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Posts de ferdinandodesousa

Escritor, jornalista, gestor e educador ambiental. Especialista em projetos de comunicação social e de educação ambiental.

O USO DOS PISCINÕES NO COMBATE ÀS ENCHENTES DAS GRANDES CIDADES

Praça Charles Miller

A construção de cisternas subterrâneas para o armazenamento das águas das chuvas vem sendo feito há milhares de anos em diferentes cantos do mundo. Um exemplo é Jerusalém, cidade sagrada para judeus, cristãos e muçulmanos. Existem diversas cisternas para o armazenamento de água nos subsolos da cidade e, de quando em vez, os arqueólogos encontram novas estruturas. Em 2012, foi encontrada uma cisterna com capacidade para armazenar 250 m³ de água nas proximidades das ruínas do Templo de Salomão, construída há mais de 2.500 anos. 

Outro fabuloso exemplo são as Cisternas da Basílica, em Istambul, na Turquia, também conhecidas em turco como Yerebatan Sarnıcı ou Yerebatan Sarayı. Construídas no século VI da Era Cristã, essas estruturas ocupam uma área total de 10 mil m² e têm capacidade para armazenar até 30 milhões de m³ de água. O desfecho do filme Inferno, baseado no livro homônimo de Dan Brown (do Código Da Vinci), se passa nessas cisternas. 

A partir dessa ideia ancestral de cisternas subterrâneas para o armazenamento de água das chuvas para o abastecimento de populações na antiguidade, surgiu a ideia da construção dos piscinões para o combate das enchentes nas modernas cidades brasileiras. O conceito é simples – cria-se um reservatório subterrâneo para o armazenamento temporário de grandes volumes, o que alivia a pressão sobre os canais naturais de drenagem de águas pluviais. Passado o período crítico das chuvas, bombas de recalque começam a bombear a água armazenada nesses depósitos na direção dos canais de drenagem, preparando o piscinão para a próxima enchente. 

A primeira estrutura do tipo foi construída na Praça Charles Miller, no charmoso bairro do Pacaembu, cidade de São Paulo, em 1995. É nesse mesmo endereço que encontramos o Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho, mais conhecido pelos paulistanos com Estádio do Pacaembu. Poucos anos atrás, foi instalado nesse Estádio o Museu do Futebol, o que consolidou de vez o local como um dos grandes pontos turísticos da cidade de São Paulo. A Praça Charles Miller já era notória entre os cidadãos da cidade, porém por uma característica das mais negativas – bastava uma chuva mais forte para os alagamentos tomarem conta do local. 

O bairro do Pacaembu nasceu em 1925, quando a famosa Companhia City, empresa inglesa de arquitetura, iniciou o loteamento e a urbanização da região. Uma das primeiras ações da empresa foram os trabalhos de drenagem e aterro de grandes áreas, que culminaram com a canalização do ribeirão Pacaembu e a construção da avenida homônima, até hoje a principal via do bairro. Foi a Companhia City quem doou para a Prefeitura de São Paulo, em 1935, o terreno de 75 mil m² onde seria construído o famoso Estádio do Pacaembu, inaugurado em 1940 (vide foto).  

Além da criação de um dos bairros mais charmosos da cidade, as ações da City, involuntariamente, acabaram por consolidar todo um ambiente favorável à formação de fortes enxurradas em dias de chuva, com a formação de enchentes violentas na parte baixa do bairro onde fica a Praça Charles Miller

O famoso “endereço” das enchentes criou transtornos no bairro por várias décadas até que, em 1993, as autoridades da Prefeitura e do Governo do Estado juntaram forças e iniciaram as obras de um gigantesco reservatório subterrâneo com capacidade para armazenar 75 milhões de litros de água das chuvas. O projeto pioneiro na cidade, mais conhecido Piscinão do Pacaembu, foi inaugurado em 1995 e se transformou rapidamente numa referência no combate de enchentes localizadas. Até a data de hoje, já foram construídos 27 piscinões na cidade de São Paulo e existe uma forte demanda reprimida para mais algumas dezenas dessas estruturas.  

O grande desafio para a construção do Piscinão do Pacaembu não foi exatamente na área de engenharia, mas na área da burocracia – tanto o Estádio do Pacaembu quanto a Praça Charles Miller eram construções tombadas pelo Conselho do Patrimônio Histórico e Cultural da cidade e, por este motivo, não poderiam sofrer qualquer tipo de intervenção. Foram necessárias incontáveis reuniões e acordos entre todas as partes envolvidas no processo para que se autorizasse o início das obras. Todo esforço acabou valendo a pena! 

Cerca de dez anos atrás, eu trabalhei em obras para a ampliação da rede coletora de esgotos em alguns bairros de São Paulo. Para fazer qualquer tipo de intervenção nos solos da cidade, indo da instalação de redes de água até cabos subterrâneos de energia elétrica, é necessário entrar com um pedido da construtora ou concessionária na Prefeitura da Cidade. Naquela época, nossos pedidos para a realização de obras em bairros da periferia levavam de 4 a 7 meses apenas para a análise dos técnicos e um período semelhante para a liberação do alvará. Imaginem então o tempo que seria necessário para analisar e liberar uma obra de grande porte em áreas tombadas pelo Patrimônio Histórico… 

Como temos comentado ao longo dessa série de postagens, o crescimento das cidades e a constante impermeabilização dos solos urbanos com concreto, asfalto e edificações de todo o tipo, a canalização indiscriminada de córregos e riachos e os desmatamentos, criam as condições ideais para a formação de grandes pontos de alagamentos nas cidades, com riscos tanto materiais quanto para a segurança dos moradores. Cada vez mais serão necessários estudos e projetos urbanos que visem a criação de pontos de retenção e acúmulo temporário de águas pluviais como os piscinões, evitando assim a formação das enchentes nos pontos mais baixos. 

Piscinões subterrâneos, como o que foi construído sob a Praça Charles Miller, são exemplos práticos de como resolver os problemas extremos provocados pelas enchentes nas cidades – na falta de áreas livres para a construção dos dispositivos em meio ao disputado espaço nos centros urbanos, o subsolo de praças e avenidas pode ser utilizado para as construções, restaurando-se posteriormente os espaços, que voltarão rapidamente para o uso pela população da cidade. 

Em diversos pontos críticos da cidade de São Paulo onde já foi possível a construção dos piscinões, a ocorrência de enchentes ou foi eliminada ou foi fortemente reduzida. Apesar dos grandes benefícios gerados por esse tipo de obra, elas têm um gravíssimo “defeito de nascença” – obras subterrâneas são consideradas invisíveis por muitos políticos e, portanto, tem pouco potencial para a geração de votos. Obras vistosas como pontes, avenidas e hospitais têm muito maior visibilidade e potencial para gerar votos. Para muitos desses políticos, enchentes são apenas “desastres naturais”

Em 2017, foi inaugurado o Piscinão Guamiranga, no bairro da Vila Prudente – Zona Leste da cidade, que tem capacidade para armazenar 850 milhões de m³ de águas pluviais. Esse piscinão fica dentro da bacia hidrográfica do rio Tamanduateí, uma das regiões que mais sofrem com as enchentes em São Paulo. Apesar do tamanho colossal desse piscinão, seriam necessárias outras 58 estruturas desse mesmo porte apenas para substituir as perdas de áreas de várzea devido à construção das Marginais Tietê e Pinheiros e também da Avenida do Estado, de acordo com minhas estimativas. Isso dá uma ideia do quanto ainda precisamos avançar para resolver o problema das enchentes em São Paulo, quiçá em outras grandes cidades brasileiras. 

Em tempo: o paulistano Charles Miller (1874-1953) foi o responsável pela introdução do futebol no Brasil em 1895 e nada mais natural que homenageá-lo batizando com seu nome a praça onde fica o estádio de futebol mais tradicional da cidade. Já os políticos que não se esforçam para aumentar o número de piscinões na cidade, esses merecem um belo “cartão vermelho” por parte da população. 

UMA “VÁRZEA VIRTUAL” PARA O TIETÊ E OUTROS RIOS BRASILEIROS

Rio Tietê no passado

Na última postagem falamos de uma série de mudanças urbanísticas que estão sendo implementadas em Seul, a capital da Coreia do Sul. Com quase 10 milhões de habitantes, Seul tem problemas bastante parecidos com os da cidade de São Paulo – entre eles as enchentes e as Ilhas de Calor Urbanas.  

Uma das mais fantásticas “terapias urbanas” realizadas na cidade foi a reabertura do Cheonggyecheon, um rio do centro de Seul que havia sido canalizado na década de 1960 e que foi transformado em um maravilhoso parque linear. Uma outra frente de trabalho dos coreanos é a construção de túneis ao largo do rio Han, que receberão futuramente as pistas das avenidas marginais de Seul – com a liberação dos terrenos, os solos voltarão a ser cobertos com vegetação. 

A canalização indiscriminada de córregos, riachos e rios nas grandes cidades, para a construção de avenidas de fundo de vale, está entre os principais problemas que levam a formação de enchentes durante as chuvas de verão. Citando um exemplo: durante a administração do Prefeito Francisco Prestes Maia, entre 1938 e 1945, a cidade de São Paulo teve 4 mil km lineares de córregos, riachos e rios canalizados e transformados em avenidas. Esse tipo de intervenção urbana é comum nas grandes cidades brasileiras. 

Entre as grandes avenidas construídas nas áreas de várzea da cidade de São Paulo, vou destacar três: a Marginal Tietê, a Marginal Pinheiros e a Avenida do Estado. Essas avenidas ocuparam, respectivamente, áreas de várzea dos rios Tietê, Pinheiros e Tamanduateí, os três principais rios do Planalto de Piratininga. A foto que ilustra esta postagem mostra a várzea do Tietê cheia no início da década de 1940, onde se vê, inclusive, mulheres lavando roupas nas águas limpas do rio.

Estudando antigos mapas da cidade de São Paulo da década de 1920, época em que esses rios ainda corriam “livres” ao longo de suas calhas sinuosas e cercadas por vegetação, eu calculei que aproximadamente 50 km² de áreas de várzea foram perdidas após os trabalhos de retificação das calhas dos rios, aterro e ocupação urbana. Essa é uma estimativa pessoal, uma vez que nunca encontrei em literatura a medida exata dessas áreas perdidas na Pauliceia “desvarzeada” (brinco aqui com o título do antológico livro de poemas “Pauliceia Desvairada” de Mario de Andrade, publicado em 1922) . 

Em rios de planalto, as áreas de várzea oferecem um espaço alagável para os períodos de chuva dos verões, quando as calhas não conseguem comportar toda a água das chuvas. Essas áreas assumem características semelhantes ao Pantanal Mato-grossense e, com o final das chuvas, lentamente vão secando. De acordo com fontes históricas, as áreas de várzea dos rios paulistanos abrigavam jacarés-do-papo-amarelo, garças, cervos do pantanal, capivaras, macacos, onças e tamanduás, entre outros animais, o que lhe dava um verdadeiro ar de mini pantanal. 

Se, num exercício rápido de matemática, imaginarmos que toda essa área alagável acomodasse uma lâmina de água com 1 metro de profundidade durante o período das cheias de verão, chegaremos a um volume total de 50 milhões de m³ de água. Somente com a apresentação desse impressionante número, fica fácil entender porque a cidade fica inundada nos dias em que é assolada pelas fortes tempestades de verão. Além da perda dessa área de várzeas, a cidade também teve uma grande parte dos seus solos impermeabilizados com concreto, asfalto e construções, além de ter perdido extensa áreas de mata. Sem possibilidade de infiltração nos solos, a quase totalidades das águas pluviais corre rapidamente na direção dos canais de drenagem.

Você não precisa ser um expert em recursos hídricos para concluir que é necessário recompor artificialmente essa área perdida das várzeas para recuperar a capacidade dos nossos rios em absorver e acomodar os excedentes de águas pluviais nos meses de verão. Eu chamo isso de criação de várzeas virtuais

Dadas as dificuldades orçamentárias e políticas aqui em nosso país, eu acho muito difícil, no curto e no médio prazo, conseguirmos reabrir córregos e riachos já canalizados em nossas cidades ou construirmos grandes túneis para substituir avenidas como as Marginais Tietê e Pinheiros e Avenida do Estado. Aqui na cidade de São Paulo, até já foi possível restaurar um trecho do Córrego da Coruja, na Vila Madalena, e do Córrego Pirarungauá, no Jardim Botânico da cidade. Nada mais do que isso. 

Mesmo sem contar com essas alternativas, existem várias formas de se criar as tais “várzeas virtuais”. Vejam: 

  • O Laboratório de Tecnologia de Pavimentação da USP – Universidade de São Paulo, criou, há quase 10 anos, o CPA – Camada Porosa de Asfalto. Esse revestimento é um asfalto absorvente de água, feito usando pedras de brita maiores, onde existem espaços ocos entre as pedras. Essa característica permite que o asfalto armazene um volume de água equivalente a 25% de seu volume total. Essa água fica retida dentro da camada de asfalto por até 3 horas e, só então, começa a escorrer na direção dos canais de drenagem. Esse tempo em que a água fica retida é essencial para permitir a drenagem do excedente de águas pluviais e evitar alagamentos localizados. De acordo com informações dos pesquisadores, esse asfalto tem um custo 30% maior que o asfalto convencional; 
  • Uma outra ideia que segue nesta mesma linha é o concreto permeável, que poderia ser largamente utilizado na construção de calçadas de passeios públicos, praças e até mesmo em quintais de edifícios e casas. A diferença principal na produção deste tipo de concreto em relação ao concreto convencional é que na mistura não entra o chamado agregado fino ou areia. Graças a isso, o concreto fica altamente poroso, permitindo que a água da chuva atravesse facilmente a camada pavimentada e consiga infiltrar nos solos; 
  • Outra alternativa de fácil implantação nas casas dos moradores de uma cidade são as caixas de detenção provisória. Falamos aqui de caixas d’água plásticas no formato de uma pequena torre (3 metros de altura, 1 metro de largura e 0,5 metro de profundidade), ligadas na saída das calhas do telhado. Essa caixa tem capacidade para armazenas 1,5 m³ de água ou o equivalente a 1.500 litros. Na base da caixa existe um pequeno furo que libera a água lentamente, o que ajuda muito os sistemas de drenagem locais. O morador da casa também teria a opção de manter essa água armazenada para usos onde não há necessidade de água potável como a lavagem de quintais, automóveis e motos;
  • Finalmente, temos os piscinões, gigantescos depósitos subterrâneos de águas pluviais, que permitem o armazenamento temporário de grandes volumes. A cidade de São Paulo já possui 27 desses equipamentos, sendo que o maior deles tem capacidade para armazenar mais de 900 mil m³ de água. Na próxima postagem falarei mais demoradamente sobre essse dispositivos.

Observem que são ideias simples, que podem ser implantadas lentamente nas cidades. Calçamentos e revestimentos asfálticos, por exemplo, precisam ser refeitos de tempos em tempos e essas alternativas com materiais porosos poderiam ser usadas nesses trabalhos. 

Além dessas alternativas indicadas para o Poder Público, os cidadãos podem ser estimulados a remover calçamentos e revestimentos dos seus quintais e, no seu lugar, plantar grama, flores, plantas ornamentais, árvores frutíferas ou, até mesmo, criar uma pequena horta. Cada metro cúbito de água que deixa de seguir pelos canais de drenagem de águas pluviais das cidades vai fazer diferença no combate às enchentes e alagamentos localizados. 

A REVOLUÇÃO URBANA EM SEUL E SEU EXEMPLO PARA AS GRANDES CIDADES BRASILEIRAS, OU FALANDO DOS RIOS CHEONGGYECHEON E HAN

Antigo rio Cheonggyecheon

O surpreendente filme sul coreano “Parasita”, que acabou de ser premiado com o Oscar de Melhor Filme de 2020, mostra uma cena muito familiar a muitos moradores de cidades grandes como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte – uma forte enxurrada de água barrenta descendo pela escadaria de um bairro inundado de Seul. Um pai e seus dois filhos correm sob uma chuva torrencial e quando finalmente conseguem chegar em casa, encontram uma inundação com água até a cintura, com móveis e objetos flutuando.  

Depois de colocar os poucos pertences pessoais que conseguiram salvar sobre uma porta flutuante, eles saem andando por uma rua alagada até um ginásio próximo, onde vão passar a noite com outras centenas de desabrigados. Muito mais do que ficção cinematográfica, essas cenas ainda fazem parte da vida de muitos dos moradores da grande capital da Coreia do Sul e da sua Região Metropolitana. 

Seul é pouca coisa menor que a cidade de São Paulo. A cidade tem 10 milhões de habitantes e fica no coração de uma Região Metropolitana onde vivem 25 milhões de pessoas. As enchentes na região de Seul são históricas e aumentaram exponencialmente nas últimas décadas devido ao forte crescimento populacional. Os problemas começaram ainda na década de 1950, quando a Guerra da Coreia (1950-1953) trouxe para o Sul centenas de milhares de famílias refugiadas do Norte. Para completar o caótico quadro ambiental, a cidade vem enfrentando fortíssimas ondas de calor no verão, como as que aconteceram em 2012, 2015 e 2017. 

Em julho de 2003, urbanistas apresentaram um projeto revitalizar a área central de Seul, como parte de um vasto projeto de revitalização urbana, com o objetivo de tornar a cidade moderna e ecologicamente correta. O plano previa a remoção de uma via elevada e a reabertura e revitalização do Cheonggyecheonum rio que foi canalizado na década de 1960. Num trabalho de 2 anos e custo de US$ 280 milhões, o viaduto foi demolido e o rio foi recuperado e transformado em um impressionante parque urbano linear de 5.8km de extensão, 400 hectares e 80 metros de largura – 30 mil pessoas visitam o parque a cada fim de semana. Para que vocês tenham noção do tamanho da obra, somente a demolição do viaduto gerou 600 mil toneladas de entulho – 75% deve entulho foi reciclado e utilizado na construção do parque.  

Rio Cheonggyecheon

O rio Cheonggyecheon é um canal artificial que foi construído durante a Dinastia Joseon (1392-1410) com a função de drenar as águas pluviais e controlar as enchentes da antiga cidade de Seul. A tradução literal do nome do coreano para o português significa “rio das águas límpidas”. Conta-se que na fundação da cidade, os antigos governantes se valeram de princípios do feng chui e construíram as ruas e edifícios alinhados entre montanhas e cursos d’água. Na tradição oriental, o feng chui reúne os conhecimentos das forças necessárias para conservar as influências positivas que supostamente estariam presentes em um espaço e redirecionar as negativas de modo a beneficiar seus moradores. 

Durante centenas de anos, o rio manteve suas características originais como um oásis no centro da cidade de Seul. Com a eclosão da Guerra da Coreia em 1950, Seul foi invadida por milhares de refugiados – as margens do Rio Cheonggyecheon, como mostrado na imagem do alto,  foram transformadas em imensas favelas (algo muito parecido com o que acontece nas grandes cidades brasileiras). Em pouco tempo, as antigas águas límpidas se transformaram num canal de esgotos a céu aberto. 

O rápido crescimento econômico da Coreia na década de 1960, com o natural crescimento da frota de veículos, levou a Prefeitura de Seul a criar o seu plano de novas avenidas, aliás muito parecido com o Plano de Avenidas que o Prefeito Prestes Maia implantou em São Paulo a partir da década de 1930. Entre outras mudanças, a Prefeitura decidiu canalizar o rio Cheonggyecheon, um processo que exigiu o remanejamento de milhares de famílias das suas margens. E mais: sobre o leito canalizado foi construído um extenso viaduto, muito parecido com o Elevado Presidente João Goulart (o popular Minhocão) de São Paulo. 

O crescimento desordenado, o excesso de carros e a poluição do ar degradaram imensamente a região central de Seul. Eliminar uma via elevada desse tamanho na área central da cidade traria, provavelmente, grandes problemas para o trânsito da cidade. A Prefeitura fez grandes investimentos em faixas exclusivas para ônibus e campanhas para estimular o uso de transportes coletivos. Contrariando as expectativas de muitos, a população passou a usar ônibus e metrô – os coreanos redescobriram o prazer de caminhar pelo centro da cidade. Muitos comerciantes reclamam de queda nas vendas pela falta dos carros, mas a maioria esmagadora da população gostou da mudança e do renascimento do rio. 

Um outro trabalho fabuloso que vem sendo desenvolvido na Região Metropolitana de Seul é a revitalização do rio Han, o Tietê coreano. Todo o crescimento desordenado vivido pela Região transformou o rio em uma vala de esgotos a céu aberto, uma saga que nós brasileiros conhecemos bem. O projeto de despoluição do rio teve início em meados da década de 2000 e tem previsão de estar totalmente concluído no ano de 2033. Uma das primeiras providências efetivas foi o início do controle da qualidade das águas dos 40 córregos e riachos que atravessam a cidade de Seul e desaguam no Rio Han – a cidade possui seis Estações de Tratamento de Esgotos e era preciso garantir que nenhum lançamento irregular atingisse o Han. Outra providência importante foi a proibição da instalação de qualquer tipo de empresa poluidora ao longo das margens do rio. 

Uma segunda frente de trabalho está aproximando os moradores da cidade do seu rio – entre parques novos e reformados já são 12 unidades nas margens do rio – um deles, o Seul Forest tem 1 milhão de metros quadrados, tamanho equivalente ao Parque do Ibirapuera em São Paulo. As margens do Rio Han foram dotadas de espaços públicos para corridas, ciclovias, áreas de piquenique, além de toda uma gama de esportes náuticos realizados dentro das águas do rio. Passeios de barco e restaurantes flutuantes transformaram as águas do Han num ambiente para passeios das famílias

Rio Han

Apesar de já se encontrarem num estágio que provoca inveja em nós brasileiros, os coreanos pensam grande: querem elevar as áreas naturais que hoje ocupam 14% das margens do Rio Han para impressionantes 90%. Como? Construindo túneis que possam substituir as atuais vias marginais, muito parecidas com as Marginais Tietê e Pinheiros de São Paulo, liberando assim os espaços hoje ocupados pelas pistas para a implantação de áreas cobertas por vegetação, facilitando ainda mais o acesso e a aproximação dos moradores de Seul de seu rio

Essas e muitas outras iniciativas já em andamento visam aumentar a permeabilidade e revegetação de grandes áreas de solo, com o duplo objetivo de diminuir os impactos das fortes chuvas de verão e de reduzir gradativamente os grandes efeitos de Ilha de Calor Urbano em Seul e cidades vizinhas. 

Grandes cidades brasileiras como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Recife sofrem imensamente, ano após ano, com as chuvas e enchentes de verão e sofrerão cada vez mais com as consequências dos efeitos das Ilhas de Calor Urbano. A revolução urbana que Seul vem implementando nos últimos anos é um exemplo de mudança que nós podemos seguir aqui no Brasil. 

AS ILHAS DE CALOR URBANAS, AS CHUVAS, AS ENCHENTES E OUTROS PROBLEMAS AMBIENTAIS

Ilha de Calor Urbana

Você já teve a sensação que as chuvas nas grandes cidades brasileiras estão ficando mais fortes a cada ano que passa? 

Uma série de fatores vêm provocando um aumento gradativo das enchentes nas grandes cidades e falamos muito sobre eles nas últimas postagens: desmatamentos, impermeabilização dos solos, ocupação de encostas de morros e áreas de várzea, canalização indiscriminada de córregos e riachos, entre outros. A soma de todos esses fatores tem provocado uma redução dos volumes de águas pluviais que são absorvidos pelos solos e num aumento considerável dos volumes de águas superficiais que correm rapidamente na direção dos canais de drenagem. O resultado são as enchentes cada vez maiores. 

Existe um outro sério problema que vem ocorrendo nas grandes cidades e que tem provocado um aumento no volume das chuvas nos grandes centros urbanos. São as chamadas Ilhas de Calor Urbanas, também conhecidas pela sigla ICU. Esse fenômeno é provocado pela grande concentração de edificações, especialmente nas áreas centrais das grandes cidades, onde são usados materiais como concreto, asfalto, telhas, tijolos e blocos, que absorvem e retém grandes quantidades de calor

Um exemplo de Ilha de Calor Urbano é a zona central da cidade de São Paulo. Se você consultar um mapa, verá que o município de São Paulo tem um formato que lembra a cabeça de um cachorro: o focinho é a Zona Leste, as orelhas são a Zona Norte e o pescoço comprido inclui a Zona Oeste e a Zona Sul, a maior de todas as regiões da cidade. O extremo Sul do município é coberto por uma densa vegetação de Mata Atlântica dentro da região da Serra do Mar, distante mais de 50 km do centro da cidade.  

O extremo Sul do município de São Paulo apresenta temperaturas até 10° C mais baixas que o centro da cidade. Conforme se segue na direção do Centro, as temperaturas vão aumentando progressivamente. Quando alguém sai do Centro da cidade e vai em direção ao extremo da Zona Norte, onde fica a Serra da Cantareira, percebe nitidamente uma redução da temperatura. 

Quando se marca as diferenças de temperaturas nas diferentes regiões de uma grande cidade num mapa usando uma escala de cores entre o azul, para indicar as temperaturas mais baixas, e o vermelho, para indicar as temperaturas mais altas, se encontrará uma sequência de anéis concêntricos, azuis nas bordas e vermelhos no centro. O formato lembrará muito a estrutura de uma ilha oceânica, daí o uso do termo Ilha de Calor. 

Em grandes cidades localizadas em regiões Tropicais e Subtropicais, a concentração da radiação solar nas zonas centrais é mais intensa durante o dia, criando um forte desconforto nos moradores devido as elevadas temperaturas e baixa umidade do ar. Já em grandes cidades localizadas em regiões de clima mais frio nas médias e altas latitudes, a incidência do calor é maior durante a noite, melhorando o conforto térmico e reduzindo a necessidade do uso de aquecedores. Ou seja: nas regiões Tropicais e Subtropicais as cidades estão ficando mais quentes, enquanto que nas regiões de média e alta latitude as cidades estão ficando menos frias.

Um outro efeito importante criado pela diferença de temperatura entre as zonas periféricas e a zona central de uma Ilha de Calor Urbano são as correntes de vento que fluem das bordas em direção ao domo térmico no centro da Ilha. Essas correntes de ar carregam grandes quantidades de unidade das áreas periféricas para o Centro, levando à formação de nuvens pesadas e a fortes precipitações nas áreas centrais. O aumento da quantidade de chuvas é maximizado pela intensa impermeabilização dos solos, pela falta de vegetação, por córregos e riachos canalizados, e também pelas grandes quantidades de resíduos sólidos de todos os tipos que são largados pelas ruas e avenidas pela população. 

A formação das Ilhas de Calor Urbano pode agravar o fenômeno das ondas de calor ou tempo de canícula, que são os períodos de tempo excessivamente quente e úmido em uma região. Esse calor prolongado pode resultar em problemas de saúde na população, especialmente aqueles ligados a termorregulação corpórea e da percepção da necessidade de hidratação. Pessoas idosas e doentes são as mais susceptíveis a esses problemas, que podem inclusive levar a morte. Em 2003, uma forte onda de calor se abateu sobre grande parte da Europa. A França foi o país mais atingido por uma forte canícula, o que resultou na morte de mais de 1.500 pessoas, principalmente idosas, nas grandes cidades francesas entre os dias 3 e 14 de outubro daquele ano

As ondas de calor costumam resultar também em consumos explosivos de energia elétrica por causa do uso intenso de ventiladores e sistemas de ar condicionado, o que muitas vezes pode levar o sistema elétrico de parte das cidades ao colapso – os famosos apagões. Esse alto consumo de energia também pode provocar a sobrecarga e danos em subestações de energia elétrica e em transformadores de força, problemas que podem levar vários dias para serem solucionados. 

A poluição do ar nas grandes cidades, gerada principalmente pelos gases emitidos por automóveis, caminhões, ônibus e chaminés de indústrias, pode amplificar ainda mais os efeitos nocivos das Ilhas de Calor Urbano. O calor intenso provoca uma série de reações químicas entre os diferentes gases presentes na atmosfera, especialmente “as reações fotoquímicas associadas a química dos sulfatos e nitratos, envolvendo a radiação ultravioleta solar e associada a formação do ozônio, um gás altamente reativo e tóxico.” 

O combate à formação das Ilhas de Calor Urbanas será um dos grandes desafios das maiores cidades do mundo neste século. A intensa urbanização vivida nas últimas décadas em todo o mundo levou a formação de grandes aglomerados urbanos. Além de grandes cidades brasileiras que sofrem com enchentes catastróficas como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, podemos citar as problemáticas Mumbai, Nova Déli e Calcutá, na Índia; Bangkok, na Tailândia; Cairo, no Egito; Daca, em Bangladesh; Pequim, Xangai e Guangzhou-Foshan, China; Cidade do México; Nova York e Los Angeles, nos Estados Unidos; Seul, na Coréia; Manila, nas Filipinas; além de Jakarta, na indonésia e Tóquio, no Japão, cidades que já superam a marca dos 35 milhões de habitantes. 

Cada uma dessas cidades, à sua própria maneira, já vem enfrentando as consequências da formação das Ilhas de Calor Urbanas, e cada qual deverá buscar suas próprias soluções para resolver o problema, o que não é nada fácil. A arquitetura dos grandes edifícios precisará ser repensada, buscando-se novas técnicas construtivas e materiais que não retenham grandes quantidades de calor. Os solos precisarão ser permeabilizados, principalmente com a criação de grandes áreas verdes no coração das cidades. Córregos e rios já canalizados precisarão ser novamente abertos e  ter suas margens renaturalizados. Enfim, as grandes cidades precisarão ser repensadas e adaptadas para uma nova realidade climática. 

Um exemplo de cidade que está se reinventando ambientalmente é Seul, a capital da Coreia do Sul, uma cidade com quase 10 milhões de habitantes e encravada no coração de uma Região Metropolitana com cerca de 25 milhões de pessoas. Falaremos dela na próxima postagem. 

OS RESÍDUOS DA CONSTRUÇÃO CIVIL E SEUS IMPACTOS NAS ENCHENTES

Resíduos da construção civil

Resíduos sólidos e águas pluviais são coisas que, definitivamente, não combinam. Grande parte das enchentes de verão que temos assistido nas cidades brasileiras nestas últimas semanas estão ligadas diretamente aos resíduos sólidos descartados de forma incorreta pela população. Arrastados pelas enxurradas, esses resíduos obstruem as bocas de lobo e as tubulações de drenagem das águas pluviais. Também acabam entulhando os canais de córregos e riachos, onde se misturam com areia, cascalho e outros “materiais” jogados pela população, onde se incluem carcaças de automóveis, geladeiras, fogões, móveis, entre outros. 

Uma parte considerável dos resíduos sólidos gerados pelas cidades tem origem na construção civil. Em cidades grandes como São Paulo, o volume total de resíduos da construção civil chega a representar 70% do total de resíduos sólidos e são um dos grandes desafios ambientais urbanos. Boa parte dos resíduos pode ser reciclada e reaproveitada na própria construção civil, porém, grandes volumes desses materiais costumam ser abandonados em calçadas, ruas e terrenos baldios.  

Com a chegada do período de chuvas, parte desses resíduos é arrastada pelas enxurradas e vai causar inúmeros problemas na drenagem de águas pluviais. Também é preciso lembrar que existem muitos resíduos perigosos no meio destes materiais – restos de tintas, produtos químicos, solventes e óleos, que misturados a água podem causar intoxicações em pessoas e animais. 

A construção civil é fundamental em nossas vidas. Dependemos dela para a construção de nossas casas, fábricas, empresas, prédios públicos e infraestrutura. Ao mesmo tempo, a construção civil é uma grande consumidora de recursos naturais e causadora de grandes impactos ao meio ambiente. Todos os materiais e insumos usados na construção civil vêm, direta ou indiretamente, da natureza – nem sempre a retirada ou extração desses materiais e insumos é feito da maneira mais adequada. 

Um grande exemplo é a extração da areia, um dos insumos mais importantes da construção civil. No Brasil, o consumo anual de areia gira em torno de 400 milhões de toneladas por ano, o que corresponde a aproximadamente 2 toneladas de areia por habitante a cada ano. A extração da areia é feita em áreas de várzeas, margens de rios e em antigas bacias sedimentares. Todas as cavas de areia têm uma característica comum – quando o recurso se esgota, a área é abandonada e ficam para trás imensas crateras cheias de água.  

Um grande exemplo desse tipo de destruição pode ser visto ao longo das margens do rio Paraíba do Sul, o principal fornecedor de areia para as Regiões Metropolitanas de São e de Campinas, e também no Distrito Areeiro de Seropédica, de onde sai a maior parte da areia usada na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. 

Na cidade de São Paulo, a antiga várzea do rio Tietê foi, durante muito tempo, a principal fornecedora da areia usada na construção da cidade. Com o aterramento das várzeas para a ampliação das áreas para a expansão urbana, a cidade foi perdendo a sua fonte desse insumo e criando as “bases” para as futuras mega enchentes que vivemos em nossos dias. Dois marcos da antiga exploração de areia dentro do município de São Paulo ainda podem ser vistos em nossos dias: o Parque do Ibirapuera e a Raia Olímpica da Cidade Universitária. 

A areia é um componente fundamental do concreto, material estrutural largamente utilizado em construções de todos os tipos. A areia também é usada na construção de blocos, no preparo de argamassa para assentamento e reboco, peças pré-fabricadas, no calçamento de quintais e passeios públicos, entre outros usos. Quando uma construção é demolida ou precisa passar por uma grande reforma, grandes volumes de areia são liberados, juntamente com cascalhos, restos de tijolos e de concreto, cerâmicas, entre outros materiais. Quando esses resíduos são descartados de maneira irregular, grandes quantidades de areia e cascalho, entre outros resíduos mais finos, acabam sendo carreadas para os canais de córregos, riachos e rios, causando uma série de problemas na drenagem de águas pluviais.

Uma das formas mais adequadas (do ponto de vista ambiental) para o descarte de resíduos da construção civil é a contratação de empresas especializadas nessa área. Essas empresas disponibilizam caminhões e caçambas para o transporte dos materiais e normalmente contam com áreas de descarte regularizadas e licenciadas pelos órgãos ambientais. Os resíduos da construção civil são, em sua maior parte, recicláveis. Existem empresas especializadas na produção de areia, brita e peças pré-fabricadas a partir desses resíduos, insumos que podem ser usados em várias etapas de uma obras, exceto para a produção de concreto estrutural

Esse serviço tem um alto custo, o que acaba gerando descartes clandestinos desses resíduos, especialmente em pequenas obras nas periferias. Recentemente, eu realizei obras de reforma no apartamento de minha irmã, o que resultou em aproximadamente 3 m³ de resíduos como restos de piso laminado e cerâmicas, madeiras, tijolos e louças sanitárias. Consultando a administração do condomínio, recebi a indicação de várias empresas que trabalhavam com a remoção de entulho, cobrando valores entre R$ 300,00 e R$ 400,00 por caçamba. Por sorte, acabei descobrindo um ecoponto da Prefeitura que recebe esse tipo de resíduo a pouco mais de 1 km do apartamento e carreguei os resíduos ensacados em várias viagens de carro. 

Infelizmente, não são todos que agem assim, principalmente nas regiões periféricas das cidades.  Nesses bairros encontramos a famosa “auto construção”, onde as próprias famílias e vizinhos se juntam nos esforços para a construção de suas casas. Pela falta de recursos financeiros e sem a ajuda de profissionais especializados, essas construções são feitas aos pedaços ou ficam inacabadas. Na retomada das obras, sempre existem ajustes a serem feitos, o que fatalmente resulta em grandes volumes de entulhos. A solução encontrada para dar um fim nesses resíduos são as beiradas dos córregos, os terrenos baldios (vide foto) ou até mesmo calçadas e ruas próximas, com as consequências que todos conhecemos. 

Esse verdadeiro exército de “formigas construtoras”, que encontramos na maioria das cidades, acaba gerando um problema secundário – muitas dessas construções estão localizadas em áreas de mananciais ou em encostas de morros e, normalmente, são invasões de áreas públicas e de preservação permanente. Essas áreas, conforme já comentamos em outras postagens, são as que apresentam os maiores riscos de enchentes e deslizamentos. Segundo dados do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, cerca de 8 milhões de brasileiros vivem nessa situação de risco. 

Somando-se o crescimento desordenado das cidades e a impermeabilização de grandes áreas de solo, com a derrubada de remanescentes florestais, a ocupação das encostas de morros, de áreas de várzeas e de mananciais com construções, além do descarte irregular de milhares de toneladas de resíduos sólidos, já temos uma situação complicada. Quando incluímos nessa “equação” os grandes volumes de entulhos e restos de materiais de construção descartados sem qualquer critério, chegamos à situação caótica que vemos atualmente em grandes cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, todas altamente vulneráveis a grandes enchentes.

Ao contrário do que muitos de vocês pensaram durante grande parte das suas vidas, as chuvas não são as únicas responsáveis pelas enchentes que transtornam a vida dos moradores das grandes cidades – elas causam sim muitos problemas, mas contam com uma grande ajuda das nossas ações. 

RESÍDUOS SÓLIDOS URBANOS, CHUVAS E ENCHENTES

Resíduos sólidos e chuvas

Ao longo de toda essa segunda-feira, dia 10 de fevereiro, os telejornais de São Paulo mostraram imagens das enchentes que tomaram parte expressiva da cidade de São Paulo e municípios da Região Metropolitana. Pistas bloqueadas, trens paralisados, pessoas andando com água na altura dos joelhos, córregos e rios invadindo grandes avenidas, entre outras cenas do caos urbano que tomou conta da Região. 

Um tipo de imagem que não passou despercebida foram as grandes quantidades de lixo e detritos que estavam sendo arrastados pelas fortes enxurradas e se acumulavam em alguns trechos das áreas alagadas ou que flutuavam nas águas dos rios e córregos. Pode até não parecer, mas os resíduos sólidos gerados pelas cidades têm um papel importante na formação de pontos de alagamentos e enchentes localizadas. 

As cidades são grandes geradoras de resíduos sólidos ou lixo, na linguagem mais popular. Cada brasileiro gera em média, aproximadamente, 1,3 kg de resíduos a cada dia. São restos e cascas de alimentos, embalagens, produtos eletrônicos quebrados e eletrodomésticos antigos, roupas velhas, entre outros materiais. As Prefeituras das cidades precisam fazer pesados investimentos para a coleta de resíduos, varrição de ruas e transporte dos materiais coletados até uma destinação final adequada, o que nem sempre acontece. 

A Região Metropolitana de São Paulo gera diariamente 27 mil toneladas de resíduos sólidos, sendo que 70% desse volume correspondem aos resíduos da construção civil e sobre os quais falaremos em uma outra postagem. A cidade de São Paulo, sozinha, gera 20 mil toneladas de resíduos a cada dia, sendo que 12 mil toneladas correspondem aos resíduos da varrição e da limpeza de áreas públicas. São justamente esses resíduos descartados de maneira incorreta pela população os principais responsáveis por alagamentos e enchentes localizadas. 

Descartados de forma irregular, esses resíduos são arrastados pelas enxurradas na direção das bocas de lobo e tubulações do sistema de drenagem de águas pluviais, bloqueando a passagem de água e inutilizando os sistemas. Também chegam aos canais naturais de drenagem, que são os córregos, riachos e rios, onde se juntam a grandes volumes de areia, cascalho e outros detritos. Esses resíduos vão se acumulando em camadas e reduzindo gradativamente a capacidade de vazão dos corpos d’água. 

Quando chove um pouco mais forte, a correnteza arrasta parte desses resíduos, onde também se juntam uma infinidade de sacos plásticos com lixo doméstico e resíduos diversos. Esse turbilhão de resíduos pode estrangular trechos mais estreitos dos corpos d’água, obstruir tubulações de drenagem ou simplesmente ficam entalados sob pontilhões, o que bloqueia a correnteza e gera um grande alagamento localizado. 

Um receptor de grande parte desses resíduos sólidos na Região Metropolitana de São Paulo é o rio Tietê, o principal canal de drenagem regional. Há poucos dias divulgamos a notícia de um investimento de R$ 55 milhões por parte do Governo do Estado de São Paulo destinado a serviços de dragagem e limpeza da calha do rio. Os técnicos estimam que serão retirados mais de 500 mil m³ de resíduos num trecho de 41 km dentro da área metropolitana. Esse é um trabalho que é feito continuamente, ano após ano. 

Na década de 1990, o Governo do Estado de São Paulo iniciou um grande programa de rebaixamento da calha do rio Tietê. Conforme comentamos em outras postagens, esse rio sofreu grandes modificações em sua calha, que passou de um continuo de curvas sinuosas para uma calha reta, de forma a liberar as extensas áreas das várzeas para a especulação imobiliária. Entre outras consequências, a retificação do Rio Tietê resultou em ciclos de enchentes nos bairros mais baixos da cidade – o projeto de rebaixamento da calha do Tietê veio a ser mais uma tentativa de reduzir essas enchentes.  

Planta da cidade de São Paulo 1929

Durante os trabalhos no rio Tietê, grandes quantidades de resíduos foram retiradas da sua calha. Foram içadas inúmeras carcaças de carros, geladeiras, fogões, móveis, latas, todos os tipos de resíduos plásticos e milhares de pneus – cerca de 20 mil unidades foram retiradas junto com o lodo e os entulhos do fundo da calha. As montanhas de pneus velhos nas margens do rio se transformaram em uma espécie de ícone do descaso da população com os corpos d’água da cidade. 

E não são só os grandes rios que sofrem com o aporte de grandes volumes de resíduos – os pequenos córregos e riachos que cruzam as periferias das cidades da Região Metropolitana são transformados em verdadeiras latas de lixo pelas populações, ficando com seus leitos completamente entulhados e sem espaço para receber a água das chuvas. A população afirma que faz isso devido à falta de serviços de coleta de resíduos por parte das Prefeituras. As Prefeituras reagem e afirmam que mantém uma coleta regular em todos os bairros. Em meio a essa briga entre populações e Prefeituras, os canais de drenagem permanecem obstruídos e os bairro sujeitos a grandes inundações

Outro foco de atrito entre os resíduos e as águas pluviais são os lixões e aterros irregulares de resíduos. Esses locais costumam receber todo o tipo de resíduos, desde de restos de alimentos, materiais orgânicos de todos os tipos, materiais sólidos, óleos, graxas, tintas, produtos químicos e contaminantes. A Política Nacional de Resíduos Sólidos, publicada em 2010, previa a eliminação desses locais até o ano de 2014, o que não aconteceu. Estima-se que ainda existam mais de 3 mil aterros clandestinos e lixões irregulares por todo o Brasil. Sem o devido cuidado, os resíduos recolhidos são abandonados de qualquer jeito nesses locais e acabam sendo carreados pelas chuvas na direção dos corpos d’água

Quando cai uma chuva mais forte em uma cidade com ruas repletas de resíduos e com os seus sistemas de drenagem e canais obstruídos, não se pode esperar outra coisa senão enchentes generalizadas. Conforme a chuva vai caindo, a força da gravidade faz o seu papel, conduzindo a água para os terrenos mais baixos – não existe força na natureza que consiga deter essa água e os estragos que ela pode fazer. 

As chuvas, conforme já cansamos de falar em outras postagens, são eventos naturais que ocorrem com relativa frequência em um país com clima majoritariamente tropical e equatorial como é o caso do Brasil. A previsibilidade da chegada das chuvas, ano após ano, é um motivo a mais para as cidades estarem devidamente preparadas, o que infelizmente quase nunca acontece. As enchentes que assistimos na Região Metropolitana de São Paulo nos últimos dias são uma prova eloquente desse descaso. 

As principais causas das grandes enchentes urbanas são bem conhecidas: os desmatamentos, a ocupação das encostas de morros, a impermeabilização intensa dos solos, a canalização indiscriminada de córregos e ribeirões, a realização de obras viárias em antigas áreas de várzeas e vales de rios e córregos, entre outras. Reverter ou remediar esses problemas é bastante complicado do ponto de vista técnico e também financeiro. Agora, manter bons serviços de coleta de resíduos e de varrição de ruas, dando uma destinação adequada aos resíduos em aterros sanitários regularizados, é bem mais fácil e pode ajudar bastante na redução dos pontos de alagamentos e nas enchentes localizadas. 

UM DIA DE CAOS EM SÃO PAULO, OU CHUVA, MUITA CHUVA

Caos em São Paulo

A Região Metropolitana de São Paulo está vivendo o mais completo caos neste início de semana. Uma forte chuva começou a cair na Região no final da tarde de domingo e, depois de 20 horas ininterruptas, o volume acumulado já era equivalente a 46% de todas as chuvas previstas para o mês de fevereiro. Essa foi a maior chuva a atingir a Região Metropolitana nos últimos 37 anos. De acordo com dados do INMET – Instituto Nacional de Meteorologia, foram 114 mm/m² de chuva entre as 9 horas da manhã de domingo e as 9 horas da manhã dessa segunda-feira

Assim como ocorre com a grande maioria das cidades brasileiras, especialmente as grandes metrópoles, a Grande São Paulo não está preparada para conviver “pacificamente” com um volume de chuva tão grande. Aliás, em muitos municípios da Região Metropolitana, basta uma chuva mais forte para surgirem os problemas de enchentes e alagamentos. Um ciclo tão intenso de chuvas em um curto espaço de tempo termina, invariavelmente, em caos generalizado. 

Os sistemas de transportes da Região foram intensamente prejudicados. Duas linhas de trens metropolitanos foram paralisadas e uma operou parcialmente. Várias linhas do Metrô tiveram de operar com velocidade reduzida. Completando a crise nos transportes, centenas de linhas de ônibus tiveram seus trajetos alagados e milhões de paulistanos não conseguiram sair de casa. Dezenas de escolas, unidades de saúde e repartições públicas não funcionaram hoje. No município de Osasco, houve um grande deslizamento de encosta na comunidade do Morro do Socó, deixando 3 feridos. 

Na cidade de São Paulo, a maior e mais densamente povoada da Região, os problemas são gigantescos. Duas das mais importantes avenidas da cidade, as Marginais Tietê e Pinheiros, amanheceram com vários trechos inundados, o que resultou em congestionamentos de centenas de quilômetros. Para quem não conhece a cidade, as Avenidas Marginais funcionam como uma grande espinha dorsal para o trânsito da cidade, interligando uma infinidade de avenidas nos mais diferentes bairros. Quando alguma das avenidas Marginais para, a cidade inteira começa a ficar paralisada em um efeito cascata

A história da construção dessas grandes avenidas são um resumo do descaso da cidade com a questão das águas pluviais. Essas vias se encaixam no conceito das “avenidas de fundo de vale”, e começaram a ser construídas na cidade a partir da década de 1930. Para os antigos planejadores de São Paulo, os vales e as várzeas dos córregos, riachos e rios no município eram áreas mal aproveitadas e abandonadas, que teriam muito mais utilidade para a população quando urbanizadas e transformadas em grandes avenidas. Essas obras colaborariam na melhoria do tráfego de veículos e também orientariam a expansão da mancha urbana. De quebra, a realização dessas obras eliminaria algumas comunidades ribeirinhas que haviam se instalado nesses locais. 

O principal rio que atravessa a Região Metropolitana de São Paulo é o rio Tietê. Além do Tietê, a Região Metropolitana era cortada por uma infinidade de pequenos córregos, ribeirões e rios mais caudalosos como o Tamanduateí e o Pinheiros. Algumas fontes citam mais de 200 cursos d’água apenas no município de São Paulo – alguns documentos históricos chegam a falar de 1.200 cursos d’água num passado distante. Muitos desses riachos e córregos foram sendo canalizados e acabaram esquecidos sob grossas camadas de asfalto e concreto. Vez ou outra, quando acontece algum afundamento de pista em alguma avenida da cidade, as autoridades acabam redescobrindo alguns desses corpos d’água há muito esquecidos. 

Em muitas fotos históricas do século XIX, os grandes rios que cortavam o Planalto de Piratininga aparecem cheios de curvas e cercados por grandes áreas de várzea. Essa característica permitia que esses rios absorvessem os grandes volumes das chuvas de verão sem causar maiores prejuízos para as populações. As áreas de várzea assumiam características semelhantes ao Pantanal de Mato Grosso, inclusive com a presença de animais típicos desse bioma. Passado o período de chuvas, essas várzeas secavam gradativamente. 

Com o crescimento da mancha urbana, muitas áreas de várzea passaram a ser aterradas, permitindo assim a liberação dos terrenos para a construção de novas casas, armazéns e galpões. Um grande exemplo é a Várzea do Carmo, uma grande área alagável da região central da cidade de São Paulo, que nos primeiros anos do século XX passou por grandes obras de drenagem, onde foram criadas áreas “secas” para a construção do Parque Dom Pedro II, do Mercado Municipal da Rua da Cantareira, da rua 25 Março – maior centro comercial da cidade, entre outras localidades. O rio Tamanduateí, que corta toda essa região, passou por inúmeras obras ao longo das décadas seguintes e acabou transformado em uma calha apertada cercada pela Avenida do Estado

A história do rio Tietê não foi muito diferente. Esse rio atravessa a mancha urbana no sentido Leste-Oeste e teve importância ímpar na história das cidades da Região. Durante muito tempo, o rio Tietê foi uma importante via para o transporte fluvial de cargas e pessoas por todo o Planalto de Piratininga, ligando toda uma série de pequenas cidades do entorno ao centro da cidade de São Paulo. Com o forte crescimento da cidade e com uma utilização cada vez maior dos transportes rodoviários, a navegação no rio Tietê foi sendo gradativamente abandonada já nos primeiros anos do século XX.  

A partir da década de 1920, a calha irregular do rio Tietê passou a ser retificada, com vistas a permitir o avanço da cidade sobre as antigas áreas de várzea. Na década de 1950, foi inaugurado o primeiro trecho da Marginal Tietê, isolando ainda mais a calha do rio. Com o passar dos anos, todas as marges do rio Tietê dentro do município de São Paulo passou a ser ocupada pela Avenida Marginal (pista Direita e Esquerda). 

Na Zona Sul do Município de São Paulo, o rio Pinheiros teve a sua história mudada após a decisão pela construção da Represa Billings e da Usina Hidrelétrica Henry Borden em Cubatão na década de 1930. O audacioso projeto desse complexo hidrelétrico dependeria de um reforço das águas da bacia hidrográfica do rio Tietê, que seriam transpostas através do rio Pinheiros por meio de duas estações de bombeamento ou de traição. O sinuoso canal do rio Pinheiros (vide foto abaixo) foi transformado em um canal retilíneo, o que liberou grandes áreas de várzea para a especulação imobiliária, onde surgiram bairros elegantes como o Alto de Pinheiros, trechos do Butantã e do Brooklin Novo, entre muitos outros. Às margens do novo canal do rio Pinheiros foi construída a Marginal Pinheiros. 

Rio Pinheiros

Além da construção de imponentes avenidas nas várzeas desses grandes rios, a cidade também ocupou as várzeas e vales de centenas de córregos e ribeirões. Citando alguns exemplos: Avenida Pacaembu (Ribeirão Pacaembu), Avenida 9 de Julho (Rio Anhangabaú), Avenida Roberto Marinho (Córrego das Águas Espraiadas), Avenida Anhaia Melo (Córrego da Mooca), Avenida Juscelino Kubitschek (Córrego do Sapateiro), Avenida Aricanduva (Córrego Aricanduva), Avenida Jacu-Pêssego (Córrego Jacu), Avenida Sumaré (Córrego do Sumaré), Avenida dos Bandeirantes (Córrego da Traição), Avenida Luís Dumont Villares (Córrego do Carandiru), Avenida 23 de Maio (Córrego do Itororó), entre muitos outros. 

Completando o quadro de preparação para uma grande tragédia ambiental, áreas em encostas de morros foram desmatadas e ocupadas por construções, grandes áreas do solo dsa cidades foram impermeabilizadas por grossas camadas de concreto e asfalto; grandes construções passaram a ocupar os terrenos, restando poucas áreas com vegetação e solos permeáveis. Basta uma chuva mais forte para inundar e alagar grandes áreas da urbe. Com uma chuva torrencial como essa que castigou a cidade de ontem para hoje, a cidade passa a conviver com o caos. 

Para encerrar, o Prefeito da cidade de São Paulo, Bruno Covas, em entrevista a jornalistas no final da tarde, disse que a responsável por todas essas tragédias foi “a forte chuva das últimas horas”. 

Tire suas próprias conclusões. 

SEDIMENTAÇÃO E ASSOREAMENTO DE CÓRREGOS, RIACHOS E RIOS URBANOS

Assoreamento de rios urbanos

Há poucos dias atrás, o Governo do Estado de São Paulo anunciou um investimento de mais de R$ 55 milhões para a realização de obras de desassoreamento e limpeza da calha do rio Tietê na Região Metropolitana da capital paulista. Esse valor é cerca de 10% maior do que os investimentos destinados a essas obras em 2019. Os trabalhos serão realizados ao longo de um trecho de 41 km, entre a Barragem da Penha, na Zona Leste da cidade de São Paulo, até a barragem Edgard de Souza, em Santana do Parnaíba. 

À primeira vista, essa é uma notícia que, muito provavelmente, não chamaria a sua atenção numa página de jornal ou em uma nota de um telejornal. Entretanto, esse é o tipo de trabalho “invisível” que pode fazer toda a diferença no combate às famigeradas enchentes de verão. De acordo com a nota do DAEE – Departamento de Águas e Energia Elétrica, autarquia do Governo do Estado de São Paulo responsável pela área, serão removidos perto de 500 mil m³ de sedimentos da calha do rio Tietê neste trecho. Esse volume convertido em água corresponde a aproximadamente 500 bilhões de litros ou 200 piscinas olímpicas. Quando chove, é esse o volume de água que não encontra espaço na calha do rio e passa a ocupar as rua e avenidas da Região Metropolitana

O assoreamento é o resultado final de um processo de alteração ou degradação da calha de um curso d’água, geralmente em virtude do grande acúmulo de sedimentos. Dependendo da intensidade do assoreamento, a calha de um corpo d’agua pode, literalmente, desaparecer ao longo do tempo. Já a sedimentação é o processo de retirada de sedimentos dos solos, que são arrastadas e acumulados no leito de cursos d’água por força das chuvas

Falando de uma forma bem simplificada e muito resumida, sedimentos são fragmentos de rochas resultantes dos mais diversos processos erosivos. Ao longo de milhões de anos, as rochas ficaram expostas ao sol, chuvas, gelo e ventos. Essas diferentes “forças” da natureza foram degradando a superfície das rochas e gerando fragmentos de diferentes tamanhos – argila, silte, areia, cascalho e seixos, entre outros. Os diferentes tipos de solos, essenciais para a existência da maior parte da vida vegetal do planeta e base da cadeira alimentar da maioria das espécies animais, surgiram a partir dessa degradação das rochas. Solos combinam sedimentos de rochas, matéria orgânica, água e ar. 

Grandes volumes de sedimentos, principalmente os mais finos, são arrastados pelas chuvas e acabam se depositando no leito de córregos, riachos e rios. Esses sedimentos são carreados pela correnteza dos rios e depositados em áreas planas como as bacias sedimentares, onde ao longo das eras formarão novos tipos de rochas como os arenitos e os calcários. Parte dos sedimentos, especialmente os mais finos como a argila, o silte e a areia, serão levados cada vez mais longe, chegando por fim até aos oceanos – a areia das praias tem origem em rochas degradadas que estão localizadas a centenas ou milhares de quilômetros dos oceanos. 

Esses importantes mecanismos naturais, responsáveis pela formação de grande parte das paisagens que nos cercam, sofrem constantemente em consequência das ações humanas. Os desmatamentos, citando um exemplo, expõem os solos à ação erosiva das chuvas, o que resulta no assoreamento descontrolado dos corpos d’água. Com a tomada da calha dos rios com sedimentos, as águas excedentes das chuvas de verão avançam contra os barrancos das margens, aumentando gradativamente os problemas ambientais. 

Nas áreas urbanas, os problemas são semelhantes – desmatamentos, impermeabilização de solos e obras de infraestrutura provocam mudanças na dinâmica das águas pluviais, que tem como consequências enchentes e alagamentos. Esses problemas são amplificados pelo assoreamento do leito dos canais de drenagem, tanto naturais quanto os artificiais, sendo os causadores de grandes transtornos para a população. 

Areia e cascalho, dois aglomerados largamente utilizados na construção civil, são os sedimentos de origem mineral encontrados em maiores quantidades nos leitos de córregos, riachos e rios urbanos. A disseminação desses sedimentos nos ambientes urbanos já começa durante o transporte desde as fontes de produção até os canteiros de obras. As cargas são acondicionadas de maneira improvisada nos caminhões, que saem espalhando pedras e areia pelo caminho.

Outra fonte de problemas está nos próprios canteiros de obras – essa indústria é famosa pelos seus níveis de perdas de materiais e componentes, o que em muitos casos chega à casa dos 30%. Os materiais “perdidos” acabam se transformando em resíduos sem utilidade nos canteiros de obra, que depois precisarão ser descartados no meio ambiente. 

Os resíduos da construção civil respondem por 70% de todos os resíduos gerados por uma cidade e são a principal fonte dos sedimentos carreados para os corpos d’água nas áreas urbanas. Apesar da maior parte desses resíduos poderem ser reutilizados, principalmente pela própria indústria da construção civil, é comum encontrarmos entulhos abandonados em ruas, calçadas e terrenos baldios. Basta uma chuva mais forte para os problemas começaram – o acúmulo desses resíduos bloqueia o escoamento das águas pluviais e causam diversos problemas de alagamentos.  

Os fragmentos mais finos, especialmente a areia e o cascalho, são arrastados pelas enxurradas na direção dos canais de córregos e riachos, onde vão se acumulando. Tubulações da rede de águas pluviais também acabam sendo o destino final de grande parte desses resíduos. Sem um trabalho regular de limpeza, a camada de sedimentos vai ficando cada vez mais espessa e esses canais de drenagem vão ficando cada vez mais rasos, comportando cada vez quantidades menores de água. O resultado são as enchentes.

A foto que ilustra essa postagem, que é uma imagem comum na paisagem das cidades, mostra o canal de um córrego na periferia completamente assoreado e exposto ao carreamento de grandes volumes de resíduos descartados incorretamente pela população.

Como se essa situação já não fosse suficientemente complicada, resíduos sólidos dos mais diferentes tipos acabam chegando ou são jogados nesses canais. Falamos aqui de resíduos plásticos e embalagens, pneus, móveis, eletrodomésticos como fogões e geladeiras, carcaças de carros velhos, entre outros resíduos. Cito um exemplo desse descaso com as águas – na década de 1990, durante as obras de aprofundamento da calha do rio Tietê na cidade de São Paulo, foram retirados 20 mil pneus velhos do leito do rio, entre outras milhares de toneladas de resíduos de todos os tipos. Eu nunca me esqueci das montanhas de pneus velhos que podiam ser avistadas nas margens do rio durante as obras. 

O assoreamento dos canais de drenagem de águas pluviais urbanos é um processo contínuo e, em grande parte, inevitável. As autoridades municipais e estaduais, conforme o caso, precisam realizar trabalhos de limpeza dos canais, evitando assim a redução da capacidade de drenagem. A boa gestão dos resíduos sólidos urbanos também é fundamental – as cidades precisam contar com bons serviços de coleta e destinação  dos resíduos sólidos domiciliares, assim como para o encaminhamento, armazenagem e reciclagem dos resíduos da construção civil

Acima de qualquer coisa, as populações precisam ter consciência do seu papel como agentes ambientais e devem descartar seus resíduos corretamente, evitando que as águas pluviais os arrastem para os canais de drenagem naturais e artificiais. Enchentes e alagamentos não são processos exclusivamente naturais – as mãos humanas estão por trás de grande parte dos problemas criados pelas chuvas de verão. Os resíduos que geramos em nosso dia a dia são grande parte do problema. 

AS CHUVAS, A OCUPAÇÃO DESORDENADA E OS RISCOS DE DESLIZAMENTOS DE ENCOSTAS NAS ÁREAS URBANAS

Ocupação de encostas

Os problemas vividos nas cidades durante o período das chuvas de verão costumam ser agravados pelos deslizamentos de encostas, que muitas vezes terminam com o soterramento e morte de pessoas. Nas recentes chuvas e enchentes que assolaram os Estados de Minas Gerais e Espírito Santo, a maior parte das vítimas fatais foi atingida por deslizamentos de terra e desmoronamento de construções em encostas de morros. 

Desde a “invenção” da agricultura entre 10 e 12 mil anos atrás, as cidades começaram a surgir nas regiões com vocação agrícola. Um dos principais pré-requisitos para a formação de um centro urbano era a proximidade com fontes perenes de água. Um exemplo dessa dependência de fontes “confiáveis” de água potável pode ser encontrado na civilização do Vale do Indo, entre a Índia e o Paquistão, que floresceu entre os anos de 3.300 e 1.300 a.C. Uma das mais impressionantes cidades dessa civilização foi Molenjodaro, que começou a usar sistemas canalizados de água potável e de esgotos sanitários no ano 3.200 a.C. Em meados do segundo milênio a.C, mudanças climáticas regionais mudaram o curso do rio Indo e essa civilização, simplesmente, desapareceu – sem fontes de água, não é possível a existência de cidades

No processo de ocupação e de colonização do Brasil, essa busca por fontes de água para sustentar as populações das cidades fica muito clara. Todo arraial, vila ou cidade fundada em nosso território ficava próximo de um riacho, rio ou lago com águas perenes. Durante o processo de crescimento desses núcleos urbanos, os moradores passaram a buscar terrenos em solos com boa topografia e com os melhores acessos às fontes de água. As áreas de encostas de morros e os terrenos baixos das áreas de várzea, considerados ruins para abrigar novas construções, sempre foram evitados. Por essa razão, os terrenos nessas regiões sempre foram muito desvalorizados

Na nossa cultura popular, morar em morro é coisa de gente pobre – a formação das favelas nos morros do Rio de Janeiro pelos escravos libertos no final do século XIX é um grande exemplo disso. A forte migração de populações rurais para os centros urbanos iniciada nas últimas décadas do século XIX, aliada à falta de políticas públicas na área de habitação popular, transformou as encostas dos morros numa alternativa para as construções populares e também para as famosas “habitações sub normais”, mais conhecidas como favelas. De acordo com estudos realizados em 2010 pelo IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, mais de 8 milhões de pessoas viviam em áreas com risco potencial de enchentes e deslizamentos em 872 municípios brasileiros.

A ocupação irregular das encostas dos morros implica em dois problemas fundamentais associados às águas pluviais: 

  • A cobertura vegetal das encostas, que atuava na retenção e redução da velocidade de descida de grandes volumes de chuvas, é removida para dar espaço para a construção das moradias; 
  • A construção das moradias, normalmente com grande adensamento, impermeabiliza o solo, aumentando a quantidade de águas superficiais que descem os morros em dias de chuvas. 

Essas intervenções provocam aumentos nos volumes naturais de águas pluviais que chegam aos canais de drenagem, contribuindo em muito para a formação de pontos vulneráveis a enchentes. Há também um terceiro problema, muito mais grave, que nem sempre é fácil de se perceber – a combinação da remoção da cobertura, onde as raízes das plantas tem grande importância na estabilização e fixação dos terrenos, aliada ao corte do talude para a construção das moradias, provoca uma total desestabilização das encostas dos morros. Em temporadas de chuvas fortes, a água transforma os solos em lama instável, o que pode terminar com a ocorrência de grandes deslizamentos e com o soterramento de casas e moradores.  

A título de exemplo, vou relembrar duas tragédias ocorridas na cidade de Niterói, no Estado do Rio de Janeiro: em 2010, as fortes chuvas provocaram o escorregamento da encosta do Morro do Bumba, no bairro Vistoso Jardim, causando a morte de 46 pessoas. Em novembro de 2018, um outro grande deslizamento de terra no Morro da Boa Esperança, próximo da famosa Praia de Piratininga, derrubou e soterrou diversas casas, deixando um saldo de 15 mortos. Se qualquer um de vocês fizer uma pesquisa na internet, encontrará facilmente dezenas de casos semelhantes por todo o Brasil. 

Um dos casos mais dramáticos já ocorridos no país e que merece um grande destaque foram os gravíssimos escorregamentos de encostas na Região Serrana do Estado do Rio de Janeiro em 2011. Essa tragédia, que tem um lugar de destaque entre todos os grandes desastres naturais já ocorridos no Brasil, deixou um rastro de destruição por toda a Região Serrana do Rio de Janeiro, com especial ênfase às cidades de Petrópolis, Teresópolis, Nova Friburgo, Sumidouro, São José do Vale do Rio Preto e Bom Jardim, além de ter provocado reflexos na cidade de Areal, na região Centro-Sul do Estado. De acordo com dados da Secretaria de Estado da Saúde e Defesa Civil do Rio de Janeiro, foram registradas 916 mortes e perto de 345 desaparecidos nessa tragédia

A topografia da Região Serrana, com cidades espremidas em pequenos vales cercados por morros contribuiu muito para a ocupação gradativa das encostas nessa Região, que em muitos casos fugiu ao tradicional estereótipo de pessoas pobres ocupando os morros. A falta de fiscalização e até mesmo a famosa “vista grossa” das Prefeituras deu o toque final para o que podemos chamas de tragédias anunciadas. 

Foram registradas 428 mortes em Nova Friburgo, 382 em Teresópolis, 71 em Petrópolis, 21 em Sumidouro, 4 em São José do Vale do Rio Preto e 1 morte em Bom Jardim. Os números de pessoas desaparecidas na tragédia também são impressionantes: foram 45 em Petrópolis, 180 em Teresópolis, 85 em Nova Friburgo e 2 em Sumidouro. Outras 32 pessoas que moravam em pequenos distritos da Região também engrossam as estatísticas de desaparecidas. Os dados da Defesa Civil registraram que aproximadamente 35 mil pessoas ficaram desabrigadas em toda a Região Serrana. Passados 9 anos desde aqueles terríveis dias, muitos dos desaparecidos ainda não foram localizados e ainda podem ser vistos vestígios da destruição. 

As encostas de morros costumam abrigar os remanescentes da cobertura vegetal original das regiões ocupadas pelas cidades e possuem grande importância ambiental tanto para a regulação do clima quanto para a absorção e retenção de grandes volumes de águas pluviais. Além de contribuir imensamente na formação de pontos de enchentes nas partes baixas das cidades, a ocupação irregular das encostas representa um altíssimo risco para as populações. As cidades devem redobrar os esforços para preservar e até mesmo recuperar a cobertura vegetal das encostas, criando programas de moradia popular que inibam a ocupação e que também possibilitem a retirada dessas populações das áreas de risco. 

Morros são complicados pela sua própria natureza: ou é fogo morro acima ou é água morro abaixo – não temos controle em nenhuma dessas situações. 

A CIDADE DO RECIFE E SUAS ENCHENTES HISTÓRICAS

Enchente de 1975 no Recife

Nas postagens anteriores falamos um pouco da urbanização descontrolada como uma das principais causas das enchentes de verão. Cidades possuem grandes áreas de seus solos cobertas por uma grossa camada de concreto e de asfalto, intervenções que limitam a infiltração de parte da água das chuvas e contribuem para a formação de grandes correntezas superficiais e enchentes. Intervenções em áreas de várzea e em margens de córregos e riachos para a construção das famosas avenidas de fundo de vale também dão importantes contribuições para a ocorrência de enchentes e alagamentos. Também não é nada desprezível o impacto da redução das áreas com cobertura florestal nesses eventos. 

Entre as grandes cidades brasileiras que, frequentemente, são assoladas por grandes catástrofes nos meses de verão destacamos Recife, a capital do Estado de Pernambuco. O primeiro registro histórico de uma enchente no Capibaribe data do ano de 1632, pouco tempo depois da invasão holandesa e a consolidação da Suickerland, a terra do açúcar descrita em uma postagem anterior. Registros da época informam que as chuvas foram muito fortes, “causando perdas de muitas casas e vivandeiros estabelecidos às margens do Rio Capibaribe”.  

Anos mais tarde, em 1638, o Conde Maurício de Nassau (1604-1679) autoriza a construção da primeira barragem do Rio Capibaribe – o Dique dos Afogados, com o objetivo de proteger a cidade do Recife das constantes enchentes. Há registros históricos de uma infinidade de enchentes na cidade: 1824, 1842, 1854, 1862, 1869, 1914, 1920, 1960, 1966, 1970, 1977, 2004 e 2005 – a lista é muito maior e estou apenas citando alguns casos. Entre os dias 17 e 18 de julho de 1975, a cidade do Recife viveu a maior catástrofe natural da sua história: o transbordamento do rio Capibaribe atingiu 31 bairros e alagou 80% da superfície da cidade (vide foto) – 350 mil pessoas foram desalojadas de suas casas e, tragicamente, 104 pessoas morreram. As fortes enchentes também atingiram outros 25 municípios da bacia hidrográfica do rio Capibaribe

As raízes das enchentes na cidade do Recife estão ligadas diretamente aos tempos coloniais, quando praticamente toda a economia do país girava em torno da produção e exportação do açúcar. Naqueles tempos, a Capitania de Pernambuco e regiões vizinhas concentravam a maior produção de açúcar da Colônia e a cidade do Recife era o grande centro econômico do Nordeste açucareiro. Um relatório do ano de 1620 das Autoridades Coloniais mostram a importância econômica da região: 

“…nas três Capitanias (Pernambuco, Itamaracá e Paraíba), havia uma produção de 500 mil arrobas de açúcar (equivalente a 7,5 milhões de toneladas), que bastaria para carregar todos os anos 130 a 140 naus.” O relatório prossegue informando a área ocupada com o cultivo da cana-de-açúcar: “50 ou 60 léguas de costas ocupadas (entre 300 e 360 km), e dentro de 10 léguas para o sertão (60 km).” 

Essa produção toda era possível graças aos “gordos solos de massapê”, conforme a descrição do médico e escritor pernambucano Josué de Castro (1908-1973). Ricos em nutrientes e matéria orgânica, os solos argilosos do litoral do Nordeste foram formados ao longo de milhares de anos graças a densa vegetação nativa de Mata Atlântica – a floresta se alimentava dos solos e gerava continuamente uma grossa camada de plantas e folhas mortas, que por sua vez eram recicladas pelos solos, realimentando a própria floresta. Vejam essas citações do grande historiador Capistrano de Abreu (1853-1927):

Os engenhos estavam todos na mata, o que se explica pela maior fertilidade dos terrenos bem vestidos, e pela abundância de lenha, necessária às fornalhas em um labor que às vezes durava, dia e noite, oito e nove meses…

A cana devorando tudo em torno de si, engolindo terras e mais terras, consumindo o húmus do solo, aniquilando as pequenas culturas indefesas e o próprio capital humano, do qual sua cultura tira toda a vida.” 

A Mata Atlântica era um riquíssimo bioma composto por diferentes sistemas florestais, que cobria uma área equivalente a 1,3 milhão de km² ou 15% do território brasileiro, acompanhando a costa desde o Norte do Rio Grande do Sul até o Sul do Estado do Ceará, com alguns trechos entrando continente adentro e atingindo áreas da Argentina e do Paraguai. A referência à floresta foi feita com o verbo em tempo passado (era) porque restam apenas 7% da cobertura da mata original. Quase dois terços da atual população brasileira vivem em áreas que eram, originalmente, cobertas pela Mata Atlântica – o crescimento das cidades, a mineração, o extrativismo, a agricultura e a pecuária foram os responsáveis pela destruição gradativa desta floresta.  

O trecho da Mata Atlântica destruído com maior voracidade e velocidade foi justamente o trecho da costa da Região Nordeste, entre a Bahia e o Rio Grande do Norte – essa destruição, feita a ferro e a fogo, se deu justamente para a implantação dos grandes canaviais do período Colonial. No Estado de Pernambuco, que já no século XVII era considerado um dos maiores produtores mundiais de açúcar, a velocidade desta destruição foi incomparável. Apenas no primeiro século da produção açucareira em Pernambuco, uma área de florestas entre 18 mil e 21 mil km² foi devastada para a implantação de canaviais – essa área é equivalente ao território total do Estado de Sergipe. 

Esse avanço voraz contra as matas pernambucanas, é claro, teve um alto preço: os férteis solos de massapê se perderam rapidamente após a contínua derrubada da cobertura vegetal protetora. As chuvas sistematicamente arrastavam grandes quantidades de solo na direção dos muitos rios da região, destruindo ao mesmo tempo a fertilidade das plantações e os canais dos rios, muitos dos quais praticamente desapareceram em meio ao intenso assoreamento sofrido.  

Inúmeras espécies de animais como veados, antas, capivaras, cotias, gambás, macacos e incontáveis espécies de aves e pássaros desapareceram, empobrecendo de forma irreversível a biodiversidade das matas e destruindo a fonte de proteína consumida pelas populações mais pobres e pelos escravos, que caçavam vários destes animais para comer. Também desapareceram inúmeras espécies de vegetais, entre essas inúmeras variedades de frutas altamente nutritivas, além de muitas espécies de peixes dos rios. A fome de açúcar do mundo foi saciada a partir da fome dos trabalhadores locais dos engenhos e canaviais nordestinos. 

Aqui chegamos ao ponto central: sem a proteção da cobertura vegetal, que absorve parte da água das chuvas e permite a infiltração de grandes volumes de água no solo, toda a região da bacia hidrográfica do rio Capibaribe passou a receber volumes de água cada vez maiores a cada novo período de chuvas. No trecho final da bacia hidrográfica, que atravessa diversas cidades na Região Metropolitana do Recife, esse grande volume de água simplesmente extrapola os limites da calha do rio Capibaribe e avança ferozmente contra ruas, avenidas, casas, prédios públicos e todo e qualquer pedaço de terra seca que encontre pela frente. 

À fúria dessas águas que correm dos terrenos mais altos a montante no interior de Pernambuco, se juntam as águas que caíram sobre a própria área Metropolitana. Sem grandes áreas com cobertura vegetal e com solos altamente impermeáveis, as águas pluviais simplesmente correm por força da gravidade buscando os terrenos mais baixos, formando assim as cenas de caos que, repetidamente, assistimos nos noticiários e que são vividas ano após ano pela população local. 

Em resumo – enchentes urbanas não são fenômenos naturais; elas são o resultado de décadas de esforços das populações humanas na destruição dos meios naturais. E a cidade do Recife está aí para provar isso.