A DEUSA GANGA MA E AS AGRESSÕES AMBIENTAIS AO RIO GANGES

Gavial do rio Ganges

O nome Himalaia vem do sânscrito, a língua ancestral da Índia e do Nepal, e significa “morada das neves”. As Montanhas Himalaias formam a maior cordilheira do mundo e concentram as maiores geleiras fora da Antártida. Essas geleiras formam as nascentes de alguns dos mais importantes rios da Ásia: Mekong, Indus, Bramaputra, Irauádi, Amu Daria e Syr Daria, Yangtzé (Rio Azul), Huang He (Rio Amarelo), além do famoso e importantíssimo rio Ganges, responsável pelo abastecimento de perto de 400 milhões de pessoas na Índia e em Bangladesh.

A nascente mais importante do Ganges, que fornece cerca de 30% dos caudais do rio, fica nas Montanhas Himalaias, numa gruta sob uma geleira conhecida pelo nome de Gaumukh, palavra que significa “boca da vaca”. De acordo com a mitologia, é nessa gruta que a deusa Ganga assume uma forma física que é representada pelas águas do rio. Os populares a chamam de Ganga Ma, a Mãe Ganga, que é aquela que provê o sustento para todos os seus filhos. Essa imagem mitológica resume o rio Ganges, que é o principal corpo de água do Norte da Índia e de Bangladesh, respondendo pelo abastecimento das populações, indústrias e irrigação de extensas áreas agrícolas – o Ganges, literalmente, sustenta essas populações.

Com aproximadamente 2.500 km de extensão desde suas nascentes nas Himalaias até a sua foz no Golfo de Bengala, onde forma o maior Delta do mundo, o rio Ganges acumula problemas, que vão da intensa poluição por lançamento de esgotos domésticos e industriais aos riscos de desaparecimento das geleiras que formam as suas nascentes. Desde a década de 1940, a geleira Gaumukh já recuou cerca de 3 km e perdeu 1 km da sua espessura. Esse fenômeno está ocorrendo em todas as geleiras das Montanhas Himalaias e, muito provavelmente, é o resultado visível do aquecimento global e de todas as mudanças climáticas já em andamento.

De acordo com estudos realizados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU – Organização das Nações Unidas, as geleiras das Montanhas Himalaias poderão começar a desaparecer já a partir do ano de 2035. Essa é uma das questões ambientais mais preocupantes da atualidade, especialmente em países da Ásia, que muitos Presidentes pelo mundo afora parecem não enxergar. Cerca de 2 bilhões de pessoas no continente dependem das águas de rios com nascentes nessas geleiras e existe o risco real desses rios serem transformados em rios intermitentes, que só terão água na época das Chuvas da Monção.

A poluição das águas do rio Ganges por causa do lançamento de esgotos de todos os tipos é outra fonte importante de problemas. Cerca de 1/3 da gigantesca população da Índia vive dentro da área da bacia hidrográfica do Ganges, em cidades e vilas que contam com precárias infraestruturas de saneamento básico. Como é comum aqui em nosso país, os Governantes indianos concentram a maior parte dos parcos recursos disponíveis na construção de sistemas de produção de água e em redes de distribuição – a coleta e o tratamento de esgotos são deixados de lado.

Essa situação só não mais grave por que dezenas de milhões de indianos não dispõe de banheiros em suas casas e usam as áreas matas “para se aliviar”. Muitas dessas pessoas, acreditem se quiser, não têm banheiros em suas casas por motivos religiosos – o brâmanes seguem o Código de Manu, que entre outras regras, estabelece que ninguém pode defecar próximo dos locais onde se preparam os alimentos – tratamos desse assunto em uma interessante postagem anterior.

A poluição das águas do Ganges devido ao lançamento de resíduos industriais também é alarmante. Um exemplo dessa poluição pode ser encontrado em Khampur, uma cidade de 4 milhões de habitantes e que conta com um importante complexo industrial. A base da economia da cidade são as indústrias de curtimento e tratamento de couro bovino (o que não deixa de ser irônico, pois as vacas são consideradas sagradas no país). Existem cerca de 370 estabelecimentos desse tipo em Khampur e, de acordo com os dados oficiais, metade deles joga seus efluentes diretamente nas águas do rio Ganges.

Um dos principais produtos usados nessa atividade são os sais de cromo, uma substância que mumifica e evita que o couro apodreça com o passar do tempo. O cromo é um metal de transição com importantes aplicações na metalurgia, especialmente na produção do aço inoxidável. Em altas concentrações na água, os resíduos de cromo podem causar uma série de problemas de saúde no sistema respiratório, infecções, infertilidade e problemas congênitos em recém nascidos. O metal também causa problemas nas guelras dos peixes que vivem nas águas, além de afetar a saúde de animais que bebam essa água contaminada. Além dos sais de cromo, os curtumes usam outros produtos que contém mercúrio e arsênico, causadores de outros tantos problemas de saúde.

Testes feitos nas águas do rio Ganges na região de Khampur encontraram níveis de cromo, mercúrio e arsênico altíssimos – entre 64 e 128 vezes acima do nível máximo tolerado pelas autoridades sanitárias do país. Até mesmo na água tratada para o abastecimento da população, que usa um tratamento convencional, os níveis desses metais pesados estão acima dos limites técnicos de segurança. Os hospitais da cidade realizam, pelo menos, um diagnóstico de doenças graves associadas a esses poluentes a cada dia. É uma situação gravíssima.

O grande volume de resíduos sólidos que acaba sendo lançado diretamente nas águas ou carreado durante o período das fortes Chuvas da Monção também são preocupantes. A economia da Índia está entre as que mais crescem no mundo e parcelas cada vez maiores da população está tendo acesso aos produtos industrializados, especialmente alimentos, roupas, brinquedos e eletrodomésticos. Como sempre acontece em economias emergentes, há uma grande geração de resíduos, especialmente as famigeradas embalagens plásticas, que acabam sendo descartadas diretamente nas ruas, em terrenos baldios e nas águas do rio.

Os problemas de resíduos no Ganges ainda tem um complicador a mais: por razões religiosas, o rio recebe diariamente as cinzas de milhares de corpos cremados em templos religiosos instalados ao longo das suas margens. Em muitos casos, especialmente quando se trata dos corpos de religiosos e de mulheres grávidas, os dogmas da religião ensinam que não há necessidade da cremação e os corpos são jogados diretamente nas águas do rio. Gigantescas ilhas de lixo flutuante, onde se incluem todos os tipos de resíduos e corpos, se formam ao longo da calha do rio, principalmente a montante das sucessivas barragens que foram construídas nas últimas décadas.

Todo esse conjunto de agressões ao corpo d’água, é claro, tem profundos reflexos na biodiversidade aquática. Das mais de 190 espécies de peixes e 90 de anfíbios da fauna aquática do rio Ganges, simplesmente todas estão sob ameaça, onde eu destaco três: os golfinhos-do-rio-Ganges, o gavial e o tubarão-do-Ganges.

Os golfinhos-do-rio-Ganges (Platanista g. gangetica), conhecidos pelo nome popular de susu, já foi tema de várias das nossas postagens. Esses animais, a exemplo de outras espécies de golfinhos e baleias enfrentam grandes dificuldades, se valem de um sofisticado mecanismo de orientação à base de ondas acústicas, parecido com os sonares de navios e submarinos. As grandes ilhas de lixo flutuante nas águas dificultam enormemente as migrações desses golfinhos, que também sofrem com o bloqueio de suas rotas migratórias por causa das sucessivas represas na calha do rio Ganges.

O gavial (Gavialis gangeticus), uma espécie de jacaré exclusiva do Subcontinente Indiano e que tem como principal característica um focinho extremamente fino (vide foto), é outra que está seriamente ameaçada. A poluição das águas e o lixo flutuante afetam os estoques e a caça dos alimentos desse réptil, cada vez mais difícil de ser avistado ao longo das margens do rio Ganges. Já os tubarões-do-Ganges (Glyphis gangeticus), uma espécie endêmica rara adaptada para a vida em água doce, é vítima frequente das redes dos pescadores, além de sofrer com a poluição das águas e com os resíduos.

A situação do rio Ganges é tão caótica que, talvez, só Ganga Ma terá forças para ajudar as populações humanas e de espécies animais impactadas.

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