ASSEMBLEIA NACIONAL DA FRANÇA DEBATE A PROIBIÇÃO DOS VOOS DOMÉSTICOS NO PAÍS

Quem é leitor habitual do blog, muito provavelmente, deve estar estranhando o título da postagem de hoje. Nas últimas semanas falamos bastante dos impactos da Covid-19 na produção agrícola em diversos países e depois passamos a falar de outros problemas associados aos solos como a desertificação

Então, saindo do nada, aparece uma postagem falando de voos domésticos na França. Eu explico. 

Em mais um movimento político estranho para um momento tão complicado da humanidade, o Presidente da França, Emmanuel Macron, está capitaneando as forças políticas do país no sentido de aprovar uma nova legislação que restrinja o número de voos domésticos dentro da França. De acordo com o projeto em debate, voos domésticos com duração menor que duas horas e meia, e cujos trajetos possam ser feitos através de trens poderão ser proibidos. O objetivo da nova política é reduzir as emissões de carbono dos aviões. 

Desde o início da pandemia, com as inúmeras restrições que foram criadas para impedir a circulação de pessoas entre os países e, assim, diminuir as chances de propagação da Covid-19, as emissões de carbono produzidas pela aviação comercial foram reduzidas em cerca de 60% no mundo. Somente nos Estados Unidos, um dos maiores mercados da aviação comercial, 8 mil aviões de médio e grande porte estão parados.  

Milhares de funcionários dessas empresas perderam os seus empregos ou fizeram acordos para reduzir drasticamente seus salários. Muito pior – um grande número de empresas está correndo o sério risco de ir à falência devido à queda brutal de suas receitas.  

Mesmo com a maior parte de suas frotas no chão, essas empresas precisam continuar pagando o leasing (sistema de aluguel) das aeronaves, realizar serviços de manutenção para manter os equipamentos com as mínimas condições de operação, pagar pelo “estacionamento” e segurança dos aviões, entre outras despesas fixas. Ou seja – as empresas não estão faturando quase nada, mas precisam continuar gastando, e muito. 

O Presidente Emmanuel Macron, como todos devem se recordar de postagens já publicados aqui, resolveu se tornar uma espécie de paladino da causa ambiental mundial desde de 2019. Naquele ano, em meio às grandes queimadas que estavam assolando grandes extensões do Cerrado e de partes da Amazônia, Macron resolveu elevar a sua voz em defesa da “Nossa Amazônia” – chegou inclusive a defender o uso de armas nucleares contra o Brasil caso o nosso país não tomasse medidas para conter essas queimadas. 

Há poucas semanas atrás, o mesmo Macron passou a defender uma “ridícula” proposta para o aumento substancial da produção de soja dentro do território francês, tornando o seu país autossuficiente em relação à soja brasileira. Segundo o discurso do líder francês, essa medida vai evitar a compra de soja produzida em “terras onde a Floresta Amazônica foi queimada”. Agora, seguindo nessa mesma direção, a França quer assumir mais uma vez o protagonismo na defesa do meio ambiente proibindo os voos regionais. 

Qualquer pessoa de bom senso, grupo do qual eu imagino fazer parte, sabe da importância e da urgência na defesa dos recursos naturais do nosso planeta. As postagens aqui do blog, que são voltadas quase que exclusivamente a temas de educação ambiental, são uma prova dessa preocupação.  

Agora, a forma demagógica como muitos líderes mundiais, celebridades e outros famosos agem, não ajuda a resolver os problemas reais das florestas e de outras áreas ameaçadas. Muito pior – acabam prejudicando muita gente que está trabalhando sério para resolver o problema. Outro grave problema dessa medida polêmica é que “faltou combinar com os russos”, como diria o nosso eterno Garrinha, assim como com os alemães, ingleses, italianos, espanhóis e demais países da Comunidade Europeia. 

A proposta em debate na Assembleia Nacional da França, por mais louvável que sejam as suas intenções no combate aos graves problemas ambientais criados pelas emissões de gases de efeito estufa, vem numa hora totalmente errada. Uma prova da demagogia da proposta – estão sendo previstas uma série de brechas na nova legislação para prejudicar o mínimo possível a Air France, a grande empresa de aviação da França. Ou seja: “o pau que bate em Chico não é o mesmo que bate em Francisco”… 

O movimento ambientalista começou a ganhar força e visibilidade na década de 1960 após o lançamento do livro “Primavera Silenciosa” de Rachel Carson. De lá para cá, aos trancos e barrancos, o movimento foi ganhando força e já há muito tempo deixou de ser apenas uma ideia utópica de hippies. Governos e empresas vêm se engajando cada vez mais na criação de políticas e produtos que garantam uma sustentabilidade ambiental cada vez maior. 

Os carros elétricos e híbridos, citando um exemplo, já são uma realidade. Com o rápido desenvolvimento da tecnologia, os veículos com motores de combustão interna estão a cada dia mais próximos do seu fim. Essa mesma tecnologia está chegando na aviação e já existem aeronaves em operação que usam exclusivamente motores elétricos e ou sistemas híbridos. 

Um exemplo que talvez a maioria não conheça – desde 2019, a Embraer, terceira maior fabricante de aviões do mundo e, bem por acaso, empresa brasileira, está trabalhando no desenvolvimento de um avião com propulsão híbrida – com motores convencionais de combustão interna e elétricos, a pedido da FAB – Força Aérea Brasileira. A imagem que ilustra esta postagem mostra uma concepção artística da nova aeronave. Com capacidade para transportar 30 passageiros ou 3 toneladas de carga, o Stout (Short Take Off Utillity Transport ) terá emissões de carbono entre 30 e 40% menores que aviões similares como o Bandeirante e o Brasília, modelos usados atualmente pela FAB, e poderá já estar voando em 2025. 

Assim como a Embraer, outras empresas aeronáuticas de todo o mundo têm feito o seu “dever de casa” e, muito provavelmente, viagens em aviões elétricos ou com propulsão a hidrogênio com baixíssimas emissões de gases de efeito estufa farão parte de nossas vidas em 15 ou 20 anos. Muito melhor – essa mudança será lenta e gradual como a que vem sendo observada nos automóveis, dando tempo para empresas fabricantes, companhias aéreas, trabalhadores, aeroportos e usuários se adaptem às mudanças. 

Um outro detalhe que chama a atenção nessa história – o Governo da França é um dos maiores acionistas do Consórcio Europeu Airbus, maior fabricante de aviões do mundo na atualidade. A Airbus, aliás, está desenvolvendo um belo projeto de um grande avião comercial com propulsão a hidrogênio, que poderá estar voando a partir de 2035. Ou seja – sem sobressaltos e canetadas, a aviação está evoluindo naturalmente no caminho da sustentabilidade ambiental. Será que é tão difícil assim para esses políticos franceses perceberem que estão dando um tiro no próprio pé apenas por demagogia ? 

Se a preocupação do Governo francês é reduzir a emissão de gases de efeito estufa no país, existe um jeito bem mais fácil e rápido – basta proibir a circulação das centenas de milhares de automóveis com motores a diesel altamente poluentes nas ruas da França. Para completar, criem-se linhas de financiamento de longo prazo e juros baixos para que esses motoristas comprem carros elétricos.  

O problema seria resolvido rapidamente, porém, não haveria o circo e a plateia que medidas populistas costumam criar… 

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