O CRESCIMENTO DO VOLUME DE RESÍDUOS SÓLIDOS, OU RELEMBRANDO “SIMPLESMENTE AMOR”

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Nos últimos posts eu apresentei uma série de argumentos sobre os problemas dos resíduos sólidos, notadamente no tange ao aumento dos custos de coleta, processamento e destinação dos resíduos – a implantação da Política Nacional de Resíduos Sólidos, a meu ver, precisa ser precedida de soluções para a questão do financiamento da gestão antes de ver lograr os avanços previstos no texto. Se a sociedade não encontrar uma solução para o financiamento desse aumento nos custos, poucos avanços na questão dos resíduos sólidos serão conseguidos.

Deixe-me relembrar uma cena de uma ótima comédia inglesa de 2003, Simplesmente Amor, para entendermos como vem se dando o crescimento do volume de resíduos sólidos em nossa sociedade:

O personagem vivido pelo saudoso Alan Rickman (o eterno Professor Severus Snape da saga Harry Potter) quer comprar um colar dourado para sua amante – o vendedor é Rowan Atkinson, mais conhecido pelo seu personagem Mr. Bean: é claro que só poderia acabar em confusão. Apesar da pressa do comprador, o vendedor insiste em embalar devidamente o presente: primeiro, o colar é colocado em uma pequena caixinha de papelão, fechada com um laço dourado; depois, a caixa é colocada em um saco plástico transparente, onde são colocadas mini rosas desidratadas, folhas de pinheiro e pedaços de canela para perfumar – ao final, todo o conjunto ainda seria colocado em uma caixa especial de Natal, forrada com papel dourado. A cena é interrompida pela chegada da esposa do comprador, vivida pela excelente Emma Thompson. A divertida cena, que você pode conferir neste link, mostra os exageros de nossa sociedade na produção dos resíduos sólidos – a simples caixinha de papel, que seria mais do que suficiente para embalar o presente, é envolvida por outras “embalagens” redundantes: o resultado é um volume de resíduos muito maior do que seria razoável.

Quem é da minha faixa etária (ou “otária” como costumo brincar) e viveu sua infância nos idos das décadas de 1960 e 1970, deve se lembrar dos empórios e mercadinhos de bairro, que ainda resistem em alguns lugares, que vendiam cereais e farinhas a granel: arroz, feijão, farinha de mandioca e de milho, lentilha, ervilha, fubá, milho de pipoca e outros – os produtos eram colocados e pesados em saquinhos de papel pardo e, ao se chegar em casa, eram transferidos para latas ou vidros. Outros produtos eram embalados em folhas de jornal. Comprava-se o necessário, na hora certa e gerando-se um mínimo de resíduos, aliás, de fácil decomposição na natureza. Em um período de tempo relativamente curto em termos históricos, houve uma mudança radical nessa forma de se comprar esses produtos: embalagens plásticas lacradas em fábrica, algumas vezes colocadas dentro de uma caixa de papelão, são colocadas à venda nas prateleiras de um supermercado. Uma pessoa que mora sozinha, fato aliás cada vez mais comum, que precisaria de uma pequena quantidade de um cereal ou farinha, é obrigada a comprar um pacote fechado de 500 gramas ou 1 kg – não é incomum ter de se jogar fora uma parte destes pacotes, que acabam estragando nos armários pela demora no consumo. Essa mudança na apresentação dos produtos ao consumidor ilustra o crescimento no volume de resíduos gerados em nossas casas – inclusive com uma porcentagem cada vez maior de materiais plásticos.

Pesquisas recentes vêm mostrando um crescimento do volume de resíduos sólidos numa taxa superior ao crescimento da população: entre 2003 e 2014 houve um aumento de 29% na geração de resíduos no Brasil, enquanto o crescimento da população no mesmo período foi de apenas 6%. Atualmente, cada brasileiro gera em média 1,062 kg de lixo por dia. Em termos bastante simplistas, cada prefeitura brasileira viu o volume de resíduos sólidos crescer aproximadamente 29%, com o crescimento proporcional dos respectivos custos, enquanto que o número de potenciais pagadores de impostos e de taxas cresceu apenas 6%. É fácil perceber que há um descompasso entre receitas e despesas, que terá de ser de financiado de alguma maneira: ou se aumenta o valor dos impostos e taxas para compensar o aumento dos custos ou se reduz o volume de resíduos gerados. Melhor que tudo, seria procurar aumentar a eficiência do sistema como um todo, fazendo todas as engrenagens trabalharem melhor na coleta, processamento e destinação dos resíduos sólidos: é capaz até de começar a sobrar recursos…

Existem poucas coisas imutáveis em nosso mundo – as operações matemáticas de soma e multiplicação são algumas delas: quando a conta não fecha é sinal que ocorreu algum erro na operação.

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