GAUMUKH, A ”BOCA DA VACA”

Nessa sequência de postagens, estamos falando dos graves riscos de derretimento de importantes geleiras em altas montanhas, uma situação que está colocando as nascentes de importantes rios sob forte risco de desaparecimento. Mostramos alguns casos na Cordilheira dos Andes, a maior cadeia de montanhas da América do Sul, nas Montanhas Ruwenzori da África e na região da Cordilheira do Himalaia, as grandes montanhas da Ásia. 

Na postagem de hoje gostaria de ser um pouco mais objetivo e mostrar a situação real das nascentes do rio Ganges, o maior e mais importante rio do Subcontinente Indiano, responsável pelo abastecimento de mais de 500 milhões de pessoas na Índia e em Bangladesh. A geleira da nascente principal do rio é considerada sagrada por muitos indianos (como aliás acontce com quase tudo no país) e está desaparecendo a “olhos vistos”. 

No alto da Cordilheira do Himalaia, no Norte da Índia, existe uma gruta sob uma geleira. Os locais chamam o lugar de Gaumukh, palavra que significa “boca da vaca”, nome que passou a identificar a geleira. De acordo com a crença popular, é nesse local que a deusa Ganga assume uma forma física, que é representada pelas águas de degelo que ali se formam e que vão correr montanha abaixo na forma de um rio. Os populares a chamam de Maa Ganga, o que significa a Mãe Ganga, aquela que provê o sustento para todos os seus filhos. O nome do rio – Ganges, é uma alusão direta ao nome da deusa. 

O rio Ganges percorre cerca de 2.500 km, cortando todo o Norte da Índia até atingir a região do seu delta em Bangladesh. Ao longo desse caminho, o rio corta inúmeras cidades e provê água para o abastecimento de centenas de milhões de habitantes, além de possibilitar a irrigação de grande parte das plantações que sustentam a toda essa gente. O “sustento” que é citado na lenda é literal. 

Em meio ao clima semiárido de grandes extensões do Norte da Índia, o rio Ganges é, em muitos casos, a única fonte de água perene disponível para a população. As águas do rio Ganges são as que mais carregam sedimentos entre todos os rios do mundo, sedimentos que se depositam nas margens do rio, especialmente nas Planícies Indo-Gangéticas, a região mais densamente povoada e considerada o celeiro da Índia. Esses sedimentos são ricos em nutrientes naturais e elementos químicos como fósforo e enxofre, que fertilizam as terras e garantem boas colheitas

Aos caudais permanentes que escorrem das geleiras nas Montanhas Himalaias se juntam as águas das chuvas da temporada das Monções, um ciclo de grande abundância de águas e regulador da vida das populações locais há milhares de anos. Com a cheia dos rios, grandes volumes de sedimentos são carreados para as terras baixas das planícies e vão fertilizar esses solos para o período de plantio. A camada de argila que se acumula sobre os solos é chamada pelos locais de “terra dos deuses”. 

Uma das culturas mais tradicionais dessas planícies é o arroz, que é semeado entre os meses de junho e setembro, acompanhando o recuo das águas das enchentes. Também são essenciais as plantações de rajma, os feijões vermelhos, trigo, cevada, lentilha, milho, batatas, frutas, verduras e flores, além de uma infinidade de ervas, fungos e especiarias essenciais para a culinária indiana. Ao redor dessas plantações são criados milhões de animais como vacas, búfalos, ovelhas, cabras, cavalos, porcos, galinhas, frangos e outras aves. 

Fugindo um pouco dos aspectos físicos da geografia do rio Ganges, algo que todos nós conseguimos entender e confirmar a importância, também existe um lado espiritual dessas águas que foge completamente à nossa compreensão. Para os povos locais, principalmente da maioria hindu, as águas do rio Ganges são as mais sagradas do mundo. 

Um exemplo da fé religiosa dos hindus é repetida todos os anos numa perigosa jornada que leva centenas de milhares de pessoas até a região das nascentes do rio Ganges em Gangotre. Eles enfrentam algumas das estradas mais perigosas do mundo, vias que, em muitos trechos, não passam de um simples recorte nas encostas rochosas, tendo os altos paredões das Himalaias de um lado e profundos abismos do outro. A indestrutível fé destes crentes é o combustível que os move rumo a uma altitude de mais de 3.000 metros na busca das puras águas das nascentes do Ganges. 

Essa mesma devoção às águas sagradas do Ganges também pode ser vista na morte, quando os crentes se dirigem para locais sagrados nas margens do rio para lançar nas águas as cinzas de seus familiares mortos. A cidade de Varanasi é um desses lugares, sendo considerada um dos mais sagrados da fé hindu e o lar espiritual dos mais de 330 milhões de deuses e deusas do panteão local. Famílias de toda a Índia transportam seus falecidos entes queridos até Varanasi para que sejam cremados em cerimônias especiais.  

A cidade também recebe milhares de pessoas idosas e doentes, que almejam passar seus últimos dias na terra às margens do rio Ganges. De acordo com dogmas do hinduísmo, quem morre nas margens do Ganges, em especial na cidade de Varanasi, pode conseguir a salvação final sem ter de enfrentar uma nova reencarnação. 

Um resumo da importância do rio Ganges para os indianos pode ser lido num pequeno trecho de um livro de Jawarharlal Nehru, que foi Primeiro Ministro da Índia nos primeiros anos após a independência do país: 

“O Rio Ganges, acima de tudo, é o rio da Índia, que manteve cativo o coração da Índia e atraiu incontáveis milhões às suas margens desde a alvorada da história. A história do Ganges, de sua fonte ao mar, dos tempos antigos aos modernos, é a história da civilização e da cultura da Índia, da ascensão e queda de impérios, de cidades grandes e orgulhosas, de aventuras do homem.” 

Pois bem – desde a década de 1940, a geleira de Gaumukh (vide foto) sofreu um recuo de quase 3 km, além de perder quase 1 km na sua espessura. Esse fenômeno, conforme comentamos em outras postagens, está sendo observado em diversas geleiras da Cordilheira do Himalaia. De acordo com estudos realizados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU – Organização das Nações Unidas, as geleiras dos Himalaias, onde se encontram as nascentes dos maiores rios da Ásia, podem começar a desaparecer a partir do ano de 2.035 devido ao aquecimento global e as mudanças climáticas.  

O iminente desaparecimento da geleira Gaumukh e de outras formadoras de nascentes não representará de imediato o fim do rio Ganges. Enquanto os fortes ventos da temporada das Monções empurrarem as grandes massas de nuvens na direção das encostas das Montanhas Himalaias, as chuvas cairão em abundância e as águas ocuparão a calha e as planícies ao longo do rio Ganges. Os problemas ficarão por conta do período das secas, onde a calha do rio poderá ficar completamente sem água – o Ganges poderá se transformar num enorme rio de águas temporárias. 

Também precisamos lembrar que o mesmo aquecimento global que está ameaçando as geleiras das altas montanhas também representa uma grande ameaça para o regime dos ventos e correntes marítimas do Oceano Índico. Medições sistemáticas das temperaturas das águas desse oceano, que vêm sendo realizadas desde o final do século XIX, têm indicado um aumento gradual da temperatura das águas nas últimas décadas. Uma das consequências visíveis dessas mudanças são variações nos padrões das chuvas da Monção – em algumas regiões houve um aumento das chuvas e em outros uma diminuição. 

A questão é particularmente preocupante porque alguns dos principais rios da Ásia têm suas nascentes nas geleiras do Himalaia e são responsáveis pelo abastecimento de mais de 2 bilhões de pessoas em diversos países.  

Que os deuses do grande panteão hindu nos protejam! 

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