solos. Se você fizer uma pesquisa na internet, poderá encontrar imagens fantásticas mostrando as ondas de lava incandescente do Kilauea e do Etna escorrendo e se solidificando.

Quando as lavas esfriam o que resta é uma paisagem árida e completamente sem vida, uma vez que nenhuma forma orgânica consegue sobreviver às altíssimas temperaturas das rochas incandescentes. Quando as condições ambientais se normalizam, a superfície das rochas passa a ser colonizada por líquens. Os líquens são organismos simbióticos, formados por um fungo associado a uma alga verde ou azul, com grande capacidade de sobrevivência em locais inóspitos. Os líquens gradativamente começam a ocupar esse novo ambiente e, pouco a pouco, começam a criar uma finíssima cada de material orgânico sobre a superfície rochosa. 

As rochas sofrem desgastes por intemperismo – as alterações da temperatura provocam expansão e contração das camadas superficiais, provocado trincas e desfolhamentos de finas placas de rocha. Com a exposição às chuvas e ao vento, essas camadas de rocha vão se fragmentando e se juntando aos pequenos depósitos de matéria orgânica criados pelas colônias de líquens. Conforme essa camada de solo fértil vai aumentando, sementes de outras plantas que chegam arrastadas pelos ventos conseguem germinar e há uma aceleração no processo de formação de matéria orgânica e de solos férteis.

Esse é um processo lento e gradativo chamado de gênese dos solos. Ele é o responsável pela formação das terras férteis dos solos das florestas, matas e outras formações vegetais, que hoje estão sendo usadas pela agricultura. Cada centímetro na espessura desses solos levou séculos para se consolidar, mas basta uma chuva forte sobre um solo desnudo para que todo esse trabalho acabe sendo arrastado pelas águas. Um exemplo: as famosas “terras roxas” encontradas na Região Sul e em partes do Sudeste e do Centro-Oeste do Brasil surgiram a partir de grandes erupções vulcânicas que se encerraram há mais de 27 milhões de anos atrás.

Existem cinco fatores principais para a formação dos solos: o clima, onde temos a radiação solar, a pluviosidade e a pressão atmosférica; os organismos vivos que se desenvolverão e criarão camadas de matéria orgânica; o relevo; o material de origem, que está associado aos tipos de rocha que formam a superfície da região e serão determinantes para o tipo de solo que será formado e, não menos importante, o tempo – muito tempo. Regiões de clima quente e de alta pluviosidade, como os Trópicos, tendem a formar camadas de solo em menor tempo do que regiões mais frias ou de baixa umidade. Quanto maior a quantidade de água, mais completo e rápido é o processo de intemperismo – aqui está o segredo de grandes florestas como a Amazônica e a Mata Atlântica. 

Um ponto fundamental e que não pode faltar nessa exposição é a capacidade que os solos têm de reter e regular os fluxos de água, garantindo assim o fornecimento de água para todas as formas vivas, animais e vegetais, e controlando a quantidade e a velocidade que os excedentes de água das chuvas vão chegar aos cursos d’água. Essa é uma capacidade que é desenvolvida ao longo do desenvolvimento dos solos e da vegetação de uma floresta, atingindo um ponto de equilíbrio – a súbita remoção da cobertura vegetal, para criação de um campo agrícola por exemplo, pode romper rapidamente esse frágil equilíbrio e grandes volumes de solo passarão a ser carreados pelas águas das chuvas.

A desertificação dos solos representa uma quebra no equilíbrio desses fatores. Normalmente, o processo começa com a perda da matéria orgânica e, consequentemente, com a diminuição da capacidade de retenção de água. A destruição da cobertura vegetal de uma região, lembrando aqui o exemplo dos desmatamentos na região do Sahel na África, se refletirá na perda gradativa de matéria orgânica e no ressecamento dos solos. O que restará serão os fragmentos inertes de rochas, basicamente areia, sem capacidade e/ou com uma baixa capacidade de sustentar vida vegetal e animal. No caso do Sahel, os desmatamentos seculares da vegetação de estepe está possibilitando a expansão do Deserto do Saara.

Processos de desertificação, com diferentes graus de intensidade, são encontrados em todos os continentes. Aqui no Brasil existentes casos graves na Região Nordeste, principalmente no Estado de Alagoas, e também na região dos Pampas no Rio Grande do Sul. No caso alagoano, a origem do problema está associada diretamente à destruição da antiga cobertura de Mata Atlântica no Estado. Já no Rio Grande do Sul, o problema vem sendo desencadeado pelo intenso pastoreio de animais em áreas de campos, onde os solos férteis eram muito finos e arenosos – sem a cobertura das gramíneas, os solos passaram a ser erodidos pelos ventos e pelas chuvas.

Quando uma determinada região perde a sua capacidade de produção de alimentos, as populações que ali vivem são obrigadas a migrar em busca de novas áreas para viver e trabalhar. Isso significa que regiões cobertas por florestas ou por remanescentes florestais serão devastadas para a formação de novos campos agrícolas e pastagens para os animais. Sem os devidos cuidados, essas “novas” áreas agricultáveis apresentarão os mesmos sinais de desertificação e de perda de fertilidade dos solos, além de perdas importantes por erosão. Em um planeta com recursos naturais cada vez mais limitados, esse é um problema gravíssimo, que vem se somar a uma série de outros problemas já existentes.

A agricultura e a pecuária são essenciais para a vida humana, porém, é preciso encontrar um ponto de equilíbrio entre a produção e a conservação dos solos. Só para lembrar – a Terra é finita e as atividades humanas ao longo dos séculos já nos custaram grandes volumes de solos férteis. É preciso cuidar muito bem do pouco que restou… 

PS: 22 de março é o Dia Mundial da Água

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